4. ENQUADRAMENTO JURÍDICO DO JOGO NA INTERNET
5.2. Falta de práticas de jogo responsável
Este tema sublinha a falta generalizada, nos sítios online, de práticas de jogo responsável, as quais são mais comummente encontradas nos Casinos. Um estudo sobre “responsabilidade social” realizado no Reino Unido, junto de 30 sítios de jogo online, concluiu que apenas 50% destes tinham conduzido esforços significativos para conseguir mitigar as questões relacionadas com o jogo por menores de idade, incluindo funcionalidades preventivas e de verificação de maioridade. Destes, apenas 7 tinham introduzido referências explícitas ao risco
35 de jogo incontrolado (Smeaton e Griffiths, 2004). Uma investigação, conduzida por Wiebe (2006), a 60 dos sítios mais populares de jogo na Internet (i.e., Internet Poker, Casinos e Apostas Desportivas) revelou uma grande variação na extensão e tipologias de estratégias de protecção ao jogador. Num dos pólos revelados pelo estudo, alguns sítios disponibilizavam apenas uma frase relacionada aos limites etários para o jogo online ou uma ligação para um sítio de Jogadores Anónimos. No outro extremo, relata-se a existência de sítios que providenciavam ao jogador opções de auto-exclusão, um conselheiro onsite e funcionalidades que permitiam ao jogador a definição de limites de tempo, dinheiro e perdas (Sychold, 2003; Wiebe, 2006). Contudo, é importante notar que enquanto a maioria dos jogadores online crêem que as funcionalidades de jogo responsável são úteis (eCOGRA28, 2007), estes não são tão entusiastas quanto ao facto de que estas sejam automaticamente aplicáveis a todos eles.
A variabilidade existente no que respeita às práticas de jogo responsável está intimamente ligada às variações jurisdicionais e regulatórias existentes. Algumas jurisdições exigem que os sítios online disponibilizem aos jogadores funcionalidades de auto-bloqueio ou de possibilidade da definição de limites, quer de tempo de jogo, quer de dimensão dos depósitos, quer ainda de limites de aposta. Algumas jurisdições (e.g., Alderney nas Ilhas do Canal – Canal da Mancha – Reino Unido) permitem a exclusão de um jogador a pedido de um familiar (American Game Association, 2006a).
Na Suécia existe um sistema de adesão voluntária, em que é executada uma monitorização e análise do comportamento do jogador (Sveriges Radio International, 2007). Uma vez que um jogador seja identificado pelo sistema como estando em risco, é-lhe vedado o recebimento de mais publicidade e é veementemente alertado com sugestões de revisão dos seus hábitos de jogo, nomeadamente, para que reveja o seu orçamento para jogo ou para que se submeta a um teste de adição ao jogo.
Na Holanda, similarmente ao que ocorre no jogo em Casinos, desenvolveram-se para o jogo
online as políticas de jogo responsável mais proactivas a nível mundial. Cumulativamente a
medidas relativas à exclusão e limites de jogo, a Holland Casino Digitaal definiu um limite máximo de jogo de 100€ por semana para jogadores com idades compreendidas entre os 18 e
28 eCOGRA – e-Commerce and Online Gaming Regulation and Assurance. A eCOGRA é uma organização sem fins lucrativos, sedeada em Londres, destinada à protecção dos jogadores online. Providencia um enquadramento das melhores práticas internacionais e define standards para a indústria do jogo. Mais informação disponível em http://www.ecogra.org/Home.aspx.
36 os 23 anos, permitiu aos jogadores a imposição de limites na frequência de visitas e interveio junto de jogadores que revelaram acréscimos súbitos nos volumes de dinheiro jogado ou de frequência de jogo (Van Kastel, 2006). Contudo, em 2008, a Holland Casino Digitaal deixou de poder disponibilizar estes serviços, após o parlamento holandês ter votado e banido todas as formas de jogo online, com excepção para as lotarias.
Em Portugal, o Jogo Responsável29 é o resultado de uma colaboração entre associações de profissionais de jogo, profissionais de saúde, médicos, juristas, provedores internacionais de informação especializada e muitos outros profissionais, que pretendem preencher uma lacuna existente no campo da informação, prevenção e gestão do problema do jogo (JogoResponsavel.PT, 2011).
Através do sítio Internet Jogo Remoto, o Jogo Responsável observa especificamente a actividade de jogo online mantendo actualizada a informação sobre o desenvolvimento desta indústria e dando especial atenção à monitorização dos sítios de Internet que oferecem jogo
online e que cumprem voluntariamente um conjunto de regras, procedimentos e melhores
práticas para tornar o jogo seguro e responsável. O Jogo Remoto actua assim em nome da defesa dos consumidores, através da observação independente, verificando regularmente o cumprimento, por parte dos operadores, de medidas de segurança, jogo responsável, protecção de menores e combate a fraudes (JogoRemoto.PT, 2011).
Recorde-se, tal como se expôs anteriormente, que no ordenamento jurídico Português, o direito de explorar jogos de fortuna ou de azar encontra-se vedado aos particulares e demais pessoas colectivas, públicas ou privadas, vigorando, consequentemente, para o jogo online, o princípio da proibição. Contudo, tal não significa inexistência da prática, neste caso ilegal, deste tipo de jogo.
Uma das vantagens significativas do jogo online, quando comparado com o jogo físico, é o facto de que toda a actividade é gravada electronicamente e passível de ser ligada a um indivíduo identificável. Este facto potencia a implementação de restrições e limitações automatizadas no jogo disponível para esse indivíduo e/ou a análise de padrões de risco comportamental do jogador (Broda et al., 2008; Nelson et al., 2007). Por outro lado, uma das
37 desvantagens mais significativas do jogo online reside na sensibilidade do jogador. Isto é, se não agradar ao jogador as intervenções e/ou as restrições, disponíveis para o seu próprio interesse e protecção, este tem, ao seu dispor, cerca de dois milhares de outros sítios elegíveis ou alternativamente a possibilidade de criar diferentes identidades virtuais que poderá utilizar para ludibriar os sistemas de exclusão.
Em Fevereiro de 2011, o Comité Europeu de Normalização (CEN) editou um Workshop Agreement (CWA) intitulado “Responsible Remote Gambling Measures”.
Este documento normativo abrange apenas os considerados “jogos de fortuna ou azar” online e esteve submetido a inquérito público durante três meses, obtendo mais de 600 contributos provenientes de especialistas deste sector de actividade. Contém um total de 134 medidas que abrangem áreas como: protecção dos consumidores vulneráveis; salvaguarda das pequenas apostas; combate ao comportamento fraudulento e criminoso; protecção da privacidade e protecção de informação; pagamentos; marketing responsável; ambiente seguro e operacional e satisfação dos clientes.
O CEN considera-o um documento importante e de referência, que irá contribuir para que se assegure, a nível europeu, um ambiente de jogo seguro e responsável (CEN, 2011).