CAPITULO III: RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.3 As interfaces do ambiente para a saúde
3.3.1 Família e Escola
Como já descrito anteriormente, os hábitos ou comportamentos de saúde são consequências, dentre outros fatores, das influências familiares e dos ambientes em que o indivíduo circula no decorrer de sua vida.
Para Nola Pender ambiente é definido como o contexto social, cultural e físico no qual a vida se desenvolve, podendo ser manipulado pelo indivíduo de forma a criar uma conjuntura positiva para comportamentos que melhoram a saúde. As influências interpessoais como, por exemplo, as famílias, os colegas de escola ou de trabalho, colaboram na determinação de normas e modelos a seguir, nas crenças e atitudes relacionadas ao engajamento a um determinado comportamento de saúde49.
Portanto, quando a criança expressa em sua fala comportamentos que foram espelhados nos comportamentos dos pais ou de outro familiar, ratifica-se a importância da influência familiar na construção de bons hábitos de saúde:
Meu pai tá querendo me ensinar futevôlei, pra mim jogar, que ele ensinou minha irmã, minha irmã... Minha irmã já sabe, ele quer me ensinar, sem ele eu não consigo. (FIONA – 10 anos)
O meu irmão ia fazer luta e meu pai ia me colocar no esporte que eu quisesse e eu escolhi natação porque eu acho que é melhor pra trabalhar os músculos. (...) Tá muito vendo televisão, com muito biscoito, doce... eu acho... comer doce de vez em quanto, assim, final de semana, por isso meu pai não deixa eu comer doce durante a semana, não deixa eu comer muito doce durante a semana. Às vezes ele me dá uma bala assim durante a semana. Ele libera doce mesmo nos finais de semana. Que é o ideal pra comer... assim coisas que... fritura é uma coisa que não te leva a nada. Que não é necessário você comer. Você gosta de fritura, é lógico, mas não te leva a nada comer aquilo. (MINNIE MOUSE – 10
anos)
Bom, eu corro com a minha mãe, eu jogo futebol, às vezes eu jogo basquete, eu corro no quintal inteiro todo dia... (WOLVERINE – 9 anos)
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Por quê? Faz o quê o peixe? Não sei, minha mãe disse que é bom, carne
branca... (SININHO – 13 anos)
Pessoas que interagem com as crianças de forma muito próxima e não são familiares, mas assumem este papel, também têm forte influência em seu comportamento de saúde, como por exemplo uma empregada doméstica que cozinha para a família:
Não muito não, porque a Cátia não cozinha bem aí enche de sal e margarina na comida, agora mamãe tá dando uma olhada, tá diminuindo o meu colesterol. Alimentos com fritura, com muito açúcar e... muito com sal e... margarina, que nem a Cátia faz. (PEQUENA SEREIA – 7 anos)
A fala acima foi resposta à pergunta “você é saudável?” e foi a única negativa dentre as 19 crianças entrevistadas, causando um certo espanto que se esclareceu no decorrer da resposta. É fabuloso perceber que a criança valorizou a ação da mãe ao perceber que a comida feita pela “Cátia” não estava adequada e a relação desta com o seu nível de colesterol.
Não sei, minha mãe disse que é bom, carne branca... (SININHO – 13 anos)
A mãe é, na maioria das famílias, a principal responsável pelos ensinamentos no cuidado com o corpo, desde as práticas higiênicas até os cuidados com a alimentação. Esta aprendizagem possui um diferencial, pois é embasada no afeto existente entre mãe e filho, tem o amor materno como motivador do cuidado. Também se deve considerar que a relação de aprendizagem tendo a mãe como mediadora conta com a existência da punição quando os objetivos não são alcançados. O pai tem papel similar ao da mãe e ambos constituem os primeiros educadores transmitindo suas representações culturais, valores e crenças, que têm papel marcante na criança por terem o afeto envolvido88. A associação de emoções positivas a um comportamento de saúde aumenta a probabilidade de compromisso com a ação em questão49,77.
E eu também fico o dia inteiro vendo tv, jogando videogame, também meus pais não me deixam sair de casa pra brincar lá fora. (WOLVERINE – 9 anos) Que minha mãe compra, mas eu comia, quando eu era pequena eu comia, assim, igual meu irmão, só que agora a gente parou de comer um pouco assim, que a minha mãe só compra só às vezes. Aí a gente come. (FIONA – 10 anos)
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O poder de decisão que os pais têm sobre a vida das crianças também pode ser o responsável por comportamentos inapropriados à boa saúde.
A família de uma criança obesa é considerada importante agente de prevenção ou manutenção da condição de obesidade, desempenhando significativo papel na educação alimentar da criança. Por desempenhar a função educativa, como mediadora nos primeiros anos de vida de uma criança, a família influencia no sentido de ter ou não hábitos saudáveis em suas rotinas89. A presença da obesidade em crianças vinculada a fatores familiares remete às relações mantenedoras de dependência, em relações que impedem a individualização de seus membros, em conflitosrelacionados a regras muito rígidas no seio familiar89.
É que minha prima, minha prima tá um pouco acima do peso, aí ela tava comendo muito rápido. Aí ela foi no nutricionista. A minha avó tava dando um pouco de comida pra ela, mas ela tava comendo muito rápido. Aí ela ficava com fome, aí sempre ela queria comer mais e mais coisa, aí depois ela passou a comer devagar e começou a se equilibrar. (MINNIE MOUSE – 10 anos)
Identificando o problema de outra criança familiar, esta menina encontra a resposta para o problema da obesidade: o equilíbrio. Os seres humanos interagem com o seu ambiente a fim de moldá-lo para satisfazes suas necessidades50,77 de tal modo, compreendendo o problema do outro, é possível refletir criticamente e moldar seu ambiente de forma positiva para o próprio comportamento de saúde.
O papel de primeiro transmissor de comportamentos e de estilos de vida para uma criança é atribuído à família por vários autores, inclusive com relação à atividade física onde interesses, habilidades e o acesso às atividades dependem do auxílio de um adulto58. Além da influência exercida pelos pais nos hábitos dos filhos, estudos comprovam que crianças em acompanhamento nutricional tendem a modificar os hábitos alimentares dos pais, ou seja, os pais modificam seus hábitos para auxiliar os filhos no tratamento, sendo que na maioria das vezes em que este fato não é verificado, os filhos não continuam o tratamento89.
Outro ambiente de influência social para a criança é a escola. A escola é responsável por educar, por transmitir conhecimentos, e, logo, por influenciar positiva ou negativamente os hábitos de vida e comportamentos de saúde da criança.
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Estudos descrevem que os hábitos de atividade física podem ser influenciados fortemente pela escola porque crianças e adolescentes passam grande parte dos seus dias dentro da escola58.
É que a gente fez um trabalho da escola e minha colega colocou como exemplo porque a melancia tem muita água. E quando assim se desidratar é pra comer melancia. (MINNIE MOUSE – 10 anos)
É muito magrinha, ela não come muita verdura na escola. (FIONA – 10 anos) às vezes tem alguns esportes que... nos ajuda até... tipo na escola... (FRED
FLINTSTONE – 9 anos)
Isso você aprendeu onde, na escola? Ou viu na televisão? Eu vi na escola. (CINDERELA – 10 anos)
Então, a escola, é outro fator desencadeante dos comportamentos de saúde. Neste caso, o sentimento de afeto e amor não se desenvolve da mesma forma que no seio familiar.
A escola é, tradicionalmente, autoritária, mas não deve ser vista como uma instituição incondicionada, apesar de tantas vezes encontrar-se desvinculada da realidade e assumir uma posição ingênua80.
Os conhecimentos produzidos pela criança a partir dos que são apresentados na escola podem ser o início para a construção dos comportamentos de saúde desejáveis para uma vida saudável. No Modelo de Promoção da Saúde de Pender, os comportamentos anteriores e crenças adquiridas são fatores que afetam a construção de comportamentos de saúde e consequentemente a promoção da saúde50.
O quê que você acha que na sua vida te faz bem? Ir pra escola (...) Ir pra uma
educação física, ir pra ginástica olímpica, brincar no recreio, e brincar com meus brinquedos no recreio no dia da novidade. (PEQUENA SEREIA – 7
anos)
A escola é um local para o desenvolvimento social que influencia diretamente sobre os hábitos de atividade física da criança e do adolescente por passarem diariamente grandes períodos neste ambiente58.
Respondendo a pergunta sobre o que não faz bem para a saúde, a criança destrincha conhecimentos que provavelmente foram adquiridos nos bancos escolares:
Começando pelas fumaças... derrubadas de árvore... também, (Ininteligível) também não gosto só que não tem nada a ver, o êxodo rural, essas coisas...O
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êxodo rural? É. (Risos) Como é a saída de uma pessoa do campo para a cidade,
mas, também não gosto, aí as pessoas da cidade vão acabar, já que não tem mais ninguém no campo, vão acabar com o campo e o campo vai passar a ser cidade. E as queimadas... é... esgoto a céu aberto, isso. (LANTERNA VERDE
– 9 anos)
A importância da resposta está na reflexão crítica que esta criança construiu sendo capaz de vincular fatos como o êxodo rural, queimadas e esgoto a céu aberto à sua própria saúde. Este é o pensamento que a escola deve formar, um pensamento libertador, livre de amarras e formador de opinião crítica com repercussão para o meio em que vive. Pensamentos como estes também repercutem na saúde individual e coletiva na medida em que favorecem a adoção de condutas positivas para a manutenção da qualidade de vida.
Os indivíduos diante de sua complexidade biopsicossocial tendem a interagir com o ambiente, a transformá-lo progressivamente e a serem transformados com o passar do tempo50,75-77, assim as crianças vão interagindo intensamente com seus ambientes, que na grande parte do tempo são compostos pela família e pela escola, sofrendo modificações e modificando-os com suas indagações curiosas e afirmativas inocentes, mas regadas de verdade.
O homem como ser histórico, constituído socialmente, aprende com a interação que exerce com o seu meio, no caso da criança primeiramente como a família e depois com a escola, pois possui um entendimento de mundo que permite refletir e agir de acordo com suas experiências90, não devendo ser considerado desprovido de conhecimentos; neste sentido, a criança necessita de indivíduos atuando no estímulo de seu pensamento critico e fornecendo subsídios para suas ações próprias.