4. O VOTO PLURAL NO DIREITO COMPARADO
4.2. Europa
Na União Europeia, observa-se a ausência de padronização no ordenamento jurídico dos Estados-Membros com relação à permissão do voto plural devido à inexistência de Diretiva que regulamente o tema75.
Na França, as ações com voto plural têm por objeto (i) recompensar aos acionistas mais antigos; e (ii) proteger a sociedade contra medidas oportunistas de investidores de curto prazo76. Tais ações, uma vez transferidas, perdem o direito ao voto plural, exceto no caso de sucessão77.
74 SHARFMAN, 2018, p. 35.
75 PAJUSTE, Anete. Working paper series no. 465. Determinants and consequences of the unification of Dual-Class Shares. European Central Bank. 2005. Disponível em:
https://www.ecb.europa.eu/pub/pdf/scpwps/ecbwp465.pdf. Acesso em: 16 nov. 2020.
76 PITTA, André Grunspun. A capitalização da empresa e o mercado de valores mobiliários.
77 Code de commerce, artigo L225-124.
O Code de Commerce, vedava até 2014, em princípio, a emissão de ações com voto plural78, também conhecidas no ordenamento jurídico francês como “ações de voto duplo”,
“ações de fidelidade” ou “ações de lealdade” 79. No entanto, admitia uma exceção ao autorizar que o estatuto social pudesse prever esse instrumento para os acionistas titulares de ações ordinárias que se mantivessem na titularidade ininterrupta das ações após o decurso de determinado período de tempo, não inferior a dois anos.
Com a reforma introduzida pela Lei nº 2014-384 de 2014 (Lei Florange), a estrutura de classe dual passou a ser regra geral para todas as companhias com ações em circulação no mercado de valores mobiliários, exceto se houvesse previsão de cláusula estatutária proibindo a sua implementação80.
De qualquer forma, as companhias que preferem adotar o princípio do “one share, one vote”, podem convocar assembleia geral para deliberar sobre a alteração do estatuto social e a consequente exclusão do voto plural81.
A Lei Florange visou a promover a melhoria da economia francesa. A reforma legislativa teve por fim incentivar e recompensar os investimentos de longo prazo e reduzir aqueles de curto prazo.
Nas companhias de capital fechado, o voto plural pode ser introduzido no estatuto social desde que a deliberação seja aprovada por acionistas que representem ao menos 2/3 do capital social. Entretanto, esse instrumento não é muito comum nessas sociedades, que, em geral, contam com a figura de um acionista controlador.
Com a mudança na legislação francesa, determinados players do mercado se posicionaram contra o regime do voto plural. Os proxy advisors e os investidores institucionais incentivaram os acionistas a não adotarem a Lei Florange.
A Glass Lewis & Co., prestadora de serviços de proxy advisory, por exemplo, fez constar nas suas diretivas de 2015 que, se as companhias com ações de fidelidade não levassem à deliberação dos acionistas a inclusão no estatuto social de cláusula opt-out para o regime dessas ações até a assembleia geral ordinária de 2015, a recomendação seria a de que
79 Code de commerce, artigo L225-122.
80 Code de commerce, artigo L225-123.
81 OLIVEIRA, Madalena Perestrelo de. Direito de voto nas sociedades cotadas: da admissibilidade de categoria de ações com direito de voto plural às L-shares. Revista de Direito das Sociedades, 2015. Disponível em:
http://www.revistadedireitodassociedades.pt/files/RDS%202015-02%20(435-470)%20-%20Doutrina%20-
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20voto%20plural%20%C3%A0s%20L-shares.pdf. Acesso em: 04 nov. 2020.
votassem contra a aprovação dos atos da administração referentes ao exercício social do ano anterior82.
Os investidores institucionais, tais como o hedge funds Alliance Trust e o Vivendi, também foram desfavoráveis à alteração legislativa, pois não havia interesse em criar estratégias que incentivassem investimentos de longo prazo, mas, sim, adotar “short-term boosts” no preço das ações83.
Na Itália, o Código Comercial de 1865 e 1882 não previa qualquer restrição à emissão de ações com voto plural. O Código Comercial de 1882 proibia apenas a emissão de ações sem direito a voto.
No final do século XIX e início do século XX, a ideia de que todos os acionistas deveriam ter direito de voto proporcional à sua participação no capital social começou a ganhar força. No entanto, em decorrência da inflação acentuada, resultante do final da Primeira Guerra, que deixou os acionistas preocupados com a possibilidade de tomada hostil do controle das companhias italianas por investidores estrangeiros, o voto plural foi mantido84.
Em 1942, com a introdução do Codice Civile e a retomada do debate sobre a proporcionalidade do direito de voto, o princípio do “one share, one vote” tornou-se obrigatório na Itália85.
Em 2014, após a migração da sede da Chryslet-Fiat – uma das multinacionais italianas mais importantes – da Ausonia para a Holanda, com o objetivo de aproveitar os mecanismos de governança daquele País, em especial a emissão de ações com voto plural, intensificou-se na Itália os debates sobre a dual-class share86.
Assim, o governo italiano, como parte do pacote de reformas elaboradas para atrair companhias de capital fechado a se listarem nas bolsas de valores, bem como para assegurar maior liberdade contratual ao direito societário, permitiu a emissão de ações ordinárias com
82 GLASS LEWIS. Guidelines 2015 proxy season. An overview of the Glass Lewis approach to proxy advice.
France. Disponível em: www.glasslewis.com. Acesso em: 17 nov. 2020.
83 OLIVEIRA, Direito de voto nas sociedades cotadas: da admissibilidade de categoria de ações com direito de voto plural às L-shares. Acesso em: 04 nov. 2020.
84 ITALY’S dual-share scheme will cement its family business culture. Family Capital. Feb. 2015. Disponível em: https://www.famcap.com/2015/02/2015-2-24-italys-dual-share-scheme-will-cements-its-family-business-culture/. Acesso em: 5 nov. 2020.
85 COLETTI, Antonio; PORCHIA, Isabella & BARTOLOMEI, Guido. Italy Introduces Multiple Voting Shares for Listed Companies. Lexology. May. 2020. Disponível em:
https://www.lexology.com/library/detail.aspx?g=6f7aa49d-165b-4727-a080-fb79d6934524. Acesso em: 28 nov.
2020.
86 VENTORUZZO, Marco. Disappearing Taboo of Multiple Voting Shares: Regulatory Responses to the Migration of Chrysler-Fiat. Working Paper Series in Law. SSRN – Social Science Research Network. Mar.
2015. Disponível em: http://ssrn.com/abstract_id=2574236. Acesso em: 25 nov. 2020.
atribuição de maior poder de voto aos antigos acionistas – ou seja, àqueles que estivessem na companhia há mais tempo.
Nesse sentido, o Decreto legge 24 giugno 2014, nº 90 alterou o Codice Civile para possibilitar a (i) limitação de votos nas sociedades por ações; e (ii) criação de ações com voto plural, limitado a três votos por ação, aplicável a determinadas matérias definidas no estatuto social ou sujeitas a condições não potestativas, salvo quando previstas em lei especial87.
O Codice Civile também introduziu instrumento semelhante ao das “ações de fidelidade” disciplinadas na lei francesa, ao atribuir direito de voto adicional aos acionistas que permanecessem titulares de ações da companhia por determinado período88.
Além disso, a legislação italiana admitiu que companhias com ações negociadas em mercado de valores mobiliários regulassem em seus estatutos dispositivo autorizando o aumento da quantidade de voto por acionista, desde que limitado a dois votos para cada um e que mantivesse a titularidade de suas ações por prazo não inferior a dois anos89.
Ao contrário da França e da Itália, na Alemanha, §12 (2) AktG proíbe expressamente o voto plural (Mehstimmrecht). Além disso, somente as companhias fechadas podem limitar o número de votos dos acionistas.
No entanto, essa não era a regra vigente até a entrada em vigor do AktG. De acordo com o anterior regime societário alemão (HGB), não havia qualquer restrição à emissão de ações com voto plural. Porém, o uso abusivo deste mecanismo levou à discussão sobre a sua manutenção quando da reforma societária de 1937. Nessa época, o legislador optou por uma solução intermediária, com a vedação desse instrumento e a possibilidade de, a pedido da sociedade e justificado o seu interesse, ser autorizada a sua adoção por decisão ministerial.
Esse regime vigorou até a aprovação da AkTG em 1965, quando o voto plural foi proibido em absoluto e sem exceções90. Segundo o legislador, o objetivo que autorizava a sua concessão – que era a proteção das sociedades alemãs contra a aquisição por investidores estrangeiros – não estava sendo atingido, razão pela qual não mais se justificava a sua manutenção.
87 Code Civile, art. 2351, 4º comma.
88 Code Civile, art. 2351, 3º comma.
89 Testo único, art.127-sexies.
90 SILVA, Luis Correia da; GOERGEN, Marc; RENNEBOOG, Luc. Dividend Policy and Corporate
Governance. Oxford University Press, 2004. Disponível em:
https://books.google.com.br/books?id=dFYTDAAAQBAJ&pg=PA19&lpg=PA19&dq=books+dual+class+share s&source=bl&ots=jYLlG775Le&sig=ACfU3U0_ZrU0aI3r2FGSTfBC4GXAN15Q8w&hl=en&sa=X&ved=2ah UKEwiN4P7F6LvqAhXDIbkGHQbNAScQ6AEwB3oECAkQAQ#v=onepage&q=books%20dual%20class%20 shares&f=false. Acesso em: 01 nov. 2020.
Ainda sobre a existência dessa estrutura na Europa, o relatório Sherman&Sterling ISS-ECGI, que trata da proporcionalidade entre a titularidade das ações e o controle, observou que, na Suécia, companhias de todos os tamanhos asseguram a determinado grupo de acionista direito ao voto plural91.
Conforme esse relatório, a maioria das companhias suecas emitem ações ordinárias classe A com direito a 10 votos por ação e ações ordinárias classe B com direito a um voto por ação. Essas últimas, em geral, representam mais da metade do capital social92.
Na Finlândia e na Dinamarca, as companhias também emitem ações ordinárias classe A e classe B com o mesmo valor nominal e direito de voto distinto. As ações classe B são listadas em bolsa enquanto as ações classe A podem ou não ser listadas. Na Finlândia, as ações classe A, em geral, têm direito a 10 votos por ação, podendo esse número ser superior93. Na Dinamarca as ações classe A devem obrigatoriamente respeitar o limite máximo de 10 votos por ação.
Na Noruega, o voto plural é proporcional ao valor nominal das ações. Ou seja, o número de votos atribuíveis a cada ação é proporcional à sua fração do capital social, mas não necessariamente ao valor de mercado da ação. Embora várias companhias norueguesas implementem o mecanismo do voto plural, na maioria dos casos, tais ações não são negociadas no mercado acionário, concentrando-se mais nas sociedades de capital fechado.