3 MATERIAL E MÉTODOS
3.1 ABORDAGEM EPISTEMOLÓGICA
3.1.1 O Paradigma da Complexidade no contexto das Ciências da Gestão
A sistematização do conhecimento administrativo originando as Ciências da Gestão é datada do século XIX. As transformações advindas com a Revolução Industrial, no século XVIII, quando as pequenas manufaturas familiares deram lugar às organizações industriais, exigiram que as práticas administrativas fossem estudadas e metodizadas. Nos séculos XIX e XX, podem ser identificadas quatro ondas de evolução da Teoria das Organizações. Na “primeira onda” a ênfase seria nas ‘tarefas’, destacando a Administração Científica de Taylor, com a sua compreensão racional do trabalho. A “segunda onda” teria ênfase na ‘estrutura organizacional’, tendo quatro desdobramentos teóricos: a Teoria Clássica de Fayol; a Teoria Burocrática de Max Weber; a Teoria Estruturalista, integrando as duas anteriores; e a Teoria Neoclássica, com o desenvolvimento do processo administrativo. Na “terceira onda” a ênfase recai nas ‘pessoas’, surgindo as teorias: das Relações Humanas e Comportamental. A Quarta Onda caracterizou-se pela ênfase no ambiente, sendo identificadas as teorias: de Sistemas e da Contingência (CHIAVENATO, 2005).
Existe quem defenda a incompatibilidade entre os paradigmas tradicionais das Ciências de Gestão (SKRTIC, 1990; ALVES-MAZZOTI, 1996), considerando que as principais distinções consistem em duas linhas de análise: objetividade/subjetividade e ordem/desordem. Contudo, Chiavenato (2005), ao tratar dos Tempos Modernos,
comentando as transformações da Era da Informação (Séc XXI), destaca iniciativas em prol da eficiência e da eficácia, bem como que a complexidade do mundo moderno faz coexistirem objetividade e subjetividade simultaneamente nas organizações, assim como ordem e desordem.
Por isso, Bauer (1999) caracteriza as organizações da seguinte forma: ambiguidade e unidade, conflito e consenso, paradoxo e racional, ordem e desordem, certezas localizadas e incertezas. A fim de explicar a nova mentalidade a ser exigida das Ciências da Gestão, o mesmo autor, trata de conceitos como “autopoesis” (auto -organização dos organismos vivos), “order from noise” (teoria das informações), “order throught fluctuations” (estruturas dissipativas), “sistema adaptativo complexo” e “teoria do caos”. Isso ocorre, pois a realidade das organizações, a exemplo do que ocorre com os organismos vivos, é complexa e exige adaptações constantes em prol da sobrevivência (MORIN, 1980).
Neste sentido, Yonamine (2006) demonstra o Paradigma da Complexidade como uma das iniciativas de integração de saberes, ao lado das raízes pré-socráticas da complexidade em Heráclito, do Paradigma Holonômico ou Holoepistemologia, e do Paradigma Pós-Modernista ou Antiparadigmático. Demo (2002), por exemplo, define a complexidade pelos seguintes atributos: dinamicidade e imprevisibilidade, não-linearidade, reconstrutividade, dialético e evolutivo, irreversibilidade, maior importância da intensidade perante a extensividade, ambiguidade estrutural e ambivalência processual.
A complexidade é tamanha que as Ciências da Gestão passaram, na atualidade, a estudar a organização sob pontos de vista totalmente diversos, havendo várias propostas, como alternativas ao modelo mecanicista tradicional. Morgan (2006) propõe ver as organizações de acordo com algumas metáforas, não para explicar sua organização, mas as mudanças que nela ocorrem, que ela gera ou às quais reage. Assim, o autor propõe ver as organizações como: máquinas, marcando o pensamento mecanicista; organismos vivos, incorporando a natureza como ambiente no qual a organização se insere; cérebros, entendendo que as organizações aprendem e se auto organizam; culturas, assumindo a existência de uma realidade social; sistemas políticos, entendendo haver nas organizações interesses, conflito e poder “em jogo”; prisões psíquicas, buscando no pensamento e no inconsciente explicações comportamentais; fluxo e transformação, aceitando que a mudança faz parte da existência das organizações; e instrumentos de dominação, vendo as organizações
multinacionais no contexto do sistema mundial.
Assim, nesse contexto da modernidade, adota-se a complexidade não apenas como uma teoria (CHIAVENATO, 2003)9, mas como um paradigma da evolução do pensamento científico, próprio da administração (MORIN, 1996; PRIM et al, 2008; SERVA et al, 2009, 2010). A complexidade, pressupondo sistemas abertos e de difícil controle, tem sido utilizada para representar tudo aquilo que se tem dificuldade de compreender e dominar (CHIAVENATO, 2003; MISOCZKY, 2003).
Esse paradigma teve sua gênese em 1977, com Ilya Prigogine, ganhadora do Prêmio Nobel de Química, quando aplicou a segunda lei da termodinâmica aos sistemas complexos, incluindo organismo vivos. Em síntese, Prigogine constatou que determinados sistemas, quando postos em condições que beirem o caos, passam, espontaneamente, a se auto organizar e inovar, resultando em sistemas mais complexos e adaptativos (CHIAVENATO, 2003). A partir dessa descoberta, o Pensamento da Complexidade fundamentou-se em três teorias: a teoria do caos; a teoria das estruturas dissipativas ou teoria do não equilíbrio; e a teoria dos sistemas adaptativos complexos (STACEY, 2000).
Todas as teorias vinculadas ao Paradigma da Complexidade consideram que a realidade possui segredos ainda não totalmente desvendados pela inteligência humana (CAMPBELL, 1982). Em específico, as teorias do caos e das estruturas dissipativas trouxeram grande contribuição para a exploração das fronteiras do conhecimento dentro de um emaranhado de ciências interdisciplinares, destacando-se as relacionadas com a tecnologia das informações (CHIAVENATO, 2003). A Teoria dos Sistemas Adaptativos Complexos, por sua vez, contribuiu de forma considerável com a Teoria Geral da Administração por se destinar a descrever os comportamentos de sistemas nos quais interagem um grande número de agentes com propósitos diferentes e que, na busca por seus objetivos, são capazes de aprender novos comportamentos (WALDROP, 1992; STACEY, 1996).
A complexidade traz uma nova conceituação de ciência e da realidade em que se vive, as organizações abandonam a visão clássica fordista-taylorista, como máquinas, e passam, dentro de um contexto de pressões externas e oscilações internas, a ser aceitas como “sistemas complexos, adaptativos e que se auto
9 Chiavenato (2003) em uma perspectiva totalmente diferente da adotada pelas Ciências Sociais, já
exposta, considera a complexidade uma teoria, pois, para ele os paradigmas são: o cartesiano-newtoniano, o holístico, o da era industrial e o da era do conhecimento.
organizam até alcançarem um estado de aparente estabilidade” (CHIAVENATO, 2003, p. 566). Assim, a “lógica da ciência da complexidade substitui o determinismo pelo indeterminismo e a certeza pela incerteza” (ibidem, p. 567), buscando não apenas “reconhecer a incerteza e tentar dialogar com ela” (ibidem, p. 567).
No campo dos estudos científicos, a complexidade pode ser vista como uma nova visão das ciências (CHIAVENATO, 2005), mas, na verdade, alterou o próprio sentido do que é ciência, e exemplificando essa afirmação, pode-se expor três pontos de relevo (BAUER, 1999, p. 233):
1. A complexidade fez com que a ciência abandonasse o determinismo e aceitasse o indeterminismo e a incerteza, inerentes ao homem e sua organização em sociedade;
2. A complexidade fez com que a ciência abandonasse a ideia de simplicidade inerente aos fenômenos da natureza e abraçasse a complexidade inerente ao homem e sua organização em sociedade; e
3. A complexidade fez com que a ciência abandonasse o ideal de objetividade como única forma válida de conhecimento, assumindo também a subjetividade, como marca maior da condição humana.
Assim, essa nova perspectiva da ciência, incorporada pelo Paradigma da Complexidade, influenciou também a Teoria das Organizações. No campo da Gestão, essa nova forma de pensar superou uma limitação típica do pensamento clássico, e passou a considerar a relação das organizações com seu ambiente externo e a inter-relação entre as partes da organização (PRIM et al, 2008). Esse pensamento da complexidade entende a natureza como paradoxal em sua essência e em um estado de contínua mutação. Como consequência, quando aplicado às organizações, conduz o pesquisador a ver a organização como fluxo e transformação (MORGAN, 2002).
Por tudo que foi exposto, verifica-se que a Complexidade, como Paradigma da Epistemologia da Administração e da Teoria das Organizações, se adequa à presente pesquisa, pelos seguintes fatores (MORIN, 1996; PRIM et al, 2008; SERVA
et al, 2009, 2010; STACEY et al, 2000):
1. Amplia o conhecimento sobre a construção da identidade organizacional, pela inclusão do ambiente externo à análise da organização e do comportamento individual e de grupos sociais ao comportamento organizacional;
2. A organização e o ambiente coevoluem simultaneamente e se influenciam mutuamente, sendo uma perspectiva adequada ao estudo do MD no contexto de suas
relações com os demais órgãos federais;
3. A natureza da organização é vista como um todo que emerge das interações dos indivíduos e está em contínua transformação, sendo uma relação paradoxal, onde o indivíduo forma a organização e é formado por ela;
4. O ambiente, nessa evolução constante, tende sempre a uma maior complexidade, passando a ter um comportamento paradoxal, dinâmico e imprevisível. Com isso, a análise do processo decisório, objeto da presente pesquisa, passa a ser compreendida dentro de um contexto de incertezas e imprevisibilidades; e
5. Essa “desordem” da complexidade, causada por ruídos, eventos inesperados, crises, conflitos, cortes orçamentários, etc., é uma dimensão inegável das organizações e sua aceitação também contribui para o conhecimento da mesma, evitando, com isso, um reducionismo que fuja à realidade, sendo adequada ao presente estudo, por ser uma pesquisa de natureza aplicada.