PARTICIPAÇÃO POPULAR
Nota Introdutória ao Capítulo
O capítulo traz a comunicação como um direito garantido juridicamente, mas faz reflexão sobre além do direito legítimo: o do empoderamento da comunicação como instrumento para ampliação da cidadania. Versa sobre a possibilidade de educar por meio da produção de conteúdos e há uma reflexão sobre o fazer comunicativo que traz como resultado: o exercício da cidadania e o incentivo da construção do pensamento crítico. Reflete sobre a participação popular na comunicação comunitária que pode se dar como: produtores de conteúdos, ouvintes, leitores ou expectadores.
1 Direito a comunicação: o poder de construir pensamentos, plurais e autônomos
Juridicamente a concepção de direito a comunicação versa sobre o direito ao acesso a informação ou como direito à liberdade de informação e de expressão e estão em alguns documentos como: A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, no Artigo 19º, declara que “todo o indivíduo tem direito a liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por quaisquer meios de expressão”.10
A Convenção Americana de Direitos Humanos, de 1969, diz que:
Toda pessoa tem o direito à liberdade de pensamento e de expressão. Este direito inclui a liberdade de procurar, receber e difundir informações e ideias de qualquer natureza sem considerações de fronteiras, verbalmente ou por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou por qualquer meio de sua escolha.11
A Constituição Brasileira de 1988 (Cap. I, Artigo 5º, inciso IX), diz que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”12. Esta concepção vem se renovando, indo além de todas as garantias
10 Disponível em: <http://www.dudh.org.br/declaracao/> 11 Disponível em: <http://www.dudh.org.br/declaracao/> 12
jurídicas de liberdade de expressão, tem se discutido o direito à comunicação como forma de poder de comunicar, do cidadão e de suas organizações coletivas (PERUZZO, 2005, p.19). No IV Fórum Social Mundial Irene León se pronunciou dizendo que é importante:
Pensar a comunicação como direito que não se restringe ao acesso à produção de informação e seus mecanismos teóricos, mas ao poder, pois na sociedade da informação, nada é mais poderoso que construir pensamentos críticos, plurais e autônomos (LEÓN apud BURCH, 2004, p.2).
Embora a história nos permita uma leitura a favor desses princípios, percebe-se que isso ocorre em maior ou menor grau dependendo de cada cultura, de cada povo. Segundo a pesquisadora Cicília Peruzzo (2004, p. 275), “esse processo tem a ver com as decisões dos governantes e a capacidade do povo para exigir o cumprimento de seu direito, com vistas à realização de seu dever de contribuir ativamente, como sujeito, para a construção da sociedade”.
Dentre os mais variados aspectos da vida, o direito a exercer a comunicação ativamente é um deles. Referimo-nos a comunicação de fato e de direito e não apenas pensando o sujeito como consumidor, mas como sujeito ativo da comunicação.
Para Cicília Peruzzo (2004, p. 275), a democratização da comunicação no Brasil e em outros países latino-americanos tem sido obstaculizada pelo Estado e por setores dominantes que, em virtude de sua posição hegemônica ou pela imposição, acabam por ganhar a cumplicidade da sociedade, embora exista certa resistência, como veremos adiante. Contudo, antes de tratados matizes que envolvem essa temática, acredita-se ser necessário fazer uma incursão a respeito dos direitos humanos a partir de um breve apanhado conceitual sobre cidadania e sobre a inserção da comunicação como uma das dimensões desse conceito.
Conceitos de autores como T. H. Marshall, Liszt Vieira, Norberto Bobbio, tornam-se importantes ao mostrar as mudanças históricas que conduzem as alterações no conceito de cidadania, a partir das gerações de direitos e do sentido que são dados a eles.
T. H. Marshall (1967), em Cidadania, Classe social e Status, publicado originalmente em 1949, compreende a cidadania moderna a partir do estabelecimento primeiramente dos direitos civis, seguido dos políticos e por último dos direitos sociais.
Com esta finalidade, dividi a cidadania em três elementos: civil, político e social. Tentei demonstrar que os direitos civis surgiram em primeiro lugar e se estabeleceram de modo um tanto semelhante à forma moderna que assumiram antes da entrada em vigor da primeira Lei de Reforma, em 1832. Os direitos políticos se seguiram aos civis, e a ampliação deles foi uma das principais características do século XIX, embora o princípio da cidadania
política universal não tenha sido reconhecido senão em 1918. Os direitos sociais, por outro lado, quase que desapareceram no século XVIII e princípio do XIX. O ressurgimento destes começou com o desenvolvimento da educação primária pública, mas não foi senão no século XX que eles atingiram um plano de igualdade com os outros dois elementos da cidadania (MARSHALL, 1967, p.75).
Para Marshall (1967) a cidadania é histórica e é conformada pelo status comum, conquistado e compartilhado pelos membros de uma comunidade. A caracterização moderna do conceito de cidadania representa a promoção de um status de igualdade social, que atribui ao indivíduo à posse legítima de direitos e a obediência comum aos deveres. Porquanto, ser cidadão independe de sexo, cor ou classe social, sendo todos iguais perante a lei. Segundo Marshall (1967, p.76) “A cidadania é um status concedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade. Todos aqueles que possuem o status são iguais com respeito aos direitos e obrigações pertinentes ao status”.
Liszt Vieira (2001, p. 35) compreende que o conceito de cidadania, como o direito a ter direitos (e reconhecer seus deveres), foi abordado de variadas perspectivas. Os autores Vieira e Marshall propuseram a primeira teoria sociológica de cidadania ao incluir os direitos e as obrigações inerentes a condição de ser cidadão. Contudo, não se pode perder de vista que a teoria desenvolvida por Marshall, na época, partia da sua concepção inglesa sobre o conflito entre capitalismo e liberdade.
Os avanços e retrocessos da cidadania ocorrem de maneira diferenciada nos diferentes países, principalmente no Brasil, onde temos um histórico marcado por desigualdades sociais.
Por sua vez, Norberto Bobbio (1999, p. 32-33), filósofo italiano, também compreende que o desenvolvimento dos direitos do homem passou por três fases, os direitos civis, políticos e sociais:
[...] o desenvolvimento dos direitos do homem passou por três fases: num primeiro momento, afirmaram-se os direitos de liberdade, isto é, todos aqueles direitos que tendem a limitar o poder do Estado e a reservar para o indivíduo, ou para os grupos particulares, uma esfera de liberdade em relação ao Estado; num segundo momento, foram propugnados os direitos políticos, os quais – concebendo liberdade não apenas negativamente, como não impedimento, mas positivamente, como autonomia – tiveram como consequência a participação cada vez mais ampla, generalizada e frequente dos membros de uma comunidade no poder político (ou liberdade no Estado); finalmente, foram proclamados os direitos sociais, que expressam o amadurecimento de novas exigências – podemos mesmo dizer, de novos valores –, como os do bem-estar e da igualdade não apenas formal, e que poderíamos chamar de liberdade através ou por meio do Estado.
Segundo Norberto Bobbio (2004, p.32) “num primeiro momento, afirmaram-se os direitos de liberdade”, os chamados direitos de primeira geração. Estes são os direitos individuais, de natureza civil e política, e “foram reconhecidos para a tutela das liberdades públicas, em razão de haver naquela época uma única preocupação, qual seja, proteger as pessoas do poder opressivo do estado” (CUNHA JUNIOR, 2012, p. 617-618).
Eles surgiram juntamente com a Revolução Francesa, entre os séculos XVIII e XIX, assegurando para a classe burguesa, então surgente, os direitos mínimos para o exercício da sua atividade. Desta forma, tinham como fundamento a “limitação do poder do Estado e a reserva para o indivíduo, ou para os grupos particulares, uma esfera de liberdade em relação ao Estado” (BOBBIO, 2004, p. 32). Ou seja, contemplam os direitos de inspiração individualista, demonstrando claramente a demarcação entre Estado e não-Estado, o qual é composto pela sociedade religiosa e pela sociedade civil.
A segunda geração direitos do homem, segundo Bobbio (2004) surgiu no século XX, tem como marco o pronunciamento da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, como reivindicação dos excluídos a participarem do "bem-estar social" como, por exemplo, os direitos ao trabalho, a saúde e a educação, sendo o titular de tais direitos o indivíduo e o sujeito passivo o Estado, pois na interação entre governados e governantes este assume a responsabilidade de atendê-los (BOBBIO, 2004, p.41).
Celso Lafer afirma que estes direitos:
[...] podem ser encarados como direitos que tornam reais direitos formais: procuram garantir a todos o acesso aos meios de vida e de trabalho num sentido amplo, impedindo, desta maneira, a invasão do todo em relação ao indivíduo, que também resulta da escassez dos meios de vida e de trabalho (LAFER, 1988, p. 127-128).
O uso amplo da liberdade individual acabou por desequilibrar a sociedade ocidental, criando enormes injustiças sociais. Dessa maneira, tivemos o conflito entre o trabalho e o capital diante de um Estado indiferente, e favorecedor da opressão dos trabalhadores pela burguesia.
Nesse contexto, Adriana Galvão Moura in Constituição e Construção da Cidadania salienta que: “As normas constitucionais consagradoras desses direitos exigem do Estado uma atuação positiva, através de ações concretas desencadeadas para favorecer o indivíduo [também são conhecidos como direitos positivos ou direitos de prestação]” (MOURA, 2005,
p. 23).
A terceira geração são os direitos decorrentes da solidariedade ou de titularidade coletiva, ditos difusos, e nascem em decorrência da generalidade da humanidade e do “amadurecimento de novas exigências – podemos mesmo dizer - de novos valores” (BOBBIO, 2004, p. 36). Justamente “[…] caracterizam-se por destinarem-se à proteção, não do homem em sua individualidade, mas do homem em coletividade social, sendo, portanto, de titularidade coletiva ou difusa” (CUNHA JUNIOR, 2012, p. 626).
Além das três gerações clássicas, descritas por Norberto Bobbio, atualmente se estuda a existência de outras, decorrentes dos avanços sociais, genéticos e tecnológicos.
Neste sentido, Samuel Antonio Merbach de Oliveira (2013, p.18) diz que a quarta geração dos direitos do homem se refere à manipulação genética, à biotecnologia e à bioengenharia, abordando reflexões acerca da vida e da morte, pressupondo sempre um debate ético prévio. Através dessa geração se determinam os alicerces jurídicos dos avanços tecnológicos e seus limites constitucionais.
Diante dos avanços da revolução tecnológica e da nova ordem mundial, a quarta geração vem suscitando controvérsias em relação aos direitos e obrigações decorrentes da manipulação genética ou do controle de dados informatizados que muitas vezes podem ser acessados via Internet de qualquer lugar do mundo. Também denominados “Direitos Difusos”, colocam em evidência os direitos concernentes à evolução biogenética e tecnológica (OLIVEIRA, 2013).
Bobbio (1992, p. 6) entende que a quarta geração de direitos do homem refere-se “aos efeitos cada vez mais traumáticos da pesquisa biológica, que permitirá manipulações do patrimônio genético de cada indivíduo”.
No intuito de relacionar as dimensões da cidadania à comunicação, Peruzzo (2005), reflete sobre o acesso e o empoderamento popular do cidadão e dos movimentos sociais que os representam, no que diz respeito à comunicação como um direito humano.
Peruzzo (2005) traz em seu texto o percurso da comunicação nas diversas dimensões da cidadania, o qual é visto tratando desde os direitos de primeira à terceira geração. Entretanto, ressalva que na atualidade a comunicação, dado os avanços tecnológicos, esteja em via de ocupar lugar de destaque na construção da cidadania.
Assim, isso seria um “processo indicativo de movimento correlato àquele que identifica a passagem da cidadania de uma fase à outra de maior qualidade” (PERUZZO, 2005, p. 38). Dessa forma, aponta nas dimensões da cidadania a inclusão de uma quinta geração de direitos, os direitos comunicacionais, que englobam também a cultura.
Cidadania é desenvolvimento social com igualdade. Assim sendo, a riqueza socialmente produzida, as descobertas científicas e tecnológicas, as artes, a educação, o lazer e todas as demais benesses geradas no processo histórico deveriam ser desfrutadas com igualdade e liberdade para a realização plena da cidadania. No entanto, na prática, o que há é extrema desigualdade dentro dos países e entre nações. Enfim, uns são mais cidadãos que outros, sendo estes a maioria. A situação desigual e de injustiça social é consequência do modelo de desenvolvimento adotado e das estratégias implementadas para concretizá-lo (PERUZZO, 2007b, p. 46).
A base da comunicação para a cidadania está no empoderamento popular, ou seja, na apropriação e consciência coletiva dos cidadãos em utilizar a comunicação para desenhar melhores mundos possíveis, para redesenhar sua própria realidade, tendo em vista à transformação social. Este empoderamento, no limiar, só é possível quando os sujeitos coletivos se apropriam da comunicação e tornam-se protagonistas, quando a comunicação passa a ser considerada como um processo. Neste aspecto, sujeitos coletivos, movimentos sociais populares engajados na luta pelos direitos sociais, forjam suas realidades e tentam reinventá-las se empoderando da Comunicação Comunitária, por exemplo, é uma das formas de exercitar o direito à comunicação.
Ramos (2005, p. 250), embora caracterize a comunicação como um direito de “quarta geração” e não de quinta, como seria desejável, faz uma contribuição importante quando aborda que a primeira e fundamental consequência de se reconhecer o direito à comunicação é entender que ela precisa ser vista como passível de discussão e ação como política pública essencial, assim como as demais direcionadas à saúde, à alimentação, ao saneamento, ao trabalho, à segurança, entre outros.
Para Bobbio (1999, p. 25), o problema que temos diante de nós em relação a conformação dos direitos de cidadania – incluí-se nessa esteira o direito à comunicação – não é filosófico, mas num sentido mais amplo, político. O autor afirma que não se trata de saber quais e quantos são esses direitos, qual é a sua natureza e seu fundamento, neste caso, bastaria observar a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Tampouco, se são direitos naturais ou históricos, mas sim pensar qual o modo mais seguro de garantir esses direitos, já amplamente expressados nas declarações.
2 A participação popular na comunicação: o exercício da cidadania
Cicília Peruzzo (2005, p.34) diz que “os meios comunitários” são os que mais potencializam a participação direta do cidadão na esfera pública comunicacional no Brasil”. Seja pela facilidade da localização que permite fácil acesso, porque ficam no mesmo ambiente em que vivem, seja pelo processo participativo em que se realiza a comunicação, ou pela recepção da mensagem que o atinge.
Para a autora a participação popular pode se dar como ouvintes, leitores ou expectadores. Como também pode fazer parte da gestão e do planejamento da comunicação, e processos de produção.
A participação do processo de fazer comunicação é essencial nas organizações populares, é o envolvimento direto do cidadão, representa um avanço significativo na democracia comunicacional.
A participação popular pode ser a constituinte para ampliar o exercício da cidadania, não só pelos conteúdos críticos, as denúncias e reivindicações das demandas sociais da comunidade, mas também pelo processo do fazer comunicativo.
Contribui para a formação da construção da cidadania por meio do processo que é educativo e também pelo conteúdo das mensagens transmitidas.
Os meios de comunicação produzidos por setores organizados das classes subalternas, ou a elas organicamente ligados, acabam por criar um campo propício para o desenvolvimento da educação para a cidadania. As relações entre educação e comunicação se explicitam, pois as pessoas envolvidas em tais processos desenvolvem o seu conhecimento e mudam o seu modo de ver e relacionar-se com a sociedade e com o próprio sistema dos meios de comunicação de massa. Apropriam-se das técnicas e de instrumentos tecnológicos de comunicação, adquirem uma visão mais crítica, tanto pelas informações que recebem quanto pelo que aprendem através da vivência, da própria prática (PERUZZO, 2005, p. 36).
A participação popular na comunicação comunitária coloca o ser humano como protagonista das mudanças sociais. Amplia sua cidadania através do conhecimento adquirido nos processos comunicativos, educando no seu fazer responsável e compartilhado, assim como na transmissão das mensagens através de seus conteúdos (PERUZZO, 2005, p. 35).
O Brasil nos últimos dez anos avançou timidamente, e a passos lentos, em algumas questões sociais. Sabe-se das urgências sociais sérias que ainda não são contempladas por políticas públicas. O clamor das classes menos favorecidas está aí, a frente de nossos olhos e
cada vez mais gritantes. E qual a participação da comunicação, a communicatio, neste processo?
Temos passado por grandes transformações científicas e tecnológicas, porém o acesso a estas tecnologias é restrito a uma parcela da população brasileira. Serviços com altos preços e a falta infraestrutura fora dos grandes centros colaboram para uma segregação: a exclusão digital, aumentando mais a distância no societas (sociedade) e seus socius (parceiros) de vida.
O individualismo presente e o espírito capitalista ocidental da competitividade presente só estão nos afastando do comum. Toda questão amplamente pensada por Buber (1969) da relação dual Eu-Tu simplesmente fora desprezada.
Tomados por um discurso tecnológico, que a princípio é vendido como a solução para nossa evolução social, de uma vida melhor, somos embebidos por uma narrativa da era da comunicação/informação de que: “Agora está tudo bem, conhecemos nossas questões sociais porque temos informações”. Mas vemos que no paraíso capitalista tecnicista o inferno é bem presente e visível, ter somente a informação não basta. Necessitamos da retomada da
communicatio, a comunicação que produz narrativas sociais do comum.
Expostas, pesquisadas, comunicadas pelos meios de comunicação para surtir mudanças sociais significativas, as diferenças sociais: falta de moradia, desemprego, direito a terra, o desrespeito aos direitos fundamentais do Homem é visto e vivenciado na sociedade brasileira. Resultado decorrente das ações pensadas e realizadas sem o espírito do comum.
A falta desta comunicação do comum traz à tona uma sociedade cada vez mais individualista e gananciosa. Peruzo (1998, p.26) traz um pensamento contemporâneo sobre o panorama da sociedade:
São contingentes de pessoas que vão perdendo valores intrinsecamente humanos, como o respeito pelo semelhante, a solidariedade, e a gratuidade, enquanto ajudam a valorizar cada vez mais a ganância e o individualismo. E assim o homem vai se tornando objeto, mercadoria, coisa manipulável, em detrimento de sua essência e do caráter de sua espécie
A comunicação nos movimentos sociais é um fator de extrema relevância, é ela que faz a communicatio ter existência e a prática da relação dual “Eu-Tu” ser um fato recorrente na sociedade. A capacidade de compartilhar “o viver” com todos anseios e desejos que uma sociedade apresenta diante de suas transformações. A essência da condição humana está justamente em ter na communicatio seu papel de agente de sua própria história, ter um acolhimento na comunidade uma ordem de todas as diferenças e trocas possíveis no comum:
O homem tem como essência a potencialidade de ser sujeito da história. Alienando-se ele perverte os seus valores próprios, transformando-se em objeto. Nessas condições, ele se deforma, se embrutece, se desumaniza (PERUZZO, 1998, p.26).
Neste processo de comunicação/informação muitas vezes os mass media não expressam, sem interesses financistas e apartidários, o grito das comunidades, com seus movimentos sociais reivindicando até mesmo o direito à livre expressão.
Por isso há necessidade da existência de meios de comunicação voltados a questão participativa das mudanças sociais. Ter um espaço comunicacional voltado para as questões da communicatio é importante para ter resultados políticos que resultem em mudanças sociais significativas. Os movimentos populares demonstraram, no decorrer da história recente do Brasil, a necessidade de espaços de comunicação “alternativos” em relação a dita “grande imprensa” como cita autora Peruzo (1998, p.114-115):
Numa conjuntura em que vinha à tona a insatisfação decorrente das precárias condições de existência de uma grande maioria e das restrições à liberdade de expressão pelos meios massivos, criaram-se instrumentos ‘alternativos’ dos setores populares, não sujeitos ao controle governamental ou empresarial direto. Era uma comunicação vinculada à prática de movimentos coletivos, retratando momentos de um processo democrático inerente aos tipos, às formas e aos conteúdos dos veículos, diferentes daqueles de estrutura então dominante, da chamada ‘grande imprensa’. Nesse patamar, a ‘nova’ comunicação representou um grito, antes sufocado, de denúncia e reivindicação por transformação, exteriorizado, sobretudo em pequenos jornais, boletins, alto-falantes, teatro, folhetos, volantes, vídeos, audiovisuais, faixas, cartazes, pôsteres, cartilhas, etc.
Esta comunicação com conteúdos feitos pelas comunidades e movimentos sociais traz a possibilidade da realização da communicatio, que é justamente “pôr-se em comum”, amplificando as demandas sociais coletivas, onde todos participam por meio do diálogo que