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2 REVISITANDO O INSTITUTO DA RESPONSABILIDADE CIVIL

2.2 Elementos caracterizadores

2.2.3 Nexo de Causalidade

Para restar configurada a responsabilidade civil, chamando o autor da ação a reparar os malefícios dela decorrentes, há que verificar a ocorrência de uma relação de causa e efeito entre a conduta praticada e o dano desferido, seja diretamente ou seja como uma consequência que possa ser antevista. Causa, portanto, seria a condição para o alcance do efeito, sem a qual este não se realizaria. Paulo Nader60 explica que, para parcela de autores, a definição de causalidade não é encontrada no universo jurídico, sendo compreendida de maneira mais ampla, já que as próprias leis físicas estabelecem que de toda ação sobre um corpo advém uma reação oposta.

Todavia, o autor atenta para o fato de que nem sempre a ação, embora realizada por meios aptos a lesar outrem, realmente se projeta sobre aquele outro indivíduo, sendo necessário, portanto, para que surja o dever de reparar, não apenas a conduta e o ânimo do agente em se furtar à observância de um dever jurídico seu, mas a efetiva ocorrência da ofensa em relação ao outro e em razão da prática observada. Assim, o conceito de ato ilícito do Art. 186 já introduzido neste capítulo necessariamente requer que do ato (comissivo ou omissivo) exsurja o prejuízo: “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.”

Maria Helena Diniz61 sublinha que, não obstante em alguns casos não se verifique uma influência direta da ação em relação à lesão infligida, isto não significa que não seja um efeito necessário daquela, de modo que os acontecimentos supervenientes ao binômio ação e reação podem ter se concretizado tão somente em razão da primeira, de modo que os danos daí gerados também sejam indenizados. Exemplo disto seria, conforme exemplifica a autora, hipótese de acidente no qual se atinge a vidraça de uma loja: deve arcar não apenas com o valor da vidraça, mas também com o prejuízo de objetos eventualmente furtados neste cenário ou com a lesão causada a pessoas no interior do estabelecimento ou em sua proximidade.

60 NADER, Paulo. Curso de Direito Civil. v. 7: Responsabilidade Civil. Rio de Janeiro: Forense. 2010, p. 111 61 DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. v. 7. Responsabilidade Civil. 28ª Ed. São Paulo:

Há, portanto, considerável número de teorias a explicar o nexo de causalidade, cada uma focando em um aspecto de sua ligação com o dano. As duas mais conhecidas são a da Equivalência das Condições e a da Causalidade Adequada e Imediata, como destacou José Affonso Dallegrave Neto62 ao se debruçar sobre a matéria. Segundo a primeira, a causa de determinado evento consistiria na soma de todas as condições que levaram à sua ocorrência, sendo igualmente essenciais à consequência vislumbrada, tendo aplicação principalmente na seara penal e na previdenciária, nesta última quando se aferem, por exemplo, as concausas para os benefícios por incapacidade, a fim de verificar se sua etiologia reside na execução da atividade laborativa. Já a da Causalidade Adequada e Imediata é a que se afiniza com o instituto da responsabilidade civil, pois considera causa não só os fatos anteriores, mas sim aqueles que tenham de fato sido eficientes na ultimação do resultado obtido. A imediaticidade se mede não pelo lapso de tempo entre as circunstâncias verificadas e o dano sofrido, mas pela determinância na sua obtenção.

Atualmente, a visão trazida por esta teoria foi remoldada para, dentre a pluralidade de concausas, chamar à responsabilidade o agente somente no limite da sua atuação, interrompendo-se o nexo causal a cada nova conduta. Assim, os fatos anteriores e mesmo posteriores que guardem relação com o resultado têm sua relevância reconhecida, mas não tornam mais ou menos gravosa a culpa. Isto é positivo na medida em que torna menos dificultosa a identificação dos pressupostos da responsabilidade civil, diminuindo margem para o enlastecimento na interpretação do caso concreto e que poderia implicar tratamentos desiguais, pondo em risco a tão prezada segurança jurídica.

A conformação da causalidade, portanto, é um evento complexo, podendo mesclar elementos e circunstâncias vários sobre os quais cabe indagar se seriam determinantes ou não para a ocorrência do dano indenizável. Só esta imprescindibilidade impõe ao agente o dever de reparação, pois, se constatada a interferência de forças da natureza, de acontecimentos imprevisíveis e alheios à sua esfera de atuação, ou de terceiros, ou ainda da própria vítima, feriria a lógica imputar-lhe a responsabilidade civil. Do mesmo modo que deve restar claro ao magistrado o liame entre a conduta e o dano, para exigir a reparação, deve-se comprovar a ocorrência destes fatores externos para eximir desta o autor.

62 DALLEGRAVE NETO, José Affonso. Responsabilidade Civil no Direito do Trabalho. 5ª ed. São Paulo:

Novamente, veja-se que no âmbito da responsabilidade objetiva, em algumas hipóteses, até mesmo esta externalidade das circunstâncias verificadas não é capaz de elidir a responsabilização de quem lhes seja imposto tal dever.

Exemplo didático e em voga na jurisprudência é a responsabilidade objetiva das instituições financeiras e bancárias pelas fraudes perpetradas criminosamente por terceiros contra os seus clientes, situação que os ministros do Superior Tribunal de Justiça classificam como fortuito interno, entendendo que, mesmo resultante de uma ação criminosa e astuta de desconhecidos, é inerente à atividade exercida por estas instituições o perigo de se tentar burlar seus sistemas e com isso auferir vantagens econômicas em nome daqueles a quem presta seus serviços.63 Assim, impõem-se-lhe deveres de vigilância, de controle e de aperfeiçoamento tecnológico a fim de fortalecer seu sistema e prevenir a ocorrência de fraudes, estando tal imperativo embutido também na contratação firmada com os particulares, que se valem de seus serviços justamente pela fidúcia creditada de que guardam seus haveres e seus interesses com segurança superior à do homem médio.

A Corte inclusive publicou súmula neste sentido: “Súmula nº 479: As instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos gerados por fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados por terceiros no âmbito de operações bancárias.”64

Assim, somente na hipótese de fortuito externo é que se exclui a responsabilidade objetiva, isto é, casos nos quais o acontecimento realmente independe de qualquer conduta proativa do agente e que não se poderia vislumbrar como risco ínsito à atividade desempenhada ou à posição de que goza.