— Ao
juramento que eu lhe dictar, basta que responda :— Eu
o juro.O
estudante poz amão
sobre o livro—
so-bre os estatutos da sociedade—
e ohomem
da cadeira magistral formulou o juramento:—
Jura cumprir cegamente,
sem
observações, semréplicas, quaesquer resoluções da nossa socie-dade, embora essas determinações possam fe-rir interesses de farailiá ?
Embora
possam ir de encontro aos laçt^s do sangue?— Eu
ojuro, respondeu o caloiro.—
Optimamente, continuou o maioral; ago-ra venha de lá o abraço fraternal.E
Fran-cisco Jorge Ayres, que tal era o da cadeira grande, tirando a mascara, continuou: Abrace Francisco Jorge Ayres, o seu mais dedicado amigo.—
Agora, para terminar esta sessão do nos-so Rancho, diga o seunome
e váabraçar seus novos e terríveis irmãos.— Eu
sou José António de Azevedo.Em
seguida o novo Carquejeiro começou de abraçar todos os mascarados, que, na occasião do abraço, iam dizendo seus nomes e desco-brindo o rosto.Quando
terminou o ultimo abraço, Francisco Jorge Ayres alçou a voz e disse:—
Viva oRancho
da Carqueja!—
Viva! Responderam todos.—
Viva o sagrado divertinento.—
Viva! Repetiram os mais.Silva Pescada começou a afinar a banza.
o RANCHO
DA
CARQUEJAO
recém carquejeiro falavacom
todos, riacom
todos.Reinava a alegria no Rancho.
—
Ordem! Bradou Francisco Jorge Ayres.Tudo
se calou.—
Amigos!Ao
Arco da Traição! Se algum ha entre vós que nào possa acompanhar-nos, póde-sejulgar dispensado, que paraissolhe doulicença. Precisamos lavar a nódoa que o petu-lante futrica lançou no Gonçalves Lobo,
com
dois bofetões, que lhe deu por tanto ao Arco da Traição.
— Ao
Arco da Traição! Gritaram todos.E
Silva Pescada, que tinha a viola afinada começou a tocar e a cantar:Seacaso vires,Moreira, Que o mundode timurmura, Porlouvar a formosura, D'uma dama ou d'umafreira.
Sem criminalpensamento,
Tem
soíFrimento:Mas seemtuasacções boas
Põem demasias ou mingoas, Nãose tedê dasmás lingoas
Nem
de calumniaste doas Mascom socego profundoC... nomundo.
Se o fradeé graveeprudente Modesto, casto, e sisudo;
Se se occupa emdouto estudo, Se no púlpito é frequente, No»altar,no coro,notemp'o.
Serve d'exemplo:
Masse o vires pelas ruas Passeiario vagabundo, Tractardas cousas do^mundo,
62
EMPREZA DA
HISTORIADE
PORTUGAL Entrarem casascommuasUltrajando a castidade,
C... no frade.
Sefreira sisudaebella Só no coro cantae toca, Se aoaso almofadae roca Lheoccupao t'mponacella,
Sem qne amorentre emseupeito.
Tem-lhe respeito:
Masse cheia de vaidade, Profanas modaslhe ouvires,
Ou no mirante ou na grade Se muitas vezes avires
Toda alegre e lisongeira,
C .. nafreira.
Se na desgraça inclemente,
Ou na fortuna inconstante, Teuamigo sempre amante Te seguesábioe prudente,
E
se te etnprestao seuouro,E um
thesouro:Massefogena desgraça, Se se aparta na inclemência, Sete maltractana ausência, Se voltao rosto napraça.
Por nãopasseiar comtigo, C... no amigo.
E
O Rancho iasahiudo da casa de Gonçalves Lobo.Dava
meia noute o relógio de Sancta Cruz.Quando
o Padre Vicente Gonçalves Lobo, depois de havcr descido a escada e atravessa-do o pateo, mettia a chave na fechadura ouviu-seum
tropel, que vinha da Couraça; e que, passando pela porta de Gonçalves Lobo, se ia perdendo ao longo da rua do Museu.Gonçal-o
RANCHO
DA CARQUEJA G3 vesLobo
parou, e, a meia voz, impozsilencio:—
Caluda!Silenciosos ficaram todos.
Teriam decorrido três minutos, quando se ouviu
um
assobio agudo eum
pouco prolonga-do, que parecia ser dado na matta dos Jesui-tas, e que sobresaltou a todos os doRancho, por ser d'elles conhecido.Gonçalves
Lobo
e Francisco Jorge Ayres, que lhe estava ao pé, disseram aosdo Rancho, que ficassem allium
instante, emqnanto ellesiam observar a matta e ver se alguma novida-de havia.
E
foram.—
Querem-nosapanhar;estamosarranjados...disse Carneiro dos Sanctos, o mais timido e
acanhado de todos.
—
Qual! respondeu Silva Pescada, aquelle assobio é do Rancho; nareunião faltavaoPaim;o
Paim namora
a Josepha, costureira, do Ter-reiro da Pella; ergo, oPaim
foi apanhado pela ronda, talvez a escalar-lhe alguma janella, e fugiu para não ir á cadeia. E' o que deve ser.—
Nada; temo alguma traição, disse Coelho Manco.—
Qualtraição! respondeu o Pescada.E
con-tinuaram a nadarem
conjecturas.Deixemol-os a braços
com
hypotheses, e ve-jamos no entretanto, se Gonçalves Lobo eJor-ge Ayres descobrem alguma cousa.
Quando
esteschegaram auma
janella peque-na que dava para a cerca dos Jesuitas, ainda ouviram os últimos sons doasobio.Como
a pequenez da janella não consentia queambos
se debruçassem n'ella, GonçalvesLobo
deitou a cabeça e escutou.64
EMPBEZA
DA HISTORIA DE PORTLGALApenas
o silencio e a escuridão!As
copas das arvores, algumas das quaes beijavamqua-bí a pequena janella,
murmuravam
branda-mente. Piavaum mocho
láem
baixo, batia meia hora para auma
o relógio de Sancta Cruz; o mais profundo silencio, trevas cerra-das!Gonçalves Lobo, depois de observar
algum
tempo, retirou-se para dentro e disse a Jorge Ayres que visse se descortinava alguém.Jorge Ayres deitou meio corpo fora da ja-nellita e poz-se a escutar.
— O
assobio foi dado porum
dos nossos, disse de dentro Gonçalves Lobo. Jáme
lem-brei do Roque.Anda
doidocom
a Josepha...—
Cala-te depressa! interrompeu rapida-mente Jorge Ayres. Oiço alguma coisa.De
facto, láem
baixo, no fundo das arvo-res ouviaseum
rumor leve,como
dequem
vinha correndo ainda ao longe.O
ruido appro-ximava-se, e Jorge Ayres percebeueffectiva-mente que alguém corria para o lado
em
que se achava. Attentou muito e disseparadentro:—
é gente evem
para aqui.Instantes depois, erguia-se
uma
voz porbai-xo dajanella:
—
O'Lobo
!
— Quem
procura oLobo?respondeu, pergun-tando, Jorge Ayres que não conhecera a voz.—
Sou eu, o Paim.—
Então, o que quer dizer isso?...Tu
por ahi?— Quer
dizer que é precisojá, já, queme
lances por essa janella a escada celestial. Per-seguem-me os verdeaes,