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uma prisão lhe sorria medonhamente e com

No documento i I > ' (páginas 119-123)

diabólica satisfação...

Tremeu

pela sorte do filho!...

Depois de uni instante de indizível

soffri-mento, de mortal atonismo e cruel lethargia, o velho pae de Francisco Jorge Ayres

empenhou

as forças todas n'um supremo esforço,acordou e perguntou a

uma

visinha pelo filho.

Nada

! a visinha não o tinhavisto.

Ninguém

sabia d'elle.

O

velho capitão-mór,

em

similhante conjun-ctura, machinalmente se deixou ir para casa, sem que

em

tal resolução tomasse parte a von-tade.

Era um

autómato que andava e unica-mente obedecia á bete de que fala Xavier de Maistre.

Um

académico apparecia na extremidade do becco, vindo da Sé Velha,

O

pae de Jorge Ayres sahia do becco pelo lado opposto.

Quando

o estudante chegou á porta da casa de Francisco Jorge Ayres, soube, por via de

uma

visinha, que o

homem

que além desappa-recera, perguntara por seu filho; e que, ao dizerem lhe que não sabiam d'elle, por

bem

pouco não cahira

sem

sentidos.

Gonçalves Lobo, que não era outro o estu-dante, apressou o passo e foi na direcção que levara o honrado e bondoso capitão mór.

Alcançou-o

em

breve, porque trôpego e cam-baleante era o andar d'elle.

Sr. capitãomór ! disse o padre Vicente Gonçalves Lobo.

O

velho estacou.

Sr. Francisco Jorge Ayres! tornou o académico.

114

EMPREZA DA

HISTORIA DE PORTUGAL

— Quem me chama

? poude murmurar, vol-tando-8e, o capitão

mór

da terra da Feira.

Sei que procurou seu filho...

— E

que o não encontrei, interrompeu o velho. Acaso saberá alguma coisa? Diga me,

sr. estudante,

meu

filho está preso? não está?

Não, senhor,

nem

para isso hamotivo

al-gum.

— Não

ha motivo?! diz o senhor. Pois esta noite passada não foi

meu

filho o auctor...

E' inexacta a informação que tem, ata-lhou Gonçalves Lobo. Posso affirmar-lhe que essa desordem

em

que tanto por ahi se fala,

que essas pancadas no Beneficiado de S. Bar-tholoraeu, não foram dadas por seu filho,

nem mesmo

assistiu a isso.

Certifica-m'o ?

Confie na palavra de honrade

um

padre.

— O

senhor é, pois, amigo d'elle, conhecido ou..

.

Sou intimo amigo de seu filho.

E, na verdade, não mentia Gonçalves Lobo.

Era um

dos melhores amigos que tinha o filho

do capitão mór.

Esclareça-me então, senhor.. .

Vicente Gonçalves Lobo.

Esclareça me, sr. Lobo, diga onde pára

meu

filho, tranquillise

um

pae amargurado e aíSicto.

E

depois de se porem a caminho nadirecção da hospedaria da Portagem, Gonçalves Lobo, que não era demasiado escrupuloso no falar verdade, e que preferia servir melhor os seus interesses do que passar por Epaminondas, começou a tranquillizar por este

modo

ao in-consolável pae de seu amigo:

o RANCHO

DA

CARQUEJA 115

— Dizem

por ahi, por Coimbra, que todos esses distúrbios e desordens são feitas por es-tudantes. Isto não é assim.

Na

desordem da rua das Fangas,

um

dos elementos mais des-ordeiro foi inquestionavelmente o fradesco: na tunda que levou o pobre collega meu, para o bairro baixo, ha muitos bonsdados para crer que foram os burguezes coimbrõesos executo-res d'ella, e n'um trambulhão que fizeram dar a

uma

desgraçada creatura que por ahi ajuda ás missas pelas egrejas, e que até a

mim

mes-mo

tem prestado esse serviço, não se pode sa-ber por

modo

algum

quem

foi quelh'o fez dar.

A

noite estava escura; ninguém conheceu o

mal intencionado. Elle porsi, o misérrimo bea-to, que está no Aljube

com

as costas que-bradas, diz, jura e bate fé, que foi Satanaz

em

pessoa que, ao

modo

d'ave de rapina, o agarrou pelos cabellos, lhe cravou as garras e fugiu

com

elle.

Mas, se

em

tudo isso não tem

meu

filho culpas, tem-nas, desgraçadamente, no rapto de

uma

donzella formosa, que era toda a for-tuna de

uma

velha mãe, todos os encantos d'ella, toda a sua vida.

Isso

também

se não poderá provar...

Provo-o eu! acudiu, cheio de confiança e de certeza, o capitao-mór da terra da Feira.

Penso, comtudo, que.. .

— Oh

! n'essa parte, não

me

resta duvida alguma.

O

padre Vicente Gonçalves Lobo, notando a intimativa

com

que o capitão-mórlhefalava, percebeu que boas informaçõescolhera o velho;

e, n'este presupposto, achou que não devia obstinar mais

em

adduzir razões que

destruis-116 EMPREZA

DA

HISTORIA

DE

PORTUGAL

sem

as provas, ou dados que liavia contra o filho.

Temeu

derruir o edifício que erguera

em

favor do seu amigo. Calouse.

E

continuaram a andar ató que^

mesmo

quando passavam de-baixo do arco da Estrella, o capitão

mór

que-brou o silencio, dizendo:

Mas, sr. Lobo, onde poderei eu falar a

meu

filho?

Isso não sei, porque desde hontem que o nào vejo: no entanto eu vou indagar.. .

Pois sim, respondeu quasi machinalmente

o capitão-mór.

Gonçalves Lobo acompanhou-o até á

estala-gem; e, á porta d'ella, despediuse.

Deixemos

Francisco Jorge Ayres, sénior, entregue a tristes pezares, e observemosa rota que leva o illustre Carquejeiro.

Depois de atravessar a Calçada, Gonçalves

Lobo

subiu ao Arco de Almedina, galgou a Quebra-costas até ao meio, e, á esquerda,

to-mou

pela rua de Subripas.

Quando

chegou ao Collegio-novo, ou da pomposa Sapiência, cor-tou ainda sobre a esquerda e entrou no becco de S. Marcos. Defronte da casa de Coelha Manco,

chamou

por elle.

A

principio ninguém lhe respondeu;

mas

logo que repeliu o

nome

de Coelho

Manco

e se fez conhecido pela voz, ouviu que alguém descia a escada e que a chave volteava na

fe-chadura.

A

porta abriu-se, e o sujeito,que appareceu no limiar d'ella, disse para Gonçalves Lobo:

Estimo que chegasses. Sobe.

Também

te procurava, respondeu elle.

A

porta cerrou-se e os dous subiram.

— Que

é feitodo Coelho?perguntou oLobo.

o RANCHO DA CARQUEJA 1 17

Foi para tua casa, disse Francisco Jorge Ayres, que outro não era o queabrira a porta.

— Ha

alguma cousa?

Ha. Mas, dize-me primeiro, onde te

met-teste hontem á noute? Agora, porque não appareceste e o que passaste no Aljube?

— No

Aljube entrei facilmente, graças ao

meu

estado, e dei as necessárias providencias para que não faltasse cousa alguma ao beato.

Voltei ao bairro baixo,

mas

os não

encon-trei.

Mas, deixando isso, conta o que temos.

Conto; porém explica tu o motivo por que

me

procuravas.

Quero falar-te de teu pae.

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