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2. LEIS PENAIS EM BRANCO

2.3. FUNDAMENTOS DAS LEIS PENAIS EM BRANCO

2.3.2. Exigência de Conhecimento Específico e Aprofundado

Restou demonstrado que as leis penais em branco nasceram no in-tuito de regular matérias que possuem natureza complexa e dinâmica. Tais ma-térias, também conforme mencionado, são aquelas que fazem alusão a bens jurídicos coletivos, difusos e altamente formalizados. Os ataques a estes bens jurídicos são extremamente variáveis na forma e na origem, o que justifica a impossibilidade de previsão quando da elaboração da lei penal.

Esse não é, porém, o único fator que, de certo modo, “paralisa” o le-gislador quando da elaboração de leis penais. Se a variedade e a diversidade dos ataques ao objeto de tutela o fazem, também a ausência de conhecimento específico acerca dos complexos bens jurídicos há de ser considerada.

Veja-se.

A sociedade moderna – especialmente no hemisfério ocidental - é delineada pelo modelo econômico capitalista e, também, pelo modo de produ-ção de bens e serviços herdado da Revoluprodu-ção Industrial, o que permite afirmar que há cerca de trezentos anos a sociedade adquiriu os primeiros evidentes contornos do seu atual retrato.

A modernidade, segundo defende Anthony GIDDENS, não seria viá-vel se não houvesse o que ele denominou de “sistemas peritos”. “Sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje”.221

De regra, o discurso sociológico acerca dos “sistemas peritos” vem à tona no Direito Penal para tratar dos crimes culposos e dos crimes de perigo.222 O fundamento para tanto é a construção das relações de confiança que se

221 GIDDENS, Anthony. As Consequências da Modernidade. São Paulo: UNESP, 1991, p.

35.

222 Vide, por exemplo, o artigo de Fábio André Guaragni, “A Função do Direito Penal e os “Sis-temas Peritos””, disponível na obra Crimes contra a Ordem Econômica: “Sis-temas atuais de processo e direito penal. Coord. Luiz Antônio Câmara e Fábio André Guaragni. Curitiba: Ju-ruá, 2011.

vam entre homens e objetos (sínteses dos sistemas peritos), permitindo o de-sencaixe temporal-especial e, indo além, a própria vida na modernidade.223 Po-rém, crê-se que os sistemas peritos também contam com íntima ligação aos fundamentos de existência das leis penais em branco.

Os sistemas peritos são, então, sistemas de excelência técnica que geram relações de confiança, na qual o homem consome bens e utiliza servi-ços confiando em um conjunto de conhecimentos técnicos. Parece pertinente questionar o porquê se constrói tal relação de confiança. E parece, também, ser óbvia a resposta: por necessidade.

O conhecimento em uma sociedade moderna – e nas matérias com-plexas e dinâmicas tratadas pelas leis em branco essa assertiva grita – é abso-lutamente verticalizado. Enquanto um indivíduo passa a vida estudando tão somente o desenvolvimento de embalagens que possibilitem aumentar a vida útil de um alimento, outro passa todos os seus anos dedicado apenas ao de-senvolvimento de uma tecnologia que será utilizada em um telefone celular;

enquanto um sujeito se entrega aos estudos tão somente sobre a cura de um tipo específico de câncer, outro conhece cada dia mais sobre uma peça essen-cial à decolagem de um avião.

Implica reconhecer: ou o homem confia nos sistemas de excelência técnica e/ou competência profissional e consome os produtos condicionados em embalagem longa-vida, anda de avião e metrô, utiliza o telefone celular, aceita entrar em um elevador, ingere remédios quando doente, dentre outros muitos e cotidianos exemplos, ou não confia e passa a viver tão somente de bens e serviços sobre os quais ou domina o conhecimento ou conheça e confie em quem o faça.

223 GUARAGNI recorre a um exemplo simples e ilustrativo: uma embalagem longa-vida de leite.

“Não estive no local em que foi produzida a embalagem: tampouco presenciei o momento em que foi produzida. Ausente do local e alheio ao modo de produção, nada testemunhei acerca da fabricação. Desconheço a técnica, quem fez, como e quando. Tampouco entendo da enge-nharia empenhada no processo fabril da embalagem. Porém, consumo o leite nela embalado, há semanas, confiando na capacidade que possui de preservar um alimento altamente perecí-vel e cujo consumo, caso arruinado, pode gerar-me grave consequência para a saúde. Consu-mo porque confio não em quem fez (não sei quem foi), mas no conjunto de conhecimentos que o processo fabril sintetiza. Firma-se uma curiosa relação de confiança não entre homem e ho-mem, mas entre homem e objeto. Para o objeto converge todo um caudal de conhecimentos técnicos no qual tenho fé.” GUARAGNI, Fábio André. A Função do Direito Penal e os “Sis-temas Peritos”, p. 79.

Pela absoluta impossibilidade do indivíduo conhecer (superficialmen-te, que dirá de modo aprofundado) todas as matérias (cada vez mais dinâmicas e complexas), ele confia nos sistemas peritos referidos por GIDDENS.

Resta evidente: da mesma absoluta impossibilidade de conhecimen-to específico e aprofundado sobre matérias dinâmicas e complexas, sofre o legislador. E, então, ele confia às instâncias inferiores (detentoras do conheci-mento que a ele falta) a possibilidade de complementar as leis penais em bran-co.

No Brasil não faltam exemplos – especialmente quando da tutela de bens jurídicos coletivos - que confirmem a constatação. Pegue-se o art. 7ª, inc.

II, da Lei nº 8.137/90. O tipo penal estabelece: “constituem crimes contra as relações de consumo.” A seguir, enumera nove hipóteses, dentre as quais o inc. II: “vender ou expor à venda mercadoria cuja embalagem, tipo, especifica-ção, peso ou composição esteja em desacordo com as prescrições legais, ou que não corresponda à respectiva classificação oficial”.

O legislador prevê, então, a conduta criminosa de vender ou expor a venda mercadoria e remete às prescrições administrativas a possibilidade de estabelecer a embalagem, tipo, especificação, peso e composição adequados.

O faz, é certo, no intuito de flexibilizar a lei penal e mantê-la atualizada mesmo frente ao dinamismo do setor, mas não somente. O faz por lhe faltar conheci-mento técnico específico e aprofundado sobre o tema.

“E – de fato – é melhor que a norma penal possa contar com a pre-sença dos técnicos, seja para atingir as condutas que, verdadeiramente, são geradoras de riscos para os bens de proteção, seja para evitar sejam atingidos comportamento inócuos. Diminui-se o risco do erro com a presença do espe-cialista”224. Este é, então, também um fundamento de existência das leis penais em branco.

224 GUARAGNI, Fábio André. Norma penal em branco, tipos abertos, elementos normativos

do tipo e remissões a atos concretos de autorização administrativa: o panorama político-criminal comum, distinções e repercussões relativas ao princípio da reserva legal. Traba-lho inédito. Curitiba, 2012.

2.4. CARACTERÍSTICAS E DELIMITAÇÕES DAS LEIS PENAIS EM