2. FREUD: DA “FEMINILIDADE NORMAL” À MULHER EM
2.4 FEMINILIDADE, CONDIÇÃO COMUM: DESAMPARO E
O sentido da feminilidade apresentado aqui está em relação com as ideias discutidas anteriormente: a feminilidade compreendida em torno da organização fálica, em seus aspectos ―sociais‖ e em seu fundamento pulsional. Então, em algumas passagens da obra de Freud, apesar de ainda referida à organização fálica, a feminilidade não é diretamente tomada como uma resposta substitutiva à falta e, de certo modo, complementar à masculinidade, mas como prejuízo que esta falta representa tanto para o homem, como para a mulher:
O homem teme ser enfraquecido pela mulher, contaminado por sua feminilidade e, então, mostra-se ele próprio incapaz. O efeito que tem o
coito de descarregar tensões e causar flacidez pode ser o protótipo do que o homem teme; e a representação da influência que a mulher adquire sobre ele através do ato sexual, a consideração que ela em decorrência do mesmo lhe exige pode justificar a ampliação desse medo. Em tudo isso, não há nada obsoleto, nada que não permaneça ainda vivo em nós mesmos. (FREUD, 1996/1917, p. 193 – grifo da autora)
A encarnação da castração na figura feminina é muitas vezes chamada por Freud de ―feminilidade‖. Tomadas então como sinônimos, servem-lhe para explicar alguns mecanismos de ―revolta contra a castração‖, como no trabalho Uma neurose demoníaca do século XVII (1922). Freud (1996/1922, p. 106) utiliza essa expressão para designar o ―repúdio à atitude feminina‖. Diante do medo da castração, o menino projeta no pai as características da feminilidade representadas pela castração, da qual deve se defender. Daí as características femininas do diabo, ―uma projeção da própria feminilidade do indivíduo sobre o substituto paterno‖ (Freud, 1996/1922, p. 106). Trata-se, mais uma vez, da feminilidade reportada a reações masculinas diante da castração.
Ao final do artigo acima mencionado, Freud (1922) aborda o posicionamento de Alfred Adler a respeito do ―repúdio à castração‖, dizendo que ele retirou dessas manifestações a sua interpretação de origem orgânica e atribuiu-lhe um significado de anseio de poder presente nos homens, substituindo a expressão por ―protesto masculino‖. Freud (1996/1937, p. 268) retomará essa discussão em
Análise terminável e interminável, afirmando que o ―protesto
masculino‖ de Adler estaria limitado aos homens e, portanto, não serviria à ―descrição correta dessa notável característica da vida psíquica dos seres humanos‖.
No entanto, Freud não mantém a expressão utilizada em 1922 (―repúdio à castração‖), substituída, em Análise terminável e
interminável (1937), por ―repúdio da feminilidade‖. É possível atribuir
essa mudança de designação a todo o desenvolvimento teórico que constituiu os trabalhos de Freud entre um e outro texto (período entre 1922 e 1937). Aliás, esse período (mais especificamente entre 1925 e 1932) é destacado por Joel Birman (1999) como fundamental às elaborações freudianas acerca da ―sexualidade feminina‖, campo que o autor considera relativo, porém distinto daquele que Freud desenvolveu sob o nome de ―feminilidade‖.
feminilidade‖ mantém-se diretamente reportado à castração como um repúdio à passividade e submissão ou, ainda, às tendências homossexuais, dada a constituição bissexual humana. O grande obstáculo à análise deve-se, segundo Freud, à origem desse repúdio comum ao homem e à mulher, nomeadamente ―a distinção existente entre os sexos.‖ Ele explica:
Algo que ambos os sexos possuem em comum foi forçado, pela diferença entre eles, a formas diferentes de expressão. Os dois temas correspondentes são, na mulher, a inveja do pênis – um esforço positivo por possuir um órgão genital masculino – e, no homem, a luta contra sua atitude passiva ou feminina para com outro homem. (FREUD, 1996/1937, p. 268-9)
Por meio desses exemplos, é possível verificar que a preferência por este ou aquele termo não fica exatamente clara no traço freudiano. De qualquer forma, verificamos correspondências e regularidades a sugerir que, tanto ―feminino‖ como ―feminilidade‖, representam operadores teóricos que cumprem sua função no sistema de pensamento centrando a subjetividade na diferença sexual. No entanto, a
feminilidade, no sentido de uma condição universal, relaciona-se mais
profundamente à ideia de impotência, que ultrapassa o referencial fálico (apesar de incluí-lo), reportando-se à noção de desamparo, central na teoria freudiana.
O estado de desamparo – tradução da palavra alemã Hilflosigkeit sugerida por Laplanche e Pontalis (1998) – é um termo utilizado por Freud anteriormente (1926, no texto Inibições, sintoma e angústia) para designar a dependência que o recém-nascido tem de outras pessoas para satisfazer suas tensões internas. Em outras palavras, trata-se do estado de impotência do corpo prematuro, incapaz de coordenar suas ações de modo eficaz, fazendo com que a tensão, no lugar de ser desfeita, aumente ainda mais. Assim, Freud (1926) propõe um estado de desamparo motor (relativo ao aparelho bilógico) e um estado de desamparo psíquico (relativo ao aparelho psíquico). Este último é descrito por ele (1926) como o modelo da situação traumática por excelência, por configurar, em caso extremo, o total descontrole de excitações, pelas quais o sujeito se sente então absorvido. A associação entre as duas modalidades de desamparo é evidente na relação de dependência que se estabelece com o outro que deve proteger o sujeito
no início de sua vida e determina, segundo Freud (1926), a necessidade de ser amado que o acompanhará pelo resto dela.
Em O mal-estar na civilização (1930 [1929]), Freud demonstra, no processo civilizatório, as formas como o ser humano pôde representar, simbolicamente, sua condição primitiva de desamparo e dependência. Os mitos e histórias de cunho ameaçador e punitivo representam, em última análise, uma forma de simbolizar e significar a angústia da solidão e do abandono. Todas as representações e lutas pela evolução, passando inclusive pela supervalorização da potência (a força, o trabalho), são comentadas como tentativas de superar/negar esta condição. Foi preciso, segundo Freud, traduzir tudo isso em termos de ameaça, para manter as frágeis garantias alcançadas pelo controle da natureza. Daí a necessidade da prevalência da razão sobre a emoção, do pensamento sobre o corpo e o sexo, e por que não, do homem sobre a mulher.
Segundo Birman (1999), essa dimensão da feminilidade (referente ao desamparo e à fragilidade) é o que justifica a necessidade do falo como mediador; e de sua leitura de O mal estar na civilização (Freud, 1930[1929]), conclui que ―o desamparo humano [...] está em pauta pela mediação da construção fálica.‖ (BIRMAN, 1999, p. 13). Assim compreendida, a feminilidade permite ultrapassar então a lógica fálica, constituindo assim uma forma primordial da sexualidade. Para Birman (1999, p. 53), portanto, a sexualidade feminina não se confunde com a feminilidade, que condensa
um conjunto significativo de traços sobre a sexualidade [...]: prematuridade; incompletude; insuficiência; fendas corpóreas; polimorfismo; inexistência de objeto fixo da pulsão, etc... Enfim, a feminilidade e o desamparo originário do sujeito são os conceitos que unificam todos esses atributos sobre o erotismo, meticulosamente traçados no discurso freudiano, na tentativa sempre recomeçada de decifrar o emaranhado polissêmico da sexualidade.
Separando ou não, como sugere Birman, as noções de sexualidade feminina do que Freud chamou de feminilidade, o uso desses termos permanece em relação a todas as características discutidas desde o início desta seção. Vimos que, num primeiro momento, temos a saída para a feminilidade com a condição da eleição de um objeto de
amor masculino19 e o desejo por um bebê. Em seguida, a feminilidade é descrita como docilidade e fragilidade com a supressão da atividade e da agressividade. Por fim, a feminilidade associada ao desamparo da insuficiência humana (―estado de desamparo‖), mas também à castração, no sentido daquilo que representa a falta como condição universal e que concerne tanto aos homens como às mulheres.
Esses três sentidos – heterossexualidade/maternidade; docilidade/passividade; castração/desamparo –, tomados como principais, oscilam e acrescentam-se uns aos outros nos diferentes momentos da produção freudiana.
Se estas são as alternativas destacadas por Freud para as mulheres, como compreender a ―verdadeira mulher‖, ilustrada por Lacan com Medeia? Seria ela o oposto da mulher ―freudiana‖ em seu primeiro sentido? Seriam essas noções excludentes ou contraditórias? Será apresentada, a seguir, a relação entre esses sentidos a uma última e essencial descrição do ―tipo feminino‖ no pensamento de Freud para, na próxima seção, articulá-los aos avanços de Jacques Lacan no campo da feminilidade.
2.5 AMOR E NARCISISMO: A MULHER EM SEU ESTADO MAIS