—
Deixeme
pelo amor de Deus, que eudi-go tudo,
— Ah
} já te chegou a vontadeIVamos
:—
d'onde vens tu?
—
Fui chamar o sr. Ayres.— Quem
temandou, e para queochamaste?insistiu S.ilva Pescada.
—
Foi o sr. Lobo, paradaremum
graun'umcaloiro muito grande, que apanharam á bôcca da noite n'uma certa casa. . .
— E
que disse Jorge Ayres? instou Silva Pescada.—
Disse que vinha brevemente, respondeu ainda o rapaz.—
Agora, rode sobre a esquerda e leve a resposta a seu amoTAssim terminou Silva Pescada o curto dia-logo cora o rapaz, que, sem esperar segundo
aviso, correu na direcção da casa de Gonçal-ves Lobo.
Silva Pescada trajava de
um modo
célebre.Vinha de meias e sapatos, trazia na cabeça o gorro preto evestia
uma
jaqueta de pelles.Um
varapau na
mão
direita euma
violana esquer-da eram o complexo d"aquella extravagantetoilette.
40
EMPREZA
DA HISTORIADD
PORTUGAL Vejamos, leitor amigo, onde se dirigeo nos-so académico. Sigâmol-o.Em
vez de se encaminhar para casa do Lo-bo, desce pela couraça dos Apóstolos,toma pe-la rua da Esperança e, á direita d'ella, desce pelo becco de S. Marcos. A' porta deuma
ca-sa pequena e de ordinária apparencia pára e bate
com
o cajado,acompanhando
aquellas pancadascom um
verbalchamamento
:— O
Coelho!
Coimbra n'aquelle tempo era
uma
cidadede costumes severos e patriarchaes. A' bôcca da noite recolhiam se os habitantes á amiga casa, e quando eram oito horas deum mez
d'inver-no, apenas o silencio imperavan'ella, raras ve-zes interrompido pelo compassado ruido da ronda dos verdeaes, pelo ladrar d'algum cào, ou pelo guinchar agoureiro e fatidico dos noi-tibós e das corujas.Não
era illuminada, demodo
que a escuridão mais completa envolvia Coimbra toda.As
únicas luzes que podiam au-xiliar os passeantes nocturnos eram as estrel-las, 03 lampeoes das serventes académicas e o reflexo da luz coada pela suja vidraça d'algum quarto de estudante, onde esta entidade quei-masse as pestanas no consultar dos Cujacios e dos Pegas.A
única resposta que primeiro obteve Silva Pescada foi o prolongado ladridodeum
cão da visinhança, resposta que poucolhe frisou, por-que bateu de novo ecom
mais força,najá ve-lha e carunchosa porta, e repetiu:-O
Coelho!
— Quem
temos lá ? ouviu-se no interior da casa.— Temos
o Pescada, que jáespera ha muito pela abertura da toca do Coelho.o RANCHO
DA
CARQUEJA 41—
Já lá VOU; espera ura instante mais.Pouco havia que esperava, quando se
ouvi-ram
passos lá dentro, e, minutos depois, des-andar a chave na fechadura e abrir-se aporta que chiou nos gonzos.— Não
te esperava aqui, disseCoelhoManco
para SilvaPescada; tinhamos ajustado reuniãoem
casa do Gonçalves Lobo, ás 10 da noite...—
Bera sei, interrompeu SilvaPescada;mas também
combinámos sahirmos detuacasa jun-tos.— Não me
lembrava: tens razão. Sobe.E
Miguel Pereira CoelhoManco
fez subir adeante Silva Pescada, fechou a porta e subiu também.Um
grande candieiro de metal amarelloalu-miava
uma
pequena sala que,porCoelhoMan
•CO, estava convertida
em
sala propriamente de visitas,em
casa de jantar eem
quarto de es-tudo. Tinha apenasuma
janella para o becco de S. Marcos e duas portas : a que dava para a escada, e outra parauma
alcova que CoelhoManco
tinha fechada.O
tectocahiadevelhice, e mais deum
barambaz de teias de aranha, á maneira de sanefas, lh'o guarnecia.O
sobrado, meio deseonjunctado, deixava ver na loja damesma
casa a claridadedeuma
luz, que poruma
fisga maior se viamanar
deuma
candeia de ferro, espetada n'ura buraco da pa-rede desguarnecida e negra.
Os
dois entraram n'esta saleta.—
Então vens de banza? I—
Ura estudante sem ella é como uraho-mem
sem mulher, respondeu Silva Pescada a Coelho Mnnco. Mas, a propósito,—
continuouelle reparando n'um capote de mulher que
es-42
EMPREZA DA
HISTORIADE
PORTUGAL tava sobreuma
cadeira de pau de pinho pin-tada de azul—
aposto eu que nnoestás nocaso da minha comparação?E
Silva Pescada lançou ura olhar de soslaio para a alcova fechada, onde CoelhoManco
ti-nha o leito.
— Eu
te digo, respondeu Coelho, ás vezes as apparenciaspodem
enganar.— Podem, mas
agora imprimem-te o sellodaculpabilidade,etantomaisfundamente quan-to parece que só para ti reservas a presa co-lhida,
com
manifesta ofFensa do nosso Rancho.— Enganam-te as apparencias, repetiu Coe-lho
Manco
; acredita que não ha nada.—
Pois muito bem, haja-quenào haja,abre-me
a porta d'aquella alcova. Quero verquem
é que tem dominio directo sobre este traste.
E
Silva Pescada indicava o capote pousado na cadeira.—
Sinto, amigo, que nao possa satisfazer a teus desejos.Alguém
tenho n'essa alcova, é certo,mas
alguém que nao quer ser visto.—
Mas, entre nós, Carquejeiros, irmãos na sancta cruzada do divertimento, nao deve ha-ver segredos; nãopodem
existir mysterios.O
que
um
sabe, sabe o outro, e não hadivulgar-sejamais a estranhos qualquer negocio da con-fraria. Portanto,
em nome
da nossa união, e mais ainda, nota bem, do juramento quefize-mos, quero saber
quem
é a formosa que nao esperouum
rapto para vir ser companheira das alegrias e dos prazeres deum
académico.— Es
terrivel, Vou-te fazer a vontade; mas, antes doesse momento, chega-te aqui.Silva Pescada approximou-se de Coelho Manco, Este, pondose do cócoras no sobrado,
o RANHIIO DA CARQUEJA 43
convidou,
com
o exemplo,_SilvaPescada a imi-tai o.Ura defronte dooutro, na
mesma
posição,vi-ram
na loja da casa o que passo a narrar.— Que
vês? perguntou CoelhoManco
aSil-va Pescada.
—
Vejouma
casa pobríssima euma
mulher fiandoem uma
roca, á luz amortecida e crepi-tante deuma
candeia de ferro.— E
nada mais? continuou Coelho.—
Vejo mais, aum
canto,uma
enxerga mi-serável, que melhor parece o ninhodeum
ani-mal, deum
cão, deum
gato, ou de qualquer outro, do que o logarde descançodeuma
crea-tura humana.—
Atteuta bem, que observas mais?—
•Vejotambém um
rolo de papeis aopé da enxerga, respondeu Silva Pescada.—
Muito bem, como pouco te pode faltar,termina o quadro. Já descrevesteas figuras do primeiro plano, agora fazlheo campir.
— As
paredes denegridas dofumo, continuou Pescada, duas cadeiras velhas de pau,uma
ar-ca,uma
lareira impi'ovisada áquelle canto, composta de três pedras, no meio das quaes vejo luzir algumas ascuas;uma
pilheiracom
uns pratos e duas panellas de barro preto;
muita teia de aranha, muitas esteiras velhas, muitos andrajos, muita pobreza, aqui tens o que mais encontro n'esta possilga hedionda.
—
Poisbem;
falta só que observes as fei-ções da velha que vês a fiar na roca.— A
velha pareceme
asquerosa, continuou Silva Pescada,Os
cabeilos, de cor duvidosa, atados e seguros p>ruma
travessa gigantesca, o nariz aquilino e a barba aguçada, que, pela44
EMPREZA
DA HISTORIA DE PORTUGALfalta de dentes, por
bem
pouco se nâo tocam, asmãos
e braços negros e engelhados, os olhos amortecidos e fundos nas orbitas, coberta por farrapos nojentos, a velha parece-meuma
fú-ria,uma
gorgona,um
demónio.— Não
descreves mal, disse Coelho Manco,erguendo-se, nào descreves mal.
— Não
descrevo mal;mas
para que serve oquadro que
me
fizeste pintar? para queme
fi-zeste observar tanta pobreza e miséria?
—
Paraque?
respondeu Coelho, para te di-zer agora que foi n'esse antromedonho
que a encontrei— Que
a encontraste;quem?
— A
formosa que alli guardo, disse sorrin-do-se, Coelho Manco, e apontando para aalcova fechada.—
Pois se é filha daquella Clotho eLache-8Í3, sempre te digo que deve ser
uma
horripi-lante Alecto.— Apre
! que eloquência gentílica, disse, sorrindo-se muito. Coelho Manco.—
Emfira, vejamos sempre essa deidade.Chamo-lhe deidade porque
me
lembrou agora aquelia passagem de Camões, quecom uma
simples volta, pode ter aqui applicação
:
«
Do
justo e duroPedronasce o brando,« (Vededa natureza odesconcerto! )
« Fernando»
—
Fiat; e CoelhoManco
foi abrir a porta da camará, dizendo, para dentro: pôde sahir;é gente amiga.
A
porta conservou-se aberta,mas
de dentro ninguém sahia.SilvaPescada,julgando veruma
o RANCHO DA CARQUEJA. 45
brincadeiradeCoelho
Manco
na promettida bel-leza quetinhanaalcova, disse-lheem
tommeio de zangado, meio de curioso:
— Não
esperava pela caçoada. Cahi na es-parrella.—
Espera,nãodesesperes,disseCoelhoMan-co.
A moça
é muito pudica e envergonhada.E
entrou no quarto.Momentos
depois, sahiu d'elleum
vulto, an-dandocom
timidez e encolhendoa cabeça.—
Frei João das Mercês!! exclamou Silva Pescada, n'um grande frouxo deriso.—
Ah! ah! ah!Que
te parece a formosa don-zella? Ah! ah! ah!E
Coelho,riacomo um
per-dido, comoum
louco.—
Olá frei João!com
que o amigo cá estáem
casa deum
Carquejeiro, deum
possesso do diabo! Ah! ah! ah!E
Silva Pescada ria a mais não poder, fazendo corocom
as risadas de Coelho Manco.— Não me
façam mal,murmurou
João das Mercês; nãome
façam mal: te rogamus audi nos.— Queremos
jáum
sermão; suba a essa ca-deira e pregue, disse Silva Pescada.Frei João das Mercês, tremendo de
medo
e todo encolhido, começava a trepar ao púlpito(á cadeira), e, para não perder tempo, ia pe-dindo o thema a Silva Pescada, que se nãofez rogar, e lhe disse:
—
Ahi vae o thema seor frei João :— Dos
pobres de espirito é o reino do ceu.O
beguino começava a fazer cruzes, e já sedava alguns ares de orador sagrado, quando Coelho
Manco
inteiveio, enojado da mercená-ria simonia de João dasMercês:
46
EMPREZA
DA HISTORI\ DE PORTUGAL—
Por hoje dispensa-nos do sermão,—
Sócom uma
condição, respondeu Silva Pescada.—
Qual? tornou Coelho.— A
deme
explicares, tu ou elle (e indi-cava o beguino), o motivo por que o illuslre orador se achava na loja, ou antes, nopersigal d'esta casa.— O
motivo te não posso eu dizer, respon-deu Coelho; mas, frei João é extremamentebom
e delicado para se negar a tal serviço.—
Explique tudo isso, disse Silva Pescada a João das Mercês, e sem rodeiosnem
redun-dâncias.Frei João estendeu
um
pouco o pescoço,ti-tubeou e começou a grunhir:
—
Josepha das onze mil Virgens é minha conhecida de ha muito... desde a mocidade...venho fazer-lhe a minha visitita de tempos a tempos... venho ajudar-lhe a fazer a reza ás onze mil Virgens, de queella é muito devota..
.
venho..
.
—
Percebo famosamente, interrompeu Silva Pescada; vera...vem
...vem
ser o Philemon d'aqaella Baucis. Frei João das Mercês,/rei João das Mercês!..E
Silva Pescada deu-lheuma
leve pancada no hombro.— Vens
esta noutecom
uns profundos co-nhecimentosmy
thologicos! disse alegremente, Coelho Manco.— Vamos
ao essencial: são horas desahir-mos
d'aqni; sabes que nos esperamem
casadoLobo
...
E,
como
tomado de súbito pensamento, ex-clamou:— O
Coelho! Frei João vae coranos-co.o RANCHO
DA
CARQUEJA 47—
Não, não vae; frei Joào ainda nao fez a reza ás onze mil Virgens,em
duocom
a velha, demodo
que,convém
não o desviar do cami-nho docéu.— O
Coelho!Mas
olha que frei João raz-nosuma
grande conta; deixa-o ir, insistiuSil-va Pescada.
—
Não, hoje não.—
Então... hasdeme
dizer já a razão por-que o tinhas alli fechado.E
Silva, apontou para o quarto de dormir de Coelho.— Logo
t'o direi. Agoravamos
até casa do Lobo.E
voltando se para João das Mercês, o nos-so Carquejeiro disse-lhe:—
vá, vá frei João, passar pelas mãos as camaldulas de Jcsepha das onze mil Virgens.Frei João das Mercês despediu-se dos es-tudantes e desceu a escada.
Os
dois carque-jeirosacompanharam
no;e, do cimo da escada, cadaum
lhe disse,em
vez do adeus da des-pedida:—
Prudência, João das Mercês.— Não me
exorcismes, beguino.João das Mercês sahiu; mas, pouco depois, ouviu se-lhe a voz
em
casa de Josephadas on-ze mil Virgens.Silva Pescada viu orelógio e dissepara Coe-lho
Manco
:—
São quasi dez horas e nós aqui! Vá, pre-para-te para sairmos; mas, para adeantar ser-viço, vae-me contando para que tinhas aqui o beato.—
E's impertinentef respondeu Coelho; pois, visto que tanto o desejas (e CoelhoManco
iamudando
de traje), liça sabendo que, paraco-KMPREZA DA HISTOftIA DE PORTUGAL
Iher iaformações acerca do Beneficiado de S.
Bartholomea,
me
servi daquelle idiota..,—
Mas, atalhou Silva Pescada, uào nos tra-hii-á o velhaco?" —
Trahir! Estás louco. Ai d'elle, se fizessetal coisa! que não fazia mais exorcismos e ex-communhões.