5.3 Propriedades Magn´eticas
5.3.5 EuFe 0.5 Mn 0.5 O 3
O comportamento magn´etico da amostra de EuFe0.5Mn0.5O3 em func¸˜ao da temperatura
pode ser visualizado na Figura 5.69.
50 100 150 200 250 300 0.20 0.25 0.30 0.35 0.40 0.45 0.50 0.55 0.60 0.65 0.70 FCC ZFC M / H ( e m u / m o l O e ) Temperatura (K) T~206 K H = 1 kOe 180 195 210 225 0.28 0.30 ZFC M / H T(K)
Figura 5.69: M/H × T ZFC e FC para amostra EuFe0.5Mn0.5O3 com campo de 1 kOe.
As medidas magn´eticas foram tomadas seguindo os protocolos de medidas ZFC e FC, entre 2 K e 300 K10 com aplicac¸˜ao de v´arios campos magn´eticos. Em alta temperatura, a
amostra apresenta valores de M/H ZFC e FC com valores da ordem de 0.25 emu/mol Oe. Este valor apresenta um aumento `a medida que seguimos reduzindo a temperatura. O aumento da magnetizac¸˜ao alcanc¸a o m´aximo local de aproximadamente 0.3 emu/mol Oe em 206 K. Abaixo desta temperatura, a curva ZFC apresenta mudanc¸a de comportamento apresentando leve queda
5.3 Propriedades Magn´eticas 119
de valor. Em temperaturas mais baixas, a magnetizac¸˜ao apresenta leve aumento de intensi- dade, at´e que abaixo de 50 K, ela aumenta alcanc¸ando o m´aximo em 2 K com valor cerca 0.69 emu/mol Oe. O comportamento da curva FCC, por outro lado apresenta valores de M/H leve- mente menor que apresentadas pela curva ZFC. Seu comportamento tamb´em aumenta `a medida que a temperatura ´e reduzida, contudo, somente em torno de 180 K a curva FCC encontra-se com a curva ZFC, apresentando valores e comportamento semelhante.
Com objetivo de visualizar melhor o comportamento da amostra, efetuamos novas medidas de magnetizac¸˜ao tomadas entre 2 K e 390 K com campos diferentes, como ilustra a Figura 5.70.
Figura 5.70: Curvas M/H × T ZFC e FC para amostra EuFe0.5Mn0.5O3com campos 40 Oe, 3.5 kOe
e 10 kOe.
A raz˜ao M/H da curva ZFC tomada com baixo campo (40 Oe) apresenta valor em torno de 0.24 emu/mol.Oe em 390 K. A magnetizac¸˜ao cresce `a medida que a temperatura ´e reduzida. Em 300 K, M/H exibe valor aproximado de 0.29 emu/mol.Oe. A magnetizac¸˜ao permanece nesta faixa de valor at´e que abaixo de 206 K uma queda abrupta ocorre at´e 200 K. Em temperaturas menores que 206 K, a magnetizac¸˜ao continua a cair at´e mudar de sinal em 20 K e alcanc¸ando a magnetizac¸˜ao de -0.09 emu/mol.Oe em 2 K.
O comportamento da curva ZFC compartilha poucas caracter´ısticas com a curva ZFC me- dida em com H = 1 kOe, a n˜ao ser a mudanc¸a abrupta em torno de 206 K. O comportamento intrigante da curva ZFC nos motivou a repetir o experimento, obtendo mesmo resultado.
5.3 Propriedades Magn´eticas 120
Oe) compartilha as caracter´ısticas gerais observada nas curvas com campo de 1 kOe. Em 390 K, a curva M/H FC apresenta o mesmo valor que a curva ZFC. Este comportamento segue at´e 330 K em que a curva FC separa-se da ZFC, continuando a crescer at´e atingir a temperatura em torno de 206 K, onde uma queda abrupta se segue at´e 176 K. Abaixo desta temperatura, a magnetizac¸˜ao permanece com valor em torno de 0.37 emu/mol.Oe. Esta constˆancia ´e persistente at´e 50 K em que a magnetizac¸˜ao volta a subir atingindo o valor m´aximo de 0.57 emu/mol.Oe em 3 K.
A curva M/H (FC) apresenta os mesmos aspectos encontrados nas curvas obtidas com H = 1 kOe. Em especial a queda abrupta em 206 K e o aumento da magnetizac¸˜ao abaixo de 50 K. Seguindo a mesma tendˆencia das curvas obtidas com campo de 1 kOe, as curvas ZFC e FC obtidas com H = 3.5 kOe apresentam um aumento da magnetizac¸˜ao em func¸˜ao da reduc¸˜ao da temperatura. A evoluc¸˜ao da curva apresenta mudanc¸a percept´ıvel em 206 K em que a magnetizac¸˜ao reduz sua taxa de crescimento11 at´e 176 K, onde a magnetizac¸˜ao volta a crescer.
Abaixo de 50 K o crescimento ´e intensificado at´e alcanc¸ar o m´aximo de 0.27 emu/mol.Oe em 4.9 K. As curvas ZFC – FC s˜ao praticamente coincidentes, tendo assim pouca diferenc¸a en- tre elas. Esta caracter´ıstica tamb´em foi observada nas curvas ZFC–FC obtidas com campo de 10 kOe. Nestas curvas, observamos a mudanc¸a de comportamento abaixo 206 K em que a magnetizac¸˜ao reduz a taxa de crescimento at´e 196 K voltando a crescer mais acentuadamente abaixo de 50 K.
Como observado at´e agora, todas as curvas apresentam mudanc¸a de comportamento em torno de 206 K. Com excec¸˜ao da curva ZFC (40 Oe) todas apresentam outra mudanc¸a no com- portamento da magnetizac¸˜ao abaixo de 50 K. Tamb´em observamos que o perfil do pico em 206 K reduz `a medida que experimentos s˜ao feitos com campos mais intensos. Este comportamento tamb´em foi observado em outras ortoferritas, tais como: DyFe0.5Mn0.5O3 , DyFe0.5Al0.5O3 e
GdFe0.5Mn0.5O3onde o pico associado `a reorientac¸˜ao de spin reduz com a aplicac¸˜ao de campos
magn´eticos mais intensos.
O entendimento do comportamento magn´etico pode ser obtido levando em considerac¸˜ao o comportamento das amostras n˜ao dopadas EuMnO3, EuFeO3 e outras amostras isoestruturais
dopadas com Mn, como tamb´em, os efeitos da soluc¸˜ao s´olida nas propriedades magn´eticas. ´
E conhecido que o EuMnO3apresenta m´ultiplas transic¸˜oes. Abaixo de 43 (50) K, o EuMnO3
transita da fase paramagn´etica para um arranjo incomensur´avel. Reduzindo a temperatura, uma nova ordem se apresenta, formando um arranjo antiferromagn´etico do tipo A. Em temperaturas criogˆenicas, forma-se uma componente ferromagn´etica fraca (Ferreira et al. 2009).
5.3 Propriedades Magn´eticas 121
O EuFeO3, por outro lado, apresenta um ordenamento antiferromagn´etico do tipo G, com
temperatura de N´eel aproximadamente 662 K. Ordenamento magn´etico que o EuFeO3 apre-
senta n˜ao ´e colinear, de forma que a ordem antiferromagn´etica tem uma pequena resultante ferromagn´etica fraca que persiste at´e temperaturas criogˆenicas. A componente ferromagn´etica fraca adv´em da existˆencia da interac¸˜ao antissim´etrica DM que favorece o alinhamento perpen- dicular entre os momentos (Seifu, Takacs e Kebede 2006).
Como as outras ortoferritas, a amostra EuFe0.5Mn0.5O3 ´e uma perovskita desordenada, ou
seja, nos centros dos octaedros h´a uma populac¸˜ao de Mn3+ e Fe3+ distribu´ıda aleatoriamente.
Desta forma, do ponto de vista magn´etico, as propriedades s˜ao predominantemente mediadas pela interac¸˜ao Fe–O–Mn. Assim, as interac¸˜oes Fe–O–Fe e Mn–O–Mn podem ser consideradas como impurezas na matriz Fe–O–Mn e contribuem para o estabelecimento entre fases com- plexas.
Partindo destas informac¸˜oes tecemos algumas sugest˜oes concernente a poss´ıveis efeitos que definem o comportamento magn´etico do EuFe0.5Mn0.5O3 .
Sugerimos que a anomalia em torno de 206 K pode ser associada a uma reorientac¸˜ao de spin, como ocorre em outras ortoferritas. Contudo, n˜ao ´e comum que nas ortoferritas com terra rara n˜ao magn´etica, apresentar reorientac¸˜ao de spin espontˆanea. A terra rara magn´etica ´e um requisito necess´ario que possibilita a existˆencia de reorientac¸˜ao de spin. Por isso, ´e dito que ortoferritas como YFeO3n˜ao apresentam reorientac¸˜ao de spin pois os s´ıtios A n˜ao s˜ao ocupados
por terras raras magn´eticas.
Por outro lado, medidas magn´eticas e difrac¸˜ao de nˆeutrons na amostra isoestrutural YFe0.5Mn0.5O3
demonstraram a ocorrˆencia de reorientac¸˜ao de spin e invers˜ao magn´etica; caracter´ısticas comuns `as ortoferritas de terras raras magn´eticas (Mandal et al. 2013).
O fato not´avel do YFe0.5Mn0.5O3 ´e que a reorientac¸˜ao de spin ´e ativada pela competic¸˜ao
entre ´ıons no s´ıtio B, ou seja entre Mn e Fe. Segundo o estudo, o efeito Jahn-Teller ´e um ingrediente fundamental na reorientac¸˜ao, de forma que n˜ao ´e preciso haver terra rara magn´etica para mudar o eixo f´acil de magnetizac¸˜ao (Mandal et al. 2013).
Tendo em conta a possibilidade de haver reorientac¸˜ao de spin sem a necessidade de terra rara magn´etica em ortoferritas, sugerimos que a mudanc¸a da magnetizac¸˜ao entre 176 K e 206 K seja uma reorientac¸˜ao de spin ativada por Jahn-Teller dos octaedros que cont´em Mn3+.
Uma medida de M¨ossbauer feita por Li et al. em amostras EuFe0.5Mn0.5O3 indicou
anomalia nos parˆametros. Segundo o trabalho, o deslocamento isom´erico IS apresenta valo- res indicando que n˜ao h´a variac¸˜ao de valˆencias dos ´ıons. O fato interessante adv´em de o termo
5.3 Propriedades Magn´eticas 122
quadruplar que apresentam valores indicando um forte gradiente el´etrico no entrono do Fe. A explicac¸˜ao fact´ıvel que inclui os valores do deslocamento isom´erico e do termo quadruplar ´e que o ambiente do Fe est´a sentindo um gradiente intenso por causa da existˆencia do efeito Jahn-Teller provocado por ´ıons Mn3+ (Li et al. 1998). A mesma t´ecnica foi aplicada no estudo do YFe1−xMnxO3 e espectros foram obtidos em func¸˜ao da temperatura. Segundo os experi-
mentos realizados por Sundarayya et al. a reorientac¸˜ao de spin resulta em mudanc¸a no termo quadruplar caracterizado pela mudanc¸a de seu sinal (Sundarayya et al. 2011). Esta informac¸˜ao corrobora com a hip´otese de que o composto EuFe0.5Mn0.5O3 apresenta Jahn-Teller de forma
que possibilite reorientac¸˜ao de spin com mecanismo semelhante ao mecanismo encontrado no YFe0.5Mn0.5O3 (Mandal et al. 2013).
A reorientac¸˜ao de spin ativada pelo Mn3+tamb´em foi encontrada em amostras LuFe1−xMnxO3
cuja terra rara Lu3+ tamb´em n˜ao ´e magn´etica. Segundo Qin et al. o composto n˜ao dopado
LuFeO3 exibe um crescimento monotˆonico da magnetizac¸˜ao com a reduc¸˜ao da temperatura,
enquanto a amostra LuFeO3 dopada com 5% apresenta reduc¸˜ao dram´atica abaixo de 108 K, a
qual ´e associada a uma reorientac¸˜ao de spin provida pelo Mn3+(Qin, Liu e Chen 2013).
As argumentac¸˜oes expostas at´e agora foram concentradas na possibilidade de existˆencia de reorientac¸˜ao de spin em ortoferritas de terra rara n˜ao magn´etica dopadas, com Mn e associamos tais argumentac¸˜oes ao EuFe0.5Mn0.5O3 cujo Eu3+ no estado fundamental n˜ao ´e magn´etico.
Contudo, al´em dos fatores que contribuem para a reorientac¸˜ao de spin espontˆanea proveniente do Mn3+possivelmente pode ter uma pequena contribuic¸˜ao do Eu3+(Takikawa, Ebisu e Nagata 2010). ´E poss´ıvel que o primeiro estado excitado magn´etico forme uma mistura com o estado fundamental do Eu3+ devido ao efeito do campo molecular gerado pela subrede do Fe (Mn).
Logicamente, a populac¸˜ao de el´etrons no estado excitado ´e dependente da temperatura, de forma que a fraca interac¸˜ao eu–Fe (Mn) mude com a temperatura possibilitando reorientac¸˜ao de spin. Esta possibilidade foi considerada por (Durbin et al. 1976).
A medida de magnetizac¸˜ao em func¸˜ao do campo magn´etico foi tomada em algumas tempe- raturas.
A magnetizac¸˜ao em func¸˜ao do campo magn´etico para 5 K apresenta um destacado lac¸o de histerese. Os valores de magnetizac¸˜ao remanente ´e em torno de 0.12 µBe campo coercitivo 640
Oe. A magnetizac¸˜ao tende para valores cerca de 0.45 µBpara campos de 4 T.
`
A medida que a temperatura ´e aumentada, as medidas apresentam, como esperado reduc¸˜ao do lac¸o da histerese como tamb´em o valor da sua tendˆencia `a saturac¸˜ao ´e reduzido. Em tem- peraturas mais altas como 300 K, as curvas apresentam lac¸os de histerese. A existˆencia das irreversibilidades em temperatura ambiente ´e um ind´ıcio claro que a amostra ainda apresenta
5.3 Propriedades Magn´eticas 123 -40 -30 -20 -10 0 10 20 30 40 -0.45 -0.30 -0.15 0.00 0.15 0.30 0.45 5 K 20 K 100 K 220 K 300 K M a g n e t i z a ç ã o ( B / f . u . )
Campo Magnético (kOe)
-10 -5 0 5 10 -0.3 -0.2 -0.1 0.0 0.1 0.2 M ( B / f . u . ) H (kOe) -4 -2 0 2 4 -0.10 -0.05 0.00 0.05 M ( B
Figura 5.71: M × H para amostra EuFe0.5Mn0.5O3nas temperaturas 5 K, 20 K, 220 K e 300 K. Insets:
detalhes dos lac¸os de histerese para algumas temperaturas.
ordenamento magn´etico nesta temperatura.
A magnetizac¸˜ao em func¸˜ao do campo magn´etico do EuFe0.5Mn0.5O3 ´e intrigante, pois
apresenta lac¸os de histerese mais persistentes em temperaturas mais altas que outras amostras ortoferritas tais como DyFe0.5Mn0.5O3e GdFe0.5Mn0.5O3.
Uma poss´ıvel explicac¸˜ao das curvas de MxH em especial abaixo da temperatura de reorientac¸˜ao ´e atribuir ao sistema a coexistˆencia de fases magn´eticas de forma a reproduzir as complexas car- acter´ısticas observadas. Semelhante sugest˜ao foi tamb´em aplicada na caracterizac¸˜ao do com- portamento da amostra isoestrutural YFe1−xMnxO3.
Espectros M¨ossbauer de amostras YFe1−xMnxO3 refinados, considerando as vizinhanc¸as,
tˆem demonstrado variac¸˜ao de sinal do termo quadrupolar indicando uma interac¸˜ao antifer- romagn´etica envolvendo Fe–Mn. Contudo, medidas tomadas logo acima da temperatura de reorientac¸˜ao de spin tˆem indicado a formac¸˜ao de fases antiferromagn´etica com ferromagnetismo fraco e antiferromagn´etica coplanar (Sundarayya et al. 2011). De fato, alguns compostos tˆem apresentado trac¸os de coexistˆencia de fases magn´eticas tais como Pr0.66Ca0.33MnO3, que apre-
senta ferromagnetismo met´alico e antiferromagnetismo proveniente por ordenamento de carga e o HoCrO3 que tem coexistˆencia de ferromgnetismo e antiferromagnetismo com ferromag-