• Nenhum resultado encontrado

Principais desafios da pesquisa acadêmica no Brasil (etapa quantitativa)

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 Identificação das categorias de análise

4.1.2 Principais desafios da pesquisa acadêmica no Brasil (etapa quantitativa)

Identificadas as categorias emergentes da análise de conteúdo, buscou-se ampliar a percepção dos pesquisadores e minimizar os possíveis vieses das entrevistas por meio de levantamentos de campo. Para tanto, as categorias identificadas foram transformadas em um questionário estruturado (survey) para avaliar o grau de concordância de outros pesquisadores, atuantes em outras universidades públicas, sobre a relevância dos desafios evidenciados, conforme critérios de seleção apresentados na seção de procedimentos metodológicos.

Após etapas de coleta e tabulação dos questionários, procedeu-se a análise descritiva dos dados. Os dados foram organizados por meio da média aritmética em cada uma das categorias investigadas, sendo utilizados os valores de desvio-padrão para identificar a dispersão das respostas, conforme apresentados na Tabela 2.

Tabela 2 – Escores médios sobre a percepção dos desafios da pesquisa no Brasil

Principais desafios analisados Média Desvio Padrão

Escassez de recursos destinados à pesquisa. 4,31 0,97

Burocracia excessiva. 4,26 0,97

Falta de uma equipe de apoio. 4,18 1,04

Sobrecarga de trabalho do pesquisador. 4,00 1,15

Infraestrutura de pesquisa deficitária. 3,89 1,12

Baixa valorização de outras formas de produção/divulgação científica. 3,81 1,26

Baixa interação entre pesquisadores. 3,43 1,13

Baixa interação com empresas e/ou demandas sociais. 3,40 1,19 Baixa divulgação e apropriação do conhecimento produzido. 3,35 1,14 Baixa relevância das pesquisas em termos científicos e/ou tecnológicos. 3,09 1,24 Baixo engajamento dos pesquisadores (professores e alunos). 2,76 1,23

Fonte: Do autor (2017).

A maioria das categorias identificadas apresentaram níveis de concordância acima de 3,00, reforçando a relevância dos resultados evidenciados na etapa qualitativa. Assim como identificado na análise de conteúdo, a escassez de recursos representou a categoria com o maior grau de concordância, atingindo um escore médio de 4,31 entre os participantes. No entanto, tais resultados devem ser analisados com cautela, uma vez que no momento do estudo o Brasil passava por uma grave crise econômica, afetando diretamente os investimentos aplicados nas atividades de pesquisa8. Tal contexto pode ter influenciado nas respostas dos participantes.

Entre as grandes áreas do conhecimento, a escassez de recursos se mostrou um desafio mais evidente entre os pesquisadores atuantes nas Ciências da Saúde (4,63); Linguística, Letras

8 Ver: Cortes na ciência geram êxodo de cérebros, congelam pesquisas e vão punir Brasil por décadas, diz

presidente da academia. Disponível em <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40504128>, acesso em 21 de julho de 2017.

e Artes (4,42) e nas Ciências Humanas (4,41). Por outro lado, apresentou os menores escores médios entre os pesquisadores atuantes nas grandes áreas de Ciências Exatas e da Terra (4,13) e nas Engenharias (4,15).

A burocracia excessiva também se mostrou uma categoria com alto grau de concordância entre os participantes, apresentando um escore médio de 4,26. Entre as grandes áreas do conhecimento, percebe-se que a burocracia excessiva apresentou os maiores escores médios entre os pesquisadores das grandes áreas de Ciências Biológicas (4,40) e Ciências da Saúde (4,31) e os menores escores médios entre os pesquisadores das grandes áreas de Ciências Agrárias (4,12) e Ciências Sociais Aplicadas (4,19).

Interessante destacar que, independente das grandes áreas do conhecimento, a escassez de recursos e a burocracia excessiva se mostraram as categorias com os maiores níveis de concordância entre os participantes, apresentando escores médios superiores a 4,00. Essas categorias também apresentaram os menores valores de desvios-padrão, indicando menores níveis de dispersão de respostas entre os respondentes. Tais resultados indicam que a escassez de recursos e a burocracia excessiva representam os principais desafios da pesquisa acadêmica na percepção dos participantes.

Outros desafios se mostraram relevantes na etapa quantitativa, como a falta de uma equipe de apoio (4,18), a sobrecarga de trabalho (4,00), a infraestrutura de pesquisa deficitária (3,89) e a valorização de outras formas de produção do conhecimento (3,81). Por outro lado, o baixo comprometimento dos pesquisadores (2,76) e a baixa relevância das pesquisas em termos científicos e/ou tecnológicos (3,09) foram as categorias com os menores níveis de concordância, indicando serem os desafios menos evidentes na percepção dos participantes.

O baixo engajamento dos pesquisadores representou a categoria com os menores níveis concordância em todas as grandes áreas do conhecimento. Apesar desta categoria apresentar um dos maiores níveis de dispersão entre os respondentes, os escores médios apresentaram valores inferiores a 3,00 em todas as grandes áreas do conhecimento, o que não se configurou um desafio relevante na percepção dos participantes.

Ao considerar um número mais abrangente de pesquisadores, as exigências pela produtividade em pesquisa, assim como a qualidade dos estudos realizados, podem ter contribuído para que as categorias relacionadas à baixa relevância das pesquisas e ao baixo engajamento dos pesquisadores apresentassem os menores escores médios na percepção dos participantes. Justificativa pela qual os resultados se mostraram diferentes na etapa qualitativa. Por fim, foram calculados os escores médios sobre os desafios da pesquisa acadêmica em relação ao “ambiente de pesquisa” e às “práticas (cultura) de pesquisa”. Na percepção dos

participantes, os desafios relacionados ao ambiente de pesquisa representaram o principal entrave no Brasil, apresentando escore médio de 4,13. Diante deste cenário, surge a necessidade de ampliar os investimentos públicos existentes e incentivar o desenvolvimento de parcerias com o setor produtivo (BORGES, 2012; MCTI, 2016), ampliar e modernizar as instalações disponíveis, estimulando seu compartilhamento (MCTI, 2016; DE NEGRI; SQUEFF, 2016), reduzir entraves burocráticos (THORN; SOO, 2006; SCHWARTZMAN, 2008; GONZALEZ- BRAMBILA; JENKINS, LLORET, 2016) e destinar recursos para a contratação de novos pesquisadores a partir da expansão universitária promovida no país (MCTI, 2016).

Já as práticas de pesquisa apresentaram um grau de concordância menor, atingindo um escore médio de 3,31. Assim, surge a necessidade de melhorar a relevância das pesquisas desenvolvidas (BORGES, 2016; MCTI, 2016), estimular uma maior interação com as demandas da sociedade (SCHWARTZMAN et al., 2008; LIMA NETO, 2012; ANDRADE; URBINA; FOLLADOR, 2016; BORGES, 2016; MCTI, 2016), valorizar outras formas de produção do conhecimento (GUISADO; CABRERA; CORTÉS, 2010; LIMA; WOOD JUNIOR, 2014), melhorar a comunicação e divulgação das pesquisas (BUENO, 2010; GREGORY, 2015; MCTI, 2016) e estimular uma maior interação entre pesquisadores para o desenvolvimento de estudos multidisciplinares (SCHUETZENMEISTER, 2010; MCTI, 2016). A identificação dos desafios relacionados ao ambiente de pesquisa se mostra importante por revelar informações a serem consideradas no modelo de planejamento da pesquisa. Dentre as possíveis contribuições se destacam a importância de considerar os recursos financeiros e materiais, a infraestrutura necessária e a equipe de apoio para o desenvolvimento das pesquisas, tornando o planejamento mais preciso e colaborativo. Tais variáveis podem otimizar o tempo do pesquisador e contribuir para o planejamento de estudos mais relevantes.

Os desafios relacionados às práticas de pesquisa (cultura) se destacam pela necessidade de uma maior interação da academia com as demandas da sociedade, pela necessidade de identificar temas relevantes e parcerias necessárias, estímulos ao trabalho em equipe, necessidade de identificar formas mais eficazes de comunicação/apropriação dos resultados, necessidade de uma liderança atuante para manter o nível de comprometimento da equipe envolvida e a necessidade de uma metodologia de planejamento orientada para o estímulo à criatividade e à inovação, com o propósito de promover avanços científicos e/ou resolver demandas da sociedade. Tais categorias também podem otimizar o tempo do pesquisador e contribuir para o planejamento de estudos mais relevantes.