5.5 Fechos duma Rela¸c˜ao para uma Propriedade
5.5.1 Fecho transitivo e percursos em grafos
Dada uma rela¸c˜ao R⊆ A × A, define-se, para cada i ∈ Z+, a rela¸c˜ao Ri do modo seguinte:
R1 = R
Ri = RRi−1, i≥ 2 (composta de R e Ri−1)
Proposi¸c˜ao 24 Uma rela¸c˜ao bin´aria R definida em A ´e transitiva se e s´o se R2 ⊆ R. Prova: Se R2 6⊆ R ent˜ao existiam x, y ∈ A tais que (x, y) ∈ R2 e (x, y) /∈ R. Por
defini¸c˜ao R2 = RR, donde xR2y se e s´o se existe z ∈ A tal que xRz e zRy. Ou seja, ∃x, y, z ∈ A (x, z) ∈ R ∧ (z, y) ∈ R ∧ (x, y) /∈ R, pelo que R n˜ao seria transitiva. Logo, se R ´e transitiva ent˜ao R2⊆ R.
A prova do rec´ıproco, deduz-se trivialmente do Corol´ario 25.1, o qual s´o ser´a demonstrado `a frente. De facto, desse Corol´ario, podemos concluir que se R2 ⊆ R ent˜ao R+ = R. Assim,
5.5. FECHOS DUMA RELAC¸ ˜AO PARA UMA PROPRIEDADE 63
Se A for finito, podemos desenhar o grafo de R. Dados dois v´ertices u, v ∈ A, chama-se percurso de u para v no grafo a qualquer sequˆencia finita formada por um ou mais ramos do grafo, tal que o extremo final de qualquer ramo da sequˆencia coincide com o extremo inicial do ramo seguinte na sequˆencia. O comprimento do percurso ´e n´umero de arcos no percurso. Dizer que uRiv equivale a dizer que existe um percurso com i ramos de u para v no grafo
de R, como se deduz do Lema 3. Vamos mostrar mais adiante que o fecho transitivo de R, que se denota por R+, ´e dado por ∪i∈Z+Ri, concluindo-se que uR+v se e s´o se existir um
percurso de u para v no grafo de R.
Lema 3 Seja R uma rela¸c˜ao definida em A. Para quaisquer elementos x e y de A, e qualquer inteiro positivo k tem-se xRk+1y se e s´o se existem k elementos de A, sejam x1, . . . xk, tais
que xRx1∧ . . . ∧ xiRxi+1∧ . . . ∧ xkRy.
Prova: Mostremos, por indu¸c˜ao sobre k, que para todo k∈ Z+ e quaisquer x, y ∈ A xRk+1y sse ∃x1, . . . , xk∈ A (xRx1∧ . . . ∧ xkRy) (5.3)
Mostrar que (5.3) ´e v´alida para k = 1, equivale a mostrar que xR2y se e s´o se existe x 1
tal que xRx1∧ x1Ry, o que ´e trivialmente v´alido por defini¸c˜ao de R2.
Provemos agora que se (5.3) ´e v´alida para um dado k ∈ Z+ ent˜ao ´e v´alida para k + 1.
Sejam x, y∈ A tais que xR(k+1)+1y. Ent˜ao, usando a defini¸c˜ao de R(k+1)+1, vem
xR(k+1)+1y sse ∃z ∈ A xRz ∧ zRk+1y Mas, por hip´otese de indu¸c˜ao,
zRk+1y sse ∃y1. . . yk∈ A (zRy1∧ . . . ∧ ykRy)
Assim,
xR(k+1)+1y sse ∃z, y1. . . yk ∈ A (xRz ∧ zRy1∧ . . . ∧ ykRy)
Se fizermos x1= z, x2 = y1, . . . , xk+1= yk vem
xR(k+1)+1y sse ∃x1, x2. . . xk+1∈ A (xRx1∧ x1Rx2∧ . . . ∧ xk+1Ry).
Logo, mostr´amos que (5.3) est´a nas condi¸c˜oes do princ´ıpio de indu¸c˜ao. Logo, por tal princ´ıpio,
5.5. FECHOS DUMA RELAC¸ ˜AO PARA UMA PROPRIEDADE 64
Exemplo 41 Seja R a rela¸c˜ao bin´aria em {1, 2, 3, 4, 5, 6, 7} representada pelo grafo seguinte.
1• //2• //5•oo //6• 4• OO 3• oo 7• OO Tem-se: • (1, 4) ∈ R3 pois (1, 2)∈ R ∧ (2, 3) ∈ R ∧ (3, 4) ∈ R. • (1, 1) ∈ R4 pois (1, 4)∈ R3∧ (4, 1) ∈ R. • (3, 3) ∈ R4 pois 3 R 4 ∧ 4 R 1 ∧ 1 R 2 ∧ 2 R 3. • (5, 5) ∈ R+ pois (5, 5)∈ R2 j´a que 5 R 6 ∧ 6 R 5. • Como 3 R 4 ∧ 4 R 1 ∧ 1 R 2 ∧ 2 R 5 ∧ 5 R 6 ∧ 6 R 7, tem-se (3, 7) ∈ R6⊆ R+. MR+ = 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 0 0 0 0 1 1 1 0 0 0 0 1 1 1 0 0 0 0 1 1 1
A sequˆencia de ramos (3, 4), (4, 1), (1, 2), (2, 5), (5, 6), (6, 7) ´e um percurso de 3 para 7.
Exerc´ıcio 5.5.1 Seja H = {x | x ´e ser humano} e sejam m~ae e pai rela¸c˜oes bin´arias definidas em H por:
(x, y)∈ m~ae sse x ´e m˜ae de y (x, y)∈ pai sse x ´e pai de y
Qual ´e a composta de m~aecom pai? Qual ´e a composta de pai com m~ae? Qual ´e a composta de pai∪ m~ae com pai ∪ m~ae? Qual ´e o fecho transitivo de pai ∪ m~ae? Qual ´e a inversa de (pai∪ m~ae)+?
Resposta: x ´e av´o paterna de y, x ´e avˆo materno de y, x ´e av´o ou avˆo de y, x ´e ascendente de y, e x ´e descendente de y.
5.5. FECHOS DUMA RELAC¸ ˜AO PARA UMA PROPRIEDADE 65
Lema 4 A composi¸c˜ao de rela¸c˜oes bin´arias ´e associativa.
Prova: Sejam α⊆ A × B, β ⊆ B × C e γ ⊆ C × D rela¸c˜oes bin´arias. Ent˜ao,
xα(βγ)y ⇐⇒ ∃z ∈ B xαz ∧ z(βγ)y (por def. composta α(βγ))
⇐⇒ ∃z ∈ B ∃w ∈ C xαz ∧ zβw ∧ wγy (por def. composta βγ)
⇐⇒ ∃w ∈ C xαβw ∧ wγy (por def. αβ)
⇐⇒ x(αβ)γy (por def. (αβ)γ)
ou seja, ∀x ∈ A ∀y ∈ D (xα(βγ)y ⇔ x(αβ)γy). Logo, α(βγ) = (αβ)γ ou seja a composi¸c˜ao
´e associativa. ut
Lema 5 Seja R uma rela¸c˜ao definida num conjunto A. Ent˜ao, quaisquer que sejam os in- teiros positivos n e k tem-se Rn+k= RnRk.
Prova: Seja R⊆ A × A. Vamos mostrar por indu¸c˜ao sobre n ∈ Z+ que
∀n ∈ Z+ ∀k ∈ Z+ Rn+k= RnRk. (5.4)
Se n = 1 ent˜ao por defini¸c˜ao de Ri tem-se R1+k = RRk para todo k ∈ Z+, pelo que a
proposi¸c˜ao ´e verdade para n = 1. Vamos mostrar agora que qualquer que seja n∈ Z+,
(∀k ∈ Z+ Rn+k= RnRk=⇒ ∀k ∈ Z+ Rn+1+k= Rn+1Rk). Sejam k, n quaisquer em Z+. Tem-se,
Rn+1+k = RRn+k (por defini¸c˜ao de Ri)
= R(RnRk) (por hip´otese de indu¸c˜ao)
= (RRn)Rk (pela associatividade da composi¸c˜ao)
= (Rn+1)Rk (por defini¸c˜ao de Ri)
Mostr´amos que as condi¸c˜oes do princ´ıpio de indu¸c˜ao se verificam, pelo que se conclui por esse
princ´ıpio a validade de (5.4) ut
.
Proposi¸c˜ao 25 (Caracteriza¸c˜ao dos fechos) Seja R uma rela¸c˜ao bin´aria em A 6= ∅. O fecho reflexivo de R ´e R∪IA, sendo IAa rela¸c˜ao identidade em A (i.e., IA={(a, a) : a ∈ A}).
O fecho sim´etrico de R ´e R∪ R−1. O fecho transitivo de R ´e Si∈Z+Ri.
Prova: Qualquer rela¸c˜ao bin´aria em A que seja reflexiva ter´a que conter {(a, a) | a ∈ A}
5.5. FECHOS DUMA RELAC¸ ˜AO PARA UMA PROPRIEDADE 66
ou seja, IA. Por defini¸c˜ao, o fecho reflexivo de R, seja Rref, ´e uma rela¸c˜ao reflexiva, pelo que
Rref ⊇ IA. Ainda por defini¸c˜ao, Rref ⊇ R. Assim, Rref ⊇ R ∪ IA. R∪ IA ´e reflexiva, e
qualquer rela¸c˜ao definida em A que seja reflexiva e contenha R, cont´em R∪ IA. Logo, R∪ IA
´e o fecho reflexivo de R.
R∪ R−1 cont´em R e ´e sim´etrica. Se (x, y)∈ R ∪ R−1 ent˜ao (x, y)∈ R ∨ (x, y) ∈ R−1. Por
defini¸c˜ao de inversa, se (x, y)∈ R ent˜ao (y, x) ∈ R−1, e se for (x, y) ∈ R−1 ent˜ao (y, x)∈ R.
Portanto, se (x, y)∈ R ∪ R−1 ent˜ao (y, x) ∈ R−1∨ (y, x) ∈ R, ou seja (y, x) ∈ R ∪ R−1, o que
prova a simetria de R∪ R−1. Se mostrarmos que qualquer rela¸c˜ao S definida em A que seja
sim´etrica e contenha R, cont´em R∪ R−1, concluimos que R∪ R−1 ´e o fecho sim´etrico de R (por defini¸c˜ao de fecho sim´etrico). Ora, se S ´e sim´etrica e S ⊇ R, ent˜ao S ⊇ R−1. De facto,
(x, y)∈ R−1 ⇒ (y, x) ∈ R (por defini¸c˜ao de R−1)
⇒ (y, x) ∈ S (por S ⊇ R)
⇒ (x, y) ∈ S (pela simetria de S) Logo S ⊇ R−1, e como S ⊇ R, conclui-se S ⊇ R ∪ R−1.
Resta-nos provar que o fecho transitivo de R, que denotaremos por R+, ´e
R+= [ i∈Z+ Ri ou seja R+ ⊆ [ i∈Z+ Ri (5.5) R+ ⊇ [ i∈Z+ Ri (5.6)
Come¸camos pela primeira inclus˜ao. Vamos provar que Si∈Z+Ri (⊆ A × A) ´e transitiva
e cont´em R, pelo que por defini¸c˜ao de fecho transitivo se concluir´a (5.5). Como R = R1 (por defini¸c˜ao de R1), segue trivialmente R ⊆ S
i∈Z+Ri. Para justificar que
S
i∈Z+Ri ´e
transitiva, sejam x, y, z ∈ A, e suponhamos que (x, y)∈ [
i∈Z+
Ri e (y, z)∈ [
i∈Z+
Ri.
Por defini¸c˜ao de uni˜ao de rela¸c˜oes, se (x, y)∈ Si∈Z+Ri ent˜ao existe k ∈ Z+ tal que xRky.
E analogamente, (y, z)∈Si∈Z+Ri ⇒ ∃p ∈ Z+ yRpz. Ou seja,
((x, y)∈ [
i∈Z+
Ri ∧ (y, z) ∈ [
i∈Z+
5.5. FECHOS DUMA RELAC¸ ˜AO PARA UMA PROPRIEDADE 67
o que implica ∃p, k ∈ Z+ xRkRpz. Ent˜ao, pelo Lema 5, vem xRk+pz, isto ´e (x, z) ∈ Rk+p.
Donde, (x, z)∈Si∈Z+Ri. Logo,
S
i∈Z+Ri ´e transitiva.
Mostremos agora que tamb´em (5.6). Para tal, vamos usar indu¸c˜ao sobre n ∈ Z+ para
provar que
∀n ∈ Z+ R+⊇ [
1≤i≤n
Ri
o que implica a validade de (5.6). Se n = 1 ent˜ao S1≤i≤nRi= R. E, R⊆ R+ por defini¸c˜ao
de fecho. Supondo agora que R+ ⊇ S
1≤i≤kRi, vamos mostrar que ent˜ao R+⊇
S
1≤i≤k+1Ri.
Sejam x, y ∈ A tais que (x, y) ∈ S1≤i≤k+1Ri. Queremos concluir que ent˜ao (x, y) ∈ R+.
Por defini¸c˜ao de uni˜ao, (x, y)∈S1≤i≤k+1Ri se e s´o se (x, y)∈S
1≤i≤kRi ou (x, y)∈ Rk+1.
Se for (x, y) ∈S1≤i≤kRi ent˜ao, por hip´otese de indu¸c˜ao xR+y. Se for (x, y) ∈ Rk+1,
ent˜ao existe z ∈ A tal que xRz ∧ zRky (uma vez que Rk+1 = RRk por defini¸c˜ao).
Como R⊆ R+, e Rk⊆S
1≤i≤kRi, e por hip´otese de indu¸c˜ao
S
1≤i≤kRi⊆ R+,
(xRz∧ zRky)⇒ (xR+z∧ zR+y). Como por defini¸c˜ao de fecho transitivo, R+ ´e transitiva, vem xR+y.
Logo, pelo princ´ıpio de indu¸c˜ao matem´atica ´e verdade que
∀n ∈ Z+ R+ ⊇ [
1≤i≤n
Ri De (5.5) e (5.6) segue R+=S
i∈Z+Ri. ut
Nota¸c˜ao. Sendo R uma rela¸c˜ao bin´aria num conjunto, R+designa o fecho transitivo de R
e R? o seu fecho transitivo e reflexivo.
Exemplo 42 Seja R a rela¸c˜ao definida em Z+ por
xRy sse y = x + 3, x, y quaisquer em Z+
R n˜ao ´e transitiva porque por exemplo (1, 4) ∈ R, (4, 7) ∈ R e (1, 7) /∈ R. Assim, R⊆ R+6= R. Vamos determinar R+, calculando S
i∈Z+Ri. Cada Ri ´e uma rela¸c˜ao definida
em Z+ e R1 = R R2 = RR ={(x, y) | ∃z ∈ Z+ xRz∧ zRy} ={(x, y) | y = x + 6} R3 = RR2 ={(x, y) | ∃z ∈ Z+ xRz∧ zR2y} = {(x, y) | y = x + 9} .. . ...
5.5. FECHOS DUMA RELAC¸ ˜AO PARA UMA PROPRIEDADE 68
Para n∈ Z+, teremos
Rn+1 = RRn={(x, y) | ∃z ∈ Z+ xRz∧ zRny} = {(x, y) | y = x + 3(n + 1)}
o que pode ser provado por indu¸c˜ao sobre n. Assim,
R+ = [
i∈Z+
Ri ={(x, y) ∈ Z+× Z+| ∃k ∈ Z+ y = x + 3k}. O fecho sim´etrico e transitivo de R, seja Rst, ´e
Rst={(x, y) ∈ Z+× Z+| ∃k ∈ Z y = x + 3k}
Pode-se mostrar que o fecho sim´etrico e transitivo ´e sempre o fecho transitivo do fecho sim´etrico.
Exerc´ıcio 5.5.2 Seja R uma rela¸c˜ao definida em A. a) Mostre que se R ´e sim´etrica ent˜ao R+ ´e sim´etrica.
b) Usando se necess´ario a al´ınea anterior, prove que o fecho sim´etrico e transitivo de R ´e (R∪ R−1)+, ou seja o fecho transitivo do fecho sim´etrico de R.
c) Verifique se
(a) o fecho sim´etrico e transitivo ´e o fecho sim´etrico do fecho transitivo. (b) o fecho transitivo e reflexivo ´e o fecho transitivo do fecho reflexivo.
(c) o fecho transitivo e reflexivo ´e o fecho reflexivo do fecho transitivo.