diabólica satisfação...
Tremeu
pela sorte do filho!...Depois de uni instante de indizível
soffri-mento, de mortal atonismo e cruel lethargia, o velho pae de Francisco Jorge Ayres
empenhou
as forças todas n'um supremo esforço,acordou e perguntou a
uma
visinha pelo filho.Nada
! a visinha não o tinhavisto.Ninguém
sabia d'elle.
O
velho capitão-mór,em
similhante conjun-ctura, machinalmente se deixou ir para casa, sem queem
tal resolução tomasse parte a von-tade.Era um
autómato que andava e unica-mente obedecia á bete de que fala Xavier de Maistre.Um
académico apparecia na extremidade do becco, vindo da Sé Velha,O
pae de Jorge Ayres sahia do becco pelo lado opposto.Quando
o estudante chegou á porta da casa de Francisco Jorge Ayres, soube, por via deuma
visinha, que ohomem
que além desappa-recera, perguntara por seu filho; e que, ao dizerem lhe que não sabiam d'elle, porbem
pouco não cahira
sem
sentidos.Gonçalves Lobo, que não era outro o estu-dante, apressou o passo e foi na direcção que levara o honrado e bondoso capitão mór.
Alcançou-o
em
breve, porque trôpego e cam-baleante era o andar d'elle.—
Sr. capitãomór ! disse o padre Vicente Gonçalves Lobo.O
velho estacou.—
Sr. Francisco Jorge Ayres! tornou o académico.114
EMPREZA DA
HISTORIA DE PORTUGAL— Quem me chama
? poude murmurar, vol-tando-8e, o capitãomór
da terra da Feira.—
Sei que procurou seu filho...— E
que o não encontrei, interrompeu o velho. Acaso saberá alguma coisa? Diga me,sr. estudante,
meu
filho está preso? não está?—
Não, senhor,nem
para isso hamotivoal-gum.
— Não
ha motivo?! diz o senhor. Pois esta noite passada não foimeu
filho o auctor...—
E' inexacta a informação que tem, ata-lhou Gonçalves Lobo. Posso affirmar-lhe que essa desordemem
que tanto por ahi se fala,que essas pancadas no Beneficiado de S. Bar-tholoraeu, não foram dadas por seu filho,
nem mesmo
assistiu a isso.—
Certifica-m'o ?—
Confie na palavra de honradeum
padre.— O
senhor é, pois, amigo d'elle, conhecido ou...
—
Sou intimo amigo de seu filho.E, na verdade, não mentia Gonçalves Lobo.
Era um
dos melhores amigos que tinha o filhodo capitão mór.
—
Esclareça-me então, senhor.. .—
Vicente Gonçalves Lobo.—
Esclareça me, sr. Lobo, diga onde párameu
filho, tranquilliseum
pae amargurado e aíSicto.E
depois de se porem a caminho nadirecção da hospedaria da Portagem, Gonçalves Lobo, que não era demasiado escrupuloso no falar verdade, e que preferia servir melhor os seus interesses do que passar por Epaminondas, começou a tranquillizar por estemodo
ao in-consolável pae de seu amigo:o RANCHO
DA
CARQUEJA 115— Dizem
por ahi, por Coimbra, que todos esses distúrbios e desordens são feitas por es-tudantes. Isto não é assim.Na
desordem da rua das Fangas,um
dos elementos mais des-ordeiro foi inquestionavelmente o fradesco: na tunda que levou o pobre collega meu, lá para o bairro baixo, ha muitos bonsdados para crer que foram os burguezes coimbrõesos executo-res d'ella, e n'um trambulhão que fizeram dar auma
desgraçada creatura que por ahi ajuda ás missas pelas egrejas, e que até amim
mes-mo
tem prestado esse serviço, não se pode sa-ber pormodo
algumquem
foi quelh'o fez dar.A
noite estava escura; ninguém conheceu omal intencionado. Elle porsi, o misérrimo bea-to, que lá está no Aljube
com
as costas que-bradas, diz, jura e bate fé, que foi Satanazem
pessoa que, aomodo
d'ave de rapina, o agarrou pelos cabellos, lhe cravou as garras e fugiucom
elle.—
Mas, seem
tudo isso não temmeu
filho culpas, tem-nas, desgraçadamente, no rapto deuma
donzella formosa, que era toda a for-tuna deuma
velha mãe, todos os encantos d'ella, toda a sua vida.—
Issotambém
se não poderá provar...—
Provo-o eu! acudiu, cheio de confiança e de certeza, o capitao-mór da terra da Feira.—
Penso, comtudo, que.. .— Oh
! n'essa parte, nãome
resta duvida alguma.O
padre Vicente Gonçalves Lobo, notando a intimativacom
que o capitão-mórlhefalava, percebeu que boas informaçõescolhera o velho;e, n'este presupposto, achou que não devia obstinar mais
em
adduzir razões quedestruis-116 EMPREZA
DA
HISTORIADE
PORTUGALsem
as provas, ou dados que liavia contra o filho.Temeu
derruir o edifício que ergueraem
favor do seu amigo. Calouse.
E
continuaram a andar ató que^mesmo
quando passavam de-baixo do arco da Estrella, o capitãomór
que-brou o silencio, dizendo:—
Mas, sr. Lobo, onde poderei eu falar ameu
filho?—
Isso não sei, porque desde hontem que o nào vejo: no entanto eu vou indagar.. .—
Pois sim, respondeu quasi machinalmenteo capitão-mór.
Gonçalves Lobo acompanhou-o até á
estala-gem; e, á porta d'ella, despediuse.
Deixemos
Francisco Jorge Ayres, sénior, entregue a tristes pezares, e observemosa rota que leva o illustre Carquejeiro.Depois de atravessar a Calçada, Gonçalves
Lobo
subiu ao Arco de Almedina, galgou a Quebra-costas até ao meio, e, á esquerda,to-mou
pela rua de Subripas.Quando
chegou ao Collegio-novo, ou da pomposa Sapiência, cor-tou ainda sobre a esquerda e entrou no becco de S. Marcos. Defronte da casa de Coelha Manco,chamou
por elle.A
principio ninguém lhe respondeu;mas
logo que repeliu o
nome
de CoelhoManco
e se fez conhecido pela voz, ouviu que alguém descia a escada e que a chave volteava nafe-chadura.
A
porta abriu-se, e o sujeito,que appareceu no limiar d'ella, disse para Gonçalves Lobo:—
Estimo que chegasses. Sobe.— Também
te procurava, respondeu elle.A
porta cerrou-se e os dous subiram.— Que
é feitodo Coelho?perguntou oLobo.o RANCHO DA CARQUEJA 1 17
—
Foi para tua casa, disse Francisco Jorge Ayres, que outro não era o queabrira a porta.— Ha
alguma cousa?—
Ha. Mas, dize-me primeiro, onde temet-teste hontem á noute? Agora, porque não appareceste e o que passaste no Aljube?
— No
Aljube entrei facilmente, graças aomeu
estado, e dei as necessárias providencias para que não faltasse cousa alguma ao beato.Voltei ao bairro baixo,
mas
já os nãoencon-trei.
Mas, deixando isso, conta lá o que temos.