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CAPÍTULO 1. SURGIMENTO DA CRIMINOLOGIA

1.3. CRIMINOLOGIA COMO CIÊNCIA

1.3.2. Criminologia do Conflito

1.3.2.1. Teoria do Labelling Approach

Em meados da década de 1960 tiveram início diversos movimentos sociais de viés desconstrucionista. Originaram-se culturas contestatórias no âmbito social, bem como no âmago de algumas ciências específicas, tais como o Direito, a Psiquiatria, a Sociologia e a Criminologia.

Esse impulso desestruturador insere-se no horizonte da radicalização social, política e cultural e da intensa explosão de conflituosidade que dominou o período, não se cingindo apenas aos campos penal e criminológico. O contexto histórico que o autoriza é o da crise, nas sociedades capitalistas, do Estado de Bem-estar social243.

É a época da luta estudantil contra a intervenção norte-americana no Vietnã, das manifestações contra a segregação racial encabeçadas por Luther King, do movimento feminista e da proposição de um novo estilo de vida não consumista.

Na base da ciência criminológica, o que se pretendia era debilitar as teorias até o momento dominantes, de cunho etiológico e individualista, por meio do fornecimento de novas explicações acerca dos fenômenos criminais e das estruturas de controle social244.

A existência, na Criminologia tradicional, de um “estado de sítio” permanente contra o crime, excessivamente oneroso em termos materiais e humanos, acelerou a busca por soluções de natureza diversa das até então existentes245.

Aliado a isso, surge no período uma desviação típica, relacionada com a revolução cultural que se desenhava, representada pela prática de delitos sem vítima, entre os quais se incluíam delitos políticos, manifestações pacifistas e campanhas em favor dos direitos humanos, os quais a Criminologia tradicional não tinha condições de explicar.

242

BARATTA, Alessandro. Criminologia e Dogmática Penal. Passado e futuro do modelo integral da Ciência Penal. Revista de Direito Penal, Rio de Janeiro, n. 31, p. 5-37, jan.Ijun. 1981.

243 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A ilusão da segurança jurídica: do controle da violência à violência

do controle penal. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003.

244 COHEN, Stanley. Esceptismo intelectual y compromiso político: la Criminología Radical. Delito y

sociedad: Revista de Ciencias Sociales, Buenos Aires, v. 3, n. 4-5, p. 3-31, 1993I1994.

245 DIAS, Jorge de Figueiredo; ANDRADE, Manuel da Costa. Criminologia: o homem delinqüente e a

Desta feita, pode se verificar que “na década de sessenta o inimigo estava claro: a criminologia positivista”246.

A grande modificação que inaugura, e que faz a teoria do labelling approach247

distinta de suas antecessoras, é a ideia de que para se entender o sentido social dos comportamentos é imprescindível que se examinem as reações sociais que dele decorrem248.

Isso porque é somente devido às respostas negativas que recebe dos membros da sociedade que uma conduta é qualificada como adequada ou inadequada, desviada ou não desviada. Não está na sua natureza a determinação de seu acerto ou da sua licitude, mas sim nas manifestações que enseja.

Insere-se aqui o elemento do poder, antes negligenciado pela ciência criminológica. Nas sociedades modernas, conflituais, percebe-se que a imposição das regras sociais é feita pelo grupo com poder para ditar tais normas, sendo dessa maneira realizada a eleição dos valores tutelados pelos órgãos estatais. Também é com base nele que se elegem, entre os violadores da norma, os que serão por isso responsabilizados249.

Em decorrência da mencionada situação, os teóricos do etiquetamento defendem a importância de se estudar o processo de definição por meio do qual a sociedade interpreta um comportamento como desviado e reage a ele250.

Desse modo,

a criminalidade se revela, principalmente, como um status atribuído a determinados indivíduos mediante um duplo processo: a ‘definição’ legal de crime, que atribui à conduta o caráter criminal e a ‘seleção’ que etiqueta e estigmatiza um autor como criminoso entre todos aqueles que praticam tal conduta251.

246 LARRAURI PIJOAN, Elena. La herencia de la criminología crítica. 2. ed. Madri: Siglo veintiuno de

España, 2000. p. 13.

247

A expressão inglesa que dá nome a teoria é traduzida como rotulação social, etiquetagem, teoria interacionista ou da reação social.

248 BECKER, Howard S. Outsiders: studies in the sociology of deviance. Nova Iorque: The Free Press,1997. 249 BECKER, Howard S. Outsiders: studies in the sociology of deviance. Nova Iorque: The Free Press,1997.

Por expor as relações de poder que engendram o sistema penal, Zaffaroni acredita que o labelling approach se comporta como uma Criminologia de denúncia. Cf. ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Criminología: aproximación desde un margen. Colômbia: Temis, 1993.

250 CID MOLINÉ, José; LARRAURI PIJOAN, Helena. Teorías Criminológicas: explicación y prevención de

la delincuencia. Barcelona: Bosh, 2001.

251 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Do paradigma etiológico ao paradigma da reação social: mudança e

permanência de paradigmas criminológicos na ciência e no sendo comum. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, v. 4, n.14, p. 276-287, abr.ljun. 1996. p. 280.

O labelling approach coloca em três níveis o problema da definição da criminalidade: a investigação do processo de definição da conduta desviada, a atribuição do status de criminoso e o impacto desta na identidade desviante252.

Nessa etapa de sua evolução, a Criminologia, que se ocupava apenas do delito e do delinquente, inclui no seu rol de objetos de estudo também o controle social.

Não se trata mais, a partir daqui, de teorias da criminalidade, mas sim de teorias da criminalização.

A tese interacionista questiona o princípio da igualdade, tendo em vista o reconhecimento da seletividade dos processos que determinam quem é criminoso e o que é crime, bem como o do interesse social e do delito natural, por conta de sua teorização sobre as criminalizações primária e secundária. Os princípios do fim e da prevenção também são colocados em xeque ao se apontar as maléficas consequências da pena, mormente a privação de liberdade, na formação de carreiras criminais, rompendo, assim, o cordão umbilical que ainda ligava as teorias sociológicas do delito com a Criminologia Positivista253.

Com a adoção do paradigma da reação social, a Criminologia passa a ser crítica das definições produzidas pelas instâncias componentes do sistema penal, deixando assim de ser um elemento interno, auxiliar desse sistema, e posicionando-se externamente a ele. Torna-se impossível sustentar a continuidade da subordinação da Criminologia ao Direito Penal, tal qual pregava o modelo integrado da ciência penal254.

Por ter se erigido enquanto crítica a Criminologia tradicional foi identificada, em seu início, como teoria crítica. Tal denominação é abandonada na década de 1970 com o surgimento de uma nova teoria criminológica assim intitulada.

252 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Do paradigma etiológico ao paradigma da reação social: mudança e

permanência de paradigmas criminológicos na ciência e no sendo comum. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, v. 4, n.14, p. 276-287, abr.ljun. 1996. Tais processos podem ser referenciados como criminalização primária, secundária e terciária, respectivamente, e serão explanados no capitulo seguinte do presente trabalho.

253 BARATTA, Alessandro. Criminologia e Dogmática Penal. Passado e futuro do modelo integral da Ciência

Penal. Revista de Direito Penal, Rio de Janeiro, n. 31, p. 5-37, jan.Ijun. 1981.

254 BARATTA, Alessandro ¿Tiene futuro la Criminología Crítica? Reflexiones sobre el modelo integrado de

las ciencias penales y la interdisciplinariedad externa. Capítulo Criminológico, Maracaibo, v. 23, n. 2, p. 487- 501, 1995.