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MASTROS DE BAMBU

No documento Amyr Klink - Linha D'Agua (páginas 40-44)

Estava deitado sobre o convés com a cabeça apoiada numa das gaiútas e as mãos por baixo da nuca fitando o céu estrelado de um sábado. A lua, escondida no nascente por trás da ilha, começou a aparecer. Conversávamos sobre estrelas. A Marina tinha acabado de fazer um curso no planetário de São Paulo e me desafiava

com constelações que eu não sabia identificar. Não é raro que usuários de astronomia para orientação entendam pouco de estrelas e constelações. Em navegação astronômica trabalha-se sempre com estrelas selecionadas em tábuas e listas, cinqüenta e poucas, apenas nos horários do crepúsculo, nos poucos minutos em que os astros mais brilhantes — e o horizonte — são visíveis simultaneamente. Sempre gostei mais de navegar pelo sol, e por essa razão minha cultura estelar é precária mesmo.

Continuei imóvel, olhando o céu cortado pelo mastro negro e seus doze apóstolos, como eu chamava os doze cabos de aço que sustentam o perfil. A luz prateada da lua subindo por cima do morro logo alcançou o tope do mastro, onde estão a biruta e um indicador de vento. Doze cabos, 24 terminais Norseman e Gibbs inox 316L, lindos de morrer. Em todos vão pinos e cupilhas. Quando levantamos o mastro pela primeira vez, no Guarujá, montei cada um deles com a concentração de quem desarma uma mina. Uma operação delicada, que não quis delegar a ninguém. Penso sempre nelas, as benditas cupilhas. Uma única mísera cupilha fora do lugar faria partir um apóstolo, e o santo mastro desabaria. Contei para a Marina, tentando fugir do assunto das constelações, o drama que foi pôr as mãos no mastro depois de dezoito meses de atrasos burocráticos em Santos. E depois, já na baía Dorian, perfeitamente congelado e livre de preocupações com mastros ou cupilhas, o pânico que passei no dia em que um dos vendavais de inverno provocou ressonância no estaiamento e fez o barco tremer até eu pensar que todos os cabos, cupilhas e terminais fossem explodir. Só mais tarde descobri que essas pecinhas cheias de compromissos entre si têm obrigatoriamente que trabalhar sob tensão, e nunca folgadas, como eu, por ignorante prudência, as deixara.

Estávamos apoitados na baiazinha do poente, a oeste da ilha, próximos a um grande bambuzal. O vento começou a balançar os bambus, produzindo um som curioso é sonolento. Era um vento de terra, vindo da cidade, que rodou o barco e nos aproximou ainda mais dos bambus. Fiquei pensando, quase por brincadeira: será que não daria para fazer um mastro de bambu? Não encontrei uma resposta imediata, mas a questão era interessante. Algumas das touceiras eu plantara ainda garoto, com a ajuda do sr. Gaspar, que depois me ensinou a fazer as mudas. Aqueles que ouvíamos naquela noite, balançados pelo vento, eram da espécie

nacionalismo, porque grandes e verde-amarelos, têm o nome popular de bambu- brasil. Na época eu desconhecia o extraordinário papel social e econômico dos bambus no mundo; simplesmente gostava da planta. Nem desconfiava que se tratava de uma gramínea. Na verdade, a espécie é asiática, não tem nada de brasileiro. Perto de onde estávamos, porém, um pouco ao norte dos pés verde- amarelos, há um exemplar, o único, de um bambu gigante do qual nunca consegui fazer mudas. A espécie, também exótica, dendrocalamus giganteus, veio da China e tem o nome popular de bambu-balde.

Não tive êxito nas mudas, mas fiz um monte de outras coisas com as impressionantes varas. Bem ao lado dos coqueiros plantados após o acidente da Marina, acabara de construir um pequeno rancho, que ganhou o nome de Escritório. Foi feito de improviso, com toras do bambu-balde, piso de areia e cobertura de sapé. Ficou um lugar tão agradável, com vista para a cidade e a centímetros do mar, que nos fins de semana acabou sendo nosso lugar preferido.

Antes mesmo do primeiro verão, visitantes inesperados freqüentaram o escritório. O casal Alain e Françoise, do veleiro suíço Dahu, que eu havia encontrado dois anos antes nas ilhas Féroe, ancorou um dia bem na frente do escritório. No frio luminoso das ilhas nórdicas, mostrando fotos e contando historias de Paraty, eu nunca poderia imaginar que alguém seria capaz de fazer um desvio de rota tão espetacular, quase 10 mil milhas, só para visitar um distante brasileiro, vizinho de porto por algumas horas. De Paraty, Alain e Françoise pretendiam voltar pela costa brasileira e seguir via Panamá para as ilhas francofônicas do oceano Pacífico. Pois exatamente sobre a tosca mesa do escritório acabei por convencê-los a continuar para o Sul. Desvio por desvio, já que estavam ali, por que não seguir até a Patagônia? O Alain concordou que de fato valeria a pena conhecer os canais fueguinos e suas geleiras. Desconfiei que se tudo corresse bem até Ushuaia eles parariam no Micalvi, no lado chileno, encontrariam os outros veleiros, ouviriam suas histórias sobre o mundo dos gelos e da luz e acabariam caindo na tentação de ultrapassar a borda do Drake até a Antártica. Eu tinha, num caixote plástico no barco, todas as cartas náuticas da península Antártica. Fui buscar. Abri sobre a mesa. Eram as inglesas, do Almirantado, lindas.

— Levem! Nunca se sabe, talvez vocês precisem. E eu tão cedo não me livro de estaleiros e dilúvios...

Eles riam como se eu estivesse falando absurdos, rogando uma praga. Insisti até aceitarem. Um ano depois eles voltaram para devolver, sobre a mesma mesa da casinha de bambu, as minhas cartas, cheias de anotações antárticas, felizes da vida por terem realizado a viagem que nem em sonho imaginavam fazer. Desceram de fato até a Antártica e viveram a grande experiência de suas vidas.

De bambu também, mas de outra espécie, fiz meu primeiro curral para ordenha de vacas. Pusemos feixes de varas finas amarradas onde normalmente se usariam esteios e mourões de madeira de lei. O mesmo curral, próximo a um farto bambuzal (e que, por essa razão, custou exatamente o trabalho de amolar a foice e o facão), para incredulidade de vizinhos e curiosos, serviu ainda, por bons anos, para o manejo de búfalas leiteiras da raça Murrah. A flexibilidade dos bambus continha melhor os brutamontes durante a lida do que a rigidez de esteios de candeia e tábuas de ipê.

A idéia de uma estrutura simples e resistente como o bambu para servir de mastro era tentadora. Sem cabos caros e pecinhas complicadas, mastros autoportantes não são idéias novas. Canoas, jangadas e outros barcos regionais usam há séculos, mas em veleiros eu não havia encontrado nada que inspirasse verdadeira confiança. De todos os setores do barco novo em Itapevi, o único que não me empolgava era o dos mastros. Apesar da minha inépcia para cálculo estrutural, de tanto estudar e usar o poste metálico plantado no Paratii, eu não teria dificuldade para desenhar a mastreação e o plano vélico de um barco maior. Conseguimos desenhar, para os mecanismos vitais do futuro casco, uma longa lista de idéias simples e impecáveis. Os mastros, no entanto, seguiam a velha receita que todos os barcos usam. Claro, com tecnologias novas e mirabolantes — como terminais de titânio, barras de monofilamento, têxteis compostos em vez de metais —, mas no fundo era o mesmo velho e complicado conceito de um punhado de cabos segurando um poste. Eu não parava de pensar na genialidade das jangadas cearenses de piúba, infelizmente já extintas. Duvido que um engenheiro da NASA, usando os mesmos materiais, sem usar uma só peça de

metal, lograsse construir um barco para orçar, como aquelas jangadas, até quarenta graus de contravento. Sem usar leme, que elas de fato não têm, ou metal, nem na âncora. Imensos mastros de pedaços de gororoba emendados

com linha e mais resistentes que um moderno de fibra. Estranho mesmo esse mundo das modernidades tecnológicas, onde se emburrece tão rapidamente. Onde tão rapidamente se perde a sabedoria simples.

Um mastro de bambu seria mesmo uma maravilha... Em tantas idéias me perdi que não notei quando a Marina pegou no sono.

Antes que o sereno nos ensopasse por completo ou que um colmo de

dendrocalamus maduro desabasse sobre o convés, puxei-a pelos ombros e

descemos para dormir.

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No documento Amyr Klink - Linha D'Agua (páginas 40-44)