2 QUADRO TEÓRICO
2.3 TEORIA DAS DECISÕES
2.3.1 Fatores de Racionalidade no Processo Decisório
modelo racional (BARREIROS et al, 2007). Monteiro (2006) faz uma retrospectiva do pensamento racionalista, alcançando a Grécia antiga, e identifica, em Platão, a busca do aprendizado transcendente do homem, e, em Aristóteles, a adoção de formas diferentes de racionalidade para tentar explicar a inteligibilidade do mundo sensível. Sua evolução em Ciências Políticas perpassa autores como Angell, Max Weber, Adam Smith e Stuart Mill (HILL, 2003).
Angel (1910) previa, no início do século XX, a racionalidade nas instituições e isso não era novidade, pois deu continuidade a uma tradição do internacionalismo racionalista e liberal do século XIX, oriunda de Stuart Mill e Hobbes, por exemplo (PARADISO, 2002). O ganho de Angell foi ampliar a racionalidade e demonstrar que as decisões do Estado eram influenciadas também por fatores políticos. Assim, a racionalidade clássica (ARON, c1982), sob o ponto de vista econômico, busca isolar o conjunto econômico e acentuar a racionalidade dos comportamentos. Por isso, pode-se afirmar que “um rigoroso modelo do conceito de ação racional tem sido desenvolvido pelas teorias econômicas” (BIN; CASTOR, 2007, p. 39).
Herbert Simon foi o primeiro a distinguir a racionalidade procedimental da substantiva, presentes nos autores clássicos de forma implícita. Assim, a racionalidade procedimental estaria relacionada com a rotina padronizada e a substantiva, com a lógica ética do certo e do errado (HILL, 2003). Contudo, foi com Max Weber (2004) que a valorização da racionalidade na análise organizacional foi considerada a marca significativa da teoria sobre burocracia, permitindo a distinção da racionalidade material e subjetiva, da lógica e factual (VIEIRA, 2007). Algumas das vantagens técnicas da visão weberiana e de sua Teoria Burocrática são: precisão, clareza, constância, rapidez, redução de custos, dentre outras (WEBER, 1982). Com base na racionalidade instrumental de Weber, as organizações, à semelhança dos seres humanos, trabalham como máquinas (CROZIER, 1981).
Com isso, a racionalização pressupõe uma simplificação para que as escolhas de emprego dos limitados recursos sejam otimizadas diante de uma multiplicidade de usos possíveis, reduzindo as circunstâncias existentes às mais essenciais e com mais impacto sobre os resultados (SIMON, 1964). Por isso, dependendo do foco que se adota, as racionalidades de dois atores distintos podem ser conflitantes (ARON, c1982). Salomon (1991), por exemplo, identifica a oposição entre a racionalidade econômica e a racionalidade estratégica. A primeira considera que a guerra desvia recursos raros que poderiam ser destinados a atividades econômicas e sociais, em
conflito com a racionalidade estratégica, que considera a destinação destes recursos para a guerra como uma forma de garantir a segurança das riquezas da nação, gerando, inclusive, ganhos com inovação e tecnologia para toda a sociedade.
A teoria weberiana de organização burocrática e de uma visão da multiplicidade do processo de racionalização foi reconstruída por Kalberg (1980), a fim de alcançar um nível puro de análise da racionalidade. Com isso, o referido autor identificou quatro tipos de racionalidade. A racionalidade prática baseia-se em interesses individuais, particulares. A racionalidade teórica busca compreender a realidade com base em conceitos abstratos. A racionalidade substantiva é fundada em valores fortes o bastante para alterarem o curso das ações. A racionalidade formal considera a racionalidade explicitada em regras, leis e regulamentos, sendo esta a que melhor se adequa ao conceito de organização burocrática de Weber, pois as organizações deveriam ser geridas de forma mecanicista a fim de obter um funcionamento eficaz (MORGAN, 2002). Essa concepção pressupõe que a racionalidade das decisões individuais tende para que as decisões coletivas também sejam racionais (MILLER et al, 1986).
A Teoria Clássica da Administração analisa as organizações como detentoras de capacidade de maximizar utilidades (BIN; CASTOR, 2007), com base em decisões racionais que são tomadas em função de informações que as pessoas, individualmente, não são capazes de produzir ou absorver, mas as organizações sim (SIMON, 1964), ou seja, supõe-se que o ambiente é de certeza absoluta. Entretanto, essa capacidade organizacional de tomar decisões racionais não é perfeita por três razões básicas: a primeira razão é que as informações são imperfeitas e incompletas sobre todas as variáveis e consequências da situação para a qual se necessita tomar uma decisão; a segunda, é que a previsibilidade, por mais que seja possível realizar, não produz os mesmos efeitos emocionais que a sua ocorrência sem antecipação; e a última razão é a impossibilidade, por limitações físicas e biológicas, de se considerar todas as possíveis alternativas a se escolher. Dessa forma, diante de situações de risco ou incertezas pela parca quantidade ou qualidade das informações, o decisor baseia-se em técnicas estocásticas e por seu juízo de consequência-utilidade, dentro de um conjunto pré-estabelecido de preferências que tendem a soluções, pelo menos, satisfatórias (MARCH; SIMON, 1981).
Assim, diante dessas limitações, surgiu o conceito de racionalidade limitada, diferenciando o homem econômico (racionalidade plena), do homem administrativo
(racionalidade limitada), considerando que o segundo se contenta com resultados razoavelmente satisfatórios (SIMON, 1964; LUCIANO, 2000). Os limites existem não apenas para o ser humano, mas também para as organizações, implicando na impossibilidade de plena maximização de utilidade organizacional, fazendo com que a Teoria das Decisões passasse a buscar resultados satisfatórios e não mais ótimos, por considerar estes impossíveis (MARCH; SIMON, 1981; SIMON, 1964).
Também chamada de Modelo Carnegie, a racionalidade limitada, (MARCH e SIMON, 1981) nasceu como uma crítica à abordagem racional tradicional, que apresentava dificuldades e inconsistências. Ou seja, diante da racionalidade absoluta não considerar dimensões comportamentais, políticas e sociais, restringindo a eficácia da teoria clássica racional, a racionalidade limitada reduz a tomada de decisão racional a uma aceitação do razoável, onde as alternativas são selecionadas com base em critérios de um sistema de valores pré-definidos (BECKER et al, 1997; BARREIROS, 2007; LUCIANO, 2000).
Dean e Sharfman (1993), como uma evolução da racionalidade limitada, apresentaram a racionalidade requerida, definindo qual o limite de esforço que compensa a tomada de decisão adequada. Esses esforço e investimento são focados na acumulação e análise de dados, lembrando que os dados devem ser relevantes o suficiente para contribuir com a tomada de decisão.
Diante da revisão teórica apresentada e da necessidade de operacionalização da presente pesquisa, na construção das categorias e dos fatores a serem pesquisados em campo, seleciona-se, como fatores de racionalidade:
- lógica instrumental: a ação baseia-se na projeção de valor das consequências, onde a matemática ou a estatística servem como instrumentos para se realizar um cálculo de utilidade e de probabilidade;
- maximização de utilidade: a ação visa a maximização dos resultados e a redução de custos;
- impessoalidade: a ação é pautada pela busca de resultados institucionais e não por interesses pessoais ou corporativistas;
-escolha racional: a escolha pressupõe o prévio conhecimento dos objetivos e suas consequências, a fim de obter a máxima efetividade;
- racionalidade limitada: diante da impossibilidade do pleno conhecimento de todas as informações e variáveis necessárias à decisão ótima, a tomada de decisão contenta-se com resultados satisfatórios;
- racionalidade requerida: diante da impossibilidade de uma racionalidade plena e, afim de maximizar uma racionalidade limitada, define-se um limite de esforço e investimento relevantes o suficiente para contribuir compensatoriamente para um resultado que se deseja maximizar;
-institucionalização de procedimentos: a existência de estruturas, normas, regras ou processos, padronizando a tomada de decisão e a restrição a comportamentos não racionais indica a institucionalização da racionalidade;
- adaptação e aprendizagem organizacional: situações não programadas geram alteração em estruturas e processo decisório, desde que alinhada com a estratégia organizacional; e
- previsibilidade: a tomada de decisão exige o pleno conhecimento e a máxima antecipação possível das consequências que se seguirão após a seleção feita, razão pela qual a ação atual é o resultado da previsão realizada e será fonte da previsão futura.