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CAPÍTULO 2. TEORIA DO LABELLING APPROACH

2.2. BASES INTERDISCIPLINARES PROPULSORAS

2.2.2. Etnometodologia

O termo etnometodologia foi cunhado em 1967, por Garfinkel, em sua obra Studies

of Ethnomethodology, considerada a fundadora da matéria315. Em sua definição da

expressão relata que ela se refere à investigação das propriedades racionais das expressões indicativas e das ações como realizações contingentes das práticas da vida cotidiana316.

Em outros termos, a etnometodologia ocupa-se do estudo empírico das atividades cotidianas, triviais ou eruditas, dando a elas a mesma atenção que recebem os eventos extraordinários, visando ainda à compreensão de como os indivíduos, em conjunto, apreendem e definem as situações e fenômenos sociais317.

Na definição de Cicourel318,

a etnometodologia interessa-se no processo pelo qual se constroem as regras que devem cobrir as situações de interação social; ela interessa-se igualmente à análise da avaliação da aplicação dessas regras dentro de circunstâncias particulares. A etnometodologia coloca em evidência a atividade interpretativa necessária para reconhecer que existe uma regra abstrata correspondente a uma situação particular319.

Sua importância teórica e epistemológica deve-se ao fato de ter representado uma ruptura em relação à Sociologia tradicional, por meio da ampliação do pensamento social, constituindo, então, uma nova perspectiva de pesquisa e uma nova postura intelectual320.

314 Note-se que a assunção, pelo labbeling approach, da concepção interacionista de acordo com a qual

pessoas e sociedade são resultados de processos dinâmicos, faz da citada teoria criminológica anti- determinista, a despeito de algumas críticas dessa natureza. Cf. DIAS, Jorge de Figueiredo; ANDRADE, Manuel da Costa. Criminologia: o homem delinqüente e a sociedade criminógena. 2 reimp. Coimbra: Coimbra Editora, 1997.

315

Garfinkel, representante da Sociologia norte-americana, na confecção de sua obra, sofreu influências de seu professor Parsons, Schütz e do interacionismo simbólico.

316 GARFINKEL, Harold. Studies in Ethnomethodology. Nova Jersey: Prentice-Hall, 1967.

317 A etnometodologia é considerada uma versão da fenomenologia sociológica. Esta é uma Sociologia

baseada em considerações fenomenológicas, cujo principal pensador foi Schutz, inspirado, principalmente, nas obras de Husserl e Weber. Trata-se de um pensamento que adota como ponto de partida o indivíduo e não os sistemas sociais ou instituições que ele produz, característica que foi também incorporada pela etnometodologia. Cf. SCHUTZ, Alfred. Fenomenologia e relações sociais. Tradução de Ângela Melin. In: Wagner, Helmut R. (Org). Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

318 Cicourel foi o primeiro discípulo importante de Garfinkel.

319 CICOUREL, Aaron V. La sociologie cognitive. Tradução de Jeffrey e Martine Olson. Paris: Presses

Universitaires de France, 1979. p. 134-135.

Por conta de seu viés de estudo é que se pode constatar sua crença na ineficiência dos métodos até então utilizados pela Sociologia para a análise da vida cotidiana, em que consistia uma de suas principais críticas ao conhecimento sociológico dominante.

As pesquisas sociológicas anteriores, sob a perspectiva etnometodológica, não poderiam mais ser aceitas acriticamente, como representações das realidades perquiridas por um pesquisador neutro. O novo enfoque

concentra-se no como são exercitadas as interações em certo contexto social, além de olhar para a tendência manifestada pelo próprio pesquisador social diante um certo campo de interações, pois é também pertinente a maneira como os relatórios ou as descrições de acontecimentos são desenvolvidos e apresentados321.

Assim, pregava a valorização dos métodos qualitativos de pesquisa, tal como observação participante, a introspecção simpatética e o relato de histórias de vida.

A despeito de a etnometodologia ter se desenvolvido nos departamentos de Sociologia das universidades e nas organizações nacionais e internacionais da matéria, destaca-se seu caráter antissociológico.322.

Ao contrário do que pregavam Durkheim e Merton, principais expoentes da Sociologia tradicional e cujas crenças numa realidade objetiva eram incontestes, Garfinkel propôs que as ações fossem compreendidas a partir da perspectiva de seu executor, ou seja, de sua definição sobre o ato, de suas explicações para ele, prescindindo-se da categorização destas como certas ou erradas.

Desse modo, o autor pretendeu deslocar seu foco de atenção para a maneira como a realidade era construída, suspendendo, assim, a crença em sua objetividade323. Defendia

que o contexto era construído com base em ações singulares e que essas mesmas ações isoladas, numa relação de reciprocidade, é que o determinavam.

Portanto, para a etnometodologia, sendo a realidade social produto de uma construção social das individualidades, não pode ser ela objetivamente caracterizada ou analisada.

No tocante à interpretação da linguagem, adotou uma postura de renúncia à literalidade, baseada na consideração de que as expressões deveriam ser analisadas dentro do contexto no qual estavam inseridas, já que suas significações dependiam dele. Em

321 VELO, Joe Tennyson. Postura criminológica: entre a etnometodologia e o mito de Hermes. Ciências

Penais. Revista da Associação Brasileira de Professores de Ciências Penais, São Paulo, v. 2, p. 114-129, jan./jun. 2005. p. 119.

322 COULON, Alain. Etnometodologia. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 1995. 323 Trata-se da adoção, por Garfinkel, da atitude fenomenológica postulada por Husserl.

outras palavras, “o etnometodólogo interessa-se nas capacidades de interpretação que supõem a interação inevitável entre competência e performance”324.

Importante mencionar que mesmo as ações são consideradas precipuamente como resultados de regras interpretativas próprias à comunicação325.

Nesse sentido são as conclusões de Cicourel em sua obra The social organization of

Juvenile Justice. Nela o autor apresenta um estudo que desenvolveu por quatro anos acerca

da delinquência juvenil, no qual constatou ser ela uma construção social, em que os agentes envolvidos da persecução estabelecem classificações sociais próprias que designam e permitem reconhecer as categorias de desvio e de conformidade. Mostra, então, como é administrada e negociada a instrução judiciária, na dependência das interpretações dos atos feitas pelos juízes, delegados, educadores326.

A atribuição, pois, de um papel, de um status ou da qualidade de apropriada a uma conduta deriva de um procedimento interpretativo que dirige a interação, e não de sua natureza ínsita327.

Assim, ao postular que os fatos sociais são construídos a partir do sujeito e não do objeto, forneceu relevante contribuição na tentativa de dessensibilização dos estigmas, defendendo que os acontecimentos decorrem do trabalho intelectual dos sujeitos ao julgarem os acontecimentos sociais328.

Ainda no que se refere à interpretação dos indivíduos, Garfinkel criticou o que denominou como cerimônias de degradação: atos que rebaixam o sujeito e autorizam sua identificação ao público como alguém que está abaixo na pirâmide social .

Das ideias acima expostas é que a teoria da rotulação social derivou, respectivamente, suas proposições de crença nas explicações do acusado; o repúdio à existência de um “mundo comum” e a aceitação do desvio como uma construção social; o rechaço as estatísticas por elas serem, na realidade, representações da reação penal, e não dos atos concretamente cometidos.

324 CICOUREL, Aaron V. La sociologie cognitive. Tradução de Jeffrey e Martine Olson. Paris: Presses

Universitaires de France, 1979. p. 134.

325

LIMA, Rita de Cássia Pereira. Sociologia do desvio e interacionismo. Tempo Social. Revista de Sociologia da USP, São Paulo, v. 13, n. 1, p. 185-201, mai. 2001.

326 COULON, Alain. Etnometodologia. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 1995. 327 CICOUREL, Aaron V. La sociologie cognitive. Tradução de Jeffrey e Martine Olson. Paris: Presses

Universitaires de France, 1979.

328 VELO, Joe Tennyson. Postura criminológica: entre a etnometodologia e o mito de Hermes. Ciências

Penais. Revista da Associação Brasileira de Professores de Ciências Penais, São Paulo, v. 2, p. 114-129, jan./jun. 2005.

Fato é que se passa a defender que

o comportamento desviante esgota-se no quadro das significações assumidas pelos participantes, devendo suspender-se todo o juízo sobre a realidade das normas ou da própria estrutura social. Em nome da redução eidética, o crime é visto como uma construção social, realizada na interação entre o desviante e as agencias de controlo, que a etnometodologia estuda como ‘organizações’: polícia, tribunal, prisão, hospital psiquiátrico, etc. O que equivale levar até os extremos as, pois, ideias de relativismo e a-historicidade do crime329.