PARTE IV – GARANTIA DA AÇÃO EXECUTIVA
1.1 Execução no direito antigo
Ao tratar da execução no direito antigo, Willard de Castro (1975, p.19) inicia relatando como era a ação executiva em Roma. Em termos gerais, o processo em Roma tinha uma maior atuação no direito privado e penal, possuindo como documento base a Lei da XII Tábuas.
Seguindo, quanto ao procedimento executivo, Enrico Liebman (1968, p.9) expõe que o direito romano observou a regra de que deveriam ser conhecidas as razões das partes antes de ser feita a execução fiscal.
Willard de Castro (1975, p.20) relata que, em Roma, o inadimplemento da obrigação era considerado como uma ofensa que deveria ser punida. O item 3 da Lei das XII Tábuas previa que esse inadimplemento, desde que decorrido o tempus iudicati de 30 (trinta) dias após a sentença condenatória não paga ou confissão do devedor, dava direito ao credor promover uma nova ação, a manus iniectio (legis actio per manus iniectionnem), ou seja, uma ação de cobrança, que era um meio de coação da vontade do devedor, para obrigá-lo ao cumprimento da obrigação determinada em sentença ou confessada por ele.
Nesse caso, o credor levava o devedor novamente à presença do juiz, fundando-se na condenação ou confissão e na falta de pagamento, pedindo que lhe fosse entregue a pessoa do devedor, ou seu patrimônio. Caso não pagasse, o credor podia levá-lo amarrado pelos pés, podendo mantê-lo em cárcere privado por até 60 (sessenta) dias. Caso o devedor reconhecesse a validade da condenação e a falta de pagamento, o processo terminava e o juiz autorizava a execução. Porém, se o devedor contestasse, dava lugar a litiscontestatio e ao iudicium, que tinha
56 por objeto questionar aquela sentença, mas que, caso julgado desfavorável ao devedor novamente, este estaria condenado ao pagamento do dobro da quantia originariamente devida.
Enrico Liebman (1968, p.9) afirma que a nova condenação permitia, por sua vez, propor uma nova ação executiva, e assim por diante. Portanto, a pena de duplicação da dívida para o devedor que contestava sem motivo a ação executiva, por vezes, não era suficiente para impedir a prática do devedor em protelar indefinidamente a execução. A execução só se tornava possível quando o condenado reconhecia procedente o pedido de execução do credor. Ou seja, mesmo depois de proferida a sentença condenatória, era dada ao devedor a oportunidade de impedir a execução alegando outros elementos, como a nulidade da sentença condenatória, ou o pagamento da dívida depois de proferida a condenação.
No caso, relata Enrico Liebman (1968, p.9), na execução, era exigido, mesmo depois de proferida a sentença condenatória, que se dessa entrada à execução por meio de uma nova actio iudicati, vale dizer, por meio de um novo processo que fosse possível satisfazer o direito do credor.
Willard de Castro (1975, p. 20) expõe que, após a execução por manus iniectio, foi introduzida na legislação romana a pignoris capio, especificamente em favor dos credores de impostos. Nessa ação, a penhora e a apreensão dos bens ocorriam sem a presença do pretor, ou, inclusive, sem a presença do devedor, constituindo um meio de coação da vontade do devedor.
Na pignoris capio, o credor podia se apossar, destruir a coisa, mas não podia vendê-la para se satisfazer monetariamente.
Após, em 326 a.C, surgiu em Roma a Lex Poetelia, que, segundo Willard de Castro (1975, p. 21), modificou o procedimento executivo, visando a uma maior satisfação do credor sobre os bens do devedor, pois, enquanto que antes dessa lei era possível a escravidão de si próprio ou de um membro da família, após a Lex Poetelia, somente bens do devedor podiam ser dados em garantia de um crédito. Apesar disso, prossegue o autor (1975, p. 22) somente em 636 d.C que começou a efetiva execução patrimonial em Roma, pois houve a introdução da bonorum venditio, que previa que todos os bens do executado deveriam ser vendidos a uma pessoa específica, que recebia o montante e se obrigava a pagar os credores, oferecendo-lhes em rateio um percentual.
Caso os devedores se ocultassem, o Pretor concederia uma imissão, denominada missio in bona, retirando o obstáculo criando pelo devedor. Após, a missio in possessionem passou a
57 ser concedida também para os casos de confissão não pagas. Essa missio aproveitava todos os credores, mas não conferia a transferência imediata dos bens do devedor aos credores, mas a mera custódia desses bens. Willard de Castro (1975, p.22) relata que essa custódia se seguia de uma proscriptio, em que os credores davam aviso de posse por meio de editais afixados em praça. Após, sem qualquer manifestação, informavam no processo, para que o juiz preparasse a venda dos bens.
Por fim, Willard de Castro (1975, p.24) reitera que não se pode falar, no processo romano, em título executivo. Com características privatistas e com a necessidade de se aguardar o tempus iudicati para a execução, e ainda em face da possibilidade do devedor opor uma nova questão que ilidisse a condenação, não há que se falar em título executivo, que foi criado somente na Idade Média.
Sobre a execução na Idade Média, Willard de Castro (1975, p.26) destaca que foi nessa época que teve origem o título de crédito os instrumenta guarentigiata, sendo um meio rápido para a tutela de direitos. Esse título executivo, destaca Antônio Carlos Costa e Silva (1976, p.52), era uma confissão de dívida com caráter executivo no tabelião. No caso, os documentos de dívidas lavrados pelos tabeliões públicos passaram a valer tanto quanto uma sentença, pois esse instrumento escrito pelo tabelião equivalia como uma confissão, surtindo efeitos como se fizesse em juízo, atribuindo o mesmo significado à sentença. Willard de Castro (1975, p.27) destaca que a regra do direito romano vigente até então exigia que, para a execução ser válida, era necessário um processo encerrado por sentença anterior, ou o chamado “princípio da necessária precedência da cognição”. Esse princípio dispunha que o credor devia sempre submeter suas pretensões à apreciação do juiz em processo contraditório para que fosse julgada procedente ou improcedente: primo intentanda est actio; non est incoandum ab executione.
A partir da Idade Média, expõe Enrico Liebman (1968, p.11), houve uma mudança quanto ao procedimento executivo. A action iudicati do processo romano, ou seja, a necessidade de um novo processo, foi relegada aos casos excepcionais, pois, para os casos comuns, foi instituído o procedimento de “execução per offium judicis”, que previa que, após a prolação da sentença, o credor formalizasse um requerimento ao juiz, sem a audiência com o devedor, para que se praticasse os atos necessários à execução.
Logo, observa Enrico Liebman (1968, p.11), houve a atribuição de uma maior eficácia à sentença condenatória, como a de ser suficiente para permitir a execução, sem a necessidade
58 de uma nova ação. Assim, o autor (1968, p.11) ressalta que era possível a equiparação, para os efeitos executivos, do título executivo constituído a partir dos documentos de dívidas lavrados pelos tabeliões públicos à sentença.
Não obstante, Antônio Carlos Costa e Silva (1976, p.52) relembra ainda que havia diferenças entre a execução respaldada em sentença condenatória e a outra que fosse promovida em face de um instrumento público de confissão, constituído pelos tabeliões, que precedia de um simples requerimento: é que, na primeira, o pedido do credor estava amparado pela coisa julgada sobre a existência do seu direito, o que reduzia as possíveis defesas do executado à arguição de nulidade da sentença, ou do pagamento posterior à sentença; na segunda, permanecia íntegra a possibilidade do executado defender-se por todos os meios. Por conseguinte, diferenciam-se novamente as execuções em duas: a primeira, em que se apresentava como simples prosseguimento da ação, em que eram reduzidas as oportunidades para o executado defender-se; e a segunda, admitindo-se, ao contrário, uma ação executiva com prazos especiais para discussão das defesas do executado.
Após toda essa análise quanto à execução no direito antigo, cabe destacar um tópico específico quanto à execução no direito português, haja vista que o processo executivo no Brasil é uma decorrência direta das transformações dessa ação no país lusitano.