2.2 Responsabilidade Social nas Organizações
2.2.3 Ferramentas de Gestão da Responsabilidade Social
As ferramentas de gestão consideradas, dizem respeito aos modelos de avaliação e mensuração das ações sociais, sejam eles as normas de certificação social SA 8000 e AA 1000, bem como o Balanço Social, enfatizando o modelo desenvolvido pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.
a) A Norma SA 8000 – Social Accountability International (SAI)
Baseado nos modelos de certificação de qualidade, assim como a ISO 14.000 que comprova a preocupação ambiental das empresas, surge um novo modelo de auditoria que busca certificar a preocupação das mesmas quanto ao relacionamento com seus colaboradores. De acordo com Oliveira (2002) a partir do modelo de sucesso da ISO 14.000, algumas empresas de classe mundial como AVON, KPMG, SGS, TOYS R US, organizações não governamentais (ONGs), sindicatos, entidades de classe, resolveram elaborar uma norma relativa às condições de trabalho. Uma entidade norte-americana, a CEPAA coordenou as atividades.
Esta entidade agora denomina-se Social Accountability International – SAI (www.sa- intl.org). O Brasil foi representado pela ABRINQ, entidade ligada aos fabricantes de brinquedos, que tem desenvolvido uma ação contra o trabalho infantil. Assim foi lançada a norma SA 8000, que ainda é uma norma de uma entidade, mas que no futuro tenderá a se tornar uma norma internacional, como as demais normas ISO. Foi realizado em junho de 2002 um workshop onde ficou decidido solicitar à ISO a criação de um grupo especial (Strategic Advisory Group – SAGE), da mesma forma que foi feita para a criação da norma ISO 14000.
A certificação social está se propagando como diferencial competitivo pelas organizações no mundo. A SA 8000, criada pelo Social Accountability International (SAI), em Nova Iorque nos Estados Unidos em 1997, corresponde a uma norma uniforme e auditável, que permite uma verificação de sistema por terceira parte. É sujeita a revisão periódica e desenvolve-se à medida que as partes interessadas (stakeholders) especifiquem aperfeiçoamentos, que correções sejam identificadas e à medida que se modifiquem as condições. De acordo com Melo Neto e Froes (1999), o objetivo desta norma é assegurar que não existam práticas antiéticas no processo de produção da organização, como por exemplo, a exploração do trabalho infantil, escravo e outras formas de discriminação e exclusão.
Para Oliveira (2002) os requisitos da norma envolvem aspectos como, o trabalho infantil, o trabalho forçado, a segurança e saúde no trabalho, a liberdade de associação e direitos coletivos, a discriminação (sexual, raça, política, nacionalidade, etc), práticas disciplinares e carga horária de trabalho.
Conforme Melo Neto e Froes (1999), para sua avaliação são considerados nove requisitos na sua concessão: a saúde e segurança no trabalho, remuneração, carga horária, ações disciplinares, liberdade para os direitos de associação, sindicalização e contrato coletivo, sistema gerencial, proibição do trabalho infantil, trabalho escravo e discriminação.
A SA 8000 foi criada visando melhorar as ações de responsabilidade social, é uma norma que cuida das questões sociais, tendo em vista que as normas de qualidade foram feitas para atender o consumidor e a sociedade como um todo. Apesar das organizações possuírem diferentes formas de gerenciamento, essas devem possuir um objetivo comum: A melhoria da vida da sociedade, através da melhoria da qualidade do produto, preocupação com o meio ambiente, a saúde e segurança no trabalho ou ainda as questões que envolvem a responsabilidade social, como a liberdade, discriminação, qualidade de vida, práticas disciplinares entre outros.
A SA 8000 foi feita com base nas normas da Organização Internacional do Trabalho (O.I.T), na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Declaração Universal dos Direitos da Criança da ONU e segue os padrões das normas ISO 9.000 e 14.000 o que facilita a sua implantação por empresas que já conhecem esse sistema. É uma norma internacional que busca garantir a qualidade do ambiente e das relações de trabalho. Esta norma pretende atender a uma necessidade de consumidores mais esclarecidos que se preocupam com a forma como os produtos são produzidos, e não apenas com a sua qualidade.
De acordo com Oliveira (2002), no mundo todo, 156 empresas já implantaram este sistema e obtiveram a sua certificação por entidades independentes, as mesmas que concedem os certificados ISO 9000. Pesquisa realizada pela QUALITAS publicada no site da SAI identificou que o Brasil é o quarto país do mundo em número de certificados SA 8000. A China tem 39 certificados, a Itália 24, a Índia 24 e o Brasil 13. Portanto o Brasil é o país da América com maior número de certificados e está na frente dos paises mais desenvolvidos do mundo.
Através da implantação da SA 8000, Oliveira (2002) afirma que a empresa demonstra estar preocupada com a responsabilidade social em relação a seus empregados. Antes de divulgar para o público externo sua preocupação com a responsabilidade social, a empresa deve primeiro garantir que está praticando esses princípios dentro de casa. A ênfase na avaliação está na dimensão interna, principalmente nas relações e condições de trabalho.
b) A Norma AA 1000 – Institute of Social and Ethical Accountability
O segundo modelo de certificação social considerado neste estudo é o AA 1000, proposto pelo Institute of Social and Ethical Accountability de Londres, em 1999. Ambos os modelos buscam informações que possibilitem ‘contabilizar’ as ações éticas e sociais das organizações, levando os resultados ao conhecimento dos stakeholders e shareholders. A importância destas certificações sob o aspecto econômico se dá pelo fato que muitos investidores e fundos de ações estão observando o desempenho social das empresas antes de fazerem seus investimentos, não obstante, muitas dessas empresas éticas e socialmente responsáveis estão tendo suas ações mais valorizadas em função deste desempenho.
De acordo com Melo Neto e Froes (1999) o AA 1000 ampliou o campo de análise da avaliação social. A proposta desta norma é a de mensurar inclusive a dimensão externa da responsabilidade social (comunidade, clientes, fornecedores, meio ambiente), monitorando as relações entre empresa e comunidade.
c) O Balanço Social
O contexto histórico sobre o desenvolvimento e organização da sociedade em prol da responsabilidade social das empresas e a busca pela apresentação do balanço social no Brasil e no mundo, já vem de longa data. O que se pretende aqui considerar são os conceitos e definições, bem como o procedimento de implantação do Balanço Social em uma organização.
Segundo Melo Neto e Froes (1999) o Balanço Social é a ferramenta que permite mensurar o desempenho organizacional, no campo da cidadania empresarial, demonstrando as ações sociais praticadas pela mesma em um determinado período. Embora sua publicação ainda não seja uma obrigatoriedade no Brasil - apesar de existir um Projeto de Lei (no. 3.116/97) reapresentado como PL no. 32/99, em tramite para votação no Congresso Brasileiro - cada vez mais o Balanço Social se destaca como ferramenta estratégica competitiva, em um mercado altamente agressivo e mutante.
Os registros formais sobre o início da prática do Balanço Social, aconteceram através do primeiro relatório do Clube de Roma, também denominado “Relatório de Meadows”, sobre os limites do crescimento no planeta, em 1972.
Conforme o IBASE (2003) nos anos 60, nos EUA e na Europa, o repúdio da população à guerra do Vietnã deu início a um movimento de boicote à aquisição de produtos e ações de algumas empresas ligadas ao conflito. A sociedade exigia uma nova postura ética e diversas empresas passaram a prestar contas de suas ações e objetivos sociais. A elaboração e divulgação anual de relatórios com informações de caráter social resultaram no que hoje se denomina balanço social.
No Brasil a idéia começou a ser discutida na década de 70. Contudo, apenas nos anos 80 surgiram os primeiros balanços sociais de empresas. A partir da década de 90 corporações de diferentes setores passaram a publicar o balanço social anualmente.
O conceito de responsabilidade social corporativa começou a se difundir nos anos 70, na Europa. E foi a partir desta idéia, que em 1971 a companhia alemã STEAG realizou uma espécie de relatório social, um balanço de suas atividades sociais. No entanto, o que pode ser registrado efetivamente como um marco na história dos balanços sociais, aconteceu na França em 72, quando a empresa SINGER apresentou o, assim chamado, primeiro Balanço Social da história das empresas (TORRES, 2003).
Na França, várias experiências consolidaram a necessidade de uma avaliação mais sistemática por parte das empresas no âmbito social. Até que em 12 de julho de 1977, foi aprovada a Lei 77.769, que tornava obrigatória a realização de Balanços Sociais periódicos para todas as empresas com mais de 700 funcionários. Este número caiu posteriormente para 300 funcionários.
Para Torres (2003), o desenvolvimento da mentalidade empresarial quanto à responsabilidade e o balanço social no Brasil, já podem ser notados na “Carta de Princípios do Dirigente Cristão de Empresas”, estabelecido em 1965, pela Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas do Brasil (ADCE Brasil). A Fundação Instituto de Desenvolvimento Empresarial e Social (FIDES) chegou a elaborar um modelo, em 1980. O Balanço Social da Nitrofértil, empresa estatal situada na Bahia, que foi realizado em 1984, é considerado o primeiro documento brasileiro do gênero, denominado Balanço Social. No mesmo período, estava sendo realizado o BS do Sistema Telebrás, publicado em meados da década de 80. Em 1992, o Banespa compõe a lista das empresas precursoras em BS no Brasil. No entanto, é a partir do início dos anos 90 que algumas empresas passaram a considerar esta questão e divulgar sistematicamente em balanços e relatórios sociais as ações realizadas em relação à comunidade, ao meio ambiente e ao seu próprio corpo de funcionários.
Melo Neto e Froes (1999) destacam duas correntes quando se trata de Balanço Social. A primeira corrente é de origem francesa, tem preocupação com o ambiente interno, visando privilegiar o bem-estar dos colaboradores e dependentes, bem como sua participação e satisfação no trabalho.
Já a segunda corrente, tem origem americana, e defende uma abordagem mais abrangente, avaliando o envolvimento e participação da empresa em sua comunidade. Isto através da geração de empregos e renda, preservação ambiental, investimento tecnológico e apoio ao desenvolvimento tecnológico (ambiente social externo). Esta corrente destaca também os aspectos do ambiente social interno, através do bem-estar dos colaboradores; capacitação; participação; saúde assistência social; segurança no trabalho, entre outros.
De acordo com os autores, no caso brasileiro, prevaleceu a aplicação da segunda corrente, de inspiração americana, que avalia tanto a dimensão interna como a externa. No Brasil, os ideais sobre o Balanço social tiveram seu início na década de 80, tendo como seu defensor o sociólogo Betinho. Este, através da presidência do IBASE, empenhou esforços em busca do desenvolvimento do Balanço Social. Segundo o Guia de Elaboração do Balanço Social do Instituto Ethos (2002), desde o lançamento do modelo de balanço social do IBASE, em 1997,
e devido ao forte apelo de seu presidente Herbert de Souza, o Betinho, solicitando às empresas para iniciarem sua publicação regular, os índices de relatórios sociais anuais têm aumentado consideravelmente.
Quanto ao conceito, Castro Neves apud Melo Neto e Froes (1999, p.131-132) considera que “o balanço social é o conjunto de despesas feitas pela empresa, exigidas ou não por lei, que afetam positivamente a qualidade de vida das pessoas ligadas às empresas e à sociedade em geral”. Portanto, essas ações e as despesas efetuadas em virtude das mesmas, representam as contribuições da empresa para com seus funcionários, familiares e comunidade, seja através de doações, filantropia, benefícios, projetos sociais, culturais e ambientais.
De acordo com o IBASE (2003) o balanço social é um demonstrativo de resultados publicado anualmente pela empresa que reúne informações sobre projetos, benefícios e ações sociais em prol dos empregados, investidores, analistas de mercado, acionistas e à comunidade. É também um instrumento estratégico para avaliar e multiplicar o exercício da responsabilidade social corporativa.
Através do balanço social a empresa demonstra o que faz por seus profissionais, dependentes, colaboradores e comunidade, atuando de forma transparente e buscando melhorar a qualidade de vida para todos. Desta forma, sua principal função é tornar pública a responsabilidade social empresarial, construindo maiores vínculos entre a empresa, a sociedade e o meio ambiente. O balanço social deve ser considerado uma poderosa ferramenta que, quando construída por múltiplos profissionais, tem a capacidade de explicitar e medir a preocupação da empresa com as pessoas e a vida no planeta.
O balanço social é considerado ainda um instrumento de avaliação para o mercado financeiro, pois os analistas de mercado, investidores e órgãos de financiamento (como BNDES, BID e IFC) já incluem o balanço social na lista dos documentos necessários para se conhecer e avaliar os riscos e as projeções de uma empresa (IBASE, 2003).
A implementação do Balanço Social ocorre através da aplicação de um roteiro estruturado, com indicadores quantitativos e qualitativos que visam apresentar a atuação da empresa em relação aos mesmos. Este roteiro está contido nos modelos desenvolvidos por entidades como o IBASE e o Instituto Ethos (centros de referência nacional no âmbito da gestão social). De acordo com o IBASE (2003), seu modelo procura seguir padrões únicos e simplificados, onde se entende que a simplicidade seja a garantia do envolvimento de maior número de corporações, de qualquer porte e segmento. Se a forma de apresentação das informações não
seguir um padrão mínimo, torna-se difícil uma avaliação adequada da função social da empresa ao longo dos anos. A predominância de dados que possam ser expressos em valores financeiros ou de forma quantitativa é fundamental para enriquecer este tipo de demonstrativo.
Buscando estimular ainda mais a idéia da publicação do balanço social, em 1998, o IBASE lançou o Selo Balanço Social IBASE-Betinho. O selo é conferido anualmente a todas as empresas que publicam o balanço social no modelo sugerido pelo IBASE. Através deste Selo as empresas podem mostrar - em seus anúncios, embalagens, balanço social, sites e campanhas publicitárias - que investem em educação, saúde, cultura, esportes e meio ambiente, demonstrando que a empresa já deu o primeiro passo para tornar-se uma verdadeira empresa-cidadã, comprometida com a qualidade de vida dos funcionários, da comunidade e do meio ambiente.
Não é objetivo deste estudo descrever quaisquer roteiros ou método de implementação do Balanço Social, mas sim caracteriza-lo como uma importante ferramenta para as organizações que tenham o interesse de implementar o conceito de responsabilidade social em seu modelo de gestão. Na seqüência, são destacadas algumas entidades que promovem a disseminação de conceitos e da prática da responsabilidade social.