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2.3 O Contexto das Universidades

2.3.3 Responsabilidade Social das Universidades

Para Melo Neto e Froes (2001) o problema social é determinado pelo estado de carência de serviços sociais básicos que afetam determinado grupo ou classe populacional, estabelecido em uma área geográfica específica e com perfil sócio-econômico e cultural bem definido. Quando existe a ocorrência deste problema, ocorre um déficit social, o que significa a falta ou insuficiência de serviços básicos para maior qualidade de vida de uma determinada comunidade.

Os autores consideram como maior problema social, a desigualdade de renda. Eles citam um estudo divulgado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID – que concluiu que a América Latina tem a pior distribuição de renda do mundo. Neste contexto o Brasil tem destaque – os 10% mais ricos respondem por 50% da renda, e os 50% mais pobres detêm menos de 12%. Segundo especialistas do BID, este problema reflete em desequilíbrios educacionais, na remuneração, nos índices de emprego e desemprego e na expectativa de vida.

Melo Neto e Froes (2001) consideram alguns problemas sociais principais em uma sociedade, Entre esses se destacam o analfabetismo, a baixa qualidade da educação básica e a baixa qualidade no ensino universitário. Esta, foi constatada através dos ‘provões’, mesmo em universidades públicas que eram tradicionalmente consideradas as melhores do país. Os problemas vão desde a baixa qualidade no ensino, baixa produtividade, altos custos e instalações precárias, o que reflete no rendimento do aluno.

Segundo Mendes apud Melo Neto e Froes (2001, p.37) dos 10 cursos avaliados, só em 2 a nota média dos alunos atingiu 4 ou mais numa escala de 0 a 10 (odontologia com 5,9 e

veterinária com 4). Nos demais (administração, direito, engenharia civil, engenharia mecânica, engenharia elétrica, jornalismo, letras e matemática) as médias foram de 2,1 a 3,8.

A responsabilidade social das universidades pode, portanto estar ligada e condicionada a busca de soluções para os problemas sociais, políticos e econômicos já listados anteriormente. Através da utilização de seus recursos, pessoas e produção de conhecimento, bem como no cumprimento de sua função maior, a formação de profissionais com qualidade de ensino, proporcionando aos mesmos uma visão crítica e o desenvolvimento do exercício da cidadania.

No entendimento da responsabilidade social em universidades, o principal desafio que a mesma terá diante de si, não são apenas as grandes mudanças provocadas pelo avanço tecnológico, mas no uso que se fará dele. Segundo Drucker (1993) vários aspectos devem ser analisados quanto ao papel das universidades.

O autor afirma que a escola de que se necessita, deve buscar prover uma educação universal de ordem superior – muito além do que a educação significa hoje. Deve também existir uma preocupação constante em relação ao estado motivacional do acadêmico. Para que isto seja possível, o sistema das organizações universitárias deve ser cada vez mais aberto e flexível, propiciando um canal de duas vias entre universidade e sociedade, comunicando o conhecimento e permitindo que ele seja utilizado em favor do bem comum da sociedade. O ensino não pode mais ser monopólio das escolas.

Ainda sobre esses aspectos do novo papel da universidade Soria apud Lampert (1999) afirma que todo processo de mudança é lento e gera resistências paradoxais. O autor considera que a universidade do novo século deve possuir estruturas ágeis e flexíveis, antecipando-se a mudanças, integrando vertical e horizontalmente as funções de ensino, pesquisa e serviços comunitários.

A universidade deve ter uma organização curricular que enfatize a pesquisa, a resolução de problemas comuns, o pensamento crítico, possibilitando a internalização dos currículos. Deve ainda possuir uma liderança institucional, individual e coletiva, de forma inovadora, visionária, antecipando-se às novas demandas sociais.

O autor destaca ainda a ênfase na pluralidade de instituições com programas diferenciados; na pesquisa científica e tecnológica voltada à empresa produtiva; educação para todas as idades; a possibilidade da presença dos melhores professores para vastas e distantes audiências; processo decisório baseado em informações qualitativas e quantitativas confiáveis; flexibilização no financiamento do ensino, competitividade com foco na qualidade

da educação; aprendizagem de três línguas básicas como parte essencial da educação (materna, estrangeira e da computação).

Além das funções clássicas que envolvem o ensino, pesquisa e extensão, a universidade do século XXI deverá cumprir, especialmente nos países em desenvolvimento, um papel de ‘agente de ruptura’ do processo de reprodução social das classes dominantes, promovendo a reflexão crítica sobre a sociedade, em busca da transformação sócio-econômica e cultural. Caberia à universidade facilitar a mobilidade social e o acesso de diversos grupos sociais à informação e ao conhecimento. (GONÇALVES apud SILVA, 1991)

A questão da reprodução social das classes dominantes envolve o grande papel da universidade no sentido de formar líderes comprometidos e engajados, na disseminação e aplicação dos conceitos de responsabilidade social à gestão das organizações de modo geral. Este poder é muito maior nas universidades do que em qualquer outra organização que busque disseminar este conhecimento.

Segundo Fávero (1989) a crise da universidade tem relação com o colapso de instituições existentes na sociedade civil, que já não satisfazem e não atendem aos interesses da velha ordem e, ao mesmo tempo, ainda não assumiram posturas que satisfaçam as necessidades emergentes. Não há dúvida que os interessados em resgatar ou rever o papel da universidade no país têm diante de si um desafio: na luta pela melhoria quantitativa e qualitativa do ensino superior, o essencial é a universidade pensar na (re)construção da sociedade.

Para Lampert (1999) a universidade do terceiro milênio não pode mais assumir o papel de conformismo, reproduzindo estruturas já existentes. Precisa encontrar alternativas para uma nova ordem social, buscando o bem comum. Terá a missão de definir uma proposta política voltada às aspirações, expectativas, possibilidades e necessidades da população, além de tentar reduzir de forma significativa a influência do imperialismo americano.

Neste aspecto, existe uma forte relação entre a nova universidade e os conceitos descritos por Srour (1998) sobre as transformações do capitalismo, modo de consumo, enfim, uma nova ordem social e econômica que necessita redefinir outros padrões de relacionamentos entre poder e sociedade. E a universidade como o núcleo da ciência e da pesquisa na busca destas soluções, deve cada vez mais firmar este compromisso com a comunidade, apresentando propostas que visem reduzir os problemas sociais.

A preocupação da universidade deve estar ligada com a produção de “um saber voltado à verdade, à universidade, à cientificidade, à justiça, à igualdade, à beleza, à preservação, à criação, à criticidade, à construção, à autonomia, mas sobretudo, à transformação social” (LAMPERT apud LAMPERT, 1999, p.19).

Luckesi et al. (1998) consideram que a construção de uma universidade deve ser constituída de pessoas capazes de refletir e aberta à reflexão, ao intercâmbio das idéias, à participação em iniciativas construtivas. Nestes termos, todo o corpo universitário, professores, alunos, administração, precisam comprometer-se com a reflexão, criando-a, provocando-a, permitindo-a e lutando sempre para conquistar espaços de liberdade que assegurem a reflexão. Sem um mínimo de clima de liberdade, é impossível uma universidade centro de reflexão crítica. Deve-se pretender uma universidade onde se torne possível trabalhar e que reflita nossa realidade histórico-geográfica nos seus níveis social, político, econômico e cultural.

Uma universidade deve estabelecer uma consciência crítica da sociedade, ou seja, a responsabilidade por indagar, questionar, investigar, debater, discernir, propor caminhos de soluções, avaliar, na medida em que exercita as funções de criação, conservação e transmissão da cultura. A universidade deve ser um contínuo fazer-se.

A proposta apresentada por Lampert (1999, p.58) para a universidade do século XXI, é que ela apresente um projeto ambicioso e realístico “de superação das dificuldades políticas, econômicas, sociais, ecológicas, culturais e educacionais”. Para tanto ela deve incluir neste projeto investimentos em pesquisa; formação, aperfeiçoamento e atualização dos recursos humanos para uma nova realidade; a democratização do ensino; engajamento pelo meio ambiente; busca pela consciência da necessidade de distribuição eqüitativa da renda para amenizar os problemas sociais nos países da América Latina; gestação de projetos destinados à realização de ações concretas para minimizar os graves problemas sociais e ambientais. Lampert (1999) reafirma sua posição através da afirmação descrita a seguir.

Enfim, a universidade do século XXI terá que ser humilde, capaz de aprender com as outras instituições governamentais e/ou não governamentais. Terá que assumir o papel epistemológico da dúvida e dar razão às formas alternativas. Terá que encontrar alternativas para melhorar, sem ferir a natureza, a qualidade de vida do homem latino, adaptando-se aos novos modos de sentir, pensar e agir. Portanto, a universidade deverá ser uma janela que se abre para o futuro. Espera-se que durante o terceiro milênio a universidade do século XXI tenha um impulso qualitativo,

firmando-se no cenário nacional e internacional, independentemente das transformações que venham a ocorrer no mundo (LAMPERT, 1999, p.59).

Ainda quanto a esta nova universidade, Freire (2000) fala da importância da prática educativo-crítica, propiciando condições para que o educando em suas relações dentro e fora da universidade se assuma como ser social e histórico, um ser pensante, transformador, comunicador, realizador. A solidariedade social e política necessária para a construção de uma sociedade mais justa, mais livre, só podem acontecer a partir de uma formação mais ampla e democrática.

No sentido de identificar e orientar os caminhos desta nova universidade, ou seja, aquela universidade capaz de refletir os anseios de uma nova sociedade, faz-se necessário propiciar a ela a autonomia e liberdade necessárias ao desenvolvimento do processo de ensino e pesquisa. No entanto, o controle sobre o limite de poder dessa autonomia deve ser estabelecido por um modelo de avaliação que envolva e comunique todos os stakeholders, comunicando os resultados de suas ações de forma transparente e utilizando esses mesmos resultados para sua orientação estratégica no mercado. Desta forma a instituição estaria buscando responder aos anseios e necessidades das partes interessadas, demonstrando de forma ética e transparente o uso dos recursos destinados pela sociedade, apresentando-se como uma organização de transformação social sempre com vistas ao bem comum.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Toda pesquisa deve apresentar uma metodologia de estudo que efetivamente possa comprovar a sua cientificidade. Para Gil (1999), o conhecimento só pode ser considerado científico, quando for possível identificar as operações mentais e técnicas que permitiram a sua conclusão. Para tanto, o presente capítulo apresenta o conjunto de procedimentos metodológicos utilizados para alcançar os propósitos desta pesquisa.