ÍNDICE DE FIGURAS
Estudo 1 Qualitativa Focus Group
3. ESTUDO EMPÍRICO 1: FOCUS GROUPS – FATORES, PROCESSOS E CONTEXTOS DE INFLUÊNCIA NA
3.5 Coparentalidade no contexto da SD
3.5.1 Fatores de proteção
Os fatores de proteção consistem em características individuais e/ou ambientais que ajudam a moderar o conjunto de efeitos stressantes que decorrem da SD para adultos e crianças (e.g. Amato, 2000; Hetherington, 1989; Kelly & Emery, 2003). Alguns estudos referem que não se verificam diferenças significativas, a longo prazo, entre os filhos cujos pais se separaram ou divorciaram e os filhos de famílias intactas (Kelly & Emery, 2003), enquanto outros predizem que os problemas de comportamento nas crianças de pais divorciados ou separados são persistentes e consistentes para além dos dois anos seguintes à SD ter sido decretada (Weaver & Schofield, 2015).
De facto, trata-se de uma realidade dependente de uma ampla diversidade de fatores, no entanto, as características das crianças e da família (e.g. cooperação, conflito, responsividade e sensitividade dos pais,) bem como as características do ambiente extrafamiliar, são comummente apontados como sendo fatores protetores para as crianças e para os pais, no âmbito da SD (Kelly & Emery, 2003; Weaver & Schofield, 2015).
164 conjunto de categorias ilustrativas dos fatores de proteção mais significativos identificados pelos participantes.
Figura 23. Fatores de proteção referidos pelos participantes nos focus groups.
O Figura 23 representa os fatores de proteção dominantes na relação entre os pais, que os participantes nos focus groups percecionaram como sendo potencialmente mais marcantes para a adaptação das crianças aquando da transição para a SD dos pais, no âmbito da regulação do exercício das responsabilidades parentais através de recurso ao TFM ou a mediação familiar. Assim, o fator de proteção que se revelou mais positivo foi a “cooperação”, com 50 referências (35%), seguiu-se o “diálogo” entre os pais que foi indicado 43 vezes (31%) e a capacidade de os pais se focalizarem nos filhos com 32 referências (30%), por fim, a existência de mediação familiar “pré-judicial” foi expressa 6 vezes (4%).
Cooperação
A “cooperação”, consiste no respeito recíproco e na motivação para partilhar as
50; 35% 43; 31% 42; 30% 6; 4% Cooperação Diálogo Foco nos filhos Mediação pré- judicial
165 funções parentais unindo esforços para construir um entendimento comum (acordo), independentemente das diferentes identidades, necessidades, perspetivas ou interesses pessoais que cada um dos membros do ex-casal/pais (e.g. Margolin et al., 2001).
A motivação para colaborar conjuntamente e participar na busca de entendimentos constitui assim o elemento essencial da cooperação, no entanto, não raras vezes, esta cede perante a compulsão do conflito e os desafios económicos e emocionais da SD. O processo de mediação familiar caracteriza-se por ser um contexto dinamizador, incentivador e fortalecedor da cooperação interparental e por fomentar a ligação entre os pais e a valorização de esforços para a concretização de objetivos e projetos comuns.
De acordo com os resultados encontrados a relação de cooperação, durante a SD, tem como características principais a aceitação, o respeito, a confiança, o envolvimento na procura de soluções, o desejo de inclusão do outro pai/mãe, a opção pela união de esforços e a contenção da competição e materializando-se na forma como os pais comunicam entre si. Contudo, estas características, frequentemente, no início da mediação familiar estão ofuscadas, cabendo aos mediadores familiares dinamizá-las, incentivá-las, dar-lhes forma e visibilidade.
Assim, a “cooperação”, desse logo, compreende a aceitação da realidade em presença, especificamente, o reconhecimento da identidade do outro, “(…) que ela é
assim, sei que não a vou conseguir mudar, vou ter que conviver com esta realidade, vou
ter que a aceitar dentro da minha vida.” (FP1M); da sua fiabilidade, “A confiança. Quando começam a reconhecer-se mutuamente como pais capazes - esse é um indicador
essencial, demonstrarem confiança um no outro. “(FP1M); demonstrando envolvimento
na construção das decisões, “Quando prometem que ‘vou pensar sobre a questão e ver
os prós e contras’ para na próxima sessão trazerem uma resposta sobre o assunto
166 da criança “(…) vão à escola, e, conseguem ir os dois, por exemplo, às reuniões da escola,
que é uma coisa tão básica quanto isso, vão os dois no mesmo momento.” Por outro lado,
o conteúdo e a forma, como os pais comunicam materializa e reflete a maneira como estão a conseguir cooperar, designadamente, “Os termos verbais e também de alguma forma
incluindo o outro, estar a falar com o outro e deixar de falar para o outro.” (FS1M).
Diálogo
A categoria “diálogo” reflete uma forma de conversação caracterizada por uma atitude de abertura e pela predisposição para a compreensão recíproca independentemente de existirem diferentes interesses e pontos de vista.
Como é conhecido a capacidade para dialogar é, frequentemente afetada e diminuída em consequência da instabilidade e turbulência emocional e financeira que a SD comporta para os membros do ex-casal. Em contrapartida, a capacidade de diálogo entre os pais aparenta ser uma condição amiga da relação de coparentalidade que importa estimular, tendo em conta, entre outros aspetos, a natureza duradoura deste tipo de relação e as significativas repercussões que tem para o bem-estar dos filhos e para a realização dos pais enquanto pais. Esta categoria - o “diálogo” entre os pais -, caracteriza-se pela ausência de um posicionamento rígido, “Pelo tipo de comunicação, é haver ajustamentos,
é a flexibilidade que eu acho que é um elemento facilitador.” (FS2M) e pela predisposição
e abertura para a compreensão e para a discussão construtiva, isto é, “(…) passa muito
pelo que podemos observar no discurso, e, quando é um discurso em que se colocam em
causa em vez de estarem só a apontar para o outro como o culpado do que quer que
seja.” (FK1M). Por sua vez, no âmbito do processo de mediação familiar a melhoria na
qualidade do diálogo é percetível através da evolução positiva das trocas comunicacionais, “É um processo evolutivo. Começarem voltados quase de costas e à
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medida que as sessões vão evoluindo o tal não-verbal a que nós estamos atentos, não é?!
Começam a rodar na própria cadeira, e então isso é indicativo que a comunicação
começa a fluir entre eles e que aqueles ruídos que inicialmente existiam começam a
desvanecer-se e, portanto, também aqui na comunicação isso é muito visível que há essa
necessidade, quase, da parte deles, de se deslocarem um para o outro e começarem a
falar. (FL3M), reconhecendo-se, claramente através de diversos aspetos, verbais, não
verbais, posturais… “Depois, mais visível ainda é que estão mais calmos, mais relaxados,
a postura física, podem estar mais encostados na cadeira, não gesticulam tanto, fazem
menos gestos no início fazem mais gestos, mais sorrisos, têm um tom de voz mais baixo
e, eventualmente, poderão ter um espaço físico mais aproximado, e (…) olharem-se
diretamente que no início não acontece e isso é uma mudança radical. (FJ1M).
Assim, a predisposição para o diálogo entre os pais mostra ser um fator protetor da coparentalidade, dado que contribui positivamente para o sucesso das negociações e para a tomada de decisões conjuntas relativamente aos filhos (Pruett & Donsky, 2011), assim como, permite amortecer outros fatores de vulnerabilidade emergentes da transição para a SD (e.g. fatores demográficos, económicos, etc.). Assim, os resultados apresentados evidenciam que uma relação interpessoal positiva caracterizada pela abertura para discutir os temas em desacordo e por um posicionamento flexível diminui o impacto negativo da separação (Amato, 2000), observável na forma como as pessoas comunicam, com especial enfoque para comunicação não verbal.
Foco nos filhos
A categoria “foco nos filhos” consiste na importância central e primacial que os pais dedicam aos interesses, necessidades, bem-estar e cuidados a prestar aos filhos, mostrando-se atentos aos seus sentimentos e inquietações. Não obstante, os desafios com
168 que possam estar a confrontar-se, os pais focalizados no interesse primordial dos filhos tendem a conseguir separar as questões relativas aos filhos dos seus próprios sentimentos e interesses predispondo-se, se necessário, a fazer cedências e despender esforços pessoais, emocionais, económicos, etc. em prol do acordo que entendem ser mais vantajoso para os seus filhos. Desta forma, a focalização no bem-estar dos filhos contribui para a agilização de decisões, consensos e procedimentos legais ajudando a atenuar e a reduzir o tempo de desestabilização inerente às mudanças desencadeadas pelo processo de SD.
Assim, o “foco nos filhos” ajuda a regular a emotividade negativa e contribui para promover a racionalidade e a objetividade necessárias ao estabelecimento de acordos, nomeadamente quanto ao exercício das responsabilidades parentais, de modo que, “Lá
está esta pessoa conseguia distanciar-se da questão da separação e dos ressentimentos
que tinha face à outra parte, mas para esta pessoa, eu acho que ela conseguia ser objetiva
em termos de pensar nas questões do filho.” (FF1S), FS2M), assim como, “É eles
pensarem que o importante são as crianças e terem discernimento suficiente para por a
zanga de lado e conseguirem pensar.” (FS2M). Também a capacidade para priorizar a
convivência e a manutenção de relações próximas e afetuosas com os filhos contribui para amenizar conflitos e proteger a coparentalidade, a parentalidade e o interesse dos filhos, porquanto, “Eu lembro-me de uma situação de um homem, que foi aquela que eu falei há
pouco, que ele conseguiu pôr tudo para trás das costas, o litígio, a zanga com tudo e com
todos porque queria era estar com o miúdo. (FC2S).
Os pais que colocam o interesse dos filhos acima de outros possíveis interesses não retaliam, mas expressam elevação nas suas atitudes e decisões sendo altruístas e generosos, “(…) tive agora um caso que a mãe disse que a menina não queria ir e ele
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estar a culpar a filha.” (FA1S), e, também respeitam e dão valor às opiniões e
sentimentos dos filhos “(…) A reunião foi só elas comigo (…) eram adolescentes. A
opinião, o sentir delas em relação à questão que se colocou, e os pais tomaram em
consideração essa mesma realidade de ser para elas mais satisfatório, mais confortável
estar mais tempo em casa de cada um dos pais, foi três semanas num, três semanas no
outro. (FK1M).
Como os resultados comprovam a focalização nos interesses dos filhos implica a capacidade para diferenciar os interesses individuais dos interesses das crianças e, por conseguinte, de tomar decisões relativas às crianças sem as confundir com as decisões que adotariam para si mesmos. Assim, ainda que exista conflito considerável entre os pais, estes, conseguem separar as fronteiras entre os subsistemas parental, coparental, e ex-casal, e tomar decisões contextualizadas na realidade familiar e centradas no bem-estar dos seus filhos. Deste modo, os pais centrados em tomar decisões ajustadas ao bem-estar dos filhos tenderão a não estabelecer triangulação com as crianças estando, por isso, em melhores condições para desenvolver relações de parentalidade e de coparentalidade harmoniosas, durante e após a separação, por isso, trata-se de um fator de proteção a ter em conta na transição para a SD.
Importa, então, salientar a importância de os mediadores familiares desenvolverem estratégias que promovam a limpidez da diferenciação relacional, o reconhecimento e a identificação das necessidades dos pais e dos filhos.
Mediação pré-judicial
A existência de um serviço de atendimento de mediação familiar, obrigatório, antes de os pais iniciarem qualquer processo sobre responsabilidades parentais no Tribunal de Família e Menores ou na Conservatória do Registo Civil, foi referido pelos
170 participantes neste estudo como sendo um fator de proteção da coparentalidade na transição para a SD ao facultar, não só o exercício do direito de uma escolha informada sobre o tipo de processo pretendido para resolver o diferendo, mas também por contribuir para prevenir a escalada do conflito e o desgaste económico e emocional, cujas consequências nocivas poderiam assim ser evitadas com informação atempada e adequada, nomeadamente através de “Um gabinete nas Conservatórias com um técnico
especializado em assessoria técnica e mediação, em processos tutelares cíveis, cuidados
parentais seja o que for que ajude o casal (…) … querem despachar para fazer ao balcão, com o senhor da Conservatória a dizer-lhe: ‘diga que não quer dar-lhe, que dá 50 €’.
(FP1S)