Capítulo 2: Intranets Educacionais 37
2.3. E-learning no Ensino Superior 49
2.3.1. Evolução do E-learning 51
O desenvolvimento do e-learning consagrou-se graças a diversas outras evoluções ou revoluções no sector da educação. As principais revoluções apontadas por Billings [Billings e Moursund 1988] são:
a invenção da leitura e da escrita;
o aparecimento da profissão de professor/estudioso; a invenção da tipografia;
o desenvolvimento das tecnologias electrónicas.
Existem várias terminologias para designar a aprendizagem online tais como: e-
learning, ensino baseado na Internet (Internet learning), ensino distribuído (distributed learning), ensino em rede (networked learning), tele-ensino (tele-learning), ensino virtual
(virtual learning), ensino assistido por computador (computer-assisted learning), ensino baseado na Web (Web-based learning) e ensino a distância (distance learning). Todos estes termos implicam que o aluno esteja a distância do formador ou professor e que o aluno use algum tipo de tecnologia (normalmente um computador) para aceder aos materiais. Na aprendizagem online também é necessário existir algum tipo de interacção entre alunos e professores suportada por uma tecnologia [Anderson 2004].
Tsai [Tsai e Machado 2002] distingue as diversas terminologias da seguinte forma:
e-learning está normalmente associado a actividades que envolvam computadores e redes interactivas em simultâneo. O computador não necessita de ser o elemento central da actividade ou disponibilizar o conteúdo da aprendizagem. No entanto, o computador e as redes devem ter um envolvimento significativo nas actividades de aprendizagem;
o ensino baseado na Web está associado à consulta dos materiais de aprendizagem através de um browser, incluindo quando os materiais se encontram num CD-ROM ou em outro meio de suporte;
ensino online está normalmente associado ao uso do computador como instrumento de suporte à aprendizagem. Os conteúdos podem estar na Web, Internet, CD-ROM ou disco rígido;
ensino a distância é um termo mais amplo que envolve a interacção a distância entre o tutor e os alunos, permitindo um apoio aos alunos, usando qualquer forma de comunicação (telefone, fax, correio electrónico, fóruns, videoconferência, entre outros). A simples disponibilização de conteúdos não é ensino a distância, devido a ser necessário existir uma comunicação bidireccional entre o professor e os alunos.
Stockly [Stockly 2003] define e-learning como a distribuição de programas de aprendizagem, formação ou de educação de forma electrónica, envolvendo o uso de um computador ou dispositivos electrónicos (por exemplo telemóvel ou PDA) para disponibilizar materiais de formação, educação ou de aprendizagem.
Amaral [Amaral e Leal 2006] identificam a existência de cinco tipos diferentes de
e-learning que incluem o ensino síncrono online, o ensino online com momentos
assíncronos, o ensino online e presencial (sala de aulas), o ensino online (síncrono e assíncrono) e o ensino baseado no computador. Segundo o autor, para os vários tipos de
e-learning existe um elemento comum que é a aprendizagem através do computador.
Deste modo, é apresentada uma definição de e-learning como sendo um processo no qual os alunos aprendem com base em conteúdos, os quais são disponibilizados através da Internet ou CD-Rom, podendo existir um professor (ou não) que se encontra a distância para comunicar (sincronamente ou assincronamente) com os alunos, existindo opcionalmente sessões presenciais.
A evolução da Internet e das tecnologias de informação em geral foi a grande impulsionadora do forte desenvolvimento que o e-learning teve ao longo dos anos. No entanto, muitas das metodologias de ensino e aprendizagem usadas no e-learning
existiram antes do próprio e-learning, podendo-se definir quatro épocas diferentes com base na evolução da tecnologia (Figura 2.3).
Figura 2.3 - As principais fases de evolução do e-learning
Numa primeira fase, antes de 1994 e antes de a Web ser usada para o suporte ao ensino e à aprendizagem, a formação mediada por computador (Computer-Based
Training) foi uma das primeiras abordagens à formação baseada em tecnologia. Nesta
fase, o grande impulso foi dado pelas aplicações multimédia, tais como o CD-ROM. Os primeiros produtos multimédia de suporte à formação eram baseados em Macintosh e Windows 3.1, sendo as principais ferramentas de autoria o HyperCard para o Macintosh e posteriormente o Toolbook para o Windows.
Em 1990, com o aparecimento da World Wide Web, ou simplesmente Web, criada por Tim Bernes-Lee, iniciou-se uma revolução tecnológica, social e cultural. Em 1993, o CERN (Organização Europeia de Investigação Nuclear), sedeado na Suiça, anuncia que a Web irá ser livre, surgindo também nesse ano o primeiro Browser gráfico, o Mosaic. Ao contrário da tecnologia que a antecedeu, o Hypercard que era proprietário, a Web ao ser gratuita expandiu-se rapidamente a todas as áreas da sociedade, existindo actualmente mais de 120 milhões de sítios Web [NetCraft 2007].
A rápida expansão da Web permitiu, ao público em geral, o seu acesso no final de 1994. Neste contexto, a Web teve uma rápida aceitação nas instituições de ensino e nas empresas, sendo descobertas as vantagens do seu uso para o ensino e formação. Só depois de 1994 é que surgem os termos de formação baseada na Web, ensino baseado na Web, entre outros.
Uma das principais razões da rápida popularidade da Internet deveu-se à simplicidade com que se pode construir uma página Web, usando a linguagem HTML
(HyperText Markup Language). O HTML permite descrever a estrutura de um documento e o seu formato, podendo estabelecer ligações entre documentos ou outros recursos multimédia, à semelhança do Hypercard.
A Web veio permitir resolver alguns dos problemas da formação mediada por computador, ao permitir a aprendizagem sem limitações de espaço e de tempo, reduzindo custos de distribuição dos conteúdos e ao mesmo tempo permitindo uma maior interactividade entre os alunos e o professor.
Na terceira fase de evolução do e-learning registam-se grandes avanços tecnológicos, incluindo as redes de banda larga, o que permitem áudio de vídeo de grande qualidade, a massificação da tecnologia Flash e o aparecimento de páginas interactivas e dinâmicas, popularizando-se o uso de linguagens de programação como o JavaScript, ASP, PHP, JSP e ColdFusion.
Após o ano 2000, na fase da Web dinâmica, o design passou a ter um papel central no e-learning, potenciando o desenvolvimento de conteúdos multimédia interactivos e mais apelativos para os alunos.
A última fase de expansão do e-learning não está relacionada com uma inovação tecnológica mas sim com o aparecimento de um novo conceito de Web. O termo Web 2.0 surge em 2004 por Tim O’Reilly [O’Reilly 2004] para descrever a mudança para uma Internet como plataforma, referindo um conjunto de regras para obter o sucesso nesta nova plataforma. A regra mais importante é a de desenvolver aplicações que aproveitem os efeitos de rede, para que as aplicações se tornem melhores quanto mais as pessoas as usarem, aproveitando a inteligência colectiva.
A designada Web Social é um exemplo de como as redes de conhecimento tem um papel fundamental na nossa sociedade. Em termos tecnológicos, a principal inovação nesta fase deve-se à massificação do uso do AJAX (Asynchronous JavaScript and XML), que permite uma maior interactividade, aliado às RSS (Really Simple Sindycation) para seminação de notícias e terminando na utilização de blogues e wikis, que devido a serem ferramentas simples de publicação e de colaboração, têm contribuído para a disseminação do conhecimento.
Alguns dos exemplos da Web 2.0 são a Wikipedia (enciclopédia colaborativa e gratuita), o YouTube (serviço de partilha de vídeos online), o Hi5 e o MySpace (Comunidades online) e o Blogger (gerador automático de blogues).
As novas ferramentas de comunicação e de colaboração baseadas em redes deram origem também a um novo conceito de e-learning inspirado na Web 2.0, que é o e-
learning 2.0. O e-learning 2.0 é designado por alguns autores como a segunda fase do e- learning, baseada na Web 2.0 e com as seguintes características [Downes 2005]:
os alunos criam conteúdos, partilham o conhecimento através de blogues, wikis, fóruns, RSS ou outras tecnologias para formar uma rede de aprendizagem baseada na criação de conteúdos e na distribuição de responsabilidades;
o e-learning tira vantagem das diversas fontes de conteúdos existentes agregando-os para criar experiências de aprendizagem enriquecedoras;
são usadas diversas ferramentas de gestão do conhecimento, de colaboração e de pesquisa e indexação.
Ao ter o e-learning a vantagem da aprendizagem sem limitações de espaço e tempo, no entanto a sua generalização na formação e na educação ainda está muito longe de ser conseguida. Uma das razões pode ser explicada por aquilo que Kruse [Kruse 2003] designou de ciclo de entusiasmo do e-learning (e-learning hype cicle), em que existe numa primeira fase de grande entusiasmo impulsionado pela evolução tecnológica, mas que depois atinge um pico, caindo abruptamente para o nível de desilusão. Este ponto é atingido quando se chega à conclusão que a tecnologia não resolve todos os problemas. Finalmente, passa-se a uma fase de equilíbrio em que o e-learning entra numa etapa de maior produtividade.
Kruse descreve o ciclo de entusiasmo tecnológico como a fase em que os formadores de uma organização descobrem as vantagens das tecnologias Internet, criando um grande entusiasmo na sua utilização, julgando que a tecnologia pode resolver todos os problemas.
O ciclo de entusiasmo do e-learning permite retirar a conclusão de que a tecnologia tem um efeito de entusiasmo sobre os seus utilizadores, mas que por si só não dita o sucesso de um projecto de e-learning. É fundamental que em qualquer processo de ensino e aprendizagem exista uma especial atenção pelas necessidades individuais e colectivas dos alunos e docentes, para assim a tecnologia estar ao serviço das pessoas e não o inverso.