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Expedientes metadiscursivos presentes na fala de Mano Brown no programa Roda

4. EXPEDIENTES METADISCURSIVOS: RECURSOS TEXTUAIS-DISCURSIVOS

4.1 Analisando o programa Roda Viva de 24/09/2007

4.1.2 Expedientes metadiscursivos presentes na fala de Mano Brown no programa Roda

Os momentos da entrevista concedida por MB ao programa Roda Viva que apresentamos abaixo foram coletados com base em sua relação exemplar e representativa perante a totalidade das amostras. Tomemos o primeiro caso, relativo à incidência dos expedientes metadiscursivos já nos primeiros momentos de entrevista. Nesse momento, o presidente da Fundação Padre Anchieta à época da entrevista e apresentador do programa Roda Viva, Paulo Markun (PM), dirige a MB uma primeira pergunta, instaurando um tópico subordinado ao supertópico “Mano Brown”, como mostra o trecho a seguir:

Exemplo 1- Expedientes metadiscursivos na fala de MB (Roda Viva)

(...)

PM boa noite Mano Brown

MB °boa noite°

PM numa/ da::s- das poucas entrevistas que você concedeu e que: a gente (.) acompanhou\ aqui pela pesquisa que foi feita para/ o ““Roda viva”” (.) você (.) se define como uma espécie de esPElho (.) um espelho que retrata (.) a realidade (.) .h nesses (.) eh quase vinte anos em que você (.) tá na estrada como: (.) artista como compositor (.) eh-o espelho Mano Brown eh:: registra alguma coisa de melhor (.) ou a: realidade piorou de lá pra cá?...

Mudança na realidade

MB .h ah eu diria diferente... diferente... eh:: .h se eu dizer que melhorou pode parecer assi::m... ((balbucio)) melhorou um grão de areia entendeu?

PM °sei°

MB do-dentro do que a gente vê como:: do que precisa ser melhorado então: eu me recuso a dizer que melhorou (.) mas também não so::u cego de perceber mudanças... mudou... mudar mudou... entendeu? (.) mudou pra:: agora:...

PM menos do que deveria ser neces[sário?]

MB [bem me]nos do que deveria (.) bem menos do que poderia [°xx°]

(...)

A partir do Exemplo 1, vemos que a entrevista de MB ao programa Roda Viva se inicia com a instauração por parte de PM do tópico "Mudança na realidade". É possível notar que o tópico instaurado por PM mobiliza diretamente a representação social e posição de MB no campo da produção cultural da periferia, quando o entrevistador inicia sua fala lembrando o fato de MB ter se definido como um "espelho que retrata a realidade". Assim, vemos que a pergunta sobre uma possível "mudança na realidade" envolve, por parte de MB, uma resposta na qual condensará sua própria trajetória como sujeito representativo e protagonista do movimento hip hop e do campo da produção cultural da periferia. A nosso ver, nesse momento MB deve tratar de um tópico delicado, tendo em vista que a pergunta demanda um posicionamento sobre "melhora" ou "piora" na realidade como um todo, de modo que sua resposta o comprometeria com uma generalização bastante ampla.

Ao responder que a realidade se encontra "diferente", MB de fato evita um comprometimento com as categorias usadas pelo entrevistador ("melhor" ou "pior") e, em seguida, dá continuidade a sua resposta afirmando "se eu dizer que melhorou, pode parecer, assim...". Consideramos que, ao utilizar a expressão "se eu dizer/disser que", MB faz uso de estratégias metadiscursiva que introjeta comentários sobre um possível enunciado seu. Por meio desse procedimento metadiscursivo, o rapper reflete sobre os impactos que poderiam advir de seu comprometimento com um posicionamento mais estanque, de melhora ou piora.

Além disso, é preciso levar em conta as pistas de contextualização (GUMPERZ, 1982) produzidas pelo rapper nesse momento, uma vez que nosso entendimento acerca da metadiscursividade envolve sua manifestação co-ocorrente em semioses verbais e não verbais, ambas presentes na prática linguística dos sujeitos. Consideramos que, nesses momentos, a

disposição corporal de MB corrobora nossa percepção de que já o primeiro tópico da entrevista, instaurado por PM, pode ser compreendido como delicado, haja vista aquilo que representa na dimensão simbólica da participação e Brown. Por conta disso, importa salientarmos dois gestos: antes do início de sua resposta, a expressão facial com os lábios cerrados da Figura 9 (o que a nosso ver indica sua autorreflexividade sobre um tópico delicado que deverá ser desenvolvido) e, o direcionamento de seu olhar, na Figura 10, no momento de pronúncia do expediente metadiscursivo “se eu dizer que melhorou, pode parecer assi::m”, quando, durante o prolongamento da sílaba (indicado pela notação com os dois pontos, na marcação gráfica “assi::m”) MB fixa seu olhar para cima (gesto que pode representar todo o planejamento simultâneo de sua fala que está ocorrendo nesse momento).

Figura 9- Semioses não verbais na produção do metadiscurso (Roda Viva)

Figura 10- Semioses não verbais na produção do metadiscurso (Roda Viva)

Vemos, nesse caso, que os expedientes metadiscursivos produzidos nesses momentos revelam que a enunciação (bem como a posição de MB) como um todo está jogo, haja vista que MB faz uma glosa sobre uma possível atitude sua ao longo da interação, isto é, a de "dizer que a realidade melhorou".

Após a resposta de PM, vemos que MB procede a uma reformulação durante o trecho "dentro do que a gente vê como do que precisa ser melhorado". Nesse momento, MB substitui a formulação anterior (“dentro do que a gente vê como::”) pelo expediente "dentro do que precisa ser melhorado" - o momento dessa reformulação é indicado pelo alongamento da vogal final na palavra "como", quando podemos observar o prolongamento da vogal simultaneamente a outra atitude que está sendo efetuada pelo entrevistado: olhar para cima.

Ainda no mesmo trecho, notamos o expediente metadiscursivo “eu me recuso a dizer que melhorou". Nesse momento, o expediente tem a função de marcar um posicionamento mais firme de MB a respeito do tópico "Mudança na realidade", designando uma atitude declarativa que em sentido estrito não será tomada por MB, apesar de sua percepção sobre os nuances que permeiam o posicionamento em jogo. O metadiscurso tem como glosa, então, a introjeção dessa possibilidade de enunciação. Quando diz que "se recusa a dizer que melhorou", MB reconhece e evidencia esse micro ato do discurso (ADAM, 2008) em questão (de "recusar- se a dizer" algo), com o qual sua declaração corresponderia também a uma ação inscrita no campo jornalístico. A produção desse expediente metadiscursivo indica a autorreflexividade de MB e uma sucessiva "calibragem" dos sentidos que se dão nesse momento e que são manifestadas na materialidade verbal por meio da explicitação de um posicionamento mais decisivo nesse tópico.

Acreditamos que ambos os expedientes metadiscursivos presentes nesse exemplo revelam o controle de MB sobre responsabilizações possíveis de serem a ele atribuídas em função de sua participação nesse contexto do campo jornalístico. Nesse sentido, o emprego da metadiscursividade reequilibra sua participação nessa interação e ajusta sua inscrição nesse contexto do campo jornalístico de forma importante: pois sinaliza que, já na instauração do primeiro tópico, o rapper decidiu não se comprometer com as categorizações postas por PM sem, no entanto, deixar de cumprir seu papel discursivo de entrevistado.

Ato contínuo, a entrevista tem prosseguimento com a pergunta de PM acerca da “Mudança no espaço do grupos” Racionais MC’s e com a exposição de MB sobre a contestação sofrida pelo grupo mesmo em seu bairro de origem, Capão Redondo, em São Paulo. Ao final da resposta da resposta de MB, o apresentador e mediador do programa cede o turno de fala à entrevistadora MR (Maria Rita Kehl), para sua instauração sobre os tópicos que envolvem “Movimentos sociais em SP”. Tomemos o seguinte excerto:

Exemplo 2- Expedientes metadiscursivos na fala de MB (Roda Viva)

PM Maria Rita?

MR ºeh- eu queria saber sobre já que você pergunta° de- eh o Paulo Markun perguntou de melhorias>... o que que você/ acha de movimentos\ sociais (.) que surgiram também/ nesse tempo (.) que os Racionais tão aí na estrada\... tem um movimento lá no Capão (.) quer dizer não é no Capão é em São Paulo .h mas que é muito expressivo no Capão (.) que é o MTST eh movimento dos trabalhadores sem teto [...] eu gostaria de saber sua opinião sobre: esses dois movimentos sociais se você é otimista (.) com (.) a: (.) presença deles no Brasil ou não...

Movimentos sociais em SP

MB sim então... eh: (.) junto com esses eh:-o: ((balbucio)) vou dizer os que eu acompanho mais certo? eh:: tem alguns movimentos que são hoje: sã::o organizados dentro do Capão (.) que eu acompanho alguns de perto... esses eu considero como mudança reAL tipo tem o Capão Cidadão [...] eh:-o que eu acompanho de perto...

Movimento Capão Cidadão

os outras (.) organizações talvez eu acompanhe de longe...

MR ((sorrindo)) e de lon:ge que que cê acha do MST? (.) [perguntando de cara]

MB [o que eu acom]panho de longe... acompanho que tem um cara preso (.) certo? lutando por uma causa que não é só dele (.) que é de milhões (.) e ele vai-pelo que eu to vendo vai pagar sozinho é isso?...

MR ((balcucio)) num sei (.) acho que não ((rindo)) [tem muita gente presa]

MB [que tem um] cara preso lutando por uma causa que é de muitos... né? eu acho que::... que é: José Rainha é isso?

MR isso

MB eu até eu-tenho que dizer que eu sou um cara que eu leio pouco mêmo... sou mal informado sobre muitas coisa (.) mas... as coisa que me interessam (.) eu me informo... en[tendeu?]

No trecho acima, é possível notar como incidem os expedientes metadiscursivos nas construções de sentido que se elaboram conjuntamente ao longo da interação com MB no programa Roda Viva. Primeiramente, é preciso considerar o impacto da organização cenográfica do programa, abordado por nós anteriormente, na configuração da interação que se estabelece: no momento em que um segundo entrevistador instaura um novo tópico no programa, o entrevistado MB deve se reposicionar para acompanhar o turno de fala de MR, movimentando-se com a cadeira que ocupa para alinhar sua postura corporal diante da entrevistadora. Assim, MB, cuja postura se encontra frente a PM (posição E7), alinha-se até que consiga encontrar a posição na bancada ocupada por MR (E2), cuja fala já estava em andamento, como mostra a Figura 11:

Figura 11- Semioses não verbais na produção do metadiscurso (Roda Viva)

É preciso considerar que essa movimentação do entrevistado ao longo da interação ocorre constantemente, sendo de fato atinente ao papel de um convidado e à organização cenográfica no programa Roda Viva. Consideramos que essa dimensão contextual deve ser evocada por corresponder a uma semiose que se associa a outras dimensões contextuais da entrevista concedida pelo rapper. Assim, toda a movimentação do convidado no programa cria disposições corporais e proxêmicas que sugeririam uma participação arredia para o entrevistado, já que sempre deverá se reposicionar frente às interpelações (muitas vezes, simultâneas) dos diversos entrevistadores. Nesse sentido, tendo em vista que os movimentos corporais de MB se dão em reação ou resposta às ações dos entrevistadores, é possível pensarmos em disposições subjacentes a contextos de ataque, por parte dos entrevistadores, e defesa, por parte de entrevistado.

Voltando-nos para os expedientes metadiscursivos produzidos nesse momento, é possível notar sua presença já na instauração da pergunta feita por MR: assim, o expediente “já que você pergunta – eh o Paulo Markun perguntou”. Esse segmento (que também representa uma reformulação) tem como função permitir que MR se refira aos enunciados precedentes para promover uma transição entre o tópico instaurado por PM (sobre “melhorias”) e aquele que ela própria instaura nesse momento – por meio de uma ligação entre “melhorias” e movimentos sociais surgidos ao longo da trajetória do grupo Racionais MC’s. Desse modo, uma função desse expediente está ligada à continuidade e progressão tópica da entrevista por meio de novas perguntas dos entrevistadores. Um segundo expediente metadiscursivo produzido por MR ainda durante a instauração do tópico está presente em “quer dizer não é no Capão e em São Paulo”. Nesse momento, o procedimento metadiscursivo está ligado a outra função, a saber, introjetar, comentar e refazer a formulação do enunciado da própria MR, já que o movimento social que será mencionado pela entrevistadora (MTST) atua não apenas no Capão Redondo, mas sim em vários lugares da cidade de São Paulo.

A resposta de MB dá início a negociações entre a entrevistadora e o entrevistado em torno do tópico instaurado. Observamos, com isso, o papel do expediente “vou dizer os que eu acompanho mais”, quando o procedimento metadiscursivo de MB se volta para os conteúdos tópicos em jogo e para seu papel na entrevista. Assim, ao anunciar que falará de movimentos sociais específicos, MB sinaliza em que sentido sua atitude como entrevistado irá atender a proposição de MR, redirecionando o conteúdo. Saliente-se que esse momento de produção do metadiscurso também não ocorre sem que estejam presentes outras pistas de contextualização, capazes de evidenciar a autorreflexividade que incide sobre a língua em níveis vários. Assim, essa ocorrência do metadiscurso é acompanhada pela quebra do fluxo informacional da fala de MB, expressa pelo balbucio produzido nesse momento, e pelo movimento corporal do rapper ao direcionar seu olhar para baixo, ajeitar o boné59 usado por ele e sua posição no assento que ocupa (Figura 12).

59 Cabe acrescentar que as disposições corporais de MB, no contexto do programa Roda Viva, também são marcadas pela produção da periferia, tendo em vista que o boné usado pelo rapper nesse momento corresponde ao artigo fabricado pela DRR, Defensores do Ritmo da Rua, posse conhecida pela produção de vestimentas ligadas ao hip hop (em outros momentos da entrevista, MB é questionado sobe o uso do boné).

Figura 12- Semioses não verbais na produção do metadiscurso (Roda Viva)

Contudo, é possível notar que o redirecionamento do tópico, expresso por MB por meio do expediente metadiscursivo, não é acatado pela entrevistadora MR, que se vale da complementação feita por MB sobre os movimentos sociais “que acompanha de longe” para propor que o entrevistado trate especificamente do MST como movimento social. Nessa nova tentativa de MR, observa-se a produção do expediente “perguntando de cara”, cujo procedimento metadiscursivo está na introjeção de uma avaliação de sua atitude discursiva, bastante direta (“de cara”) nesse momento.

Interessa notar que as respostas dadas por MB trazem novas características a sua participação nesse contexto de entrevista. Isso porque, quando expõe as informações que possui sobre o movimento social em questão, MB se vale de algumas expressões para marcar e checar o cumprimento de seu papel discursivo perante aquilo solicitado pela entrevistadora. Nesses momentos de checagem é que podemos notar a presença do expediente “ele vai – pelo que eu tô vendo ele vai pagar sozinho”: a nosso ver, esse expediente metadiscursivo indica que a formulação do rapper necessita ser ajustada, para marcar que a informação em jogo (“ele vai pagar sozinho”) consiste numa opinião sua, e não num fato dado como certo. As semioses não verbais co-ocorrentes às falas da entrevistadora e do rapper (Figura 13), nesse caso, revelam tanto uma postura mais assertiva de MB (por meio de perguntas dirigidas à entrevistadora) quanto expressões faciais (sorrisos) com as quais MR procurou atenuar sua pergunta.

Figura 13- Semioses não verbais na produção do metadiscurso

Na continuidade da interação, as falas de MB ocasionam uma inversão do par pergunta-resposta característico das entrevistas (FÁVERO et al., 2010), segundo o qual caberia ao entrevistador a instauração de novos tópicos, por meio dos questionamentos, e ao entrevistado o desenvolvimento desses conteúdos. Nesse sentido, podemos considerar que as ações de textualização de MB (re)configuram o contexto de entrevista nesse momento. Quando dirige seus questionamentos à MR, o rapper circunscreve a entrevistadora numa participação em que ela própria deverá dar respostas. As semioses não verbais que identificamos nesse momento (Figura 14) sugerem a posição pouco confortável na qual a entrevistadora se encontra e, a nosso ver, exprimem sua hesitação (expressa também na transcrição, pelas marcações de balbucio) em participar como aquela que deve responder ao entrevistado.

Figura 14- Semioses não verbais na produção do metadiscurso (Roda Viva)

Já no término da discussão desses subtópicos, MB apresenta uma informação sobre o líder do movimento social MST (“é José Rainha, é isso?”) mais uma vez retornada à MR, para que a entrevistadora possa checar a validade da informação e o cumprimento de seu papel discursivo no desenvolvimento desse tópico. Diante do fato de que MR dá como certa a informação de MB, o rapper responde finalizando o tópico por meio da fala iniciada com o

expediente metadiscursivo “eu até tenho que dizer que eu sou um cara que...”. Nesse momento, o procedimento metadiscursivo de MB evoca a própria situação de enunciação e seu engajamento com as informações que estavam em jogo no desenvolvimento do tópico proposto por MR. Ao colocar-se como alguém “que lê pouco”, MB expressa seu distanciamento perante os conteúdos que envolvem especificamente o movimento social MST, acompanhado “de longe” pelo rapper. Desse modo, as informações apresentadas pelo entrevistado nesse momento funcionam também como ressalvas para que possa justificar como ocorreu o cumprimento de seu papel discursivo nesse momento.

Para além das funções textuais-discursivas dos expedientes metadiscursivos presentes nesse momento, interessa notar aquilo que significam esses recursos nas tomadas de posição de MB já nos primeiros momentos de entrevista. Por meio do Exemplo 1, foi possível notar como o metadiscurso (nas semioses verbais e não verbais nele presentes) colabora para que MB possa regular os efeitos de sentido de seus enunciados nesse contexto complexo de sua participação no campo jornalístico e, por meio desse segundo exemplo, podemos dizer que suas ações de textualização auxiliam-no a firmar sua posição nessa entrevista como aquele que retém um certo tipo de informação sobre os movimentos sociais em São Paulo, ainda que não seja profundo conhecedor de certas atuações como as do MST.

É preciso ter em mente, na compreensão das tomadas de posição do rapper nesse momento, também a estigmatização atinente a sua posição no campo da produção cultural da periferia e no movimento hip hop, posição que, em algumas visões, faz com que esteja associado de modo geral as demandas de grupos outros que se encontram numa trajetória de reivindicações sociais. Assim, muitas vezes se supõe que a líderes prestigiados como Brown não faltam informações e conhecimento sobre uma miríade de iniciativas que, na verdade, podem não ser conhecidas “de perto” pelo rapper. Outro fator importante a ser levado em conta no desenvolvimento desses tópicos no programa é a posição de MR no campo jornalístico, haja vista o fato de que a trajetória profissional da entrevistadora está ligada ao trabalho com grupos sociais diversos, dentre os quais, o MST. Desse modo, confirma-se a correlação entre os tópicos desenvolvidos no programa e não apenas a trajetória do sujeito entrevistado, mas também aqueles associados às trajetórias dos sujeitos entrevistadores.

Consideramos que os exemplos analisados até o momento nos permitiram tratar dos expedientes metadiscursivos levando em conta: as diferentes semioses que co-ocorrem em sua produção, o modo como emergem em situações de construção conjunta dos sentidos nessa interação, algumas das diferentes instâncias da enunciação introjetadas por esses recursos, sua relação com alguns dos tópicos desenvolvidos na entrevista. A partir daqui, passaremos a tratar

de outros exemplos cuja importância e representatividade nas amostras do programa estão ligadas aos tópicos nos quais foram utilizados e às diferentes funções textuais-discursivas que desempenham. Tomemos, então, o exemplo abaixo:

Exemplo 3- Expedientes metadiscursivos na fala de MB (Roda Viva) (...)

PLS é/ muito difícil falar prum garoto (.) pobre preto... que vive na periferia (.) que ele tem que ser honesto? (.) diante dasse-desse exemplo?... .h por que eu falo

isso? porque cê falou que é assim: (.) ele se espelha

em quem tá mais perto... .h agora o exemplo do Brasil... se a gente for ver do modo geral... é muito maior do que tá perto... tem muito ladrão no Brasil todo... .h fica difícil você falar pruma criança (.) sem pa:I (.) passa fome e tal (.) que ele tem que ser honesto que ele não pode roubar?

Dificuldade em falar de honestidade

MB eu chego a dizer que eu nem considero eles desonestos né? (.) dentro da realidade da arma-das armas que eles têm pra lutar (.) e que eles aprenderam como meio de sobrevivência eles são honesto... eu tenho certeza que com os parceiro deles eles são honesto... com a família deles eles são honesto... com os mano que tá preso eles são honesto... tá ligado? eles são honesto com quem tem-com quem é honesto com eles (.) entendeu? onde tá a honestidade são valores/ né?...

(...)

Honestidade dos jovens da

periferia

O trecho exibido no Exemplo 3 corresponde ao momento em que se desenvolvem os subtópicos “Dificuldade em falar de honestidade” e “Honestidade dos jovens da periferia”. Ambos são subtópicos que se subordinam ao tópico “Honestidade X desonestidade”, ligado ao supertópico “Periferia”. Consideramos importante o tratamento desse excerto, haja vista que ele exemplifica uma função geral dos expedientes metadiscursivos ao longo do supertópico “Periferia” na entrevista: intensificar a força ilocucionária dos conteúdos topicalizados por MB como resposta aos questionamentos dos entrevistadores.