5 ANÁLISE
5.1 SEPARAÇÃO: EMOÇÕES COMO PROBLEMA
5.1.2 Exército
Lido com isso desde o dia em que Lev nasceu – confessou minha mulher. – E já que estamos discutindo isso agora, não quero que ele vá para o Exército. Fiquei em silêncio. A experiência me ensinou que há algumas situações em que é melhor ficar calado. Isto é, tentei ficar calado. A vida me dá bons conselhos, mas às vezes me recuso a aceitar.
– Acho que é muito controlador dizer algo assim – disse por fim. – Afinal, ele é que terá de decidir essas coisas sozinho.
– Prefiro ser controladora – respondeu minha mulher – a participar de um funeral militar no Monte das Oliveiras daqui a 15 anos. Se é ser controlador impedir que um filho coloque a própria vida em risco, então sou exatamente isso.
A essa altura, a discussão ficou acalorada e desliguei a TV.
– Preste atenção no que está dizendo – continuei. – Você fala como se servir no Exército fosse um esporte radical. Mas o que podemos fazer? Vivemos em uma parte do mundo onde nossa vida depende dele. Assim, o que você está dizendo na realidade é que prefere que os filhos dos outros entrem para o Exército e sacrifiquem sua vida, enquanto Lev curte a vida dele aqui, sem assumir risco nenhum, sem suportar as obrigações que pede a situação.
– Não – respondeu minha mulher. – Estou dizendo que poderíamos ter chegado a uma solução pacífica há muito tempo, e ainda podemos. E que nossos líderes se permitem não fazer isso porque sabem que a maioria das pessoas é como você: não hesitaria em colocar a vida dos filhos nas mãos irresponsáveis do governo (KERET, 2015, p. 77).
Etgar Keret inicia o conto "Exército de Fraldas" relatando a ocasião em que teria sido questionado pelas mães das outras crianças que brincavam no parque a respeito do futuro militar de seu filho, com três anos à época. A discussão posterior entre ele e a esposa, que reproduzi acima, reflete uma situação bastante comum dentre israelenses. Em nosso encontro, Gladis já mencionara a experiência da filha como sendo parte da vida:
Minha filha fez exército como todo jovem de 18 anos. Ela recebeu uma educação judaica sionista aqui em casa, desde pequena, para ser uma cidadã do Estado de Israel. Quando terminou o ensino médio, fez um ano de serviço voluntário, e assim adiou a entrada no exército por um ano. No exército, serviu na parte de educação. Ela não escolheu ir para a parte de educação, mas foi escolhida. No início, ela tinha que trabalhar com crianças em colégios. São soldadas que entram em colégios primários e ajudam as professoras. É como um serviço comunitário. Tem soldadas que dão aulas de cuidados nas ruas. Não os cuidados contra os terroristas, e sim cuidados com os carros, como atravessar a rua, olhar os carros, os ônibus, como andar de bicicleta na rua, e tem outros que trabalham em hospitais, é quase um serviço comunitário, que o exército se propõe a dar, e em geral são meninas que fazem. Tem várias funções do soldado que está na unidade de educação. Dão palestras para outros soldados e, em geral, eles não ficam numa base. Moram em casa, e saem de manhã, fardados, para o trabalho. E é isso que ela fez, e a educação que ela recebeu em casa era de ceder parte da vida para a comunidade.
Tendo a filha servido em uma unidade de educação, não lhe despertava aquela angústia retratada por Keret—se a pátria demandava este tipo de serviço, lhe parecia claro que o cidadão devesse cumpri-lo. Me perguntava, entretanto, se mães de soldados combatentes teriam a mesma reação. Eu conhecia uma, orgulhosa de um dos filhos piloto, enquanto o outro, se não me engano, tinha um posto importante ligado a informática. Ela agradeceu a lembrança e gentilmente declinou do convite para uma entrevista. Quando procurei ajuda nas redes sociais para encontrar possíveis depoentes, recebi, em privado, uma mensagem de alguém que nunca havia encontrado pessoalmente—"Eu sou sua última opção."—dizia. A mãe de três jovens, servindo concomitantemente em unidades de combate, chegou a esboçar alguma concordância em me encontrar para um café em Natânia, próxima ao kibutz onde vivia, mas acabou cancelando. "Não consigo."—confessou. Respeitei sua decisão. Cheguei a conversar ao telefone com uma terceira, cujo filho havia sofrido acidente em um tanque de guerra e que me
confidenciara carregar um trauma que julgava negligenciado pelo exército—"Em situações assim, só os soldados recebem apoio psicológico, que não é estendido aos familiares." Neste caso fui eu que, por motivos pessoais, tive que desmarcar a entrevista, e nunca mais conseguimos retomá-la.
Finalmente G., que eu conhecia do período em que viveu no Brasil, se ofereceu—"Neste exato momento não tenho nenhum filho no exército, mas é só um hiato entre um que acabou de sair, e o outro que entrará no mês que vem. Ele quer ser paraquedista.". Ela iria para Jerusalém em poucos dias, e nos encontramos na varanda envidraçada de um café em Rechávia, onde, provavelmente, nos julgando alguma espécie de celebridade denunciada pela câmera que registrava a conversa, fomos tratadas com atenção redobrada e motivo de curiosidade para os olhares que passavam na calçada. O primeiro filho havia sido, assim como ela em seu tempo, instrutor de novos soldados. "Os soldados têm treinamento físico e também a parte de educação. Aprendem a armar e atacar, a defender, e também aprendem outras coisas como código de ética. Ele estava nesse posto, que não é de combate."177—relatou.
Entretanto, na guerra entre Israel e o Hamas em 2014, quando Israel fez uma incursão terrestre na faixa de Gaza, "eles estavam no Sul, não entraram em Gaza, mas estavam na linha que vem logo depois, e também estiveram expostos."—relatou preocupada. Naquela ocasião, era o coração de mãe que apertava:
É difícil. Ser mãe é ter o coração fora do corpo. Para mim é difícil saber que estou em minha casa, e quando cai um míssil, me sinto protegida porque sei que no centro de Israel há menos chance de sermos atacados, mas sei que meu filho está onde passam aviões e bombas e tanques, e que lá, quando acontece algo, não está protegido como eu. Meu filho especificamente não estava dentro de Gaza, mas todos os amigos que foram criados junto, estavam. É como se nossa vida parasse, passamos a viver no automático. Não vou deixar de trabalhar, deixar de ir ao supermercado, mas o estresse é altíssimo, é como se eu não pudesse descansar quando eu sei que meu filho está onde está. Tem soldados que estão no exército, e a família para toda sua vida. Sempre há estresse. Quando L. estava no exército, aconteceu um atentado grande contra soldados aqui em Jerusalém. Para mim, se ele está passeando em uma época de atentados, se está na rua, se está com roupa de exército, com uma arma, eu não posso ficar tranquila. Houve uma época que todo o tempo tinha atentados contra soldados. Não importa no que ele trabalha, que seja em algo no escritório do exército, se está com roupa do exército, já é um alvo. É uma situação complexa que dura pelo menos três anos.
No entanto, fora de situações extremas, o diálogo de Keret rondava G. internamente. Por um lado, temia pela vida dos filhos, mas, por outro, respondia ao senso de dever. E, ainda assim, não livre de complexidades:
O exército israelense é um lugar em que toda a sociedade israelense se une. Não importa quem seja, somos todos iguais. Vejo meu filho, as pessoas que ele conheceu no exército são muito importantes na vida dele, porque tem alguma coisa que é a base para todo soldado—"Tenho que confiar nos meus amigos, porque se estou atacando, alguém precisa proteger a minha vida"—e isso é uma relação muito profunda que eles têm. Mas para mim, que sou uma pessoa que tem uma tendência mais centro-esquerda, é ainda mais difícil. Porque eu sinto que tem coisas que temos que lutar, porque não temos saída. Se temos o Irã que quer nos atacar, óbvio que temos que nos defender, mas quando se está na Cisjordânia, defendendo uma causa que eu não sei se não há uma outra forma de resolver, e se meu filho está lá, para mim é mais complexo. Não quero ser tão ingênua de ver o conflito como algo plano. Há lugares onde penso que o exército não tem que estar, que podemos sair, porque não acredito que, em nenhum cenário possível, tenha que haver soldados defendendo um grupo de colonos que estão lá. E acho que Israel tem que sair dos territórios, mas isso não tira o papel do exército. Eu acredito que se em algum momento tivermos paz com os palestinos, ainda assim não acho que vamos viver sem um exército. Não vamos ser uma Suíça.
Questionada sobre a possibilidade de recusa de algum dos filhos a prestar serviço militar, concluiu:
Sim [aceitaria], mas eu disse uma coisa para ele—"se você quer viver em Israel"—e com toda a minha dor como mãe—"o bilhete de entrada na sociedade israelense é o exército, e se você não cumprir o serviço militar, vai ter um gap entre você e a sociedade israelense. Leve isto em conta." Por dentro, se me dissesse—"Mami, não vou para o exército"—eu ficaria feliz, mas eu queria que ele entendesse qual é o preço em Israel por não se ir para o exército.
Primeiro, há algo que é básico, digamos. O exército te chama, e é obrigatório para toda mulher e homem quando terminam a escola secundária. Aquele que tenha uma condição física para ser um combatente, será combatente. Não é que alguém possa recusar, se tem condições. Não existe uma escolha de verdade, entre ir ao exército ou não. Mas mesmo assim, há uma minoria que não vai. Os ultraortodoxos não vão, pessoas que tenham problema de saúde não vão, e aqueles que realmente consigam explicar que não têm condições de ser soldados. Se a pessoa realmente sente que não pode aceitar, porque é mais forte que ela, entendo, me parece perfeito, mas também é justo que faça um trabalho voluntário em um hospital, em uma escola, que dê algo para a sociedade. A grande maioria dos jovens hoje em dia, se você perguntar se querem servir, vão dizer que não. Se perguntar para meu filho mais novo Y., que também é uma pessoa que tem uma visão mais de esquerda, se ele gostaria de estar nos territórios, vai dizer que não. Também nunca falamos sobre isto, mas sabemos que muitos soldados chegam com um trauma. É traumático para um jovem de 19 anos viver estas coisas difíceis, eu gostaria que nenhum jovem hoje em dia tivesse que viver isto, porque talvez haja outras formas de solucionar.
"Sempre que um menino nasce em Israel"—repete Iris a cada encontro com estudantes, em sua rotina como ativista do Círculo de Pais – o Fórum das Famílias Enlutadas—é como uma bênção que você diz para a mãe—'Esperamos que este menino não tenha que ir para o exército.'" E o conto de Keret termina em forma de acordo—"No fim, por cansaço e na ausência de outra solução, decidimos pela conciliação com base no único princípio em que verdadeiramente concordamos: passar os 14 anos seguintes trabalhando para a família e a paz regional (KERET,
2015, p. 80)."