5 A avaliação de sustentabilidade na Avaliação de Impacto
5.4 Etapas e procedimentos para a avaliação de sustentabilidade
Há uma série de propostas de procedimentos nos campos da Avaliação de Impacto e do planejamento e gestão ambiental que se dizem orientados à sustentabilidade, e que, portanto, poderiam ser considerados adequados à avaliação de sustentabilidade.
As etapas em processos de Avaliação de Impacto com abordagem estratégica assemelham-se e, mesmo apresentando diferenciações nas suas etapas, compartilham estruturas semelhantes (OLIVEIRA; MONTAÑO; SOUZA, 2009; SANTOS, S. M., 2009).
Quatro propostas serão descritas a seguir. Essas propostas foram selecionadas por apresentarem elementos da abordagem estratégica (ver Partidário, 2007) e por privilegiarem a integração entre temas da sustentabilidade.
A proposta de Thérivel (2004) para Avaliação Ambiental Estratégica representa uma sequência de etapas baseada na Diretiva Europeia de AAE (EUROPEAN PARLIAMENT, 2001), que tem como objetivo incorporar questões ambientais e de sustentabilidade nos processos decisórios de nível estratégico. As etapas são:
1. Identificar objetivos da AAE, indicadores e metas;
2. Descrever a base de referência ambiental, incluindo tendências futuras; identificar questões relevantes e problemas existentes;
3. Identificar relações com outras ações relevantes;
4. Identificar alternativas (mais) sustentáveis para lidar com problemas existentes ao mesmo tempo em que atende os objetivos da ação estratégica; 5. Preparar o relatório da etapa de definição do escopo e realizar consulta aos
atores;
6. Prever e avaliar impactos das alternativas, comparar alternativas e propor medidas mitigadoras para a alternativa selecionada;
7. Escrever o relatório final da AAE, estabelecendo diretrizes para sua implementação;
8. Realizar consulta pública;
9. Monitorar impactos ambientais/de sustentabilidade da ação estratégica; Therivel (2004) enfatiza a importância do desenvolvimento de um diagnóstico adequado, que identifique as questões relevantes da região e dê subsídio ao desenvolvimento de alternativas. A autora também destaca a etapa da identificação de outras ações relevantes, políticas públicas e projetos que estejam relacionados à PPP que a AAE estiver analisando.
Quanto à formulação de alternativas, a autora destaca que é mais realístico pensar em opções que compõem alternativas. Apesar da indicação de
que o desenvolvimento de alternativas é essencial em estudos estratégicos, a prática mostra que geralmente uma única alternativa é apresentada, ao lado da alternativa de não realização do plano. Com isso, pode ser fundamental focar nas diversas partes de uma alternativa e em suas opções, ao invés de buscar a construção de várias alternativas completamente independentes (THERIVEL, 2004).
Também com base na Diretiva Europeia de AAE, Partidário (2007) propõe 3 etapas para a realização de estudos de AAE orientados à sustentabilidade, conforme mostra a Figura 5.9.
Figura 5.9. Sequência metodológica em AAE, extraído de Partidário (2007)
Para a autora, na primeira fase é preciso identificar o objeto de avaliação, identificar os fatores críticos de decisão (FCD), que são os
temas fundamentais para a decisão sobre os quais a AAE se deve debruçar, uma vez que identificam os aspectos que devem ser considerados pela decisão na concepção da sua estratégia e das acções que a implementam, para melhor satisfazer
objectivos ambientais e um futuro mais sustentável (PARTIDÁRIO, 2007, p. 18).
Com isso, os FCDs representam os temas mais relevantes à decisão, e devem ser selecionados de forma a privilegiar inter-relações entre temas. Nessa primeira etapa são estabelecidos o alcance da avaliação ambiental, o contexto institucional e os atores que participarão do processo, bem como a estratégia de comunicação.
Na segunda etapa, os FCD devem ser detalhados incluindo uma análise de tendências e também a avaliação das oportunidades e riscos em termos ambientais e de sustentabilidade. Nessa etapa também devem ser estabelecidas as diretrizes ou recomendações da AAE e que devem ser implementadas em fase de acompanhamento. Finalmente na terceira fase devem ser estabelecidas as ações de acompanhamento da iniciativa para os anos subsequentes (PARTIDÁRIO, 2007).
Partidário (2007) considera que a etapa de diagnóstico não pode ocupar a maior parte do processo de planejamento, em detrimento da análise e avaliação, de forma que em seu modelo, é valorizada a etapa de análise baseada nos FCD, de forma que forneça as informações direcionadas às necessidades da etapa de análise e avaliação.
Pope (2007), após o estudo de processos de AIA em nível de projeto na Austrália, propõe 5 etapas para a construção de processos de avaliação de sustentabilidade:
1. Identificar o objetivo e a questão de decisão orientadora do processo;
2. Estabelecer um “protocolo de sustentabilidade para a decisão”, que defina metas de sustentabilidade e critérios para a decisão, bem como identifique outros objetivos e restrições;
3. Identificar alternativas e opções que atendam os objetivos; 4. Identificar os impactos de cada alternativa;
5. Selecionar e detalhar a alternativa preferida.
Em sua proposta, a autora valoriza a definição prévia das regras que conduzirão o processo decisório, que de acordo com a autora é fundamental para evitar trade-offs. A definição do protocolo de sustentabilidade tem como objetivo a definição dos limites não negociáveis de cada área, de forma que as alternativas só poderão ser construídas a partir da consideração das condições de contorno acordadas no início do processo (POPE, 2007).
Por fim, Grace e Pope (2011) propõem, com base na teoria dos sistemas e na resiliência, etapas detalhadas para planejamento, avaliação e gestão para a
sustentabilidade. As etapas e suas características são apresentadas na Tabela 5.6.
Tabela 5.6 – Abordagem sistêmica para planejamento, avaliação e gestão de sustentabilidade, de acordo com Grace e Pope (2011)
Etapa Descrição Estabelecimento
de uma estratégia para engajamento dos stakeholders
Uma abordagem de governança colaborativa é essencial para a gestão de um SES e para orientá-lo para metas de saúde e resiliência, e é fundamental para a concepção e execução de todas as etapas subsequentes do processo. A estratégia deve envolver dois tipos de atores: atores institucionais e da comunidade residente no local em questão.
Definir o escopo e fronteiras do SES
Para determinar os limites adequados para a gestão adaptativa na escala espacial proposta (região/cidade), é necessário entender as interações em cada uma e entre escalas com relação à comunidade, o ambiente construído, a economia e os ecossistemas.
Estabelecer objetivos de sustentabilidade
O objetivo primordial da sustentabilidade de um "sistema socioecológico saudável e resiliente" é proposto como uma bandeira sob a qual os diferentes atores e partes interessadas se unem. Esses objetivos definem a direção em longo prazo da estratégia de gestão adaptativa e estabelecem o contexto para a análise.
Descrever o estado atual – Onde estamos agora?
Como em qualquer análise, a obtenção de fatos e opiniões sobre a situação existente e como ela se deu é fundamental para entender o estado do sistema. Usando os objetivos dos subsistemas e as interações entre os subsistemas como um modelo de relatório, o estado atual do SES em questão deve ser descrito em uma linha do tempo, conforme a proposta de Resilience Alliance (2010).
Modelagem do sistema
A natureza e o grau de detalhe do modelo do sistema dependerão das circunstâncias em que a análise está sendo realizada, incluindo a complexidade do sistema e a informação e recursos disponíveis para a construção do modelo.
Limiares
A essência da avaliação da resiliência é a identificação de limiares que regem a transição entre estados alternativos estáveis em um SES. Limiares são susceptíveis de ser ultrapassados se uma ou mais variáveis-chave atingir um nível crítico. Quando o conhecimento sobre o sistema é pobre, então o princípio da precaução deve ser aplicado. É importante lembrar que os valores dos principais stakeholders são muitas vezes os principais determinantes nas decisões sobre os limites serem ou não ultrapassados.
Cenários futuros
O planejamento de cenários é uma ferramenta ideal para explorar futuros plausíveis para a cidade ou região em questão e ajudar as pessoas a projetar um futuro diferente do passado. Usando o modelo de sistemas conceituais, cenários para o futuro pode ser construídos e modelados, qualitativamente ou quantitativamente. Este processo irá produzir as características comuns de cada cenário e ajudar a identificar as variáveis-chave do sistema que irão influenciar o futuro da SES.
Estabelecer objetivos e metas
A análise anterior identifica o estado atual do SES e estabelece o modelo conceitual a partir do qual serão testadas estratégias de intervenção. Com essa informação, objetivos de curto e médio prazo podem ser concebido. Os objetivos devem ser direcionados à ação, ou seja, se realizados irão gerar a mudança necessária para mover a SES do estado atual para o estado desejado.
Preparar o Plano de Gestão Adaptativa
Nessa etapa são identificadas as estratégias de intervenção, que são conjuntos de ações para atingir os objetivos e metas. A identificação de "pontos de alavancagem" no SES, cf. Meadows (1999), é talvez o elemento mais importante do planejamento da intervenção. O objetivo é garantir que a proposta de intervenção esteja claramente ligada aos resultados desejados, definindo claramente as relações de causa e efeito entre as atividades e resultados imediatos e de longo prazo.
Monitoramento, Comunicação e Avaliação
A implementação do Plano de Gestão Adaptativa requer monitoramento, a avaliação, comunicação e aprendizagem e atualização contínua. A participação contínua dos atores institucionais e da comunidade é muito importante para manter o engajamento alcançado na preparação do plano inicial. Um Diagnóstico de Sustentabilidade seria produzido regularmente, comparando o estado atual do SES com os objetivos desejáveis, bem como com critérios da resiliência e saúde do SES, gerando assim um sistema de gerenciamento ativo.
Os autores propõem uma divisão básica do sistema socioecológico em quatro subsistemas: ecossistemas, economia, comunidade e ambiente construído; sendo que a dinâmica interna desses subsistemas e a interação entre eles determina o comportamento do sistema socioecológico como um todo.
A proposta de Grace e Pope (2011) contribui com a inserção de conceitos da resiliência no processo de AI e no próprio planejamento. A definição dos limiares é semelhante à definição dos limites não-negociáveis, e a modelagem do sistema é a etapa que permite inter-relacionar temas e processos existentes. A proposta ainda incorpora a elaboração de um plano de gestão adaptativa, prevendo que para lidar com as incertezas, o monitoramento é fundamental, valorizando assim a etapa de acompanhamento.
As quatro propostas apresentadas possuem semelhanças em seus objetivos e em algumas etapas. A Tabela 5.7 apresenta uma correlação entre as etapas de cada proposta, identificando na primeira coluna as etapas básicas presentes no conjunto.
A despeito de todas as propostas apresentarem o conteúdo semelhante quanto a etapas básicas, as propostas apresentam inovações que podem ser consideradas complementares, interessantes para a elaboração de avaliações de sustentabilidade.
A proposta de Thérivel (2004) inclui a análise da relação da proposta atual com ações existentes, destacando a importância de inserir novas propostas no contexto das políticas públicas já em andamento, e também de atuar sobre as opções, como partes que compõem uma alternativa. Partidário (2007), ao propor o uso dos Fatores Críticos de Decisão, está propondo um novo formato de organização das informações, baseada nas questões consideradas mais relevantes pelo sistema de forma, o que pode privilegiar a identificação de interfaces.
Pope (2007) propõe que seja feito um protocolo de sustentabilidade para orientar o processo decisório, no qual serão definidos critérios de sustentabilidade, que darão os limites não negociáveis para cada área. A proposta de Grace e Pope (2011) propõe o uso da teoria de sistemas de forma concreta, com modelagem do sistema socioecológico e definição de limiares (thresholds), incluindo ainda a elaboração de um plano de gestão adaptativa.
Tabela 5.7 – Comparação entre etapas de estudos de IA orientados à sustentabilidade Conteúdo
básico Thérivel (2004) Partidário (2007) Pope (2007) Grace e Pope (2011) Definição do
objetivo Identificar objetivos da AAE, indicadores e metas Definição dos FCD Identificar o objetivo e a questão de decisão orientadora do processo;
Estabelecimento de uma estratégia para engajamento dos stakeholders Definir o escopo e fronteiras do SES Estabelecer objetivos de sustentabilidade Diagnóstico Descrever a base de referência
ambiental, incluindo tendências futuras; identificar questões relevantes e problemas existentes;
Estabelecer um “protocolo de sustentabilidade para a decisão”, que defina metas de sustentabilidade e critérios para a decisão, bem como identifique outros objetivos e restrições;
Descrever o estado atual – Onde estamos agora?
Identificar relações com outras
ações relevantes Modelagem do sistema
Limiares Cenários futuros Estabelecer objetivos e metas Estudo das
alternativas Identificar alternativas (mais) sustentáveis para lidar com problemas existentes ao mesmo tempo que atende os objetivos da ação estratégica;
Análise e
Avaliação Identificar alternativas e opções que atendam os objetivos
Preparar o Plano de Gestão Adaptativa
Preparar o relatório da etapa de definição do escopo e realizar consulta aos atores
Prever e avaliar impactos das alternativas, comparar alternativas;
Identificar os impactos de cada alternativa;
Decisão Selecionar e detalhar a
alternativa preferida Monitoramento
e diretrizes Propor medidas mitigadoras para a alternativa selecionada; Escrever o relatório final da AAE, estabelecendo diretrizes para sua implementação;
Seguimento Monitoramento,
Comunicação e Avaliação Realizar consulta pública
Monitorar impactos
ambientais/de sustentabilidade da ação estratégica
Todas essas propostas podem ser úteis na definição de um processo de avaliação de sustentabilidade, sendo que o objetivo final ao se escolher uma ou outra proposta deve ser focado no atendimento do conjunto mais amplo dos critérios de efetividade da avaliação de sustentabilidade, apresentados no item 5.3. Por isso, é importante que a definição de etapas não seja rígida, mas que possa ser adaptada a cada contexto de planejamento a fim e privilegiar a
efetividade do processo (BOND, A.; MORRISON-SAUNDERS; STOEGLEHNER, 2012).