5 S ITUAÇÃO AMBIENTAL DE REFERÊNCIA
5.6 Q UALIDADE DO AMBIENTE
5.7.4 F LORA E V EGETAÇÃO
5.7.4 F
LORA EV
EGETAÇÃOA vegetação da área de estudo consiste em uma mistura de diversos tipos de vegetação conjuntamente designados por “Mosaico costeiro”, que inclui capim, floresta de mangais e floresta de dunas, cujas características originais encontram -se muito perturbadas, mostrando evidências de uma considerável intervenção humana.
Historicamente, a agricultura de subsistência e o corte de lenha, assim como o desenvolvimento de actividades industriais, constituem as actividades principais que afectaram seriamente a vegetação terrestre local. Originalmente, essas áreas integravam uma extensa porção de vegetação distinta conhecida por mosaico regional de Tongoland – Pondoland, segundo classificação fitogeográfica de White (1983).
Este mosaico de vegetação ocorre numa extensa área ao longo da faixa do sub-continente africano do Oceano Índico, representado pela presença de uma mata de floresta costeira (floresta costeira não diferenciada, floresta dunar e floresta de pântanos), arbustos e ervas, cujas características são descritas por Wild e Barbosa (1967). No passado essas áreas formavam um cinturão sub-litoral, normalmente dominado por solos vermelhos, alaranjados ou cinzentos. As espécies principais incluíam a Albizia, Afzelia, Sclerocarya e Strychnos.
5.7.4.1 FLORA TERRESTRE
A área de intervenção directa do projecto é completamente artificializada por conta da sua infra-estruturação. A flora terrestre dominante é tipicamente de ambiente urbano, e sem importância ecológica e conservacionista relevante. Neste sentido, no presente descritor não são detalhadas as comunidades terrestres, assumindo-se que o projecto terá impactos nulos sobre as mesmas.
5.7.4.2 FLORA AQUÁTICA E DE TRANSIÇÃO
A flora aquática e de transição que se destaca na área de estudo é constituída por mangais e caniçais, que requerem uma grande quantidade de água para o seu desenvolvimento.
Os mangais da área de estudo caracterizam-se pela sua disposição em forma de manchas quase contínuas ao longo da margem estuarina.
Figura 51 – Floresta de mangal localizada na área de estudo (30/09/2017)
No entanto, o estado de conservação dos mangais da área de estudo é desfavorável devido a elevada pressão humana. Factores associados a corte de lenha e madeira para o uso doméstico e revenda têm sido as principais ameaças dos mangais da região.
Figura 52 – Floresta de mangal na área de estudo visivelmente degradada devido a factores antropogénicos (corte de árvores) (23/10/2017)
Ceriops tagal e Lumnitzera racemosa (Bandeira et al., 2007). Rhizophora mucronata é
a espécie dominante na área de estudo.
Apesar do reduzido número de espécies vegetais encontradas nestas áreas, a fauna associada é muito variada, incluindo mamíferos, aves, peixes (de elevado valor comercial), insectos e répteis (Kathiresan e Bingham, 2001). Entre as espécies mais conhecidas se destaca o caranguejo de mangal (Scyla serrata) e os camarões penaeídeos (Macamo et al., 2016).
Recentemente os mangais foram classificados pela UNEP – Programa das Nações Unidas para o Ambiente, como sendo um habitat ameaçado (Duarte et al., 2012).
Ecologicamente, os mangais são considerados como verdadeiro berçário marinho, por serem áreas de reprodução, muitas vezes exclusivas, de várias espécies terrestres e aquáticas (Bandeira et al., 2007).
Estes habitats desempenham diversas funções naturais de importância ecológica e económica, destacando-se a protecção da linha da costa, a retenção de sedimentos carregados pelos rios, a concentração de nutrientes, a renovação da biomassa costeira e área de alimentação, abrigo, nidificação e repouso de aves (Pereira e Alves, 1999).
5.7.5 F
AUNA5.7.5.1 FAUNA TERRESTRE
A fauna terrestre aqui considerada é associada aos mangais. Devido à fragmentação do habitat para dar lugar à construção de infra-estruturas industriais e habitacionais, espécies de mamíferos de grande porte não são comuns nesta área.
Segundo Sereuca (2005), dentro do perímetro urbano, a diversidade de aves reduz-se ao pardal doméstico (Passer motitensis) e ao corvo malhado (Corvus albus). Os pântanos que circundam os mangais e as zonas influenciadas pelas marés proporcionam, no entanto, um habitat adequado para uma grande diversidade de aves , incluindo aves limícolas e andorinhas do mar. As espécies mais comuns são Dromas
Figura 53 – Tecelão (Ploceus sp.) observado na área de influência directa do projecto (30/09/2017)
As florestas de mangal albergam também répteis escamosos e anfíbios anuros, embora não muito bem documentados. Podem ser encontradas várias espécies de invertebrados (insectos, gastrópodes) associados à vegetação e à componente aérea das árvores de mangal.
5.7.5.2 FAUNA INTERTIDAL
A fauna intertidal de maior predomínio e valor comercial na área de estudo são as amêijoas. De acordo com Scarlet (2015), as espécies mais dominantes na baía de Maputo pertencem a família Veneridae, nomeadamente Eumarcia paupercula e Meretrix
meretrix, distribuídas nas zonas entre marés.
Outras espécies que aparecem em menor quantidade e que são de menor valor comercial são: Donax faba, Anodontia edentula, Macoma retrosa, Dosinia hepatica e
Pillucina pisidium.
As amêijoas constituem um grupo especialmente vulnerável, devido à sua importância para a segurança alimentar e renda da maioria das comunidades situadas ao longo da baía.
5.7.5.3 FAUNA AQUÁTICA
A presença do estuário do Espírito Santo, das linhas de água que desembocam neste sistema e da Baia de Maputo, confere à área envolvente do projecto uma diversidade de fauna aquática. Na área de estudo são de potencial ocorrência as espécies de:
Peixes pelágicos - Hilsa kelee (nome comum magumba), Tilapia rendalli, Thryssa vitrirostris, Thryssa setirostris, Oreochromis mossambicus (tilápia de Moçambique), Hydrocynus vitatus e Pomadasys maculatum;
Crustáceos - Scyla serrata (caranguejo do mangal), Penaeus indicus (camarão branco), Metapenaeus monoceros (camarão salpicado ou castanho), Panaeus
monodon e lagostas;
Moluscos – Amêijoas (Meretrix meretrix e Eunarcia paupercula).
Dentre as espécies identificadas, nenhuma é classificada como sendo endémica, nem com estatuto de ameaça de acordo com a Lista Vermelha da IUCN (IUCN, 2017).
Figura 54 - Caranguejo de mangal (Scyla serrata) encontrado numa floresta de
5.7.6 S
ÍNTESEO contexto ecológico da área de estudo está marcado por uma forte pressão humana: perto de metade da área estudada, a que corresponde a área de influência directa do projecto está artificializada, subsistindo áreas naturais formadas por mangais, caniçais e aplanamento vaso arenoso na margem do canal.
Em termos de valores florísticos, na parte terrestre da área de estudo ocorrem apenas espécies florísticas tipicamente de ambiente urbano, e sem importância ecológica e conservacionista relevante.
Em relação à flora aquática e de transição, os mangais constituem o habitat natural de elevado valor e importância ecológica. Contudo, possuem um estado de conservação desfavorável, o que condiciona a existência da fauna associada.
Relativamente à fauna, na área de estudo não há registo de ocorrência de espécies tanto terrestres como marinhas classificadas como endémicas, nem com estatuto de ameaça, de acordo com a lista vermelha da IUCN.
Assim, de um modo geral a área de estudo possui baixo a elevado valor ecológico, consoante o habitat em causa.
5.7.7 E
VOLUÇÃO DA SITUAÇÃO DE REFERÊNCIA NA AUSÊNCIA DOPROJECTO
Na ausência do projecto, e de qualquer outra intervenção paralela, prevê-se que a evolução da situação de referência para ecologia, na área de estudo, seja no sentido de continuidade da alteração gradual dos habitats em resultado da forte pressão humana.
As comunidades terrestres vão continuar artificializadas e serão progressivamente ocupadas. Na componente marinha, o aumento da degradação dos mangais e caniçais em resultado da pressão dos residentes próximos repercutir-se-á na fauna associada a estes habitats, caso não sejam tomadas medidas proteccionistas.