5. MEDEIA: MITO E TRAGÉDIA
5.1 O MITO E A VERDADE
Anteriores à instalação da racionalidade filosófica no Ocidente, responsável pela oposição mito x logos, os mitos foram a forma privilegiada, criada e repetida, para representar e responder às inquietações humanas e descrever os ritos cotidianos. Seus enredos plenos de ambiguidades, da presença de seres opostos e complementares como deuses e homens, representam realidades comuns, crenças e modos de pensar por meio de uma narrativa especial que lhes confere uma relação particular com a verdade (PÉREZ, 2012). A textura narrativa dos mitos era perfeitamente adaptada para uma cultura oral,
característica do período anterior ao séc. V a. C., e era então nutrida por uma tradição de conhecimento presente em todos os aspectos da vida cotidiana dos gregos: a poesia. Assim, oriundo de uma lógica na qual o acesso à verdade se dá menos pela episteme – como representação do conhecimento e da certeza –, e mais pela arte poética – que, orientada pela Musa108, representava a garantia da ―palavra verdadeira‖ e uma preocupação com a verdade –, o ―mito é uma história que circula na força de sua própria implantação, e não requer identificar sua origem, nem estabelecer confirmação alguma‖ (PÉREZ, 2012, p. 62).
Por essas características, o modelo de conhecimento representado pelo mito entra em conflito com o discurso argumentativo e explicativo que passa a vigorar, recebendo, segundo Pérez, uma dupla acusação: de estar demasiadamente afastado da realidade e muito próximo do absurdo. O que a nascente racionalidade filosófica (origem do pensamento científico) refutou nos mitos, aproxima-se, no entanto, da própria noção de inconsciente sustentada pela psicanálise. Pérez (2012, p. 64) comenta o valor desses aspectos que não puderam ser absorvidos pelo discurso da razão:
El mito en modo alguno es expresión de una racionalidad malograda, debilitada o en estado de inmadurez. Por el contrario, es una construcción intelectual distinta, de profunda riqueza, que tiende a mezclar los opuestos, a situarse provocativamente frente a las oposiciones, sin
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No grego, a palavra Mousa significa ―musa // arte, ciência // canto // palavra persuasiva‖ (PEREIRA, 1998, p. 380). Na mitologia grega, as Musas representavam a inspiração na criação artística e científica. Eram três, segundo Pausanias – Meletea (meditação), Mnemea (memória), Aedea (canto, voz) – e nove, segundo Hesíodo, na Tegonia – Calíope (poesia épica), Clíos (história), Erato (poesia erótica), Euterpe (poesia lírica), Melpômene (tragédia), Polimnia (poesia sacra e geometria), Talía (comédia), Terpsícore (dança e canto), Urânia (astronomia e astrologia). A versão de Hesíodo, consagrada na Grécia, apresenta as Musas como fruto da união de Zeus e Memória, (Mnemosyne), rainha das colinas de Eleutera, por isso o conjunto das nove Musas era comumente associado às recordações e, responsáveis pela aprendizagem dos poetas, garantiam o ―acesso ao conhecimento sobre o passado, o presente e o futuro‖ (PÉREZ, 2012, p. 65). De acordo com Brandão (1991), seu templo, Museion, deu origem à palavra ―Museu‖, lugar de preservação do saber artístico. Representantes do discurso em verso, modelo de ensinamento prévio aos livros, deram também origem à palavra ―música‖ (mousike, ―arte das musas‖).
asumir contradicción alguna, y que contiene un enorme potencial de creatividad.
É sabido que Freud nunca ignorou tal semelhança e recorreu aos mitos para o esclarecimento de seus avanços teóricos. Como assinala Aguiar (1995, inédito), a psicanálise soube reconhecer a validade dos mitos em seu estatuto de metáfora. Freud (1996/1908, p. 157) os compreendeu como prováveis ―vestígios distorcidos de fantasias plenas de desejos de nações inteiras, os sonhos seculares da jovem humanidade‖. Do ponto de vista filogenético – como apreendeu Freud também com a criação do mito do pai primordial – e também da ontogênese – como no caso do mito de Édipo –, o mito possui, nas palavras de Freud (1920), um ―valor de ficção‖, que se apresenta como uma referência fundamental ―[...] para além de uma ideologia empirista, incapaz por ela mesma de socorrê-lo no empreendimento científico do qual é fundador [...]‖ (AGUIAR, 1995, inédito).
Ficção, aliás, será o termo empregado por Lacan para designar a
estrutura da verdade em 1956-57, no Seminário 4, A relação de objeto. Seguindo a tradição freudiana, Lacan (1956-1957) compara as teorias sexuais infantis aos mitos. Lançando mão da análise do caso do pequeno Hans109, ele demonstra que o mito se apresenta como uma narrativa, verificando, ao mesmo tempo, uma constância e uma proliferação individual. Assim é acentuado o caráter de ficção do mito em sua relação com a verdade, ―uma coisa que não pode ser separada do mito‖ (LACAN, 1995/1956-57, p. 258), pois ―a verdade tem uma estrutura, se podemos dizer, de ficção‖ (LACAN, 1995/1956-57, p. 259) – afirmação que se repetirá em 1958, no escrito de Lacan sobre Gide. A estrutura do mito (muito mais que seu conteúdo) oferece então ao sujeito o molde de sua relação com as questões do sexo, da morte e da procriação – questões da existência. Trata-se da mesma função encontrada na própria origem dos mitos na ―humanidade jovem‖ (FREUD, 1908).
Lacan (1956-1957) fala da necessidade de uma transposição simbólica efetuada no progresso do mito, verificada nas diferentes
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―Pequeno Hans‖ foi como ficou conhecido Herbert Graf (1903-1973), menino de cinco anos de idade analisado por Freud, intermediado pelo pai, Max Graf, durante o primeiro semestre de 1908. Figurando como um dos grandes casos da história da psicanálise, Freud já se referia a ele graças às anotações que o pai do menino, encantado com a psicanálise, fazia a respeito da sexualidade do filho desde os seus três anos de idade (ROUDINESCO; PLON, 1998).
passagens pelo Complexo de Édipo. Ele atenta então para a compreensão da estrutura do mito a partir da verificação da superposição de seus elementos, que surgem transformados a cada vez, realizando um percurso. O exemplo do pequeno Hans demonstra que o cenário que se organiza e se ordena captura muito mais o sujeito do que ele o desenvolve. Por fim, Lacan (1995/1956-57, p. 259) observa que
um mito é sempre uma tentativa de articular a solução de um problema. Trata-se de passar de um certo modo de explicação da relação-com-o- mundo do sujeito ou da sociedade em questão para um outro modo – sendo esta transformação requerida pela aparição de elementos diferentes, novos, que vêm contradizer a primeira formulação. Eles exigem, de certo modo, uma passagem que é, como tal, impossível, que é um impasse. Isso é o que dá sua estrutura ao mito. É então um duplo valor que Lacan confere ao mito nesse momento de seu pensamento: seu valor metafórico e também seu valor estrutural diante de um impasse. Assim, pode-se dizer que o mito de Medeia apresenta-se como modelo, ―certamente extremo‖, do ―‘isso é uma verdadeira mulher‘, como discretamente indica Lacan‖ (MILLER, 2012, p. 69). E considerando não apenas que a mulher constitui um enigma, um impasse (desde muito antes de Freud e Lacan), mas também a dificuldade que a própria afirmação lacaniana do ato de ―uma verdadeira mulher em sua inteireza de mulher‖ origina, o recurso ao mito se apresenta aqui na direção mesma apontada por Lacan como uma ―tentativa de articular a solução de um problema‖. Não se trata, portanto, de acreditar que o mito contém uma solução definitiva – tampouco de apostar em uma essência feminina que indique a existência de uma verdadeira mulher, ou de uma falsa mulher, por consequência –, mas de destacar aquilo que no mito demonstra a sua própria estrutura em suas passagens, transformações e articulações, materializando os impasses em questão.
É interessante notar que, para Lacan, a própria acepção da verdade110 está também implicada na noção de função do mito, na
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A discussão acerca da concepção de ―verdade‖ em psicanálise está presente ao longo de toda a obra de Lacan. Como assinala Cláudio Oliveira (2007a), Lacan, apoiado na filosofia hegeliana, separou o saber (a episteme, em sua coerência formal) da verdade, afirmando que esta se encontra na origem do
medida em que ele ―é o que confere uma fórmula discursiva a alguma coisa que não pode ser transmitida na definição da verdade‖ (LACAN, 2008/1953, p. 13). Também no texto aqui discutido (A juventude de
Gide...), Lacan (1998/1958a, p. 752) lança mão dessa correspondência,
apontando a importância de um ―traço que se esquece em toda verdade: que ela se revela numa estrutura de ficção.‖ Aliás, a epígrafe do texto é dupla: abaixo da citação de Eurípides, Lacan (1998/1958a, p. 749) cita o próprio André Gide: ―E, metáfora ou não, o que digo aqui é perfeitamente verdadeiro‖. Quer dizer, todo o texto está irrigado desse caráter metafórico da verdade, na medida em que ela não se revela de maneira direta. Ou seja, nem a definição de verdade, nem a verdade em si podem ser ditas ou transmitidas à revelia da ficção.
Cabe então perguntar em favor deste trabalho de tese: como essa concepção da verdade se coloca diante da afirmação de uma ―verdadeira mulher‖?
Recentemente, Miller (2012, p. 68-9) também considerou o problema que tal expressão constitui, comentando de passagem que ―mulher e verdade possam ter algo a ver com o que se diz que depende do semblante111, já que a verdade é distinta do saber e tem estrutura de ficção.‖ Trata-se de uma articulação presente no mito e, sobretudo, na Medeia de Eurípedes, desenvolvida então ao longo dos próximos tópicos.
saber, que, no entanto, dela se afasta. No entanto, enquanto para Hegel a essência do saber como verdade é próprio saber, o que ele chamou de Selbsbewusstsein (―consciência de si‖), Lacan os mantém separados ao sustentar que a verdade é um saber que não se sabe, um Unbewusstsein (Oliveira, 2007a). É a noção freudiana do inconsciente que sustenta o afastamento do saber de sua origem, a verdade. Aproximando-se do que foi aqui apresentado como a função das Musas na poesia, Oliveira (2007a, p. 276) escreve que ―o mito, ao contrário, trata dessa origem. O mito é sua memória. Como o inconsciente, nos termos de Freud, o mito é a memória do que o homem esquece.‖ Vale lembrar que essa disjunção entre saber e verdade, a parcialidade que configura seu único acesso, permanece ao longo do pensamento lacaniano, ainda que incrementado pelo desenvolvimento dos conceitos de gozo e real. É vasta a abordagem das concepções de saber, ciência e verdade realizada por Lacan, ultrapassando os objetivos da presente discussão. Sobre esse assunto, remeto o leitor ao artigo Da enunciação da verdade ao enunciado do gozo, Cláudio Oliveira (2007a), que sintetiza parte dessa discussão, e ao escrito de Lacan (1966), A ciência e a verdade. 111
5.2 ENREDOS E MITOS: AS VERSÕES E CONEXÕES DE MEDEIA