Capítulo 1 – Catolicismos contemporâneos: um desafio para alguns exorcistas
1.5. Percurso histórico e Ius vigens do rito de exorcismo
1.5.2. Exorcismo e possessão no Concílio Vaticano II
Os textos do Concílio Vaticano II não abordaram o tema do exorcismo, elencando apenas questões sobre o mal e não sobre o rito propriamente dito93, afastando-se, portanto, da leitura fundamentalista da exegese bíblica priorizada no Vaticano I. Os termos “exorcismo” e “possessão” não aparecem em nenhuma das publicações advindas do Vaticano II e nem nos pronunciamentos de abertura dos papas João XXIII e Paulo VI94. Optamos por analisar algumas partes da constituição dogmática Lumem Gentium (LG) por se tratar de um dos documentos mais importantes do concílio e por suas concepções sobre a noção de mal e demônio aparecerem em outros textos, como na constituição pastoral Gaudium et Spes (GS) que discute sobre a Igreja no mundo atual. Na LG o objetivo era o de buscar na raiz do cristianismo uma solução e a formulação de uma nova missão para o presente da Igreja e para uma definição menos
92 OMARA, op. cit., p.51, 53.
93 YOUNG, Francis. A history of exorcism in Catholic Christianity. London: Palgrave, 2016, p.211.
94 Cf. ALMEIDA, João Carlos; MANZINI, Rosana; MAÇANEIRO, Marcial (org.). As janelas do Vaticano II: a
hierarquizada da noção de “povo de Deus”. Já na GS o enfoque recai sobre a necessidade de diálogo com o mundo atual para a construção de uma “nova sociedade”, “baseada nos genuínos valores humanos e cristãos”95, respeitando a historicidade e considerando a validade de outros
saberes culturais e científicos.
Na GS, por exemplo, a palavra “demônio” é elencada somente no artigo 22 ao falar de Cristo e sua ação na humanidade, o qual retirou o povo “da escravidão do demônio e do pecado”96. Além disso, na GS são citados exemplos de combate ao mal, ocorridos ao longo da
história e das narrativas bíblicas, porém um mal não veiculado como uma presença real do demônio atuando no mundo. Segue-se, portanto, a leitura que perpassa os outros documentos conciliares, como a Lumem Gentium.
Na constituição dogmática Lumem Gentium97 (artigo 48) se faz referência à
importância do cristão em resistir ao mal e se fortalecer com a armadura de Deus: “Esforçamo- nos, por isso, por agradar a Deus em todas as coisas (cfr. 2 Cor. 5,9) e revestimo-nos da armadura de Deus, para podermos fazer frente às maquinações do diabo e resistir no dia perverso (cfr. Ef. 6, 11-13)”. Interessante notar que a referida citação pertence ao item “Caráter escatológico da nossa vocação à Igreja”, elencando o “diabo” como obstáculo à história da salvação pessoal e do mundo, mas não como presença real ou com qualquer tipo de identificação com as ideias defendidas pelos exorcistas italianos.
Na LG 35 é mencionado o ato de ir contra as regras do mundo das trevas e contra as forças espirituais e, finalmente, na LG 5, são identificados os milagres de Jesus, citando especificamente a expulsão dos demônios como obra e sinal do “Reino de Deus”: “Também os milagres de Jesus comprovam que já chegou à terra o Reino: ‘Se lanço fora os demónios com o poder de Deus, é que chegou a vós o Reino de Deus’ (Luc. 11,20; cfr. Mt. 12,28)”98.
Na LG 16 e 1799 também é mencionado, sem muitos prolongamentos, o termo “demônio”. Na LG 17, com o título “Caráter missionário da Igreja”, temos o seguinte trecho:
95 Ibid. p.76.
96 IGREJA CATÓLICA. Constituição pastoral Gaudium et Spes. Disponível em:
<http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium- et-spes_po.html>. Acesso em 07/03/2019.
97 Na introdução ao documento, aparece como um dos objetivos da Constituição a seguinte definição: “E as
condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo”. IGREJA CATÓLICA. Constituição dogmática Lumen gentium sobre a igreja. Disponível em: < http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat- ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html >. Acesso em 16/02/2019.
98 Ibid, LG 5.
99 LG 16: “Mas, muitas vezes, os homens, enganados pelo demónio, desorientam-se em seus pensamentos e trocam
a verdade de Deus pela mentira, servindo a criatura de preferência ao Criador (cfr. Rom. 1,21 e 25) [...]”, com o título “Relação da Igreja com os não-cristãos”. LG 17:
“E a sua acção faz com que tudo quanto de bom encontra no coração e no espírito dos homens ou nos ritos e cultura próprios de cada povo, não só não pereça mas antes seja sanado, elevado e aperfeiçoado, para glória de Deus, confusão do demónio e felicidade do homem”100. Além de uma postura ecumênica de respeito às outras culturas, questão importante do Concílio Vaticano II, o “demônio” aparece novamente como empecilho à missão pessoal e da Igreja no mundo. Apesar desse ecumenismo se destinar, principalmente, às formas cristãs da fé, no Vaticano II não existe um tom de perseguição às outras religiões, deixando claro, no entanto, que o caminho da salvação ocorre por meio da figura de Cristo. Já no discurso dos exorcistas essa tonalidade de “caça às bruxas” será recorrente, como veremos posteriormente nos próximos capítulos.
Os textos produzidos no Concílio Vaticano II são muito prudentes em relação à prática do exorcismo, deixando o campo das interpretações aberto e demasiadamente pulverizado. Não existiu uma diretriz precisa e isso foi alvo de críticas por parte dos exorcistas, especialmente Gabriele Amorth (1925-2016)101. Na LG 35, que trata do apostolado dos leigos na Igreja e da luta contra o “mal”, temos a seguinte declaração:
35. Cristo, o grande profeta, que pelo testemunho da vida e a força da palavra proclamou o reino do Pai, realiza a sua missão profética, até à total revelação da glória, não só por meio da Hierarquia, que em Seu nome e com a Sua autoridade ensina, mas também por meio dos leigos; para isso os constituiu testemunhas, e lhes concedeu o sentido da fé e o dom da palavra (cfr. Act. 2, 17-18; Apoc. 19,10) a fim de que a força do Evangelho resplandeça na vida quotidiana, familiar e social. Os leigos mostrar-se-ão filhos da promessa se, firmes na fé e na esperança, aproveitarem bem o tempo presente (cfr. Ef. 5,16; Col. 4,5) e com paciência esperarem a glória futura (cfr. Rom. 8,25). Mas não devem esconder esta esperança no seu íntimo, antes, pela contínua conversão e pela luta «contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos do mal» (Ef. 6,12), manifestem-na também nas estruturas da vida secular102.
Na referida LG 35, notamos que há uma forte tendência do Vaticano II a incorporar e valorizar a atividade do laicato na vida eclesial e diante do mundo, trazendo novamente os “católicos perdidos” para a vida de fé. O texto comporta, desse modo, um aspecto missionário marcante. Atenta-se para o fato de que a vida religiosa não deve esperar um “futuro vindouro de esperança”, mas atuar ativamente no meio secular para realizar essa transformação. A concepção de luta contra os “espíritos do mal” aparece como um combate diante dos
100 Ibid. LG 17.
101 Conferir os seguintes artigos, nos quais aparecem comentários e entrevistas com Amorth e outros exorcistas
sobre essas críticas: Sarà aggiunto un richiamo alla Madonna. La Stampa. 23 setembro de 1999, número 22, página 12; LA ROCCA, Orazio. Ecco gli esorcisti del Terzo millennio. La Repubblica. 23 de janeiro de 1999; LAZZARO, Claudio. Così sconfiggeremo il demonio. Corriere della Sera. 23 de janeiro de 1999.
“dominadores desse mundo”. Em nossa análise, sobretudo neste trecho, a figura do “demônio” parece se deslocar para os males sociais, para os “dominadores desse mundo”, “espíritos do mal”, o que não necessariamente traz uma leitura sobrenaturalista da crença na presença real do diabo. Ainda que a documentação conciliar não negue a ação diabólica, a mesma não o insere no contexto do exorcismo e da possessão, mas em um embate entre cristãos e o mal do mundo, não necessariamente interpretado como obra do diabo.
A Lumen Gentium utiliza, quando menciona o diabo, contextos bíblicos para explicá-lo, inserindo-o como adversário histórico para o Reino de Deus, para a salvação e para as missões cristãs. A constituição dogmática não fornece uma definição à questão do mal e aos demônios e, para tanto, utiliza as explicações bíblicas sobre o tema sem fazer referência ao contexto hodierno e às formas como o “mal” se manifestaria hoje. Parece-nos que o Vaticano II não quis fornecer atenção a essa questão, evitando possíveis polêmicas e deixando em aberto o debate teológico. Até porque defender o “demônio”, o exorcismo e a possessão na atualidade, em uma tentativa de diálogo com o mundo moderno, não nos parece uma estratégia plausível. Contudo, relatar e delimitar o problema do “diabo” no contexto bíblico, sobretudo neotestamentário, fez com que o Vaticano II escolhesse, indiretamente, um caminho interpretativo sobre o “mal” como metáfora, como obstáculo e empecilho à felicidade e à salvação do homem e não como presença real causadora da possessão.
Em nenhum documento advindo do concílio foi mencionado o termo exorcismo e possessão, salientando, portanto, um silenciamento que é elucidativo para o nosso estudo103. Por tratar-se de um documento oficial e de caráter dogmático, no caso das constituições, é certo que não faria sentido inserir uma informação que negasse algo que está inscrito em outros documentos eclesiásticos, como o Catecismo da Igreja Católica e o Código de Direito Canônico, que abordam brevemente a questão da possessão e do exorcismo. Esse “não dito” presente nas publicações advindas do Vaticano II denota que a referida temática foi deixada de lado, assumindo um caráter de combate ao mal que valoriza a atuação no mundo como instrumento de evangelização e instauração de um possível mundo de esperança. A vida cotidiana, familiar e social passa a ser o instrumento de mudança, deixando de lado o protagonismo da ação do “diabo” como “ser real” e causador da possessão e do mal na sociedade. Uma concepção diferente daquela defendida pelos exorcistas italianos em seus projetos teológico-políticos.
103 Cf. CONCÍLIO VATICANO 2 (1962-1965). COSTA, Lourenço (org.). Documentos do Concilio Ecumênico
Não seria coerente, em um concílio que se propõe a dialogar com a “sociedade moderna” e suas mudanças, enfatizar uma prática deixada de lado pela Igreja há muito tempo. Seria problemático dar relevância ao exorcismo e à possessão nas documentações conciliares – exaltando um caráter sobrenaturalista e já relativizado pelo discurso psiquiátrico e psicológico – em um contexto social em que tais crenças encontravam-se marginalizadas. Entretanto, o fato de não constar nos textos do Vaticano II nenhuma referência direta ao tema, não implica na sua total descrença por parte do clero, dos teólogos e de outras lideranças eclesiásticas. Como exemplo, temos o pensamento do monge beneditino Cipriano Vagaggini (1909-1999), que participou como teólogo no concílio, sendo um dos autores da constituição Sacrosanctum
Concilium sobre a sagrada liturgia.
Ao mesmo tempo em que Vagaggini propunha uma renovação litúrgica da Igreja, estando afiliado ao pensamento do Vaticano II, o teólogo italiano havia defendido, em obra publicada anteriormente104, a figura do diabo como ser real e não apenas como metáfora para o mal individual e do mundo. Esse aspecto metafísico do diabo foi evitado na documentação conciliar, que priorizou a questão do mal ao longo da história e como alvo de combate por parte da humanidade. Tal ideia aparece no livro de Vagaggini que, ao falar do advento do mal físico e moral no cosmos causado pela queda de alguns anjos, afirma que
Daquele momento a história do mundo inclui a luta, não somente entre bem e mal, entre pensamentos e pensamentos, tendências e tendências, decisões e decisões no interior de cada homem, mas entre pessoa e pessoa: Deus e os seus seguidores, o reino de Deus, de um lado; Satanás e os seus sequazes, o reino de Satanás, de outro lado. Dois reinos, duas cidades em contínua luta. Assim o permite a vontade de Deus. Essa luta é de proporção cósmica e envolve todo o ser, pessoas e coisas105.
Desse modo, essa batalha “dramática e ininterrupta” não ocorre somente contra “o mal abstrato e impessoal, e nem mesmo somente contra paixões e tendências, mas precisamente, e em última instância, contra o Maligno e os seus sequazes”106. No Concílio Vaticano II essa
noção “personalista do diabo” não aparece, pelo menos de maneira clara, nas documentações. Vagaggini, em diálogo e debate com outros teólogos e bispos, evitou afirmações do tipo para não fornecer ao concílio uma conotação sobrenaturalista e de embate direto com os saberes modernos com os quais visava dialogar. Nota-se, portanto, a complexidade e a pluralidade dos
104 Publicada em italiano, em sua primeira edição, em 1957: VAGAGGINI, Cipriano. O sentido teológico da
liturgia. São Paulo: Loyola, 2009.
105 Ibid. p.322. 106 Ibid. p. 321.
projetos teológico-políticos emergidos antes, durante e após o Concílio Vaticano II, promovidos não apenas por exorcistas, mas por outros sujeitos religiosos.
1.5.3. Do Vaticano II às normas vigentes: documentos complementares e o novo Código