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Lugar Vivencial

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2 EXEGESE DE MATEUS 5,34-36.40

2.6 ANÁLISE DAS FORMAS

2.6.1 Lugar Vivencial

A escolha de uma forma literária inicia no Sitz im Leben que é uma expressão de origem alemã que ao ser traduzido para o português recebe os significados de lugar vivencial, situação geratriz, ambiente vital etc.

O lugar vivencial ou Sitz im Leben são as situações típicas da vida da comunidade que é resultante de uma abstração das experiências de pessoas ou de comunidades. É no Sitz im Leben que se encontra a gênese de uma forma literária, ou seja: de um gênero literário.

Antes do autor da dissertação empreitar-se em uma definição mais abrangente do que é o Sitz im Leben é necessário esclarecer que ele não é o ambiente histórico, político, social ou econômico no qual o texto foi redigido. Mas, antes de tudo, ele é uma atividade generalizada e exercida em circunstâncias

típicas, uma experiência partilhada e, a princípio repetível. Logo, acima de tudo, uma experiência comunitária. Assim, o Sitz im Leben é uma situação padrão que motiva o surgimento do gênero literário. Cita-se como exemplos de Sitze im Leben as festas litúrgicas, a pregação missionária, o restabelecimento da saúde, a derrota em uma guerra, a catequese etc. Ainda, continuando com exemplos: o Sitz im Leben não é um acidente ocorrido, mas a situação da qual se fará a descrição do acidente, ou seja; é a reconstrução dos sentimentos que estão envolvidos com ele. Enfim, é ele que vai dar/fornecer a forma de exprimir os sentimentos de cada um dos momentos da(s) comunidade(s) ou de seus membros. Esses sentimentos são expressos por meio de discursos (os gêneros literários) que serão abordados mais adiante. Lohfink (1978, p. 39) define Sitz im Leben comparando-o com a atmosfera da realização de um evento:

Para encontrarmos uma resposta a esta pergunta, é preciso estudarmos o próprio hino do Antigo Testamento [...] Os próprios hinos do Antigo Testamento nos mostram, assim, pelo seu exórdio, que o hino é um cântico que se cantava no templo, com acompanhamento de música, em determinadas ocasiões festivas. O hino, portanto, tem o seu Stiz (sua atmosfera própria) no culto do templo.

E, Wegner (2012, p. 212) define Sitz im Leben como:

[...] a expressão “lugar vivencial” é usada sempre no sentido de caracterizar a situação geratriz do texto que, pelas suas condições de repetitividade, imprimiu-lhe as suas formas características, enquadrando-o num certo gênero.

Os Sitze im Leben do Evangelho de Mateus são categorias que tiveram as

suas origens no comunitário, pois eles refletem experiências vividas

comunitariamente.

Cristãos e os cristianismos originários organizavam as suas vidas a partir da vivência comunitária. E, nessa lógica metodológica, as praxis comunais que não fossem supraindividuais eram refutadas por eles. Elas não coadunavam com o mudus vivendi escolhido pelo grupo e, obviamente, não eram socialmente aceitas. Por supraindividual entende-se, no contexto neotestamentário, aquilo que era feito para a comunidade visando à solidariedade e partilha. Wegner (2012, p. 210) comenta que uma categoria supraindividual é comunitária:

Os pesquisadores fazem questão de frisar que o lugar vivencial é uma categoria supraindividual, ou seja, comunitária e social. Trata-se sempre de uma situação sócio comunitária típica e representativa dentro do

cristianismo primevo, que deu às diversas histórias e ditos de Jesus o seu cunho formal característico.

Para Lohfink (1978, p. 45) um Sitz im Leben não deve ser uma categoria privada. Ele comenta: “Portanto, aqui também o Sitz im Leben não é domínio privado do indivíduo, mas uma instituição social”.

No Evangelho de Mateus a perspectiva comunitária também é enfatizada. O seu conteúdo é “arranjado” a partir dessa lógica. E, nele sempre um lugar vivencial comunitário está em destaque (casa Mt 8,14, sinagoga Mt 12,9; praia Mt 13,1; templo Mt 21,14; mesa eucarística Mt 26,26 ss etc.) Observa-se que até em eventos em que o foco-situacional parece ser direcionado somente para uma situação pontual individualista como p.ex., a cura de uma pessoa com doença física ou emocional (o homem da mão ressequida Mt 12,9-14 e a mulher cananéia Mt 15,21- 28); a abrangência de tais eventos não se limitavam somente à ação in loco mas, extrapolavam os seus limites e, então, alcançavam e/ou afetavam as vivências comunitárias em forma de catequeses, parêneses etc. Assim, nota-se que o conteúdo do Evangelho de Mateus é dinamizado por uma continuidade de relacionamentos comunitários interpessoais.

Entende-se também que a pessoa do evangelista é a terceira categoria favorável à provável possibilidade do Sitz im Leben ter sido formatado a partir do comunitário, pois, há grandes possibilidades que o evangelista estava inserido no ambiente cultural e comunitário dos cristãos do primeiro século.

Em vista dessas evidências que apontam para ambientes comunitários tanto dos cristianismos primevos como os do escritor e os dos eventos inseridos na obra mateana, entende-se que o Sitz im Leben de Mt 25,34-36.40 procede e foi formatado em ambientes comunitários. Foi em contextos como esses que o escritor fez abstrações para articular a forma com a qual ele redigiu o seu evangelho. O estilo e/ou discursos utilizados para expressar a situação vivencial do texto será tratado logo a seguir nas abordagens dos gêneros literário. Até aqui, em buscas das formas que foram escritas Mt 25,34-36.40 entende-se que o background da situação vivencial do texto era comunitário. Wegner (2012, p. 210) comenta o lugar vivencial:

O estudo do lugar vivencial visa determinar em que situação e com que finalidade foram repetidos e transmitidos os ditos e as histórias sobre Jesus, de modo que acabaram adquirindo as formas características dos diversos gêneros aos quais pertencem.

E, Saldarini (2000, p. 148-9) comenta o caráter comunitário do Evangelho de Mateus, da comunidade mateana e de uma rede maior de cristãos. Ele comenta:

Muitas análises do evangelho de Mateus se referem à comunidade mateana. A palavra ‘comunidade’ é popular no uso teológico, sociológico e cotidiano porque é vaga, mas ricamente conotativa das relações sociais estreitas e calorosas que se perderam no anonimato da sociedade industrial moderna. Também sugere as profundas relações afetuosas que devem unir os cristãos uns aos outros. [...] Comunidade subentende a presença de um forte senso de identidade e um conjunto comum de valores e percepções profundamente mantidos, que resultam em contato afetuoso estreito e protetor. A comunidade judaica enquadra-se nesta descrição [...] o grupo mateano faz parte da comunidade judaica maior. Ele também faz parte de uma rede emergente de grupos que formam a comunidade cristã, [...] Segue com o tópico intencionalidade do texto que segundo Silva (2009, p. 232) cita o Sitz im Leben do texto em exegese como: “Tribunal de Justiça: processo de acusação ou de defesa [...]”.

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