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extraído do texto de RD, produzido na proposta 06 (ANEXO III).

No documento Um outro olhar para os erros de segmentação (páginas 128-132)

Leitur a: “A outra estória do lobo mau”

Neste dado, nota-se que não há coincidência entre os limites da estrutura hipossegmentada “lobulau” (lobo mau) e o constituinte prosódico que engloba essa estrutura, no caso, a frase fonológica restruturada “do lobolau” [do lobo mau] Φ. Em português, a frase fonológica consiste em um C (grupo clítico) que contém um elemento considerado como cabeça lexical (um substantivo, um verbo, um adjetivo, um advérbio e, em alguns casos, um pronome) e todos os Cs de seu lado não-recursivo. Além disso, é importante lembrar que a frase fonológica, segundo Nespor & Vogel (1986), é um constituinte que possibilita reestruturação, em certas condições. No português brasileiro, “se dois elementos que podem funcionar como cabeça lexical encontram-se imediatamente seguidos e vinculados (sintática e prosodicamente) entre si, eles podem funcionar como uma única frase fonológica, reestruturada” (CHACON, 2006, p.04). No dado que selecionamos para análise, a posição de cabeça lexical é preenchida, mais à direita, pelo adjetivo mau, imediatamente antecedido de outra cabeça lexical, no caso, o substantivo lobo, vinculados sintática e prosodicamente, fato que permite a reestruração da frase fonológica. Observa-se, também, nessa ocorrência, que a frase fonológica é preenchida por um único grupo clítico [do lobo], ou seja, um monossílabo prosodicamente não-acentuado (clítico) e o substantivo que funciona como cabeça lexical e que, prosodicamente, o apóia. Note-se que na estrutura “do lobolau” a criança isola pelo espaço em branco a sílaba “do”, ou seja, o monossílabo prosodicamente não-acentuado. Concordamos com Chacon (2006) quando, ao analisar dados semelhantes ao nosso, diz que se trata da ação simultânea de uma frase fonológica e uma sílaba. No caso do dado que apresentamos, trata-se da ação simultânea de uma frase fonológica e, no seu interior, de um clítico. No que diz respeito à não coincidência das estruturas hipossegmentadas e os limites de um constituinte prosódico, fato um pouco semelhante ocorre no Dado 23:

Dado 23: extraído do texto de RD, produzido na proposta 03 (ANEXO III).

Leitura: “Era uma vez, uma bruxa que adorava gatos”

A estrutura hipossegmentada “burssaque” está envolvida na frase entonacional [uma bruxa que adorava gatos] I, composta por duas frases fonológicas, uma simples [uma bruxa] Φ e outra reestruturada [que adorava gatos] Φ. Observe-se que o limite gráfico da hipossegmentação “burssaque” não coincide com os limites de nenhum constituinte prosódico, e envolve os limites de mais de um constituinte. Portanto, podemos supor, em dados como esse, que a percepção de categorias prosódicas não contribui para explicarmos a estrutura hipossegmentada.

A busca de hipóteses explicativas para alguns dados da categoria mescla, tais como: “uma burssaque a dorava gatos” (uma bruxa que adorava gatos), “viro um chapeu e poise68 o chapeu virou um chapéu passarinho” (virou um chapéu e pôs e o chapéu virou um chapéu passarinho) e “fiquei o moride medo” (fiquei morrendo de medo) nos conduziu ao trabalho de Chacon (2004). A ocorrência de estruturas hipossegmentadas como “burssaque”, “poise” e

“moride” poderia ser explicada se considerarmos o espaço em branco e as estruturas

68 É possível levantarmos a hipótese de que o dado “poise” não se refira a uma hipossegmentação, e sim ao modo

não-convencional que RD encontrou para representar o som /s/ que se encontra em posição de coda, na sílaba da palavra “pois”. De acordo com Abaurre (2001), em geral, crianças no processo inicial de aquisição da escrita apresentam dificuldade, na escrita, de preencher a posição de coda. Para a autora, dados como “poise” seriam indicativos de uma tentativa por parte da criança de analisar a estrutura silábica, que, pelas soluções propostas, dá mostras de que está procurando descobrir quantas letras se podem incluir nas sílabas, e em que ordem elas devem ser escritas.

lingüísticas que sucedem e que antecedem essas hipossegmentações. Por exemplo, no dado “uma burssaque a dorava gato” podemos, com base em Chacon (2004), aventar a hipótese de que o reconhecimento daquilo que pode ser considerado, convencionalmente, como uma palavra – no caso: uma e a – ocorreria como “fruto de uma ação retrospectiva” (colocar espaço em branco depois de uma) e “projetiva” (colocar espaço em branco antes de a) do sujeito em seu ato de escrever (CHACON, 2004, p.228). A ação retrospectiva e prospectiva da criança ao colocar os espaços em branco não implica que ela retorne ao texto para isolar por espaço em branco as margens de cada uma das palavras.

Ressaltamos que uma outra hipótese explicativa pode ser proposta para o modo não- convencional com que RD grafa o trecho “uma burssaque” (uma bruxa que). Nota-se, neste dado, marcas de apagamento entre as letras “r” e “a” da palavra “bruxa”. É possível que, ao reescrever tais letras, RD tenha aumentado o tamanho ou o número de letras (ou as duas coisas ao mesmo tempo) e não tenha percebido ou se incomodado com o fato de a palavra “burssa” ter se juntado a palavra “que”.

Destaca-se que o modo de funcionamento que denominamos de “mesclas” foi tão freqüente nos dados de RD (39% do total de hipossegmentações) quanto o modo de funcionamento que denominamos como “resultante da percepção de um grupo clítico e de informações do código escrito institucionalizado” (também, 39% do total de hipossegmentações). Tal resultado indicia que as informações prosódicas são importantes critérios para a colocação dos espaços em branco na escrita infantil, mas não só. Informações de natureza morfológica, sintática e semântica também parecem constituir o “movimento das crianças entre diferentes possibilidades de categorização dos elementos da língua” (CHACON, 2006, p.08).

1.3 As hipersegmentações de RD

Relativamente às hipersegmentações, observamos que o funcionamento mais freqüente encontrado nos dados de RD foi aquele que denominamos como resultante da percepção da sílaba e de informações do código escrito institucionalizado. Vejamos o quadro 04:

Quadro 04: Levantamento percentual do funcionamento das hipersegmentações de RD. Tipo de Funcionamento das Hipersegmentações %

Resultantes da percepção da sílaba e de informações do código escrito

institucionalizado. 75

Resultantes da percepção de um pé e de informações do código escrito institucionalizado.

25

Total 100

Observe o Dado 24, um dos dados representativo desse modo de funcionamento:

No documento Um outro olhar para os erros de segmentação (páginas 128-132)