No intuito de estimular a capacidade empreendedora da Asmare, sem “enfraquecer sua dimensão de inserção social, bem como a necessidade de um espaço formal que possibilitasse a interação dos diversos parceiros da associação” (Dias, 2002, p.84), foi criada a coordenação colegiada composta pelos membros da diretoria da Asmare e representantes dos seguintes segmentos: Pastoral de Rua, Superintendência da Limpeza Urbana, Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Cáritas.
Antes de adentrarmos na discussão da coordenação colegiada, ilustraremos uma situação vivenciada pela equipe que apoiava a gestão da Asmare nos primeiros anos, ou seja, os agentes da Pastoral de Rua e técnicos da Cáritas. Ao ser indagada sobre como eram tomadas as decisões nos primeiros anos da Asmare, Cristina Bove destacou que havia muitas discussões entre a equipe e os associados.
Ela esclareceu que assim que o galpão foi construído, a associação ganhou algumas máquinas, porém, não tinha capital de giro. Após muitas conversas, os catadores definiram que iriam acumular o papelão separadamente, para que esse tipo de material fosse comercializado de forma coletiva, obtendo assim um pequeno fundo.
Essa negociação entre os catadores se deu de forma consensual e, não impositiva. Ou seja, participaria desse processo quem tivesse condição de acumular tal material. Quanto aos demais materiais, os catadores continuavam vendendo para os depósitos. Assim, decidiram juntar uma quantidade suficiente para formar uma carga que pudesse encher um caminhão. Quando conseguiram completar a carga
“fizeram foto, festa. [Tudo] era feito de forma voluntária, [os catadores faziam] rodízio para pesar [o papelão] e todo dia alguém ficava lá para pesar. Depois que fizeram a primeira venda, fizeram [também] a primeira divisão. Esse início teve muita participação. Tinha muita festa naquele tempo. Havia muita mística. Cada coisa que acontecia celebravam”. (Cristina Bove).
Como os catadores estavam acostumados a vender separadamente os materiais recicláveis para os depósitos e receber imediatamente o valor correspondente ao peso do produto comercializado, fazer o diálogo com eles, respeitar o que cada um conseguia guardar e experimentar a participação dos catadores na gestão, além de celebrar com eles tais conquistas, nos faz pensar no aprendizado que possibilitou a construção daquela identidade coletiva. Constatamos no campo que, acumular determinado tipo de material para comercializarem coletivamente tornou-se uma prática recorrente na gestão da associação.
Embora a Asmare tenha sido fundada em 1990, a partir de 1993, iniciou uma nova relação com a prefeitura, e em 1997, foi constituída oficialmente a coordenação colegiada, ou seja, o “fórum de planejamento estratégico e de avaliação das ações, contribuindo para a integração das diferentes abordagens de cada parceiro” (Dias, 2002, p.159). A função desse grupo seria planejar e avaliar as ações junto a Asmare, além de,
Dividir as responsabilidades em relação ao aperfeiçoamento das capacidades administrativa e gerencial da ASMARE, na perspectiva de uma maior autonomia dos seus projetos. Assim, esse é um espaço para a discussão não somente dos aspectos mais diretamente ligados ao gerenciamento da coleta seletiva da SLU/ASMARE,
como também daqueles ligados às múltiplas ações e projetos desenvolvidos pela associação. (Dias, 2002, p.84).
Dessa forma, a experiência de gerenciamento da associação ocorreu durante muitos anos por meio da cogestão, buscando a “participação efetiva dos catadores nos processos decisórios e gerenciais” (Dias, 2002, p.108). Ao refletir sobre o papel dos diversos atores e suas incidências, Dias (2002) ponderou
Ora, parceria não é a expressão de interesses altruístas, mas de desejos compartilhados. Assim, a construção de coalisões só se dá a partir do reconhecimento das alteridades dos sujeitos e de seus diferentes tempos, a partir da construção de propostas concretas e de ações conjuntas e, fundamentalmente, a partir da criação de canais onde um parceiro possa influenciar o outro. (Dias, 2002, p.158).
A especificidade dos papéis de cada ator da coordenação colegiada ia se definindo conforme o dinamismo e as contradições vivenciadas no cotidiano da Asmare, bem como a conjuntura política, sem perder de vista a importância de
cada parceiro, assim como dos seus diferentes tempos políticos e pedagógicos. Sem dúvida, na prática, é difícil manter a clareza necessária dos papéis que cada parceiro ocupa na interação. No sentido de manter a legitimidade de algumas ações, muitas vezes torna-se necessário “retroceder” para reconhecer o espaço e lugar das ONGs envolvidas, da administração pública ou dos próprios catadores e poder, então, tentar avançar sem competitividade nem estrangulamentos. (Dias, 2002, p. 159).
Dessa forma, cada parceiro experimentava, desenhava o seu papel e reconhecia o valor dos demais atores na construção de uma gestão compartilhada. A despeito disso, Dias (2002) advertiu que “no afã de inaugurar uma nova relação com esse segmento, a ação da SLU resvalou para um certo paternalismo” (p.160), a medida que relevava alguns acordos firmados com a Asmare, como por exemplo, o acondicionamento dos rejeitos.
Este caso é ilustrativo dos conflitos internos dos funcionários operacionais da SLU, pois o procedimento normal seria advertir o munícipe do problema e em caso de persistência interromper a coleta até que a padronização seja cumprida. Na prática, o que acontece é que a advertência é feita, reuniões são realizadas com os catadores para instrução a esse respeito, mas na hora da coleta o encarregado do serviço acaba por não interromper a mesma “por pena dos catadores”. O exemplo em questão também é revelador da dificuldade dos catadores em relação à normatização do seu trabalho. (Dias, 2002, p.160).
Além dos riscos na relação paternalista entre Asmare e a prefeitura, Dias (2002) também enfatizou os cuidados que a equipe da Pastoral tinha em relação à Asmare, “os agentes pastorais estão atentos já há algum tempo, estando os mesmos extremamente empenhados em radicalizar o processo dos catadores em assumir cada vez mais o gerenciamento do seu ‘negócio social’” (Dias, 2002, p.180).
As reflexões feitas pela autora em torno da dicotomia entre autonomia x cooperação, ou seja, se seriam “polos excludentes ou complementares” ainda pairam nos dias atuais. No entanto, observamos mudanças no campo das relações entre a Asmare e os parceiros, como por exemplo, a aplicação de multas pela prefeitura à organização por acumularem resíduos no passeio público.
Hoje, os associados assumiram toda a gestão da Asmare e os parceiros atendem às demandas da associação quando solicitados, seja no suporte jurídico, seja na inclusão de associados em programas de moradia, ou dependendo da situação, na mediação de conflitos, dentre outras.
4.2.1 Os processos formativos dos catadores
No período de 1994 a 1999, os associados novos e antigos da Asmare fizeram diversos cursos de capacitação com o propósito de “fortalecer o processo organizativo dos catadores e de qualificação enquanto profissionais da coleta seletiva do município” (Dias, 2002, p.93). Segundo a autora, a partir de 1996, tais cursos se tornaram pré-requisitos para admissão de novos associados na Asmare e abordavam os seguintes temas:
Relações humanas: tem como objetivo fortalecer os laços de amizade e integração entre os catadores e destes com o universo de pessoas que com eles se relacionam no dia-a-dia;
Limpeza urbana e reciclagem: discute os aspectos gerais ligados à limpeza urbana e à coleta seletiva em particular e o papel do catador como agente ecológico;
Aterro sanitário: visita técnica que propicia ao catador ver in loco como se dá destinação final do lixo e entender a diferença entre aterro e lixão, bem como a importância da redução e reciclagem do lixo;
Segurança no trânsito e no trabalho: orienta os catadores sobre as normas de circulação de veículos de tração humana com base no Código Nacional de Trânsito e sobre as normas de proteção e segurança no trabalho (uso de equipamentos de proteção individual, prevenção e combate ao fogo);
Saúde do catador: aborda os riscos à saúde do catador no exercício de sua atividade e os cuidados necessários, orienta sobre as doenças sexualmente transmissíveis e sobre a saúde em geral;
Organização da ASMARE e cooperatismo: aborda a história de constituição da entidade, discute o estatuto, as normas de funcionamento dos espaços de trabalho, direitos e deveres do associado e a história do movimento cooperativista. (Dias, 2002, p.93).
Os cursos eram oferecidos e coordenados pela prefeitura e pastoral de rua. Segundo Cristina Bove, logo que a capital iniciou a experiência da coleta seletiva, houve várias
capacitações para que os catadores pudessem se socializar e se sentirem como trabalhadores do meio ambiente.
Neste sentido, a equipe se empenhou em discutir com eles o significado de material reciclável, como seria realizada a coleta seletiva, “a importância [dos catadores] como pertencentes a essa sociedade e que estavam fazendo um benefício, melhoravam as condições da cidade”. Outra questão abordada nos cursos era sobre a importância dos controles, da organização dos dados de produção, e das anotações. Os catadores participaram de treinamentos para utilização correta da balança e “tudo era feito de forma coletiva para trabalhar a questão ética, da transparência. Esse processo foi com todo mundo, claro que nem todos participavam”. Como estavam acostumados a comercializar os materiais que recolhiam nas ruas, segundo Cristina Bove, “vários deles entendiam o processo de compra e venda”.
Outra questão que inquietava a equipe era a presença das crianças, filhos de catadores, e, eram muitos.
“Elas se misturavam ao trabalho. Fizemos um trabalho [junto às escolas próximas da Asmare] e [as crianças] começaram a ir para as escolas. O processo . . . das crianças que estavam nas ruas [irem para as escolas] foi lindo. [Houve] ruptura de preconceitos pela escola. Foi muito importante para a socialização [dos catadores e dos seus filhos] no início. Tinha reforço escolar, inclusive. Por causa de todos os problemas que aconteciam. . . . Tudo era motivo de discussão. . . . Eram valores que se discutiam ali. Não havia 100% de adesão [dos catadores]. Mas era uma grande maioria [que participava das capacitações e das discussões]”. (Cristina Bove).
A religiosa advertiu ainda, que, no início, os técnicos eram capacitados para trabalharem na Asmare, todavia, aos poucos, as atividades formativas para os técnicos foram se perdendo, como também foi se perdendo a sistemática de capacitações com os catadores antigos e aqueles que se preparavam para experimentarem o trabalho na associação.
Ao longo dos quase trinta anos da Asmare ocorreram vários outros cursos promovidos por parceiros diversos e também por meio de demandas do Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis junto aos governos estadual e federal. Contudo, os cursos para entrada de novos associados não ocorrem mais e os catadores históricos parece sentirem falta dessas práticas antigas que preservava a memória do grupo, conforme o relato dessa associada: “hoje a pessoa entra na Asmare e não sabe a história, não sabe o que significa, antes para entrar tinha regras, tinhas deveres, tinha obrigações, tinha capacitação. Hoje se perguntar os novatos ninguém sabe”.
4.2.2 A organização interna do trabalho
Durante o período em que a Asmare contava com o suporte financeiro da prefeitura, as atividades nos galpões eram setorizadas para facilitar o gerenciamento do trabalho e, segundo Dias (2002), além dos associados, havia funcionários11 contratados que atuavam nos três
setores. A composição da equipe de trabalho de cada setor foi alterada ao longo dos anos, todavia, faremos primeiramente um resgate de como ocorria a dinâmica de funcionamento da Asmare e, em seguida, apresentaremos como ocorre atualmente.
Setor de triagem: Este setor cuidava do controle do material proveniente da coleta seletiva municipal e das doações. Composição da equipe:
Coletores (associados ou funcionários): Utilizando os caminhões alugados pela Asmare, eles seguiam o roteiro da associação e realizavam a coleta em vários pontos. Eram responsáveis por manter organizados os pontos de coleta e, também, efetuar a entrega dos recicláveis ao setor de triagem.
Triadores (associados): triagem fina, ou seja, separação dos diversos tipos de papel, plástico e metal. Por exemplo: papel revista, jornal, papelão, papel branco. Cada tipo de papel tem uma classificação e valor no mercado. Durante a triagem, controlavam a qualidade e em seguida providenciavam sua pesagem, acompanhando junto com o balanceiro a destinação desses materiais para a área de estoque do material solto. Também cuidavam da organização e limpeza do setor.
Balanceiro (associado): Controle da pesagem e organização dos recicláveis nos boxes de triagem, entrega de recibos, controle do estoque.
Coordenador (associado): “acompanhar a entrada e saída dos materiais na área da triagem, tanto os advindos da coleta feita pela SLU, quanto [à] coleta mecanizada realizada pela ASMARE” (Dias, 2002, p.112). Monitorava a organização e limpeza do galpão, bem como, a qualidade do material, a pesagem e o estoque, as anotações nas planilhas e, ainda, repassava as tarefas para os triadores.
Setor operacional:
Coordenador (associado): Em cada galpão havia um coordenador responsável pelo acompanhamento da qualidade do material e pelo maior reaproveitamento dos
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Aqui denominamos funcionários, os profissionais contratados pela Asmare para realizar funções administrativas e operacionais. Essas contratações estavam previstas no convênio, assim como o repasse de recursos para estas e outras finalidades.
recicláveis. Fazia as anotações da produção dos catadores, da coleta e das doações nas planilhas, anotava os materiais comprados de terceiros, além da entrega de recibos. Fazia o “controle de entrada e saída dos funcionários; controle da área operacional e de estoque e organização e limpeza do espaço operacional” (Dias, 2002, p.111). Balanceiros (funcionários): Faziam a pesagem de todo o material, entregavam os
recibos, verificavam a qualidade do material e acompanhavam a organização dos papéis, plásticos e metal, ou seja, o armazenamento do material reciclável solto de acordo com o tipo, por fim, cuidavam da organização e limpeza do galpão.
Prensistas (funcionários e associados): Enfardamento dos materiais recicláveis, anotações dos fardos em planilhas e, assim como os outros, também acompanhavam a qualidade e estoque do material enfardado.
Setor administrativo: responsável por controlar a produção, organizar as demandas de coleta, providenciar a comercialização, realizar os pagamentos, fornecer informações para as reuniões da diretoria. Jacobi e Teixeira (1997) ressaltaram que a comercialização dos materiais recicláveis era realizada para dois atravessadores, sediados em Belo Horizonte, e sete indústrias recicladoras, sediadas em outras localidades. Para obter melhores preços na venda dos materiais recicláveis, a associação fazia um estoque até formar uma quantidade que pudesse atrair os compradores. Nesta direção, Dias (2002) advertiu que a comercialização ocorria por meio de concorrência entre os compradores. A definição do comprador era baseada na capacidade de apresentar “o melhor preço e a maior agilidade na retirada do material adquirido” (Dias, 2002, p.111). Esta autora descreveu a composição dessa equipe:
Administrador (funcionário contratado): cuidava do “gerenciamento dos espaços e do pessoal e a administração geral da ASMARE e sua capitalização” (Dias, 2002, p.110); controlava o fluxo de caixa (receitas e despesas); controlava todo o material que entrava e saía da associação; realizava as pesquisas de preços dos materiais para compra e venda.
Auxiliares administrativos (funcionários contratados): responsáveis pelo controle da produção do material que vinha dos catadores, da coleta seletiva e das doações; a organização dos dados, elaboração de relatórios e preparação da prestação de contas mensal.
Coordenador (membro da diretoria): responsável por “acompanhar as atividades administrativas; avaliar e liberar pagamentos; acompanhar e liberar a compra e venda de material e contratar e demitir pessoal” (Dias, 2002, p.110).
Observamos ainda que, durante o período do convênio, com exceção do coordenador, os demais integrantes do setor administrativo eram funcionários contratados. Dessa forma, a Asmare contava com o acompanhamento de parceiros e técnicos nos processos decisórios e gerenciais. Dias (2002) acrescentou que habitualmente ocorriam assembleias mensais nos galpões para “socialização da planilha de controle contábil e financeiro e discussão de questões de interesse geral” (p.114).
O organograma apresentado nos estudos de Dias (2002) inclui, no setor administrativo, a participação de um contador e, também, o setor de informática, com a presença de um analista de sistemas. Segundo o relato dos associados, o convênio também mantinha o contrato dos vigias.
Dias (2002) destacou que a equipe de apoio a Asmare se afastou gradualmente da gestão dos setores para que os associados pudessem assumi-la.
A equipe social da Pastoral, por exemplo, passou a concentrar mais a sua ação nas abordagens de rua a novos catadores e menos na resolução dos problemas cotidianos, propiciando, assim, que o catador assumisse mais a coordenação dos espaços. Nos galpões da Curitiba e da Itambé, a SLU que mantinha, inicialmente, funcionários operacionais que co-gerenciavam o espaço junto com os catadores, foi restringindo, paulatinamente, a sua presença a momentos específicos como assembléias ou a resolução de situações–limite. Esse re-direcionamento da atuação das assessorias, possibilitou aos catadores assumirem mais a responsabilidade pelos destinos da Associação. Hoje, por exemplo, a coordenação do setor operacional da ASMARE é toda feito pelos catadores e, apesar de várias dificuldades, os mesmos vêm acompanhando mais o setor administrativo. (Dias, 2002, p.134).
Com o passar dos anos, a estrutura do setor de triagem foi modificada e somente permaneceram os associados que atuam nos boxes de triagem. No setor operacional, as funções de balanceiro e prensista passaram a ser assumidas pelos próprios associados. Em relação ao setor administrativo, conforme já expusemos, a associação contou com a presença de funcionários contratados até a finalização do convênio e, durante um ano, mantiveram uma contadora no galpão da Contorno e um administrador no galpão da Ituiutaba.
Observamos nos estudos empreendidos por Jacobi e Teixeira (1997), Kemp (2001), Dias (2002), Freitas (2005) e nas entrevistas com Cristina Bove, a riqueza dos aprendizados acumulados e também os desafios do trabalho coletivo.