Primeiramente, os alunos devem fazer a leitura individual e, depois, o professor pode ler o texto pausadamente, esclarecendo ao final as palavras que apresentarem maior grau de dificuldade. É importante proceder à leitura do todo ou de partes do texto por várias vozes: um aluno pode ler o trecho de que mais gostou, outro o que achou mais fácil ou mais difícil. Essa técnica, chamada de text rendering, aproxima o aluno daquilo que lê, desperta a observação mais apurada, familiarizando-o com as novas palavras do ponto de vista semântico e sonoro. O professor e o grupo auxiliarão na decodificação do vocabulário novo que for essencial para compreensão e interpretação. É fundamental que o aluno capte o significado como um todo, sem
necessariamente traduzir todas as palavras.
Decodificar um texto implica construir hipóteses, proceder a explorações da estrutura gramatical, arriscar-se na descoberta do significado de novos vocábulos. Partir do conhecimento que os alunos já possuem é um passo importante para desenvolver as competências ligadas à leitura e à compreensão. É o que Perrenoud chama de trabalho a partir das representações dos alunos, isto é, os conhecimentos trazidos por eles para a sala de aula, adquiridos formal ou informalmente. Segundo Bachelard (1996),
os professores têm dificuldade para compreender que seus alunos não compreendem, já que perderam a memória do caminho do conhecimento, dos obstáculos, das incertezas, dos atalhos, dos momentos de pânico intelectual ou de vazio” (In: Perrenoud, 2000, p. 29).
Ensinar com base nas representações dos alunos requer que o professor seja capaz de mobilizar nos jovens e adultos competências e habilidades de reconhecimento do já aprendido, análise comparativa em relação ao novo aprendizado, abertura para dúvidas, erros e obstáculos, de modo a permitir que os novos elementos sejam incorporados às representações pré-existentes – em última análise, competência de reorganizar o próprio aprendizado. Obstáculos cognitivos devem ser superados mediante a reelaboração e a reconstrução de aprendizagens pelo aluno. É importante que esse trabalho seja coletivo e partilhado, uma vez que o confronto das várias representações leva à exposição do próprio pensamento e à consideração do pensamento dos demais.
O trabalho exploratório torna claro que aprender e apropriar-se do aprendido é mais complexo do que simplesmente memorizar. Envolve uma atividade cognitiva reestruturadora das várias possibilidades contidas em um texto, tanto no nível simbólico como no nível da comunicação prática e mais imediata. Ainda segundo Mèlich (2002),
[...] a memória, dentro da perspectiva da finitude, desempenha papel fundamental. Ela não pode ser entendida apenas como recordação, mas sim como uma faculdade que permite ao ser humano instalar-se no tempo e no espaço. [...] O ser humano é um ser em um contexto, por isso necessita da memória. [...] Ela nos remete ao passado, mas ao mesmo tempo nos lança ao futuro, porque é criativa e não uma mera repetição ou lembrança do que ocorreu. A memória humana é também o esquecimento, porque seleciona o que seguirá no tempo. Difere da memória dos computadores que apenas armazenam.
Dependendo do texto e dos conceitos e competências que se pretende desenvolver por meio dele, pode-se abordar o tema geral com maior ou menor riqueza de detalhes:
• as palavras e suas derivações, sinônimos e antônimos; • a mensagem, as palavras-chave, os tópicos frasais; • a pronúncia, a linguagem formal ou informal; • a intenção do autor, os sentidos implícitos;
• os aspectos descritivos, narrativos ou dissertativos; • a conversação, a tradução ou a gramática.
Língua Estrangeira Moderna
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Segundo o tempo disponível, a maturidade e o interesse do grupo, vários dos aspectos acima podem ser explorados concomitantemente.
Para a consecução dos objetivos cognitivos na área da exploração do texto é necessário que o professor ofereça o suporte necessário e que tenha clareza sobre:
• as metas que pretende atingir;
• a razão da escolha de um determinado tipo de texto em vez de outro; • as etapas do trabalho;
• a avaliação do trabalho durante o próprio processo.
O processo de ensino que utiliza o texto como estruturador de competências e habilidades envolve a mobilização, ora sucessiva, ora concomitante, de competências e habilidades como:
Inquirir. O texto deve despertar a curiosidade de saber o que traz e para onde leva, e instigar no aluno perguntas tanto sobre seu assunto e seus temas, quanto para além deles.
Compreender. Ao interpretar o significado das partes do texto, o aluno deve captar com clareza os sentidos que remetem ao todo.
Executar. Nesta etapa, a ênfase do trabalho é a pesquisa, determinação das palavras- chave e das partes constituintes do texto, bem como o registro pessoal; o aluno deve ser parte integrante do processo, não apenas um aprendiz passivo.
Revisar. Cabe ao professor oferecer o suporte necessário para que o aluno verifique e confira as etapas executadas, tirando dúvidas, confrontando sua interpretação com as de outros do grupo.
Avaliar. É o momento de avaliar o trabalho realizado (pelo professor e pelos alunos) e também o próprio processo de ensino e aprendizagem, no sentido de aperfeiçoá- lo. A avaliação não é um momento, mas ocorre em todas as etapas do trabalho.
Agregar. O novo conhecimento deve agregar-se ao anterior. A apropriação do conhecimento constituirá a nova base e o substrato do que ainda será aprendido.
Em todas as fases do trabalho o professor deve oferecer suporte adequado, dando pré-instruções, ilustrando, exemplificando, orientando quanto aos passos necessários para a execução das atividades.
O uso de textos como ponto de partida do processo de ensino e aprendizagem de um idioma estrangeiro envolve, em primeira instância, a língua falada: leitura em voz alta, exploração do vocabulário desconhecido, questões simples que possam auxiliar a desvendar o sentido geral contido no texto, formuladas em língua estrangeira pelo professor para a classe. A etapa do trabalho escrito deve, portanto, sempre suceder o trabalho feito oralmente.
No ensino médio, o texto não deve ser apenas informador, mas motivador, tanto no aspecto intelectual como no emocional. O professor deve selecionar textos cuja exploração propicie:
• a ampliação do vocabulário; • o manejo da estrutura lingüística;
• o desenvolvimento de competências de leitura e interpretação; • a correlação com outros saberes e outras visões de mundo;
• o desenvolvimento das quatro habilidades lingüísticas: ouvir, falar, ler e escrever.
O trabalho de leitura e interpretação textual permite ainda o desenvolvimento de conceitos como cultura, linguagens, contexto, identificação de temática, pesquisa. Além disso, mobiliza competências relativas à identificação das intenções, da visão de mundo e da cultura do produtor dos enunciados.
Para que abram esse leque de possibilidades, os textos em língua estrangeira selecionados devem funcionar como veículo das diversidades culturais, levantando questões sociais ligadas a preconceitos e desigualdades – cuja abordagem pode e deve ser feita em articulação com outras disciplinas. O trabalho envolvendo temática sociocultural é igualmente importante para o desenvolvimento de competências nas quais a linguagem é fonte de legitimação de acordos e de condutas a serem avalizadas ou não.