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2.2 O método TRM e a pesquisa acadêmica

2.2.1 TRM e ambiente acadêmico: estudos relacionados

Na década de 1990, Gedney, Mcelroy e Winkler (1998) já destacaram a aplicação do TRM no financiamento de pesquisas acadêmicas. Segundo os autores, dois motivos contribuíram para essa mudança: (i) as agências de fomento passaram a utilizar critérios mais exigentes para a alocação de recursos e (ii) as indústrias, como financiadoras e receptoras das pesquisas científicas, passaram a demandar estudos orientados por esta metodologia de planejamento (GEDNEY; MCELROY; WINKLER, 1998).

Ma, Wierzbicki e Nakamori (2007) e Yan, Ma e Nakamori (2011) asseveram que a aplicação do TRM na academia não representa apenas um plano sobre tecnologias futuras, mas também uma visão sobre futuras pesquisas ou ações. Assim, o TRM pode ser considerado uma ferramenta para a gestão do conhecimento, sendo capaz de apoiar os processos de elaboração, atualização e execução de planos estratégicos sobre pesquisas científicas e tecnológicas.

Neste contexto, alguns estudos investigaram a relevância de considerar a aplicação do TRM no ambiente acadêmico. Okutsu e Tatsuse (2005) apresentaram um modelo de TRM aplicado à pesquisa acadêmica denominado “Academic Technology Roadmapping” (ATRM). Os autores destacaram que o modelo foi originalmente proposto para apoiar os grupos de pesquisa diante das mudanças ocorridas no relacionamento entre a academia com as demandas da sociedade. Segundo os autores, os pesquisadores têm sido chamados a identificar tópicos de estudos relevantes e a tornar o planejamento e a condução dos projetos mais eficiente, só assim seria possível fazer pleno uso do ambiente de pesquisa (OKUTSU; TATSUSE, 2005).

Como os pesquisadores acadêmicos não desenvolvem, necessariamente, produtos ou mercados, o ATRM foi personalizado para atender às atividades de pesquisa, descrevendo um plano sobre as habilidades e os conhecimentos necessários (OKUTSU; TATSUSE, 2005). Além disso, o tempo sobre o progresso da pesquisa pode ser resumido em uma simples escala de “passado-presente-futuro”. Uma síntese do modelo ATRM é apresentada na Figura 7.

Figura 7 – Modelo básico do ATRM

Fonte: Okutsu e Tatsuse (2005, p.2).

O modelo ATRM pode ser representado por cinco blocos: (i) protótipo ou pesquisa anterior, representado pelos estudos já realizados; (ii) experiência, representado pelo tipo de habilidade e conhecimento disponível; (iii) programação da pesquisa, representado pelo cronograma dos projetos e as etapas de execução; (iv) programação do estudo, representado pelo conjunto de conhecimentos necessários para a elaboração da pesquisa e (v) possibilidades futuras, as quais indicam os objetivos futuros esperados (OKUTSU; TATSUSE, 2005).

Yan, Kobayashi e Nakamori (2005) investigaram a aplicação do TRM como forma de apoiar o desenvolvimento de tecnologias na universidade. Os autores construíram um processo de “roadmapping” para apoiar as tomadas de decisão na identificação de pesquisas mais relevantes a partir de um grande conjunto de dados e informações disponibilizadas pela internet. Segundo os autores, a geração de tecnologias na universidade se difere da indústria em termos de finalidade, objeto e resultado, no entanto, o processo é muito semelhante. O processo de roadmapping contribui para que os pesquisadores possam fazer tanto a gestão, como a criação de conhecimentos científicos para o desenvolvimento de novas tecnologias. Tais ações podem favorecer a cooperação com a indústria e/ou com o governo na identificação de pesquisas relevantes (YAN; KOBAYASHI; NAKAMORI, 2005).

Ma, Liu e Nakamori (2006) analisaram a aplicação do TRM para gerir o conhecimento na academia e apoiar o desenvolvimento de pesquisas científicas. A metodologia proposta pelos autores foi composta por seis etapas: (i) formação de grupos para que o planejamento seja realizado em equipe; (ii) explicação da metodologia pelo coordenador do conhecimento; (iii) descrição da situação-problema atual; (iv) descrição das competências/experiências da equipe e dos projetos idealizados; (v) programação da pesquisa e cronograma das etapas do estudo e (vi) implementação e controle das pesquisas (MA; LIU; NAKAMORI, 2006).

Segundo os autores, a aplicação do TRM na academia representa uma ferramenta útil por apoiar o desenvolvimento das pesquisas científicas. Dentre as possíveis contribuições, os autores destacam o incentivo à criatividade dos pesquisadores, à identificação de temas relevantes para o planejamento das pesquisas acadêmicas e à partilha de conhecimentos entre os pesquisadores (MA; LIU; NAKAMORI, 2006).

Ma, Wierzbicki e Nakamori (2007) analisaram o apoio necessário para estabelecer um ambiente criativo voltado à aplicação do TRM na academia. Segundo os autores, a maioria das metodologias de aplicação do TRM foi desenvolvida para a área de negócios, assim, pouca atenção tem sido dada aos processos de desenvolvimento de tecnologias emergentes e invenção criativa em grupos de pesquisa acadêmicos (MA; WIERZBICKI; NAKAMORI, 2007).

Dentre os apoios necessários para a aplicação do TRM, os autores identificaram a necessidade de bases científicas e ferramentas de mineração de dados para uma análise mais ampla sobre tendências futuras, maior envolvimento de coordenadores do conhecimento e da alta gestão, além da implantação de sistemas de groupware baseados na internet para integrar uma única base de dados e fornecer ferramentas de representação gráfica e de brainstorming para o surgimento de ideias (MA; WIERZBICKI; NAKAMORI, 2007).

Yan, Ma e Nakamori (2011) exploraram o modelo da Tríplice Hélice para apoiar a aplicação do TRM na academia. Segundo os autores, qualquer pesquisador ou grupo de pesquisa, ao considerar seus estudos de forma estratégica, enfrenta três problemas centrais: (i) onde estamos agora? (ii) para onde queremos ir? (iii) como podemos chegar até lá?

Para responder estas questões não basta que os pesquisadores conheçam apenas o desenvolvimento científico e tecnológico dentro do ambiente acadêmico, uma vez que no campo da C&T é mais provável que o futuro seja moldado pela interação entre universidade, indústria e governo em conjunto (YAN; MA; NAKAMORI, 2011). Para isso os autores proporam um framework de planejamento prospectivo orientado por computador, conforme apresentado na Figura 8.

Figura 8 – Framework da abordagem TRM orientada por computador

Fonte: Yan, Ma e Nakamori (2011, p. 12).

A abordagem não tem a pretensão de gerar roteiros de pesquisa (roadmaps), sua finalidade é apenas dar apoio à aplicação do TRM. Durante a aplicação, a abordagem deve ser personalizada de acordo com os diferentes objetivos e contextos. Assim, o framework proposto pode ser entendido como um ponto de partida para os processos de orientação de pesquisas científicas e tecnológicas no ambiente acadêmico (YAN; MA; NAKAMORI, 2011).

Loyarte et al. (2015) investigaram o uso do TRM para o alinhamento estratégico de um centro de pesquisa aplicada. Os autores identificaram que o TRM desempenha um papel fundamental na academia, pois diferente das indústrias, o “produto” de uma pesquisa é, em si, inovadora, cujos resultados podem gerar, em última instância, produtos e serviços. Assim, critérios sobre a relevância das investigações devem ser estratégicos para melhores resultados. Os autores concluem que a utilização do TRM representa um importante instrumento de planejamento para pesquisadores ao levar em conta critérios científicos e tecnológicos, além de valorizar demandas futuras da sociedade, seja do setor produtivo ou do setor público. Dentre as agendas futuras, os autores destacaram a necessidade de expandir a aplicação do TRM em outras unidades de pesquisa científica e tecnológica, além de avaliar os principais fatores de sucesso desta metodologia (LOYARTE et al., 2015).

Por fim, Souza e Zambalde (2016) especificaram, a partir da metodologia T-Plan, a aplicação do TRM em grupos de pesquisa. O propósito foi contribuir para a dinâmica da

inovação ao alinhar os interesses da academia com as necessidades da sociedade, identificando proposições heurísticas para a criação de uma arquitetura TRM aplicada aos grupos de pesquisa acadêmicos (Research Group Roadmapping - RGTRM).

Dada a natureza instrumental da proposta, os autores destacaram que a pesquisa-ação e a abordagem da Design Science Research (DSR) representariam metodologias apropriadas para a aplicação do TRM em grupos de pesquisa. A proposta envolve a aplicação do TRM em dez etapas, envolvendo desde o diagnóstico do grupo, passando pela elaboração dos quatro workshops previstos pela metodologia T-Plan e sendo concluída com a validação da arquitetura RGTRM junto aos pesquisadores participantes (SOUZA; ZAMBALDE, 2016).

Com base nos estudos apresentados é possível identificar que a aplicação do TRM no ambiente acadêmico poderia contribuir para um melhor planejamento das pesquisas (OKUTSU; TATSUSE, 2005; YAN; KOBAYASHI; NAKAMORI, 2005; MA; LIU; NAKAMORI, 2006; MA; WIERZBICKI; NAKAMORI, 2007; YAN; MA; NAKAMORI, 2011; LOYARTE et al., 2015; SOUZA; ZAMBALDE, 2016), além de facilitar a partilha de conhecimentos entre pesquisadores e os demais agentes do SNCTI, especialmente nos grupos de pesquisa (MA; LIU; NAKAMORI, 2006; MA; WIERZBICKI; NAKAMORI, 2007).

Dentre as possíveis contribuições para a proposição de um modelo heurístico de planejamento (foco deste estudo), percebe-se que o TRM/T-Plan pode facilitar a identificação de pesquisas futuras mais relevantes e promissoras (GEDNEY; MCELROY; WINKLER, 1998; OKUTSU; TATSUSE, 2005; YAN; KOBAYASHI; NAKAMORI, 2005; MA; LIU; NAKAMORI, 2006; MA; WIERZBICKI; NAKAMORI, 2007; LOYARTE et al., 2015; SOUZA; ZAMBALDE, 2016), facilitar o planejamento das etapas da pesquisa (OKUTSU; TATSUSE, 2005; MA; LIU; NAKAMORI, 2006), estimular a interação da academia com as demandas da sociedade (YAN; KOBAYASHI; NAKAMORI, 2005; YAN; MA; NAKAMORI, 2011), estimular o trabalho em equipe (MA; LIU; NAKAMORI, 2006; SOUZA; ZAMBALDE, 2016) e considerar os conhecimentos e as tecnologias disponíveis (OKUTSU; TATSUSE, 2005; MA; WIERZBICKI; NAKAMORI, 2007; YAN; MA; NAKAMORI, 2011).

No entanto, além de melhorar o direcionamento das pesquisas acadêmicas, novos modelos de produção científica devem ser discutidos, valorizando a relevância e o rigor no planejamento das pesquisas acadêmicas (HEVNER et al., 2004; VAN AKEN, 2004; 2005; MANSON, 2006; HEVNER, 2007; HOLMSTROM; KETOKIVI E HAMERI, 2009; DEVITT; ROBBINS, 2013; NIINILUOTO, 2014; BASKERVILLE; KAUL; STOREY, 2015; DRESCH; LACERDA; ANTUNES JUNIOR, 2015). Assim, na próxima subseção serão apresentadas as

contribuições da Design Science, em uma tentativa de alinhar o rigor exigido pela comunidade científica com o desafio de tornar as pesquisas acadêmicas mais relevantes.