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FALTAS E VENTO: 1997—

No documento Amyr Klink - Linha D'Agua (páginas 59-63)

No fim de 1996, comemorei meus 41 anos de idade no estaleiro. Fizemos o churrasco costumeiro para o pessoal com um pouco de antecipação. Alguns amigos foram de São Paulo. Festa simples, com gente simples, em pleno canteiro de trabalho, terra solta de buracos que abríamos no piso para fazer entrar eixos, bolinas, lemes, chapas empilhadas, máquinas ainda quentes, e as formas estranhas e gigantes dos quatro corpos metálicos que iam nascendo. Bem ou mal, o estaleiro se encheu de trabalho, cresceu, e deu forma aos desenhos que brotavam da impressora. Meu pai, com suas suíças espessas e seu olhar forte, finalmente apareceu para conhecer o trabalho estranho que fazíamos. Batia com a bengala na estrutura de um dos cascos, impressionado:

— Forte, Grandão, parabéns, muito forte!!

A voz rouca e profética de sempre, o sotaque árabe que alguns amigos se especializaram em imitar, debilitado por quase sete décadas de fumo, bateu forte até que voassem as brasas do cigarro de palha que insistia em trazer nos dedos. Tivemos que impedi-lo de acender fósforos entre tantas garrafas de gases industriais e máquinas de soldar. Comuniquei-lhe que a razão da festa não era um aniversário ou o final do ano, mas a decisão de cumprir a promessa do cais da ilha em Paraty e casar com a Marina. Já era tempo. Com o seu modo solene e severo, beijou a Marina na testa e exigiu que no churrasco seguinte ela lhe levasse netos. Disse no plural. Rimos, porque normalmente netos não vêm em pencas, são feitos um a um. Casamos.

No churrasco de encerramento do ano seguinte havia grandes novidades. O chapeamento principal dos quatro barcos foi concluído. Os vultos arredondados de estruturas transparentes de cavernas e longarinas ganharam pele, chapas calandradas mais grossas no fundo, mais finas nas bordas. Foram construídas rodas de aço ao redor dos cascos, que começaram virados para baixo, para que

pudéssemos posicioná-los nos eixos virtuais e iniciar a operação de rotação. Inicialmente tínhamos previsto fazer essa operação de virar para cima cada casco tombando-o para o lado com o uso de um guincho a ser alugado. Como não havia mais espaço disponível, optamos por virá-los em seus lugares, usando a técnica das rodas-gigantes e dispensando o uso de guinchos. O Paratii 2 esteve pela última vez emborcado. Em duas horas, depois de meses de trabalho de elevação do casco para o centro das rodas, o gigante de metal cumpriu um ritual que se assemelha a um parto: de boca para cima, virou barco.

O sr. Jamil estava outra vez presente, radiante. A Marina havia atendido ao seu pedido do ano anterior. No plural. Tivemos duas meninas, as gêmeas Laura e Tamara. Duas netas a Marina lhe deu, bivitelinas, uma loira, outra morena, queridas de morrer. Foi o último churrasco de que participou.

Antes de ser pai, cuidei dos barcos que fiz como se fossem filhos, achando que sabia o que fosse ter filhos. Não tinha a mínima idéia. Depois das gêmeas, da alegria que descobrimos ao convidar para a nossa existência tão importantes criaturas, acordei. Que filhos, que nada! Barcos não passam de montes burros de metal. Gosto dos desafios que escondem por baixo de suas quilhas e das distâncias que vencem, mas são meros objetos. Não foi desdém pelo que estava fazendo, apenas acordei. Nada no Universo, depois das meninas, tinha a mesma importância de antes. Nenhuma dificuldade parecia intransponível, nenhuma alegria podia ser tão grande. Duas minúsculas criaturas passaram a dirigir nossas vidas com a intensidade de uma supernova, com uma clareza que eu não conhecia. Mudamos de São Paulo para um condomínio em Carapicuíba, perto do estaleiro. Muitos amigos diziam que depois de casado, e mais ainda depois das filhas, eu acalmaria essa história de fazer barcos e viagens. Ocorreu o oposto. Simplesmente compreendi o que deveria ser feito e como. A Marina compreendeu talvez melhor do que eu. Ao contrário das mulheres que buscam uma certa segurança doméstica, foi clara quando um dia propus retardar meus planos para que pudéssemos pagar a nossa casa. — Não. Primeiro você vai acabar esse barco. Eu vou te ajudar, e estas meninas um dia vão viajar nele.

O churrasco de 1998 marcou mudanças e faltas. O sr. Sérgio, sogro do Thierry, que trabalhava na parte contábil do estaleiro, não esteve presente. O querido sr. Guilherme Ferraz, que tanto nos ajudou para que fechássemos os

motores com a Mercedes Benz, tampouco. Ambos faleceram. Meu pai, numa madrugada de chuva torrencial, me telefonou. Segui para o seu apartamento na avenida Paulista. Segurou as minhas mãos com muita força, como faz um pai árabe com o primogênito, explicando com orgulho e calma como eu deveria tratar a Marina, as meninas, os problemas dos meus irmãos. Sorrindo, sem fechar os olhos, sem soltar as minhas mãos, parou de respirar.

As coisas não iam bem no estaleiro. Em breve eu teria dívidas, novos problemas para resolver, e agora um inventário complicado. Achei melhor interromper a construção do barco até organizar os problemas. Em Paraty havia outras obras em andamento: as instalações que um dia serviriam para o meu porto estavam adiantadas. Uma marina ou um centro de apoio náutico. Já era hora. Não havia um lugar onde uma escola de vela, por exemplo, pudesse funcionar, e eu sabia exatamente o que tinha a fazer. Nenhuma escola aconteceria sem que antes houvesse instalações corretas e um negócio sustentável.

Não parecia sensato plantar obras que só dariam frutos em dez anos, quando as contas andavam tão justas — mas assim foi feito. A ilha das Bexigas não era o lugar ideal para uma marina de apoio, mas era perfeito para uma de charter. O lugar existia, ficava na Boa Vista, bem na frente da cidade e a menos de uma milha da ilha. Era a fazenda onde funcionara o último alambique de construção original de Paraty. 0 casarão do Engenho da Boa Vista, um prédio com dois séculos e meio de existência, numa área que outrora fora porto molhado, estava num triste estado de abandono. Até os sete anos de idade morou na casa a dona Julia Mann, mãe do escritor Thomas Mann. Por intermédio do Luiz Gatti, que construía o meu rancho de canoas na ilha e usava o cais do engenho como ponto de apoio, conheci os proprietários da fazenda. Não tinham interesse em fazer, pelo menos antes de dez anos, nenhum tipo de investimento ou alienação do imóvel. Eu não tinha como comprar a fazenda, mas com o tempo poderia restaurar as construções, refazer os muros dos antigos pátios e quitar impostos atrasados. Muitas das pedras que faltavam estavam lá; outras que fossem necessárias havia em profusão, soltas na lama ou debaixo das lixeiras de bagaço. Não havia em Paraty lugar mais apropriado ou de maior beleza para o que eu pretendia. No Brasil, nenhum lugar com vocação náutica tão autêntica quanto a baía em frente. Faltava ver, como viram índios e portugueses. Fiz um plano de dez anos de investimento e arrisquei uma proposta de

locação, os donos acenaram com um contrato de comodato da fazenda desde que eu assumisse todas as contas. Concordei.

Assim começou outra obra, que exigiria que eu fizesse investimentos por uma década, até concluir como eu gostaria a parte náutica. Os benefícios seriam comuns. No dia em que o barco novo estivesse pronto, eu contaria com uma base perfeita, de mínimo custo operacional para ficar no Brasil. Contaria com um lugar para formar mão-de-obra, atender as escolas de mergulho que já se instalavam na baía e as de vela que, eu acreditava, viriam a ser criadas. Melhor que tudo, poderia trabalhar numa atividade que ensina sempre, que emprega muitas pessoas e que me dá grande prazer — a de hospedar barcos viajantes. Foram passos pequenos e importantes de um trabalho lento, paciente, que foi sendo executado literalmente pedra por pedra.

A construção do casco em Itapevi parou por um tempo, mas não os trabalhos de detalhamento e projeto que acumulavam horas aos milhares. Pilhas intermináveis de desenhos continuaram crescendo. Em cada um havia detalhes que consumiam mais horas, às vezes dias de reflexões. Muitos geravam discussões ruidosas. Era tempo de decidir sobre os mastros, e por mais que procurasse não consegui saber de nenhum da Carbospars, ou ao menos autoportante, que tivesse sido posto à prova numa viagem longa e reveladora. Um barco holandês de dois mastros subira até o gelo ártico do Spitzbergen, onde às vezes há meses inteiros sem um vendaval de respeito. Muitos barcos novos de projetistas consagrados haviam adotado o sistema, mas nenhum provara as tempestades do Sul. Uma noite, em casa, quando as meninas já dormiam, comecei a folhear um Atlas magnífico, que me emprestara o pai da Marina, Mário, velejador experiente e engenhoso construtor de maquetes de navios. Do outro lado do mapa da Antártica, na longitude da Austrália, havia uma anotação em negrito: The windiest place on

Earth...

— E aí, é para esse lugar aí que eu quero ir!! —, exclamei, apontando o mapa com o dedo.

A Marina riu. — Só faltava...

No Dia das Bruxas, 31 de outubro de 1998, parti de Jurumirim para tentar completar o contorno da Terra abaixo da Convergência Antártica. Com uma cruz

alada novinha em folha espetada no convés do velho Paratii. Por falta de barcos- candidatos, decidi fazer o teste eu mesmo.

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No documento Amyr Klink - Linha D'Agua (páginas 59-63)