Capítulo 3 – Felicidade: uma proposta de análise sociológica 71
3.3. Em torno do conceito de felicidade 79
3.3.1. Felicidade, bem-‐estar e satisfação com a vida 81
enquanto construção social, uma vez que envolve aspectos culturais e sociais, bem como, expectativas que orientam a acção.
Partindo da desconstrução da figura da dona de casa feliz44, Ahmed (2008)
explica como a ideia de felicidade é usada para redesenhar e reproduzir as normas sociais. Apresenta a felicidade como uma promessa que direcciona as escolhas, serve para distinguir o melhor e encerra uma dupla obrigatoriedade: ser feliz e ser reconhecido como tal. Assim, a felicidade surge como uma imposição social, uma imagem socialmente valorizada que condiciona as expectativas e direciona as escolhas: o mais feliz será o melhor, o mais bem sucedido, que vive a melhor vida nas melhores condições possíveis. Ao mesmo tempo, autores como Stets e Turner (2005) lembram que quando as expectativas são realizadas ocorre felicidade.
Neste sentido, propomos que se entenda a felicidade enquanto construção social, no sentido de assumirmos uma perspectiva de explicação fenomenológica, tal como é proposta por Berger e Luckmann (1999), que tem em consideração tanto a realidade objectiva, externa aos indivíduos, como a sua realidade interna, subjectiva.
Teremos assim, em consideração tanto as condições objectivas que influenciam a felicidade, como a percepção individual destas circunstâncias e da ocorrência de sentimentos de felicidade. Analisar-‐se-‐ão igualmente os significados sociais que a felicidade assume.
3.3.1. Felicidade, bem-‐estar e satisfação com a vida
Tal como referido anteriormente, os conceitos de felicidade, bem-‐estar e satisfação com a vida, são muitas vezes considerados (e utilizados como) sinónimos. Mas será que têm o mesmo significado? Pensamos que não. Apesar
das suas proximidades e influências mútuas, parece-‐nos que há algumas diferenças conceptuais que importa precisar quando pretendemos estudar sociologicamente a felicidade, incidindo sobre as influências do contexto social em que se produzem formas de sentir e os seus significados.
Acreditamos que só assim é possível completar os estudos existentes que, na sua grande maioria, se baseiam em medidas de felicidade que se pretendem globais. Mais especificamente, que evitam a sua definição, considerando que cabe ao indivíduo decidir quais os aspectos que considera importantes para a sua felicidade, entrando em consideração apenas com estes. Ora, mesmo que as pessoas façam esta reflexão e incluam na sua avaliação todas as dimensões relevantes para a sua felicidade e na sua correcta proporção, nada sabemos nada sobre elas, sobre as diferenças que assumem entre os indivíduos, nem de que forma estas influenciam as suas percepções e acções.
Neste sentido, e porque importa conhecer os aspectos que assumem maior importância para as pessoas, retomamos a proposta Averill e More (2000) que consideram diferentes níveis de objectividade e de actividade para felicidade. Estes autores distinguem níveis de objectividade, para clarificar que num nível subjectivo, felicidade é sentirmo-‐nos bem; e num nível objectivo remete para as condições de vida, a boa vida, ou como vivemos. Estes níveis de objectividade “cruzam-‐se” com níveis de actividade: baixo e alto. A tabela seguinte apresenta uma adaptação da sua proposta.
Tabela 1 – Níveis de objectividade e de actividade de felicidade
Fonte: Adaptado de Averill e More (2000).
SUBJECTIVO+++++++++++++++
Sentir'se)bem
OBJECTIVO+++++++++++++++++
Boa)vida
Nível+de+actividade+BAIXO CONTENTAMENTO EQUANIMIDADE
Nível+de+actividade+ALTO ALEGRIA EUDAIMONIA
Assim pensada, felicidade pode significar alegria (estado subjectivo que tem a haver com a forma como nos sentimos) e que envolve um elevado nível de actividade. Alternativamente, a felicidade pode significar contentamento, remetendo-‐nos para sentir bem, mas de forma pouco intensa.
Ao mesmo tempo, traduz uma conduta de vida: eudaimonia, conceito Aristotélico que remete para a ideia de que a vida merece ser desejada e vivida45. Mas pode remeter também para uma boa vida mas com baixo nível de actividade, que os autores designam por equanimidade, ou seja, serenidade.
Desta forma, os aspectos mais objectivos de felicidade remetem para a conduta de vida e os mais subjectivos para o sentir.
Tal como Averill e More (2000), propomos duas dimensões para o conceito de felicidade: os sentimentos (como nos sentimos) e a conduta de vida (como vivemos).
A forma como nos sentimos está dependente do estado emocional (da ocorrência de emoções positivas e negativas) e da avaliação que fazemos das circunstâncias. Esta componente de avaliação subjectiva, ligada à percepção das condições e circunstâncias de vida, tem sido defendida por diversos autores como sendo o mesmo que satisfação com a vida ou bem-‐estar individual, uma vez que a sua medição capta a forma como a totalidade da vida é avaliada, no seu conjunto, e não considerando apenas a ocorrência de sentimentos no momento.
A maioria dos autores centra a sua análise nesta apreciação da vida, incidindo no grau em que avaliamos a nossa vida positivamente ou do quanto gostamos da vida que vivemos (Argyle, 2001; Blanchflower & Oswald, 2008; Diener & Seligman, 2004; Inglehart et al., 2008; Layard, 2005; Veenhoven, 2006, 2010).
No entanto, satisfação com a vida e bem-‐estar apesar de serem conceitos abrangentes e válidos deixam de fora, tanto o estado emocional – que influencia a
45
É um ideal que dá significado e sentido à vida. Serão os esforços por viver de acordo com
apreciação –, como a conduta de vida. Da mesma forma, uma vez que a sua medição se baseia no auto-‐posicionamento do indivíduo em escalas46, não sabemos o que realmente está a medir, uma vez que desconhecemos quais são os aspectos tomados em consideração, as dimensões da vida valorizadas, ou os significados atribuídos pelos inquiridos. Por esta razão pretendemos ir mais longe, pedindo a avaliação dos diferentes indicadores das várias dimensões que influenciam felicidade.
Por outro lado, a conduta de vida traduz-‐se por indicadores de condições de vida. Aqui aproxima-‐se do conceito de bem-‐estar – enquanto avaliação do funcionamento da sociedade – na medida em que pode ser medido por indicadores de saúde (física e psicológica) e esperança de vida, económicos e profissionais, de educação e de género (participação das mulheres), que traduzem as possibilidades objectivas de boa vida. Mas a conduta de vida – mesmo que orientada para o bem-‐estar – envolve igualmente percepções, valores orientadores, significados e práticas que embora contribuam para o bem-‐estar não são seus constituintes.
Alguns autores têm defendido o conceito de bem-‐estar subjectivo (Subjective Well Being, SWB) como sendo mais científico e capaz de captar de forma abrangente a forma como as pessoas avaliam a sua vida. Argumentam que os diferentes significados que a palavra felicidade pode assumir (alegria, satisfação, tranquilidade, contentamento) dificultam a sua utilização científica. (Diener & Seligman, 2004).
Outros estudos recorrem à construção de índices de bem-‐estar subjectivo utilizando indicadores de avaliação subjectiva de felicidade: “Happiness is an immediately accessible feeling, not something that requires elaborate cognitive processing. Consequently, when people are asked whether they are happy, they
46 A mais comum é a self-‐anchoring scale, também designada por cantril’s ladder que é a proposta
de avaliação de Cantril que parte da seguinte questão: Imagine uma escada em que o topo representa a melhor vida possível (para si) e a base a pior vida possível (para si). Em que local da escada sente que está no momento presente? 10 representa a melhor vida possível e 0 a pior vida possível (Cantril, 1966) (tradução livre).
can and do give meaningful responses” (Inglehart et al., 2008). A ideia subjacente é a de que as pessoas são capazes de avaliar a sua vida de diferentes formas, reflectir sobre esta avaliação e incorporar esta reflexão nas suas respostas. As avaliações são guiadas tanto pela intuição afectiva como pela cognição, ou seja, por comparação e em função de como nos fazem sentir.
Mas o que fica a faltar é a compreensão científica dos significados da avaliação, reflexão e as consequências da incorporação.
Parece-‐nos que estas opções têm em vista a produção de medidas/indicadores de avaliação do funcionamento geral da sociedade e não a compreensão do fenómeno da felicidade nas suas implicações sociais e individuais. Se esse é o seu objectivo, concordamos que a avaliação do bem-‐estar inclua indicadores de auto-‐avaliação de felicidade. Porém, um entendimento mais vasto e completo de felicidade, tal como pretendemos desenvolver, requer uma abordagem teórica e metodológica mais alargada e não apenas a mensuração da apreciação individual da vida.
Desta forma, o estudo da felicidade tem também de compreender a sua importância como valor orientador, os significados e as práticas que se relacionam com felicidade e tal como são percepcionados pelos indivíduos e o contexto sociocultural que os enquadra.
Em seguida, serão apresentadas as sub-‐dimensões referentes às duas dimensões de felicidade já identificadas (como sentimos e como vivemos).
3.3.2. As dimensões e sub-‐dimensões de felicidade
Com base no contributo de Averill e More (2000), propusemos duas dimensões para o conceito de felicidade: os sentimentos (como nos sentimos) e a