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2.3 O Contexto das Universidades

2.3.1 Origem e Conceitos

Muito embora já existissem desde a época colonial instituições de ensino superior, através dos cursos de artes (ou filosofia e teologia) da Companhia de Jesus, que monopolizaram o ensino na colônia portuguesa até meados do século XVIII, antes do início do século XX nenhuma universidade foi criada no Brasil (CUNHA, 1989).

Ao contrário da colonização espanhola que já tinha uma tradição acadêmica e dela se utilizava para disseminar sua cultura sobre as novas colônias (como por exemplo, a implantação de universidades na Argentina), os portugueses tinham um pequeno quadro universitário e a criação de uma universidade no Brasil, empobreceria àquelas da metrópole.

Conforme Cunha (1989) o marco de referência para a evolução do ensino superior no Brasil baseou-se na existência de instituições de ensino superior (faculdades) isoladas. Foi a partir delas que se definiu o padrão de formação das universidades, ou seja, para formar uma universidade, é preciso reunir algumas faculdades em áreas de conhecimento distinto. A primeira universidade brasileira foi criada na data simbólica de 7 de setembro de 1920, na então capital brasileira, através da reunião da Escola Politécnica, da Faculdade de Medicina e de Direito do Rio de Janeiro. A nomeação do reitor era determinada pelo Presidente da República.

A palavra autonomia surgiu no cenário do ensino superior no Brasil em 1911, em meio a um movimento de controle da expansão do ingresso irrestrito dos concluintes de escolas secundárias oficiais às faculdades. O grande objetivo era suprimir os privilégios das instituições oficiais, dando a elas autonomia do ponto de vista didático e administrativo, onde as mesmas se tornavam também responsáveis pelo controle financeiro dentro de um orçamento pré-estabelecido e aprovado pelo governo.

No entanto, os resultados quanto à política educacional de contenção foram frustrados. O número de ingressantes diminuiu devido aos exames de admissão, mas deu abertura à multiplicação de faculdades privadas “dispostas a oferecer todas as facilidades propiciadas pela autonomia para atraí-los” (CUNHA, 1989, p. 12).

Como conseqüência, o termo autonomia foi retirado da legislação em 1915, perdendo entre outras atribuições, a de eleger o diretor da instituição. Foram necessárias três décadas de espera até que, por iniciativa dos universitários, tivesse início a reforma universitária. Para o autor anteriormente citado, alguns marcos da história da universidade no Brasil podem ser destacados, conforme descrição a seguir:

• Década de 1930: concentração do poder do Estado; Criação do Ministério da Educação e da Saúde Pública; processo político definindo barreiras às influências hispano-americanas em favor da democracia liberal e ao movimento revolucionário; decreto do Estatuto das Universidades Brasileiras (1931), foi a primeira diretriz geral para o ensino superior no Brasil (definia critérios gerais para a organização das

universidades e consagrava o princípio da organização das universidades a partir de faculdades isoladas);

• Em 1937: as vésperas do golpe militar, instituindo um regime autoritário, o governo reformou o Estatuto através de outro decreto, simbolicamente elevando a importância e dignidade da universidade federal, denominando-a Universidade do Brasil. No entanto, a universidade foi diminuída, restringindo ainda mais sua liberdade. A escolha de dirigentes deixou de ser feita por cooptação, como estabelecia o Estatuto de 1931, passando a serem designados pelo Presidente da República ou governadores, no caso das universidades estaduais. Esta escolha era feita entre os professores catedráticos da instituição; neste momento também, determinou-se que professores e acadêmicos não poderiam tomar oficialmente, dentro da universidade, nenhuma atitude de caráter político-partidário;

• Entre 1937-45: o controle do governo não se restringiu às questões normativas e legais das universidades, mas também na imposição de candidatos do governo nos concursos para professores catedráticos e na privação de alguns professores aos seus cargos. Estes fatos contribuíram para o bloqueio do desenvolvimento de uma promissora experiência universitária e induziu o nascimento da primeira universidade privada no Brasil;

• Em 1945: a partir da deposição de Vargas, com a ascensão dos movimentos pela liberdade democrática no Brasil, os controles do governo sobre as universidades começam a se dissipar; ainda durante o governo provisório, a Universidade do Brasil restabeleceu a autonomia administrativa, financeira, didática e disciplinar, como determinava o Estatuto de 1931. O reitor passava a ser escolhido novamente pelo mecanismo de cooptação, mediante listas tríplices, através de indicação do conselho universitário;

• A partir de 1946: amplia-se a discussão sobre a autonomia universitária; Definição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que embora, teoricamente sendo um instrumento de estabelecimento da autonomia universitária, a restringiu ao definir atribuições ao Conselho federal de Educação, do qual fazem parte pessoas nomeadas pelo Presidente da República;

• Década de 1950-60: aumenta a participação de acadêmicos brasileiros em congressos internacionais, o que contribui para o movimento da reforma universitária; realização

do I Seminário Latino-americano de Reforma e Democratização do Ensino (Salvador, 1960) e três seminários nacionais de reforma universitária consecutivos (1961, 1962 e 1963), realizados na Bahia e Paraná. Os estudantes demonstravam desconfiança quanto ao processo de autonomia, ao mesmo tempo em que reivindicavam a eleição dos dirigentes através do voto e a representação estudantil nos conselhos e congregações na proporção de um terço dos membros;

• Em 1964: com o Golpe Militar a universidade se tornou ainda mais vulnerável ao poder do Estado; ocorreram prisões de professores e estudantes, apreensão de livros, destituição de dirigentes, demissão e aposentadorias de professores, expulsão de acadêmicos, destituição de conselhos e congregações acadêmicas, demissões voluntárias coletivas de docentes (Universidade de Brasília-1965); estabeleceu-se o controle político e ideológico das entidades e dos estudantes, através da ameaça de processo penal, demissão e expulsão;

• Em 1968: baixada a lei no. 55440, Lei da Reforma Universitária, estabelecia autonomia didático-científica, disciplinar, administrativa e financeira, porém com dispositivos que a limitavam e possibilitavam a intervenção governamental;

• A partir de 1970: desmobilização do movimento estudantil; nascimento de um novo movimento docente, baseado em associações de cada universidade e reunidas na Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior - ANDES, promovendo discussões sobre questões salariais, a qualidade do ensino e a inserção das universidades no contexto social; tem destaque novamente as discussões sobre a autonomia das universidades e principalmente à eleição de dirigentes pelo voto direto. O termo autonomia é definido como a antítese às imposições da ditadura militar com o controle arbitrário sobre a universidade. No entanto, a restrição à autonomia pode ocorrer pelo excesso de poder que ela pode proporcionar, estabelecendo uma concepção corporativista e antidemocrática, resguardando “a universidade do controle da sociedade que a mantém e se beneficia (ou não) de sua atuação própria” (CUNHA, 1989, p.29).

Neste sentido, sobre a autonomia de que se beneficiam as universidades, deve existir mecanismos ou ferramentas que possibilitem a avaliação constante das mesmas, possibilitando de certa forma, o controle por parte de seus stakeholders sobre o uso dos recursos que a universidade dispõe da sociedade. Desta forma, a participação e o envolvimento dos stakeholders neste processo de avaliação é essencial, bem como a

reavaliação sobre os instrumentos utilizados para tal.

Portanto, o estabelecimento de indicadores para a avaliação da responsabilidade social em universidades pode contribuir para a melhoria ou complementação dos instrumentos de avaliação institucional. Esta avaliação pode revelar dados extremamente importantes para a gestão das universidades e para o planejamento estratégico das mesmas, além de revelar à sociedade a efetiva participação da universidade no desenvolvimento e promoção do bem comum.

De acordo com Meyer Jr. (1988) o planejamento estratégico tem se caracterizado uma importante ferramenta de gestão para universidades, auxiliando o administrador universitário a identificar e solucionar problemas críticos inerentes ao seu segmento. O autor reflete também sobre a necessidade das organizações universitárias utilizarem os modelos e experiências de sucesso na gestão empresarial, adequando-os à realidade da universidade.

A elaboração de indicadores para a avaliação da responsabilidade social com base em modelos aplicados às empresas pretende possibilitar o alcance de resultados que possam orientar as ações futuras da instituição, no sentido de identificar os seus pontos fortes e fracos em relação às suas ações e frente aos seus stakeholders. Desta forma, os resultados da aplicação do instrumento possibilitam à universidade desenvolver seu planejamento estratégico de forma proativa, percebendo essa nova consciência cidadã, que aprova ou reprova, que mantém ou extingue as organizações do futuro. E, com certeza as universidades, mesmo com suas características peculiares, também fazem parte dessas organizações.

Para Tachizawa e Andrade (1999) os stakeholders das instituições de ensino superior, podem ser entendidos como sendo aqueles para os quais a instituição de ensino existe, ou ainda descritos da seguinte forma: clientes internos (funcionários), fornecedores (docentes), clientes ou clientes intermediários (acadêmicos), clientes finais (mercado consumidor – empresas e sociedade), e para complementar deve-se acrescentar a estes os concorrentes (outras instituições de ensino superior), os acionistas (a sociedade), parceiros (empresas que dão suporte material) e a comunidade onde a instituição está inserida.

Os autores consideram que, baseadas em um modelo de gestão sistêmico, as instituições de ensino superior devem agir de forma estratégica, planejando e orientando suas ações a partir dos anseios de todas as partes interessadas, ou seja, clientes, professores, funcionários, proprietários /acionistas, fornecedores e parceiros e a sociedade /comunidade. O planejamento estratégico em universidades depende da utilização de um conjunto eficaz de indicadores de

qualidade e desempenho que comuniquem os requisitos, monitorem desempenho real, controlem resultados e os utilizem para sua melhoria constante.

O item a seguir, procura descrever o conceito de planejamento estratégico, seus procedimentos, sua aplicabilidade e a importância de sua utilização na identificação de problemas a serem solucionados de maneira proativa, com ênfase nas universidades.