2 EXEGESE DE MATEUS 5,34-36.40
2.1 EXEGESE E MÉTODO
Exegese é uma abordagem acadêmica que faz uso de recursos e mecanismos científicos para entender os textos das Sagradas Escrituras, ou seja; um trabalho de explicação e também de interpretação dos textos bíblicos objetos de estudos (WEGNER, 2012 p. 21). Então, entende-se, que um exercício exegético articula simultaneamente as categorias investigação e interpretação. A interpretação (hermenêutica) está relacionada com a comunicação dos resultados obtidos com a pesquisa às comunidades de interesses (acadêmicas, sociais, eclesiais etc.). Assim, o propósito principal da hermenêutica é atualizar a mensagem dos textos para as comunidades contemporâneas. Em outro ponto, a investigação (exegese), procura compreender o texto sagrado no tempo e no espaço em que ele foi originalmente redigido. O foco laboral da exegese é descobrir qual era o sentido que o Escrito Sagrado tinha para os seus destinatários e para as comunidades em que estes estavam inseridos. Preocupa-se também descobrir quais foram os impactos que o autor, com o seu texto, provocou no local e na época contemporânea a da escrita. Em suma, uma exegese deslinda em vias que procuraram acessos aos sentidos que leva-nos aproximar o mais perto possível da originalidade dos textos e das intencionalidades de seus autores. Armstrong (2007, p. 38; 232) comenta o caráter investigativo da exegese bíblica desde os seus primeiros momentos:
Ele [Esdras] era um sacerdote, [...] que ‘desejava ardentemente investigar (li-drosh) a Torá de Jeová, praticar e ensinar lei e ritual em Israel’. [...] Antes do exílio, os sacerdotes costumavam ‘consultar ‘(li-drosh) Jeová por meio de uma série de objetos sagrados conhecidos como urim e tumim mânticos. O novo vidente não era um adivinho, mas um estudioso capaz de interpretar as Escrituras. A prática do midrash (exegese) conservaria sempre esse sentido de indagação expectante. [...]. Midrash (hebraico) | derivado de darash (q.v.); exegese; interpretação, com conotação de investigação, procura.
Então, a partir das perspectivas expostas acima cabe ao exegeta, nas suas abordagens, executar pelos menos três tarefas. A primeira tarefa é não deixar que a distância histórica impeça-o de entender o texto como exatamente ele foi narrado aos seus destinatários originais. Existe uma longa distância entre o material escrito pela primeira vez e o exegeta. E, é óbvio, que a sociedade, a cultura, os símbolos, as instituições etc., daquela época não são mais os mesmos. Quase tudo mudou! Por isso, corre-se risco de que as interpretações não correspondam às realidades do tempo e espaço original. Assim, para que haja a maior assertividade possível do intento do escritor, entende-se que a interdisciplinaridade das ciências é uma excelente ferramenta de auxílio para o alcance desse objetivo. Recomenda-se então, que o exegeta seja auxiliado pelos conteúdos da filologia, paleografia, papirologia, arqueologia, geografia, história, religiões comparadas etc.
A segunda tarefa volta-se para a pessoa do exegeta e a capacidade que ele tem ou não de se posicionar com neutralidade diante do material pesquisado. Nessa óptica, exige-se que o exegeta não leve para a pesquisa os seus condicionamentos e preconceitos sob o risco dele ouvir do texto somente aquilo que deseja ouvir e não o que as fontes originais disseram. Sintetizando, trata-se do caráter científico que o pesquisar deve ter.
A última tarefa está relacionada com a conectividade com outras confissões eclesiais e ao mesmo tempo com o ecumenismo entre elas. Aqui, cabe ao exegeta investigar o texto a partir da perspectiva que leva as igrejas revisar as suas opções doutrinárias isolacionistas e assim, aproximar esforços confessionais diferentes para a promoção da cooperação e partilha mútua. Wegner (2012, p. 23-24) comenta as principais tarefas do exegeta:
A primeira tarefa da exegese é aclarar as situações descritas nos textos, ou seja, redescobrir o passado bíblico de tal forma que o que foi narrado nos textos se torne transparente e compreensível para nós que vivemos em outra época e em circunstâncias e cultura diferente. [...]. A segunda tarefa da exegese é permitir que possa ser ouvida a intenção que o texto teve em sua origem, à parte do filtro que representam nossos condicionamentos como leitores. [...]. A terceira tarefa da exegese é verificar em que sentido opções éticas e doutrinais de cunho confessional podem ser respaldadas e, portanto, reafirmadas, ou devem ser revistas e relativizadas.
Por último, entende-se também que o exegeta deve ficar atento para que textos sagrados não sejam utilizados como mecanismos de alienação. Isso ocorre quando o pesquisador fica excessivamente dependente dos saberes e das
interpretações defensoras de ideologias de dominação. Ao contrário de uma postura alienante, o exegeta deve decompor o texto a partir de perspectivas libertadoras de realidades opressoras quer as evidências de opressão estejam na literalidade da letra ou na subjetividade intrínseca nos contextos que os circundam. E, para que isso ocorra, é necessário que o cientista-pesquisador descubra o lugar social das pessoas, as formas de opressões que elas estavam sujeitas, o perfil dos seus opressores etc. Enfim, o exegeta deve se aproximar dos textos com um pensar crítico. Wegner (2012, p. 25) comenta alguns ‘perigos’ que o exegeta deve evitar:
Dependência do saber de outros e outras intérpretes. A dependência exagerada do saber alheio perpetua complexos de ignorância e inferioridade. [...] Dependência da ideologia dominante. Esta encontra-se veiculada, sobretudo, pelos modernos meio de comunicação, como os jornais, rádio e televisão. [...] não pode haver leitura libertadora da Bíblia sem a) uma prévia libertação do cativeiro da nossa mente e do nosso pensar, atrelados àquilo que outras pessoas e grupos desejam que pensemos e creiamos [...] b) uma leitura a partir do lugar social das pessoas e grupos oprimidos e empobrecidos, já que esses constituem as vítimas preferenciais da ideologia dominante. De qualquer forma, sem libertação do cativeiro da nossa mente e sem uma reflexão sobre os textos a partir das pessoas e grupos inferiorizados, a leitura bíblica será sempre ingênua e facilmente manipulável.
O método de interpretação utilizado nessa exegese é o histórico-crítico. Prioriza-se esse método e não os métodos fundamentalistas, estruturalistas etc., por entender ser uma metodologia que ao priorizar a história e a crítica aproxima mais o pesquisador da intencionalidade original do texto do que os outros métodos. Wegner (2012, p. 30) comenta porque o método é histórico e crítico:
É um método histórico, em primeiro lugar, porque lida com fontes históricas, que, no caso da Bíblia, datam de milênios anteriores a nossa era. Em segundo lugar, porque analisa essas fontes dentro de uma perspectiva de evolução histórica, procurando determinar os diversos estágios da sua formação e crescimento, até terem adquirido sua forma atual. E, em terceiro lugar, porque se interessa substancialmente pelas condições históricas que geraram essas fontes em seus diversos estágios evolutivos. É um método crítico no sentido de que necessita emitir uma série de juízos sobre as fontes que tem por objeto de estudo.
Ainda, na categoria crítica, Wegner (2012, p. 30,34) comenta e define crítica respectivamente:
Na atualidade, o método histórico-crítico caracteriza-se, sobretudo, por ser eminentemente racional e insistentemente questionador [...]. ‘Crítica’ significa, aqui, fazer uso de um juízo sadio que busca realmente as raízes dos textos, sejam como eventos históricos que, de fato, ocorreram, seja como expressão de crenças e esperanças que cabia proclamar.
Entende-se ainda que o método histórico-crítico tem prevalência sobre os demais métodos, porque ele determina: 1) que os “perigos” gerados pelo distanciamento entre o texto original e o intérprete devem ser resolvidos através de estudos aprofundados; 2) que ao conhecer a gênese histórica e contextual evita-se interpretações atuais que não condizem com os contextos onde inicialmente as mensagens contidas nos textos foram aplicadas; 3) que o método histórico-crítico protege o texto de manipulações do sentido em prol dos interesses de dominação e 4) que uma leitura crítica evita a prevalência de dogmas fechados, ou seja, falsas harmonizações etc. (WEGNER, 2012, p. 34-35).
Exposto isso, segue-se com o primeiro passo da exegese que é a apresentação do texto grego e da sua tradução de Mt 25,34-36.40.
2.2 TEXTO GREGO, TRADUÇÃO E AVALIAÇÕES DAS MODERNAS TRADUÇÕES