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PARTE IV. O VOLUNTARIADO NO ÂMBITO DOS LEIGOS PARA O DESENVOLVIMENTO

4.4. O voluntariado LD uma experiência responsável ao serviço da vida vulnerável

4.4.2. Fazer face à vulnerabilidade no mundo pós-moderno – a solidariedade

Os voluntários estiveram sempre presentes nas sociedades, ao longo da história e a sua ação revestiu várias expressões, predominantemente de cariz caritativo, exercido de forma isolada muito por influência dos quadros normativos das diversas religiões. Na sociedade atual reconhece-se que o voluntariado tem um espaço próprio de atuação, complementando o trabalho de cariz profissional e em íntima união com as instituições.

Em meados do século XIX, aparece um conceito novo, “solidariedade” e este justifica-se «em virtude da acentuada diferenciação e desigualdade, no seio das sociedades modernas. Ao nível social «trata-se, afinal, de encontrar elementos de carácter objetivo e subjetivo que dê a todos e a cada um a convicção da sua unidade e coesão social, o que, à partida, parece inerente aos humanos que, desde muito cedo, tenderam a organizar-se de maneira grupal e a contar com o apoio uns dos outros. É o que bem nos expressa Aristóteles ao afirmar que o "homem é um animal político", ou seja um ator plenamente imbuído do social, pois que para Aristóteles o político era sinónimo de social.» (LEANDRO, 2010, p. 243)

A solidariedade, no século passado, aparece como a reflexão de vários pensadores sobre esta problemática. Contudo, a verdade é que ela sempre esteve presente com outros matizes.147 «Face a uma concepção da caridade considerada humilhante e limitada, a solidariedade é apresentada como um ideal humanista, uma forma de laço social capaz de

146 A Autora cita FROMM, Erich (1991), A arte de amar. Tradução de Milton Amado, Belo Horizonte:

ltatiaia Lda, p. 159.

147 Não é nosso objetivo traçar aqui o percurso histórico da ação desenvolvida pelos leigos ao nível dos

órgãos de sociabilidade cristã (confrarias e irmandades) e acentuada pela instituição real das Misericórdias. Recordamos apenas que estes movimentos de solidariedade social foram essenciais como instrumento regulador de um tempo em que sobressaem carências estruturais. Estes órgãos foram-se renovando nos seus estatutos, mas o objetivo central de ajudar a resolver as carências dos excluídos, mantém-se idêntico ao propósito inicial.

181 solidificar uma comunidade em nome dos interesses de cada um, mas à luz do bem comum, sem se preocupar com qualquer forma de compensação. Na perspectiva kantiana, aplica-se o princípio segundo o qual: age de maneira a que a tua conduta se possa tornar

numa regra universal.» (LEANDRO & CARDOSO, 2010, p. 245)

O conceito de solidariedade, tal como o concebemos, é moderno, «aparece apenas na primeira metade do século XIX, criado por P. Leroux (1840), integrando-se no contexto das ideologias, movimentos políticos e sociais que predominavam na época e que consideravam “utilitarista” a ajuda ao próximo que então se praticava: «tal como a concepção da moral kantiana, consideravam que a "caridade era utilitarista", pelo menos nos seus objetivos, práticas e nas mentalidades, fundamentando-se na retribuição material ou simbólica, como, por exemplo, o reconhecimento social, a interdependência, ainda que bastante desigual quiçá a reprodução social, e a salvação na vida do além. Esta perspectiva, situa-se mais na óptica do "dom e contra dom" de que fala M. Mauss. Daí a sua não gratuidade, ao contrário do que se pretendia agora com a solidariedade. Tal como a procura do bem por si mesmo, terá que ser praticada por si própria, pela consciência de que os humanos, partilhando de uma mesma natureza, poderão contar uns com os outros, sem ser por qualquer interesse que vá além da procura do bem comum em si mesmo.» (LEANDRO & CARDOSO, 2010, pp. 251-252)

Porém, uma tal perspetiva contradiz, na sua essência, a noção de caridade, já que, como afirma P. Gilbert «por definição a caridade que não sai de si não é caritativa. Portanto, se ela é autêntica, não espera nada em troca do seu dom. Ela é generosa e gratuita. Não exige que o doado seja recompensado.» (GILBERT, O Dom, 2003, p. 178) O dom exige que seja doado: «Segue-se daí que o beneficiário do dom não pode tornar-se dono dele; deve, ao contrário, exercer a redundância do dom, doar o dom, fazê-lo passar adiante, continuar a pô-lo em circulação.» (GILBERT, 2003, p. 178)

Na sociedade pós-moderna em que nos foi dado viver, um dos seus pilares, no dizer de Daniel Serrão é o desinteresse pelos outros148. «Numa cultura de sucesso pessoal os

outros não existem ou se existem são um estorvo que deve ser afastado. O que se glorifica no plano social é a indiferença, não a solidariedade (…).» (SERRÃO, 2010, p. 197) Num tal contexto, e na perspetiva de P. Leroux, «a solidariedade implica pelo menos dois

148 Além do desinteresse pelos outros, o autor refere ainda outros “pilares” em que assenta a sociedade pós-

moderna: a dúvida e a incerteza, a ditadura do sucesso pessoal, a ditadura do prazer e a autonomia pessoal. Cf. SERRÃO (2010), - "A dignidade humana no mundo pós-moderno". In: Revista Portuguesa de Bioética,

182 termos: o eu e o outro. Sem essa dimensão, não se conseguindo, de facto, conciliar o amor de si e do outro, a solidariedade é apenas um ideal, urna utopia e nunca urna realidade. "O

amor pela humanidade só existe se tomar forma", afirma P. Léroux. Daí que a

solidariedade, na sua essência, não seja uma doutrina, da ordem do dever, do imposto, mas antes do espontâneo, do que se legitima por si mesmo. Depreende-se, assim, que a sociedade temporal, em vista do bem comum, tenha a missão de realizar a solidariedade.» (LEANDRO & CARDOSO, 2010, p. 252)

J.J. Rousseau considera que é pelo facto de os humanos possuírem qualidades comuns a todos os seres humanos que os levam a preocupar-se tanto com uns como com os outos. «Daqui advém a generosidade, a clemência, a dedicação, o amor do próximo, a preocupação com os desamparados e desprovidos de tudo, com os "deixados por sua conta e risco", como acontece frequentemente nos nossos dias, fazendo apelo a mais solidariedade deveras altruísta.» (LEANDRO, 2010, p. 243)

Numa sociedade onde, pelo contrário, o ser prevalece sobre o ter, onde a ética impera sobre a economia, os povos da terra deveriam «assumir, como alma da sua própria ação, uma ética da solidariedade, abandonando todas as formas de egoísmo avarento, abraçando a lógica do bem comum mundial, que transcende o mero interesse contingente e particular. Em última análise, deveriam manter vivo o sentido de pertença à família humana, em nome da dignidade comum de todos os seres humanos» (Conselho Pontifício "Justiça e Paz," 2011), simplesmente porque algo é devido ao homem porque é homem, com base na sua dignidade.

Para MacIntyre a ética do cuidar dos outros será ou não implementada de acordo com o nível educacional recebido, sendo que «a linguagem moral do cuidar dos outros deve estar sempre presente durante o processo de deliberação e de tomada de decisões, porque “há uma relação complexa entre o cuidado e a educação que recebemos e o cuidado e a educação que nós devemos aos outros. Mas é, apesar de tudo, em virtude daquilo que recebemos que nós devemos. Então, o que dizer das pessoas que não receberam? Algumas delas podem ser, em resultado disso, bastante deficientes. Outras pessoas, que foram capazes de se tornarem julgadores práticos independentes, olham pelos seus progenitores sem terem boas razões para lhes estar gratos”149. MacIntyre quer dizer-nos com isto que

há sempre esperança no processo de aquisição das virtudes. Até em ambientes estéreis e

149 Ramiro Marques cita aqui MacIntyre, A (1999). Dependent Rational Animals: Why Human Beings Need

183 vis é possível criar e educar pessoas de carácter. É possível mas é difícil, porque os sistemas de relações sociais que são deficientes nas virtudes estão mais aptos para produzirem um carácter deficiente. Contudo, nem os sistemas de relações sociais mais virtuosos garantem o desenvolvimento de um bom carácter. Não garantem, mas tornam mais provável e mais fácil.» (MARQUES R., s/d, p. 9)

A solidariedade é uma atitude face ao outro que releva da ordem dos sentimentos que onsiste essencialmente em querer o bem do outro. P. Leroux perfilha uma solidarie- dade de tipo humanista: «Deste modo, tanto a que une os homens como a que é forjada no seio de colectividades mais restritas, é antes de mais de tipo relacional, permitindo conciliar o sentimento de pertença à colectividade e a exigência de realização do indiví- duo. A solidariedade aparece, ao mesmo tempo, sob a forma de "sentimento" - mas não de uma paixão - inscrita na subjectividade de cada um e sob a forma "objectiva" de certos princípios de organização social e política. (…) É sobre o fundamento da solidariedade que foram criadas as grandes leis da Assistência Social dos séculos XIX e XX. A solidarie- dade adquiriu, então, grande prestígio, ainda que ao preço de um certo número de equívocos: partindo de uma visão calorosa de um laço social alicerçado na "afeição" e na "simpatia", tem-se passado à fria lógica calculadora duma exata compensação dos direitos e dos deveres, através de medidas concretas.» (LEANDRO & CARDOSO, 2010, p. 255) Progressivamente, a solidariedade tem-se tornado a expressão duma certa “moral laica”; contudo, este valor continua atual nas sociedades pós-modernas como um valor em alta (cf. LEANDRO & CARDOSO, 2010, p. 255), estando presente em discursos das mais diversas associações políticas, sociais e religiosas.

4.4.3 Acolher a vulnerabilidade - o exercício do voluntariado na ONGD Leigos para