3 RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PAIS
3.2 A EVOLUÇÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PAIS NO DIREITO
Delimitou-se anteriormente as teorias que circundam o instituto da responsabilidade civil. Se falou, também, que a capacidade é uma condição para que haja responsabilização e dever de indenizar. Bem por isso, as pessoas que não atingiram a maioridade, em regra não respondem pelos seus atos que causem danos porque, embora “[...] se trate de atos ilícitos, não compõem a figura jurídica do delito civil, porque lhes falta um dos caracteres essenciais da responsabilidade civil: o serem imputáveis a ele.”121
A responsabilidade civil dos pais pelos atos dos filhos menores foi enquadrada no art. 1.521 do CC/1916, instituidor da responsabilidade por atos de terceiros – ou responsabilidade indireta. Concernente à responsabilização dos pais, o referido artigo de lei previa em seu inciso
118 TEPEDINO, Gustavo; TERRA, Aline de Miranda Valverde; GUEDES, Gisela Sampaio da Cruz. Fundamentos de direito civil: responsabilidade civil. Rio de Janeiro: Forense, 2020. v. 4. p. 111. E-book.
Acesso restrito via Minha Biblioteca; SCHREIBER, Anderson. Manual de direito civil contemporâneo. 3. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. p. 651. E-book. Acesso restrito via Minha Biblioteca; STOCO, Ruy.
Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014. p.
263.
119 STOCO, Ruy. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. 10. ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2014.
120 STOCO, Ruy. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. 10. ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2014.
121 MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito de Família. Campinas: Bookseller, 2001. 3 v. Atualizado por:
I que respondem pela reparação civil os “[...] pais, pelos filhos menores que estiverem sob seu poder e em sua companhia.”122
À época, a vítima deveria comprovar que o responsável mediato (pais, tutores, empregadores etc) concorreu com culpa para o evento danoso, segundo o que previa o art. 1.523 do CC/1916: “Excetuadas as do art. 1.521, n. V, só serão responsáveis as pessoas enumeradas nesse e no artigo 1.522, provando-se que elas concorreram para o dano por culpa, ou negligência de sua parte.” Apoiava-se, dessa forma, à teoria de culpa in vigilando e in elegendo.123
Tal expediente era tomentoso para a vítima, vez que percebia dificuldades na comprovação da culpa. Conforme apontam Tepedino, Terra e Guedes:
Nesse contexto, o dano exsurgia não só do fato reprovável do terceiro, inimputável ou de difícil imputabilidade, mas também do fato próprio, vale dizer, da omissão no dever de escolha (culpa in elegendo) ou de vigilância (culpa in vigilando) sobre aquele terceiro causador direto da lesão e deflagrador da responsabilidade. 124
A mudança de perspectiva da culpa foi alterada, posteriormente, com o advento do Decreto n. 17.943-A, de 12 de outubro de 1927 (Código de Menores), prevendo o seu §4º, do art. 68 que são “[...] responsaveis, pela reparação civil do damno causado pelo menor os paes ou a pessoa a quem incumba legalmente a sua vigilancia, salvo si provarem que não houve da sua parte culpa ou negligencia. (Cod. Civ., arts. 1.521e 1.623.)”125, passando a ser presumida a culpa dos pais pelos atos dos filhos. Consequência disso foi que, formulada a pretensão para reparação de danos causados pelo infante, aos pais incumbia o ônus de provar que não houve culpa ou negligência de sua parte.126
Tal dispositivo legal não foi trabalhado pelo Código sucessor (Lei n. 6.697/1979), o que ensejou na discussão intertemporal de leis, posto que essa, revogando integralmente o Código antecessor, que por sua vez havia revogado o inciso I, do art. 1.521 do CC/1916127, não trouxe expressamente esse – efeito repristinatório –, conforme a teoria adotada pelo ordenamento
122 BRASIL. Lei nº 3.071, de 01 de janeiro de 1916. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. Rio de
Janeiro, RJ, 01 jan. 1916. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l3071.htm. Acesso em: 20 out. 2020.
123 STOCO, Ruy. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. 10. ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2014. p. 1271.
124 TEPEDINO, Gustavo; TERRA, Aline de Miranda Valverde; GUEDES, Gisela Sampaio da Cruz. Fundamentos de direito civil: responsabilidade civil. Rio de Janeiro: Forense, 2020. v. 4. E-book. Acesso
restrito via Minha Biblioteca.
125 BRASIL. Decreto nº 17.943-A, de 12 de outubro de 1927. Código de Menores. Rio de Janeiro, RJ, 12 out.
1927. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l3071.htm. Acesso em: 20 out. 2020.
126 PEREIRA, Cáio Mario da Silva. Responsabilidade civil. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018. E-book.
Atualizado por Gustavo Tepedino. p. 120. Acesso restrito via Minha Biblioteca.
jurídico pátrio, expressa no §3º, do art. 2º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB).128
Em que pese essa situação, continuou vigorando a presunção de culpa, sobretudo porque à época seguia-se a orientação da Súmula n. 341 do STF (1963), estabelecendo a presunção da culpa do patrão ou comitente pela prática de ato culposo do empregado ou preposto129 bem
como houve intensa influência doutrinária e jurisprudencial para consolidação do entendimento. 130
A orientação, mesmo sendo uma evolução positiva em relação à anterior, não livrou a vítima do dano das dificuldades em ser indenizada, vez que aos responsáveis pelo terceiro causador do dano restava a possibilidade de se isentar, mediante a comprovação de que não agiram com culpa ou que foram cautelosos. Diante dessa possibilidade, Tepedino, Terra e Guedes explicam que:
[...] os Tribunais tornaram-se refratários à demonstração de ausência de culpa, e se consolidou, ao menos no caso da responsabilidade do patrão pelo ato culposo do empregado (art. 1.521, III), a presunção absoluta. A rigor, referida interpretação acabou por produzir resultado prático equivalente à adoção da teoria objetiva, na medida em que se afastava por completo a possibilidade de demonstração da ausência de culpa in eligendo ou in vigilando, e apenas se elidia a responsabilidade pelas excludentes de causalidade.131
Já se acenava, portanto, para uma mudança de postura, a qual se oficializou com o CC/02. Este, ao tratar da responsabilidade civil dos pais pelos atos de seus filhos menores de idade, estabeleceu, no art. 932, inciso I que respondem pela reparação civil “[...] os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia; [...]”132 e que, segundo o art. 933, as “[...] pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja
128 PEREIRA, Cáio Mario da Silva. Responsabilidade civil. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018. Atualizado
por Gustavo Tepedino. p. 120. Acesso restrito via Minha Biblioteca.
129 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Súmula nº 341, Com Base no Re de Nº 41.661. Recorrente: Expresso
Brasileiro Viação LTDA.. Recorrida: Maria Aparecida Aguiar Martins e seus filhos. Relator: Ministro Hahnemann Guimarães. Brasília, DF de 1964. Súmula da Jurisprudência Predominante do Supremo Tribunal Federal - Anexo Ao Regimento Interno: Edição: Imprensa Nacional, 1964, p. 149.. Brasília, 13 dez. 1963. Sessão Plenária de 13/12/1963. Disponível em:
http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=341.NUME.%20NAO%20S.FLSV.&base =baseSumulas. Acesso em: 20 out. 2020.
130 RIZZARDO, Arnaldo. Responsabilidade civil. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019. p. 247. E-book. Acesso
restrito via Minha Biblioteca; TEPEDINO, Gustavo; TERRA, Aline de Miranda Valverde; GUEDES, Gisela Sampaio da Cruz. Fundamentos de direito civil: responsabilidade civil. Rio de Janeiro: Forense, 2020. v. 4. p. 132. E-book. Acesso restrito via Minha Biblioteca.
131 TEPEDINO, Gustavo; TERRA, Aline de Miranda Valverde; GUEDES, Gisela Sampaio da Cruz. Fundamentos de direito civil: responsabilidade civil. Rio de Janeiro: Forense, 2020. v. 4. E-book. Acesso
restrito via Minha Biblioteca.
132 BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Brasília, DF: Presidência da República,
2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em: 31 ago. 2020.
culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali referidos.”133 O CC/02, então, finalizou a discussão estabelecendo uma hipótese legal de responsabilidade civil objetiva, cujo a isenção do dever de indenizar segue a orientação de comprovação das causas de rompimento do nexo causal.134
Desnecessários são os esforços da vítima para comprovação da culpa, como em outrora, posto que a ilicitude de tais casos é por ela intangível. Como vai a vítima, em algo afeito à condição paterna e materna, perquirir a existência de falhas na educação do infante? Andou bem o legislador em, seguindo o caminho desbravado pela doutrina e jurisprudência, estabelecer tal hipótese.
Segundo os ensinamentos de Rizzardo:
Já o art. 933 enfatiza a responsabilidade objetiva: “As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali referidos.” Como se não bastasse a norma do art. 932, que já era suficiente para atribuir a responsabilidade das pessoas que nomeia, acresceu-se a do art. 933, reafirmando com mais veemência o princípio, e nem dando ensanchas para provar a inexistência de culpa. Por imposição das regras, todo e qualquer dano causado pelas pessoas mencionadas no art. 932 é reparável pelos que desempenham a guarda ou vigilância, não logrando qualquer êxito a escusa ou a excludente com base na inexistência de culpa.
[...]
Por uma interpretação que foi criando corpo desde tempos antigos e veio a se plenificar presentemente, não mais se indaga de culpa do que exerce a vigilância ou tem a guarda. Não cabe buscar falhas na educação, descuido, concessão de excesso de liberdade, ausência, mau exemplo, falta de orientação, destempero na conduta e no modo de tratar.135
Porque é inevitável o caminhar social, e é dele que o direito fica atrás, a análise do teor do art. 932, inciso I do CC/02 se faz necessária, sobretudo porque conjugado com o instituto do poder familiar, erguem-se discussões.