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2 REVISITANDO O INSTITUTO DA RESPONSABILIDADE CIVIL

2.3 As excludentes de responsabilidade

2.3.3 Fato de terceiro

Neste, importante esclarecer que a responsabilidade acerca do evento danoso não é de todo excluída do mundo jurídico: ela subsiste, contudo, não pode ser imputada àquele por quem se entende ter sido o autor, pois houve intervenção de sujeito alheio às partes do binômio formador da relação jurídica que impõe a responsabilidade, intervenção esta determinante para a superveniência do dano em tela.

Novamente, vale-se da contribuição de Caio Mário Pereira77 na matéria, que expõe a necessidade e a dificuldade encontradas em se aferir quem deve ser considerado terceiro, bem como a extensão do seu comportamento em relação ao dano. Assim, pode-se

74 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de Responsabilidade Civil. 12ª Ed. São Paulo: Atlas. 2015, p. 95 75 BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em: <<

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/l10406.htm >> Acessado em: 22/08/2018

76 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil: Responsabilidade Civil. Rio de Janeiro:

Forense. 2016, p. 373

entender por terceiro aquele que não é parte no negócio, não está inserido na relação jurídica existente entre o agente e a vítima e na moldura da qual sobreveio o dano. Apesar desta externalidade, atua de forma a influir nesta relação, lesando o direito da vítima.

Alerte-se que, todavia, não se deve incluir nesta hipótese de exclusão da responsabilidade civil o caso do art. 932 do Código Civil, já citado neste capítulo, em que esta é deslocada para a figura daquele com quem o agente esteja ligado por uma relação jurídica e em razão desta se possibilite tal chamamento:

Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:

I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia;

II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições;

III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele;

IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos;

V - os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia.78

Aqui se trata de responsabilidade indireta, e objetiva, pois se admite sua existência ainda que sem culpa, conforme o artigo subsequente ao supracitado. Portanto, o fato de terceiro ora considerado é, como dito, a ação daquele indivíduo estranho ao binômio formador da responsabilidade civil e que é conditio sine qua non para o alcance do resultado negativo que se procura reparar.

A segunda problemática apontada por Caio Mário,79 quanto à extensão do comportamento do terceiro em relação ao dano, revela-se no grau de influência no dano, se foi total ou parcial. Só quando este seja exclusivamente imputável ao terceiro é que se exclui a responsabilidade do suposto agente causador, pois, como destaca Sérgio Cavalieri Filho,80 exclui-se aqui, do mesmo modo, o nexo de causalidade por conta desta intervenção externa. O

78 BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em: <<

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/l10406.htm >> Acessado em: 22/08/2018

79 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil: Responsabilidade Civil. Rio de Janeiro:

Forense. 2016, p. 373

Autor ainda aponta que nestes casos o fato de terceiro pode ser comparado ao caso fortuito e à força maior, pela sua inevitabilidade e estranheza à conduta do agente.

Note-se que a circunstância tem tratamento diferenciado em algumas hipóteses, que podem até mesmo soar contraditórias a um primeiro olhar, mas que, analisando-se mais atenciosamente, compreende-se sua razão de ser: em regra, no Direito do Consumidor, o fato de terceiro é previsto de forma expressa como excludente de responsabilidade, desde que o fornecedor faça prova do ocorrido.81 Todavia, no que concerne aos bancos e instituições financeiras, nem mesmo o fato de terceiro exclui a responsabilidade destes perante outrem, sendo claramente uma exceção à regra, pois as atividades exercidas por aqueles são consideradas prestação de serviço pelo Código de Defesa do Consumidor e se inserem na sistemática de proteção ali contida.82

Isto já foi abordado previamente neste capítulo, tendo sido citada a Súmula nº 479 do STJ, que imputa aos bancos e instituições financeiras a responsabilidade pelos danos decorrentes de fraudes e outros crimes perpetrados por terceiros nas operações de tal natureza, qualificados como fortuito interno.

Conforme igualmente explanado nesta oportunidade, tal entendimento se dá em razão do risco da atividade exercida por estas empresas, sendo previsível que tais crimes possam ser tentados, o que torna imperativo àquelas que constantemente envidem esforços em aperfeiçoar seus sistemas de segurança a fim de garantir a veracidade e a confiabilidade das informações recebidas antes de se autorizar quaisquer transações, levando-se em conta ainda a hipossuficiência do consumidor na relação, desnível que é ínsito à mesma, cabendo ao fornecedor, pela sua maior capacidade econômica e tecnológica, se precaver à astúcia dos criminosos, cada vez mais organizados.

81 Art. 12, CDC: O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem,

independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.

[...] § 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar: [...] III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

82 Art. 3°. Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os

entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços. § 1° Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.

§ 2° Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista.