3 O AMOR: AS VÁRIAS POSSIBILIDADES CONCEITUAIS
4.4 FAMILIAS RECASADAS: UMA NOVA CONJUGALIDADE
Os estudos sobre o recasamento começaram a surgir no cenário científico na década de 1970, e diversos autores indicam que as primeiras pesquisas ocorreram nos Estados Unidos (Bucher & Rodrigues, 1990; Guerreiro, Oliveira & Souza, 1999). No Brasil os trabalhos sobre esta temática tiveram início na década de 1980 (Bucher & Rodrigues, 1990), contudo em número bastante reduzido. Ainda hoje observa-se a escassez de pesquisas brasileiras sobre o tema recasamento. Em um levantamento feito na base de dados BVS – Biblioteca Virtual em Saúde e na base de dados Scielo, apenas 9 artigos são listados no total.
Além da escassez de estudos sobre o tema, observa-se que a mensuração e o contexto das famílias recasadas permanecem pouco explorados pelas pesquisas demográficas. A pouca atenção dada aos recasamentos no âmbito demográfico está relacionada à forma como, até recentemente, essas uniões conjugais eram concebidas. Enquanto o primeiro casamento era representado como um marco na transição para a vida adulta, o recasamento era considerado como uma simples restauração de aspectos da vida adulta após a viuvez ou a dissolução conjugal (Marcondes, 2004). Essa forma de pensar prejudica a
compreensão do fenômeno do recasamento, pois desconsidera a complexidade e a dinâmica dos recasamentos.
O IBGE faz o levantamento do estado civil de cada cônjuge quando se casam, mas parece que esse ponto só despertou mais atenção a partir de 2007, quando a tabela referente ao estado civil no momento do casamento aparece no relatório da Síntese dos Indicadores Sociais. Nesse relatório, faz-se a comparação dos números entre os anos de 1997 e 2007. Do total de casamentos ocorridos em 1997, 7,9% foram entre pessoas em que pelo menos uma era divorciada; em 2007, esse número passou para de 13,7%. No período de 10 anos, observa-se uma elevação de 5,8% no número de casamentos em que um ou os dois conjuges já haviam sido casados.
Os primeiros estudos sobre o tema abordaram mais especificamente dados demográficos e realizaram o levantamento de literatura sobre o assunto. Posteriormente, outras temáticas foram surgindo à medida que os recasamentos foram tornando-se mais visíveis, tais como: opinião/ percepção/ visão/ crenças/ valores dos envolvidos (pais, padrastos, madrastas e crianças); modelos de intervenção; funcionamento da família recasada; consequências do recasamento no desenvolvimento dos filhos; recasamento e saúde; questões legais e casos específicos de famílias recasadas (famílias homossexuais e famílias de imigrantes) (Guerriero, Oliveira & Souza, 1999).
É importante ressaltar que, no passado, existiam famílias reconstituídas formadas por padrastos, madrastas e meios-irmãos. A mudança nessa estrutura surge efetivamente quando os pais biológicos estão vivos e levam uma vida separada ou inserida em outra família (Kunrath, 2006).
Com a visibilidade dessa nova estrutura familiar, uma das questões discutidas entre os pesquisadores foi a sua denominação. Os termos surgidos para nomear as famílias que se mantiveram casadas foram família de primeiro casamento, família intacta e original ou nuclear. Já para as famílias que se encontram em segundo casamento, os termos foram recasamento, família recasada, família resconstituída ou recomposta ou recombinada (Bucher & Rodrigues, 1990).
Alguns dos termos surgidos, de acordo com Bucher e Rodrigues (1990), apontam para uma valorização da família do primeiro casamento. Os termos família intacta ou original e família reconstituída ou recomposta apresentam a família originada do primeiro casamento como o modelo a ser seguido. Diante dessa realidade, esses autores acreditam ser melhor denominar a família de primeiro casamento dessa forma mesmo (família de primeiro casamento), uma vez que é apenas um termo descritivo, e a família composta pelo segundo casamento de família recasada. Isso porque a ênfase recai no casamento (os cônjuges é que são recasados), e não na tentativa de reconstruir uma família original.
Todas estas questões são relevantes, pois verifica-se uma dificuldade de nomear e entender uma nova realidade que se apresenta na família. Essas dificuldades também são observadas nos psicólogos e terapeutas que trabalham com famílias (Dias, 2006), o que pode dificultar o processo terapêutico.
O conceito de família recasada será tratado aqui como uma família formada ―por dois adultos que se unem formando uma nova família para a qual um ou ambos trazem pelo menos um filho ou não da relação anterior‖ (Lima,
2008, p. 274). Esse conceito aponta para uma conexão com uma família dada pelo primeiro casamento. Essa conexão pode se dar de diversas formas; contudo, a presença de um filho no primeiro casamento parece ser um dos principais responsáveis pela manutenção da conexão ao longo da vida. Isso porque a consaguinidade é um valor muito importante para as famílias (embora isso fique mais evidente entre as famílias de classe-média). As conexões formadas pela afinidade com o casamento tendem a assumir a feição de crise, com o divórcio (Dias, 2006).
O recasamento concorre para um aumento da complexidade das relações estabelecidas, uma vez que envolve o entrelaçamento de duas, três, quatro ou mais famílias. O nível de complexidade envolvido vai depender do número de recasamentos vividos pelos cônjuges. Essa complexidade não compromete a funcionalidade do sistema, embora possa tornar mais difícil alcançá-la. Para Lima (2008), o sistema familiar pode tornar-se funcional à medida que procure evitar o cruzamento ou a superposição de negociações e dificuldades, tais como ―encerrar o relacionamento anterior, resolver o divórcio, a guarda dos filhos e acordar a pensão antes de iniciar um novo relacionamento‖ (p. 274).
Além das questões citadas acima, o recasamento envolve ainda algumas especificidades que precisam ser endereçadas para o seu funcionamento satisfatório, quais sejam, a interação com o ex-cônjuge e sua família, e com os filhos do casamento anterior e os filhos do casamento atual (Biscotti, 2006). Essa realidade apresenta possíveis conflitos que podem ser vivenciados pelo novo casal: os sentimentos de divisão entre seu novo par e seus filhos e de divisão entre seus filhos biológicos e enteados (Lima, 2008). Os conflitos vivenciados
dizem respeito principalmente ao tipo de obrigações e lealdades estabelecidas no novo arranjo familiar (Marcondes, 2004). Em outras palavras, as questões envolvidas nesses novos arranjos familiares relacionam-se às seguintes perguntas: Quem são os verdadeiros membros da família? Qual é o meu espaço? Quem realmente está no comando? A quem dedico meu tempo, quando e quanto recebo deles? (Carter & McGoldrick, 2001).
Responder a essas perguntas não é fácil; é necessário flexibilidade e negociação por parte de todos os envolvidos. Abaixo estão exemplos dos sentimentos presentes nas delimitações de obrigações e lealdades no recasamento.
A madrasta é vista como alguém que deve amar e cuidar; mas quando o faz, recebe represálias ciumentas da mãe biológica; o filho é visto como alguém que deve sair de casa para as visitas ao pai, deve ser bem tratado e gostar do encontro, mas se gosta demais ou de menos, desperta hostilidade por parte do cônjuge que detém a sua guarda e ―fica metido em encrenca‖! Do mesmo modo, às vezes a sogra é solicitada a amar a nova mulher e desgostar da ―ex‖ (do ponto de vista da esposa subsequente); geralmente, a nora espera que a sogra considere a esposa anterior do filho como ex-nora e que esta não desfrute de intimidade em suas vistas à casa dos sogros. (Dias, 2006, p. 154).
Outras questões vividas pelos casais recasados referem-se a diferenças que podem existir no ciclo vital dos novos cônjuges. Em geral, ―quanto maior a diferença de momentos de vida, maior será a dificuldade de transição e mais demorada será a integração da nova família‖ (Guerriero, Oliveira & Souza, 1999, p. 81).
De acordo com pesquisas, o ajustamento do novo sistema familiar geralmente leva, aproximadamente, de três a cinco anos (Lima, 2008). Esse tempo pode ser maior dependendo das dificuldades encontradas durante o processo. Um aspecto que merece destaque e que pode contribuir bastante para a dificuldade no ajustamento do novo casal relaciona-se à dificuldade encontrada entre os ex-cônjuges para delimitar os papéis e as obrigações de cada um. Nesse sentido, a existência de um divórcio litigioso pode prejudicar o ajustamento da nova configuração familiar (Vainer, 1999).
Em um estudo com o objetivo de comparar o relacionamento vivido no primeiro e no segundo casamento, Pascual (1992) entrevistou homens e mulheres que estavam em seu segundo casamento. Os achados dessa pesquisa mostraram-se interessantes por acessar uma questão não observada em pesquisas anteriores: a divisão dos papéis de gênero. Os resultados da pesquisa apontam que, no primeiro casamento, há uma tendência da presença de rigidez e da preservação dos papéis tradicionais de gênero, ao passo que, no segundo casamento, esses papéis aparecem atenuadamente.
Esses resultados indicam que há uma mudança na estrutura conjugal no recasamento, indicando uma divisão mais igualitária das tarefas domésticas. Isso é possível pois a relação estabelecida no segundo casamento possui características diferentes das da relação estabelecida no primeiro casamento, tais como ―diálogo, respeito mútuo, estima e consideração pelo parceiro‖ (Pascual, 1992, p. 142). Além disso, observa-se uma grande mudança no comportamento sexual na nova relação. Os dados indicam uma maior preocupação do homem em proporcionar à parceira o prazer sexual. Essa mudança observada pode estar
relacionada ao momento em que ocorreram os dois casamentos, demonstrando a influência das transformações sofridas pela sociedade. O primeiro casamento desses entrevistados aconteceu nas década de 1960 e 1970, enquanto o segundo casamento ocorreu em média dez anos depois.
As questões levantadas revelam a necessidade de a família recasada ser considerada a partir de um paradigma de família inteiramente novo, que considere os novos relacionamentos e os papéis além das expectativas geradas com as transformaçoes observadas na sociedade no que diz respeito ao papel do homem e da mulher no casamento. Para uma melhor compreensão da dinâmica das famílias recasadas, é importante mais estudos, seja de abordagem quantitativa seja de abordagem qualitativa.