CAPÍTULO III – QUILOMBO CARRAPATOS DA TABATINGA: 300 ANOS DE
2.7 A Festa de Nossa Senhora do Rosário em Bom Despacho e suas Cortes do Reinado
A Festa de Nossa Senhora do Rosário é realizada há mais de 150 anos em Bom Despacho. A confraternização reúne cerca de 21 congos locais. Como é manifestação religiosa e cultural, tem ritos católicos e cânticos folclóricos dos seus freqüentadores, por meio das congadas. É chamado em Bom Despacho de “Cortes” (pronuncia-se “Córtes”, mas faz referência as cortes da monarquia).49 E os participantes do Congado são chamados de reinadeiros.
A festa tem início geralmente nos primeiros dias de agosto, por volta do dia 05. São nove dias de preparação com confissões e missas, com a participação dos reinadeiros e sociedade local. Após a novena segue os 4 dias da festa em devoção a Nossa Senhora do Rosário, e o encerramento se dá por volta do dia 17 de agosto com o recolhimento das bandeiras e descida dos mastros.50
É uma festa católica organizada pelo padre da paróquia de Nossa Senhora do Rosário, onde as congadas são consideradas como parte do folclore regional, embora não esteja prevista nos cânones da Igreja Católica Romana. Mas como vimos, os negros vindos da África que pertenciam as irmandades do Rosário, trazem estas manifestações do reinado do Congo para o Brasil, e em Minas Gerais na cidade de Bom Despacho tem representantes das comunidades quilombolas que participam com suas cortes na festa de Nossa Senhora do Rosário em Bom Despacho51.
As outras cortes que desfilam na festa, são compostas por sertanejos, pequenos agricultores e também trabalhadores do campo. Levam suas bandeiras com seus símbolos que
49Informação fornecida pela Associação dos Reinadeiros de Bom Despacho em 16 de Junho de 2015.
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Informação fornecida pela Associação dos Reinadeiros de Bom Despacho em 16 de Junho de 2015. 51
os representam. Eles utilizam além dos tambores, instrumentos de cordas e sanfonas, e seus cantos são de agradecimentos e devoção a Nossa Senhora do Rosário. Diferente das cortes Moçambique que representam os quilombolas, geralmente utilizam instrumentos de percussão, principalmente os tambores, e os cantos entoados reverenciam os antepassados africanos, e sempre com referência ao sofrimento da escravidão e a desigualdade social que até nos dias de hoje perduram52.
Nestes dias da Festa de Nossa Senhora do Rosário que duram em média nove dias de preparação e quatro dias de cortejos das cortes, é intensa a participação da população local. Saem às ruas para prestigiarem as cortes, doam esmolas para as cortes em forma de dinheiro e mantimentos quando eles passam, uma tradição forte da festa. Estas esmolas são entregues a paróquia de Nossa Senhora do Rosário.
Por se tratar da maior festa religiosa da cidade, e com intenso fluxo turístico, a Câmara de Vereadores de Bom Despacho aprovou em 2014, o Projeto de Lei 51/2014, de autoria do Executivo que concede subvenção aos cortes de reinado e à Associação dos Reinadeiros de Bom Despacho. O valor do repasse é de R$ 25 mil. A proposta, inicialmente, não iria para votação.
Porém, durante a sessão legislativa os vereadores interromperam a reunião e decidiram inserir o texto. A proposição foi aprovada, em caráter de urgência, por unanimidade53.
Para o presidente da Câmara, Maurício do Ima, a aprovação do texto significa a redução dos custos para a Associação. “É importante esta aprovação porque irá baratear o custo dos devotos de Nossa Senhora do Rosário com os gastos da festa”, afirmou. O valor distribuído para a Associação será dividido da seguinte maneira: R$ 21 mil para os cortes (R$ 1 mil para cada um deles) e R$ 4 mil para a Associação.54
Devido a importância da festa e a participação dos quilombolas da região com suas Cortes, a autora da pesquisa observou a Festa de Nossa Senhora do Rosário que foi realizada do dia 12 a 17 de agosto de 2015 em Bom Despacho, a partir do término da novena.
Após o término da novena houve a visita dos Cortes aos festeiros no dia 12 de Agosto. Os Cortes visitam os moradores de Bom Despacho em suas casas, onde são recebidos com comes e bebes, e também é neste dia que pedem as esmolas, que são em dinheiro, para levarem à paróquia de Nossa Senhora do Rosário, os Cortes convidam os moradores para a
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Depoimento dado por D. Tiana em 05 de maio de 2016. 53
Informação disponível no site oficial da Câmara de Vereadores de Bom Despacho. <http://www.camarabd.mg.gov.br/site/uploads/legislacao/00000000856.pdf>.
festa. É grande a participação da sociedade local que abre suas portas, alguns já ficam de portas abertas, para receberem a visita dos Cortes55.
No dia seguinte da visita aos festeiros, dia 13 de agosto, às seis horas da manhã teve a Alvorada na Capela Cruz do Monte, com a presença da imagem de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Entoam-se muitos cantos em louvor a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. Muito bonito o rito ao amanhecer56. Após a Alvorada, no mesmo dia, houve a missa de abertura à festa, às oito horas da manhã na Igreja Nossa Senhora do Rosário realizada pelo atual padre da paróquia Cristiano Caetano Leal.
Logo após a missa de abertura teve o levantamento dos mastros das Cortes que participaram da festa. Foi realizada uma manifestação cultural religiosa de cada Corte, conforme sua religião. Observou-se que houveram Cortes, por exemplo, dos quilombolas que cantaram em suas línguas nativas e dançaram em volto do Mastro com gestos que lembram os movimentos das danças de matrizes africanas. Este ritual foi realizado na Praça do Rosário.57
No dia posterior, 14 de agosto houve a recitação do Rosário na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário. Uma missa solene com a participação das Cortes e da sociedade local. No dia 15 de agosto no sábado, saíram as Cortes pelas ruas de Bom Despacho. Os cortejos saíram tocando seus instrumentos e entoando seus cânticos de louvor a Nossa Senhora do Rosário. E foram em direção a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário. A noite foi celebrada a Missa de Ações de Graças com a participação dos Reis e Rainhas de Bandeiras e da Corte de Nossa Senhora.
No domingo dia 16 de agosto foi realizado pelo padre Cristiano Caetano Leal pela manhã a Missa Conga, que tem como início de ritual a porta da Igreja fechada e os Cortes batem na porta para o padre abrir, e entoam cantos de lamento pedindo ao padre que abra. Foi um momento de muita emoção, e assim que as portas são abertas os Cortes entram com seus tambores e cantos e entoam louvores a Nossa Senhora do Rosário. Assim que todos entram o padre dá início a Missa Conga. No domingo a tarde houve o cortejo das Cortes pelas ruas de Bom Despacho até a Praça do Rosário, para realizar as descidas dos Mastros. Mais uma vez cada Corte fez seu ritual de danças e cantos em volta dos seus Mastros. Após o término do ritual desceram os mastros, e assim foi encerrada a Festa de Nossa Senhora do Rosário em
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Observação de campo realizada pela autora nos dias 12 de agosto de 2015 na Festa de Nossa Senhora do Rosário na cidade de Bom Despacho.
56 Observação de campo realizada pela autora no dia 13 de agosto de 2015 na Festa de Nossa Senhora do Rosário
na cidade de Bom Despacho.
57 Observação de campo realizada pela autora no dia 13 de agosto de 2015 na Festa de Nossa Senhora do Rosário
201558.
Foi uma das melhores manifestações populares presenciadas pela autora. Houve uma intensa troca comunicante entre a sociedade local, moradores das regiões próximas com as comunidades representadas pelos Cortes. Foram identificados elementos de significações e re (significações) da pluralidade de culturas como as: sertanejas, africanas e indígenas. Todos puderam comunicar suas raízes, bem como seus lamentos em forma de canto e dança, sempre homenageando seus ancestrais.
Porém desde 2011 a corte dos quilombolas Carrapatos da Tabatinga não participam mais com sua Corte e a guarda capitaneada por Dona Tiana. O motivo foi uma divergência sobre a organização da festa gerenciada pela Paróquia de Nossa Senhora do Rosário. Dona Tiana teve uma discussão a respeito das esmolas arrecadadas durante a festa. Segunda ela59, o Padre Cristiano Caetano Leal da paróquia queria a doação em dinheiro e que fosse prestado contas sobre a arrecadação. Dona Tiana queria realizar a doação em alimentos e o padre não concordou, pois existe a Associação do Reinadeiros de Bom Despacho. Todas as cortes que participam da Festa de Nossa Senhora do Rosário são inscritas na associação, e todas por regra entregam esmolas em dinheiro na Paróquia.
O padre Cristiano Caetano Leal, responsável pela organização da festa de Nossa Senhora do Rosário desde 2011, jamais proibiu a Guarda Moçambique de São Sebastião capitaneada por Dona Tiana e seus membros, os quilombolas Carrapatos da Tabatinga, de participarem da festa. Foi Dona Tiana que decidiu não participar mais, por não querer se filiar a Associação dos Reinadeiros, e também entregar esmolas em dinheiro, pois queria entregar em alimentos.
Dona Tiana hoje participa da festa de forma independente, faz o cortejo com idas a Santa Casa, e a casa paroquial de Nossa Senhora do Bom Despacho, onde tem o padre “Mundinho”60
como carinhosamente o chama. Dona Tiana tem imenso apreço por ele e diz “ele é um Homem de Deus”, ela realiza seus cantos de agradecimento a Nossa Senhora do Rosário e volta para sua comunidade61.
A Secretária da Cultura em exercício62 reconhece que a falta da participação da comunidade quilombola Carrapatos da Tabatinga na festa de Nossa Senhora do Rosário faz
58Observação de campo realizada pela autora no dia 16 de agosto de 2015 na Festa de Nossa Senhora do Rosário
na cidade de Bom Despacho.
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Entrevista realizada em 04 de maio de 2016 na residência de D. Tiana na cidade de Bom Despacho.
60 Padre José Raimundo da Costa da Paróquia de Nossa Senhora do Bom Despacho. 61 Depoimento dado a autora em 04 de maio de 2016.
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Entrevista realizada em 04 de maio de 2016 na sede da Secretária da Cultura de Bom despacho com a Sra. Tânia Maria Teixeira Nakamura e seu assistente Felipe.
muita falta. Por meio de seus funcionários, houveram algumas tentativas de aproximação entre Dona Tiana e o padre Cristiano Caetano Leal da paróquia de Nossa Senhora do Rosário, mas não alcançaram muito êxito. Este ano 2016, Dona Tiana prometeu ver se ela voltará a participar, mas confidenciou que provavelmente não. Concordo com a secretária de cultura, Sra. Tânia Maria Teixeira Nakamura, é uma pena não ter a participação da corte da Guarda Moçambique de São Sebastião, capitaneada por Dona Tiana, a mais velha Dandara da comunidade quilombolas Carrapatos da Tabatinga.
Poder observar a Festa realizada em agosto de 2015 foi uma oportunidade única, pois a Festa de Nossa Senhora do Rosário proporciona as trocas comunicantes dos quilombolas com a sociedade local. Eles por meio das guardas desfilam como uma comunidade negra forte, presente no exercício da sua cidadania, entoam seus cantos com suas vestes e indumentárias com significados de resistência, homenageiam seus ancestrais africanos e agradecem a Nossa Senhora do Rosário sua libertadora. Infelizmente os quilombolas Carrapatos da Tabatinga não participam desde 2011, mas participam da festa de São Benedito realizada na cidade e como cita Dona Tiana “o Santo dos negros” é a festa também, segundo ela.
2.8 A Festa de São Benedito: a expressão comunicante dos quilombolas da Tabatinga
A festa de São Benedito ocorre no mês de abril em Bom Despacho. É uma festa católica, onde há participação das Guardas congadeira. Foi realizada uma observação na festa que teve início no dia 27 de março de 2016 e término em 10 de abril. Constatou-se que o rito da celebração é muito semelhante ao da Festa de nossa Senhora do Rosário. O que difere é a organização que é realizada pela paróquia de Nossa Senhora de Bom Despacho, que no ano de 2016 foi conduzida pelo padre Raimundo da Costa.
No dia 27 de abril a festa inicia com a saída das cortes com suas bandeiras e mastros em procissão pela cidade de Bom Despacho em direção a Capela de São Benedito. Há o levantamento dos mastros das cortes participantes da Festa. Observou-se a participação da Guarda Moçambique de São Sebastião, da comunidade dos quilombolas Carrapatos da Tabatinga, objeto deste estudo. A forma de celebração em torno do mastro teve todo um ritual de matrizes africanas, com cantos e danças até seu completo levantamento, após o levantamento dos mastros foi realizada a missa pelo padre José Raimundo da Costa, mais conhecido como padre Mundinho, abençoando a festa e a todos os participantes. Ao término da missa todos seguem em procissão com a imagem de São Benedito, acompanhada de todos os cortes, pelas ruas de Bom Despacho. O santo percorre vários locais abençoando as pessoas,
e todos vão em direção a Igreja Matriz de Bom Despacho, onde o São Benedito permanecerá até o último dia da festa e depois retorna para a Capela de São Benedito.
Ao longo da semana acontecem várias missas de devoção a São Benedito na igreja matriz de Bom despacho, devido a presença do Santo no local. Vários devotos depositam flores e pedidos para São Benedito.
No decorrer da semana há vários eventos e apresentações culturais na praça da matriz de Bom Despacho. O grupo de dança da comunidade quilombolas Carrapatos da Tabatinga se apresentou com danças de matrizes africanas. Tinha também na praça várias barracas com comidas típicas da região. A sociedade de Bom Despacho e também de regiões próximas participam com alegria.
No dia 10 de abril os cortes seguem em cortejo pelas ruas de Bom Despacho até a igreja matriz para participação da Missa Conga. Houve um ritual da Guarda Moçambique de São Sebastião em bater na porta da igreja pedindo por meio de cantos e tambores para que o padre abrisse a porta para eles entrarem. Como na festa de Nossa Senhora do Rosário, foi um momento emocionante ouvir as palavras de lamento e de força dos negros, e também o momento que eles entram e dançam no ritmo das batucadas das matrizes africanas, emocionam a todos que assistem. Após a apresentação eles sentam e assistem a missa ministrada pelo padre. Ao término da missa teve a procissão onde as cortes acompanham a imagem de São Benedito que deixa a igreja matriz de Bom Despacho, e retorna para a Capela de São Benedito.
No final da tarde teve a descida dos mastros que também contou com o ritual com cantos e danças e várias representações, que na verdade a comunidade disse que eram agradecimentos e pedidos para São Benedito.
Na festa de São Bendito foi constatado que a Guarda Moçambique de São Sebastião capitaneada por Dona Tiana desfilou por Bom Despacho comunicando sua identidade quilombola e reafirmando a força do negro na história da cidade, com os sons de seus tambores ecoando pelas ruas, entoando os cantos em louvor a São Benedito, relembrando o sofrimento e as vitórias dos negros, bem como homenageando os ancestrais africanos. Uma festa rica em seus significados e (re) significados. Uma história comunicada pela comunidade quilombola, cantada e representada por eles, para a sociedade local.
Perguntei63 a Dona Tiana quem era São Benedito para ela. Com seu olhar penetrante, que atinge até a alma da gente, bradou: “É o santo dos negros, tem todo o poder, um dos
63 Entrevista realizada em 03 de maio 2016 no quintal do terreiro de D.Tiana na cidade de Bom Despacho bairro
orixás das 7 linhas64, o que tudo vê e tudo sabe, humilde era um frei cozinheiro que trabalhava no convento e dava comida aos pobres e necessitados. Um dia pegaram ele fazendo isso e mandaram para a prisão, ihhh sofreu igual a gente na senzala…e acabou morrendo e virou nosso santo, o santo dos negros”65
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Pesquisando sobre São Benedito entendi a devoção dos negros no Brasil por ele. Segue um breve relato sobre o “Santo dos Negros”. Segundo o Padre Aloisio Teixeira de Souza (2014), São Benedito nasceu na Sicília, Itália, em 1526, os pais eram descendentes de escravos vindos da Etiópia, e mais tarde libertos por seus senhores. Sua família era pobre e o Mouro, como era chamado, foi pastor de ovelhas e lavrador.
Aos 18 anos decidiu consagrar-se ao Senhor, mas somente aos 21 anos foi chamado por um monge para viver entre os Irmãos Eremitas de São Francisco de Assis. Professou os votos de pobreza, obediência e castidade. Andava descalço, dormia no chão sem cobertas e fazia muitos outros sacrifícios. Muitas pessoas o procuravam pedindo conselhos, orações e alcançavam muitas curas (SOUZA, 2014, p.08-13). O autor Padre Teixeira de Souza (2014, p. 32) relata que depois de 17 anos, foi obrigado a se mudar para o Convento dos Capuchinhos, onde foi escalado como cozinheiro, permanecendo humilde. Era leigo, analfabeto, mas foi eleito por sua santidade, prudente e sábio.
Sempre que podia, São Benedito apanhava alguns alimentos do convento, metia-os nas dobras do burel e, disfarçadamente, os levava aos necessitados. Conta-se que numa dessas ocasiões, o santo foi surpreendido pelo superior do convento, que perguntou: "Que levas aí, na dobra do teu manto, irmão Benedito?". E o santo respondeu: "Rosas, meu senhor!". São Benedito desdobrou o burel franciscano e, em lugar dos alimentos suspeitados, apresentou aos olhos pasmos do superior uma braçada de rosas (SOUZA, 2014, p. 52).
Amado de Norte a Sul do Brasil, onde o chamam "O Santinho Preto", São Benedito morreu em 4 de abril de 1589 em Palermo, na Itália (SOUZA, 2014, p. 156). O culto de São Benedito, um dos mais populares no Brasil, é associado aos padecimentos do negro brasileiro. No Brasil, o santo é tradicionalmente venerado pelos negros, que relacionam o período de
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Na umbanda uma linha ou vibração, equivale a um grande exército de espíritos que rendem obediência a um "Chefe". Este "Chefe" representa para um Orixá e cabe a ele uma grande missão no espaço. O orixá Iorimá, São Benedito no sincretismo, é a linha dos pretos e pretas velhas, de todas as nações. Também chamada de Linha das Almas é composta dos primeiros espíritos que foram ordenados a combater o mal em todas as suas manifestações. São os Orixás Velhos, verdadeiros magos que velando suas formas cármicas, revestem-se das roupagens de Pretos Velhos ensinando e praticando as verdadeiras "mirongas". Eles são a doutrina, a filosofia, o mestrado da magia, em fundamentos e ensinamentos. Geralmente gostam de trabalhar e consultar sentados, fumando cachimbo, sempre numa ação de fixação e eliminação através de sua fumaça. Disponível em: <http://www.centroespiritaurubatan.com.br/estudos/sete-linhas-de-umbanda.html>
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escravidão e a origem africana do santo com o seu próprio passado de escravidão e suas raízes africanas (SOUZA, 2014, p. 157).
A oração de São Benedito simbolicamente usa a palavra escravidão com dupla interpretação colocando em questionamento raça e cor dos homens, e também a segregação:
São Benedito, filho de escravos, que encontrastes a verdadeira liberdade servindo a Deus e aos irmãos, independente de raça e de cor, livrai-me de toda a escravidão, venha ela dos homens ou dos vícios, e ajudai-me a desalojar de meu coração toda a segregação e a reconhecer todos os homens por meus irmãos. São Benedito, amigo de Deus e dos homens, concedei-me a graça que vos peço do coração. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém. (SOUZA, 2014, p. 163).
Depois da oração fiz várias reflexões. Guardarei talvez para uma outra pesquisa, porque o objetivo central da minha dissertação é a comunicação comunitária realizada pelos quilombolas Carrapatos da Tabatinga.
Observando a força comunicante interpessoal da comunidade Carrapatos da Tabatinga e também como se dava a comunicação com a sociedade local, verifiquei que a dialógica é liderada pela forte figura de Dona Tiana, que sempre diz em suas falas: “todos precisam saber da força do negro, o negro não ajudou fez este lugar, meus antepassados não podiam falar, mas eu posso… nós podemos então tem que falar da luta do sofrimento e da dor”.
Esta comunicação é compartilhada por todos da comunidade, e com a sociedade local de Bom Despacho por meio da participação realizada na Festa de São Benedito,