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(2) SILMARA DE MATTOS SGOTI. A COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA DOS QUILOMBOLAS CARRAPATOS DA TABATINGA: O DIÁLOGO COMO PRÁXIS DA COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL E GRUPAL. Dissertação apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do título de Mestre.. Orientação: Profa. Dra. Cícilia Krohling Peruzzo. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2016.
(3) FICHA CATALOGRÁFICA. Sg58c. Sgoti, Silmara de Mattos A comunicação comunitária dos Quilombolas Carrapatos da Tabatinga: o diálogo como práxis da comunicação interpessoal e grupal / Silmara de Mattos Sgoti. 2016. 121 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) --Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2016. Orientação: Cicilia Maria Krohling Peruzzo. 1. Comunicação comunitária 2. Diálogo 3. Comunidade 4. Quilombolas Carrapatos da Tabatinga - Bom Despacho (MG) 5. Quilombos I. Título. CDD 302.2.
(4) A dissertação de mestrado sob o título “A COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA DOS QUILOMBOLAS CARRAPATOS DA TABATINGA: O DIÁLOGO COMO PRÁXIS DA COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL E GRUPAL”, elaborada por Silmara de Mattos Sgoti, foi defendida e aprovada em 19 de Setembro de 2016, perante a banca examinadora composta por: Profa. Dra. Cicília Maria Krohling Peruzzo (Presidente/UMESP), Prof. Dr. José Salvador Faro (Titular/UMESP), Profa. Dra. Cristina Schmidt (Convidada/ Universidade Mogi das Cruzes).. __________________________________________ Profa. Dra. Cicília Maria Krohling Peruzzo Orientadora e Presidente da Banca Examinadora. ___________________________________________ Profa. Dra. Marli dos Santos Coordenadora do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de Concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa: Comunicação comunitária, territórios de cidadania e desenvolvimento social.
(5) Ao meu esposo Edilberto e minhas filhas Thaís e Sophia, por trazerem luz e alegria à minha vida. Por contribuírem para que eu alcançasse esse objetivo, e com paciência e tolerância suportaram minhas ausências. Meu amor e minha sincera gratidão..
(6) “A educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é a transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados.”. Paulo Freire.
(7) AGRADECIMENTOS. À minha querida professora Dra. Cicília M. Krohling Peruzzo, pela tranquilidade, confiança e valiosa orientação. Aos professores Dra. Magali do Nascimento Cunha e Dr. José Salvador Faro pela contribuição na qualificação do projeto. À professora Dra. Marli dos Santos, coordenadora do Pós-Com da UMESP, que nas horas mais difíceis me ajudou a prosseguir. À Kátia Bizan, secretária do Pós-Com da UMESP, pelos providenciais e-mails, responsáveis por eu não perder se quer um prazo de entrega, e obrigado pela sua educação, alegria e competência. A UMESP por ter sido com muito orgulho aluna de uma instituição crível, e por todo apoio e suporte dado para realizar a pesquisa. Ao CNPq que concedeu a bolsa possibilitando o desenvolvimento da pesquisa e sua conclusão. Aos meus pais pelo amor e os valores que me deram. Sem vocês não estaria aqui no meu caminho, pois já caminhei bastante, mais ainda falta chão para trilhar. Sempre os honrarei. À minha companheira de caminhada no mestrado Cristiane Holanda, pelos momentos de batepapo que me encheram de motivação e alegria para continuar na caminhada rumo aos objetivos. Ao Douglas Marçal, meu coordenador no SENAC, Instituição que tenho orgulho de trabalhar como docente, pela compreensão aos tantos pedidos de liberações, para ir aos congressos e viagens para Bom Despacho. Aos meus queridos mestres da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Prof. Dr. Sérgio Lex e Profa. Dra. Miriam Rodrigues, pela oportunidade de lecionar na Pós-Graduação desta Instituição que tanto tenho orgulho de pertencer, e principalmente pelo incentivo para prosseguir com o mestrado. Minha gratidão. Aos Quilombolas Carrapatos da Tabatinga, por permitir relatar um pouco sobre a comunidade, suas lutas e ideais. A Dona Tiana pela generosidade com que me recebeu em sua casa para falar da vida e de seu povo, a própria força da mulher negra, que me inspirou a lutar mais pelos meus ideais. A Sandra Andrade pela boa recepção desde o primeiro encontro. Muito obrigada à toda comunidade..
(8) SGOTI, Silmara de Mattos. A Comunicação Comunitária dos Quilombolas Carrapatos da Tabatinga: o diálogo como práxis da comunicação interpessoal e grupal. São Bernardo do Campo, 2016, p.121. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social), Faculdade de Comunicação, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP, 2016.. RESUMO O estudo enfatiza a comunicação comunitária dos Quilombolas Carrapatos da Tabatinga, comunidade localizada na cidade de Bom Despacho, no Estado de Minas Gerais. Os objetivos são compreender de modo sistemático e com base científica os processos de comunicação das práticas participativas e de gestão existentes na comunidade, além de verificar se há um trabalho desenvolvido nos meios de comunicação grupais ou midiáticos de alcance comunitário ou local, para amplificar as demandas sociais dos quilombolas em Bom Despacho. A pesquisa bibliográfica construiu o marco teórico sobre comunidades, comunicação comunitária e uma breve explanação sobre o Quilombo como símbolo de resistência no Brasil. Utilizou-se a pesquisa etnográfica, sob os parâmetros da dialética, com apoio da observação participante na investigação de campo, em determinadas atividades e não de forma permanente, que permitiu um estudo in loco. Foram aplicadas técnicas complementares de coleta de dados: a entrevista semiestruturada como forma de obter com clareza as descrições da comunidade e as relações comunicantes no meio cultural que está inserida: a sua ancestralidade negra, o território real e simbólico e o convívio com a sociedade local. As entrevistas foram com os líderes comunitários, membros da comunidade e alguns atores da sociedade local. Complementou-se o estudo com análise documental referente a comunidade quilombola citada e com dados secundários como: informações já disponíveis em órgãos públicos e privados ou instituições vinculadas a comunidade. Na conclusão do estudo verificou-se que o diálogo é a práxis da comunicação comunitária interpessoal e grupal dos Quilombolas Carrapatos da Tabatinga. Nos processos comunicacionais entre os membros da comunidade o diálogo crítico se faz presente nas discussões sobre as demandas sociais como: a importância da identidade quilombola, a valorização da memória dos ancestrais escravos, a necessidade de resistirem ao preconceito e a desigualdade social na sociedade local, e a luta pelo direito constitucional de reaver os territórios quilombolas. A comunidade tem uma comunicação dialógica com a sociedade local, por meio das manifestações culturais, como no Congado, no qual constatou-se a força comunicante das demandas sociais nos cantos, danças e indumentárias. Há participação da comunidade nos meios de comunicação de Bom Despacho em espaços cedidos, de forma esporádica, em rádio comercial para divulgação dos seus eventos e atividades culturais. A comunidade utiliza rede social para publicar seus conteúdos, por ser um meio de comunicação de baixo custo e alta abrangência. Não foi constatado na cidade de Bom Despacho nenhum trabalho desenvolvido nos meios de comunicação midiáticos de alcance comunitário ou local, para amplificar as demandas sociais dos Quilombolas Carrapatos da Tabatinga. O exercício da cidadania da comunidade em Bom Despacho é prejudicado, por ser minoria tem baixa representatividade no poder público municipal, o que resulta em falta de políticas públicas que atenda as demandas sociais da comunidade, as conquistas sociais da comunidade vieram por meio do Governo Federal.. Palavras Chave: Comunicação Comunitária. Diálogo. Comunidade. Quilombolas Carrapatos da Tabatinga. Quilombo..
(9) SGOTI, Silmara de Mattos. La Comunicación de la Comunidad de Quilombo Las Garrapatas de Tabatinga: el diálogo como práctica de la comunicación interpersonal y grupal, São Bernardo do Campo, 2016, p.121. Disertación (Maestria em Comunicación Social), Faculdade de Comunicação, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP, 2016. RESUMEN. El estudio enfatiza la comunicación comunidad de Quilombolas Garrapatas de Tabatinga, comunidad situada en la ciudad de Bom Despacho en el Estado de Minas Gerais. Los objetivos son comprender los procesos con base sistemática y científicamente comunicación de prácticas de participación y de gestión dentro de la comunidad, así como de verificación para un trabajo en el grupo o comunidad de los medios de difusión o medios de comunicación locales para amplificar las demandas los derechos sociales de los quilombos en Bom Despacho. La literatura construyó el marco teórico sobre las comunidades, la comunicación comunitaria y una breve explicación del Quilombo como un símbolo de la resistencia en Brasil. Se utilizó la investigación etnográfica, en la dialéctica de los parámetros, con el apoyo de la observación participante en el campo de la investigación en ciertas actividades y no de forma permanente, lo que permitió un estudio in situ. La recopilación de datos técnicos adicionales se aplicaron: la entrevista semi-estructurada con el fin de obtener una clara descripción de la comunidad para la interconexión y los enlaces en el medio cultural que se inserta: su ascendencia negro, el territorio real y simbólico y la interacción con la sociedad local. Las entrevistas fueron con los líderes comunitarios, miembros de la comunidad y algunos actores de la sociedad local. El estudio de análisis de documentos se complementó con respecto quilombo citado y datos secundarios como la información ya disponible en organismos o instituciones públicas y privadas vinculadas con la comunidad. A la conclusión del estudio se encontró que el diálogo es la práctica de la comunicación interpersonal y de grupo de la comunidad de Quilombolas Garrapatas de Tabatinga. En los procesos de comunicación entre los miembros de la comunidad diálogo crítico está presente en las discusiones sobre las demandas sociales como la importancia de la identidad quilombola, la valoración de la memoria de los antepasados esclavos, la necesidad de resistir el prejuicio y la desigualdad social en la sociedad local, y la lucha por el derecho constitucional de tomar posesión de los territorios quilombolas. La comunidad tiene una comunicación dialógica con la sociedad local a través de eventos culturales, como el Congado en el que se encontró la fuerza de conexión de las demandas sociales en canciones, bailes y trajes. Hay participación de la comunidad en los medios de comunicación el Bom Despacho en los espacios asignados, de forma esporádica, en la radio comercial para la difusión de los eventos y actividades culturales. La comunidad utiliza la red social para publicar su contenido a ser un medio de bajo costo y alta cobertura. Se encontró en la ciudad de Bom Despacho hay trabajo en grupo o los medios de comunicación de alcance comunitario o local, para amplificar las demandas sociales de los Quilombolas Garrapatas de Tabatinga. El ejercicio de la ciudadanía de la comunidad en buen estado de sufre deterioro por la escasa representación en el gobierno municipal por una minoría en la ciudad, lo que resulta en una falta de políticas públicas para satisfacer las demandas sociales de la comunidad. Toda la comunidad conquistado entró por el Gobierno Federal. Palabras Clave: Comunicación Comunitaria. Diálogo. Comunidad. Quilombolas Carrapatos da Tabatinga. Quilombo..
(10) SGOTI, Silmara de Mattos. The Community Communication of Quilombolas Carrapatos of Tabatinga: dialogue as a practice of interpersonal communication and group. São Bernardo do Campo, 2016, p.121. Dissertation (Master in Social Communication), Faculdade de Comunicação, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP, 2016.. ABSTRACT The study emphasizes community communication of Quilombolas Carrapatos of Tabatinga, community located in Bom Despacho in the State of Minas Gerais. The objectives are to understand systematically and scientifically based communication processes of participatory and management practices within the community, as well as check for a work in the group or media community outreach or local media to amplify the demands social rights of quilombos in Bom Despacho. The literature built the theoretical framework on communities, community communication and a brief explanation of the Quilombo as a symbol of resistance in Brazil. We used ethnographic research, in the dialectic of parameters, with the support of participant observation in the field of research in certain activities and not permanently, which allowed an on-site study. Additional technical data collection were applied: the interview semi-structured in order to get a clear community descriptions to and interconnecting links in the cultural milieu that is inserted: their black ancestry, the real and symbolic territory and the interaction with the local society. The interviews were with community leaders, community members and some actors of local society. The study of document analysis was complemented regarding quoted Quilombo and secondary data as information already available in public and private bodies or institutions linked to the community. At the conclusion of the study it was found that dialogue is the practice of interpersonal communication and community group of Quilombolas Carrapatos of Tabatinga. In the communication processes between the members of the critical dialogue community is present in discussions about the social demands as the importance quilombo identity, valuing the memory of slave ancestors, the need to resist the prejudice and social inequality in the local society, and the struggle for the constitutional right to repossess the quilombo territories. The community has a dialogical communication with the local society through cultural events, such as the Congado in which it was found the connecting force of social demands in songs, dances and costumes. There is community participation in Bom Despacho media in assigned spaces, sporadically, on commercial radio for dissemination of the cultural events and activities. The community uses social network to publish their content to be a medium of low cost and high coverage. It was found in the city of Bom Despacho no work in group or media community outreach or local, to amplify the social demands of the Quilombo las Carrapatos of Tabatinga. The exercise of community citizenship in Bom Despacho is impaired due to low representation in municipal government by a minority in the city, resulting in a lack of public policies to meet the social demands of the community. All community conquered came through the Federal Government.. Key Words: Community Communication. Dialogue. Community. Quilombolas Carrapatos da Tabatinga. Quilombo..
(11) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 12 CAPÍTULO I – CONCEITOS, TEORIAS E REFLEXÕES: SOBRE COMUNICAÇÃO E COMUNIDADE .................................................................................................................. 25 Nota Introdutória ao capítulo..................................................................................... 25 1 A Comunicação: o “agir em comum” ............................................................................ 25 1.1 A Communicatio: o diálogo como laço coesivo da comunidade............................. 29 2 Comunidade nos Clássicos e seu entendimento na atualidade ....................................... 33 CAPÍTULO II – O EMPODERAMENTO DA COMUNICAÇÃO: DO DIREITO GARANTIDO À ESTRATÉGIA DE AMPLIAÇÃO DA CIDADANIA POR MEIO DA PARTICIPAÇÃO POPULAR ............................................................................................... 40 Nota Introdutória ao Capítulo ................................................................................... 40 1 Direito à comunicação: o poder de construir pensamentos, plurais e autônomos.......... 40 2 A participação popular na comunicação: o exercício da cidadania ............................... 46 CAPÍTULO III – QUILOMBO CARRAPATOS DA TABATINGA: 300 ANOS DE RESISTÊNCIA ....................................................................................................................... 49 Nota Introdutória ao Capítulo ................................................................................... 49 1 Quilombo: a materialização da resistência negra e a importância da territorialização .. 49 2 Os quilombolas de Bom Despacho: a história marcada por luta desde a origem .......... 58 2.1 O Direito Constitucional dos remanescentes quilombolas à territoriedade ............. 60 2.2 A desigualdade social abarcada pelo preconceito racial ......................................... 62 2.3 A gestão e os processos de comunicação da comunidade ....................................... 64 2.4 O Congado: a força comunicante das matrizes africanas ........................................ 71 2.5 Chico Rei ................................................................................................................. 75 2.6 Missa Conga ............................................................................................................ 76 2.7 A Festa de Nossa Senhora do Rosário em Bom Despacho e suas Cortes do Reinado80 2.8 A Festa de São Benedito: a expressão comunicante dos quilombolas da Tabatinga84 2.9 Canjerê: 1º Festival da Cultura Quilombola do Estado de Minas Gerais ................ 97 3 A práxis da comunicação comunitária para além dos meios ....................................... 100 3.1 A participação da comunidade nos meios de comunicação de Bom Despacho .... 104 3.2 A comunidade conectada ao Facebook e YouTube ............................................... 106 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 108 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 115.
(12) 12. INTRODUÇÃO Os quilombos foram construídos como uma unidade básica de resistência do negro contra as condições de vida impostas pelo sistema escravista. Hoje, os quilombos constituem um legado material e imaterial de resistência com os quais os quilombolas desenvolvem e reproduzem modos de vida característicos num determinado lugar, organizados em forma de comunidades espalhadas pelo Brasil. Na Constituição Federal de 1988, foi assegurado às comunidades remanescentes de quilombos o direito às terras por eles ocupadas, devendo o Estado atuar na titularização das mesmas. Do direito conquistado pelo movimento negro surge a identidade política do quilombola. Muitas comunidades, até então em geral ditas como “comunidades negras” ou que habitavam as chamadas “terras de preto” passam a se assumir quilombolas. Diante deste fenômeno houve uma ressemantização do conceito de quilombo, ampliando-o, propiciando que um número crescente de comunidades negras passasse a se autodeterminar pertencentes a uma comunidade de remanescentes quilombolas com possibilidades políticas. Iniciou-se a necessidade de uma participação mais ativa das comunidades quilombolas em busca de seus direitos já garantidos por lei, mas de fato a serem alcançados na prática. Hoje umas das principais demandas sociais dos remanescentes quilombolas, entre outras, é de fato ter os territórios quilombolas legalizados em forma de propriedade para suas comunidades espalhadas por todo Brasil. Desta forma, as comunidades negras passaram a reafirmar sua identidade, baseada no resgate do conceito de “quilombo”, com o aparecimento de atores sociais coletivos, ampliando e renovando o modo de ver e viver a identidade negra, pensando coletivamente em seus direitos civis bem como nos sociais com uma cidadania mais participativa, lutando para extinguir sua “invisibilidade social”. Gostaria de lembrar a existência de mais 3.000 comunidades quilombolas no Brasil, dado oficial segundo o INCRA1, com demandas sociais semelhantes. As reivindicações vão desde o direito que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o artigo 682, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, até as lutas cotidianas: contra o preconceito da sociedade local onde as comunidades quilombolas estão presentes, a luta por 1 2. Informação de acordo com o site oficial do INCRA ver em: http://www.incra.gov.br/quilombola Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.ht.
(13) 13. fomentos públicos para manter viva a cultura quilombola - língua, danças, eventos religiosos e as condições de infraestrutura das terras quilombolas como: escola, saúde e saneamento básico. Possibilitar que estas muitas vozes de brasileiros esquecidos e silenciados a mais de 300 anos, que tanto contribuíram para formação socioeconômica do Brasil, diga-se com muita dor e lágrimas, sejam ouvidas pela sociedade brasileira e avancem em suas reivindicações. Fato curioso é que muitas pessoas, inclusive participes do meio acadêmico, se quer sabiam da existência da lei para os remanescentes quilombolas, imaginei o restante da população brasileira... É urgente a discussão e a divulgação por meio da comunicação, sem interferência e interesses econômicos, como muitas vezes ocorre na grande mídia sobre as questões dos povos tradicionais quilombolas, incluindo os indígenas, num país que ainda permanecem práticas sócio econômicas e políticas sob a égide do colonialismo: latifúndios, exclusão étnica e outras barbáries de cunho preconceituoso e classista. As comunidades quilombolas são organizadas, porém com pouca participação nos meios de comunicação tradicionais, bem como nos comunitários locais. Tive acesso aos conteúdos jornalísticos sobre os quilombolas na revisão documental em 2014 e constatei que eles versam, na sua maioria, sobre temas históricos, antropológicos e até mesmo exóticos sobre o modo de vida destas comunidades, entretanto pouco se fala sobre as demandas sociais dos quilombolas. Gerou-se uma reflexão sobre o avanço das conquistas das comunidades quilombolas: se eles não se manifestarem além dos muros das comunidades, visando ampliar alcance ao público, as suas demandas sociais serão ouvidas? Terão possibilidade de ampliarem sua cidadania? Como diz a autora Cicília Peruzzo (2005, p.33): O uso dos meios de comunicação pelo cidadão e suas organizações representativas significa um passo no exercício do direito a isegoria, quer dizer o direito de se manifestar e ser ouvido. Como ser ouvido por amplos públicos, se não através da mídia?. Diante deste questionamento o objeto de estudo da pesquisa será a comunidade dos quilombolas Carrapatos da Tabatinga, localizada na cidade de Bom Despacho, no centrooeste do Estado de Minas Gerais. É uma comunidade urbana composta por aproximadamente 500 pessoas, organizada desde 2006 pela Associação Quilombola Carrapatos da Tabatinga. A comunidade é formada por membros com laços sanguíneos e ancestralidade negra, de origem africana e escrava. Os elementos de formação da comunidade da Tabatinga em Bom.
(14) 14. Despacho estão presentes nos dias de hoje, e se concentram em sua territoriedade físicosimbólico no bairro periférico Ana Rosa (antigo bairro da Tabatinga) sendo possível um estudo dos processos da comunicação comunitária. A pergunta central da pesquisa é: quais são as práticas e meios de comunicação comunitária desenvolvidos no quilombo dos Carrapatos da Tabatinga com alcance na sociedade local? A pesquisa bibliográfica inicial sobre os quilombolas da Tabatinga inspirou uma hipótese a ser investigada: a comunidade dos Quilombolas Carrapatos da Tabatinga tem uma comunicação comunitária que contribui para amplificar suas demandas sociais e atuar como cidadãos na sociedade de Bom Despacho. O objetivo geral da pesquisa é analisar como a comunicação comunitária se faz presente na Comunidade dos Quilombolas Carrapatos da Tabatinga localizada na cidade de Bom Despacho, no Estado de Minas Gerais, e os objetivos específicos são: 1. Entender os processos da comunicação comunitária compreendendo as práticas participativas e de gestão existentes na comunidade;. 2. Verificar se utilizam a comunicação como estratégia para ampliar a cidadania;. 3. Verificar se há um trabalho desenvolvido nos meios de comunicação grupais ou midiáticos de alcance comunitário ou local, amplificando as demandas sociais da comunidade;. 4. Estudar as contribuições que a comunicação comunitária pode proporcionar para a comunidade quilombola e para a sociedade local de Bom Despacho;. 5. Verificar a aceitação da Comunidade Quilombola Carrapatos da Tabatinga pela sociedade de Bom Despacho.. Para atender aos objetivos da pesquisa utilizou-se como metodologia na primeira etapa a pesquisa bibliográfica para a construção do marco teórico, na segunda etapa o estudo empírico por meio do estudo etnográfico com apoio de observação participante. E finalmente como técnica complementar de coleta de dados a entrevista semiestruturada..
(15) 15. De acordo com Luna (1998) a pesquisa bibliográfica abrange: publicações avulsas, livros, jornais, revistas, vídeos, internet, etc. Esse levantamento foi importante tanto para os estudos baseados em dados originais, colhidos numa pesquisa de campo, como para aqueles inteiramente baseados em documentos. A pesquisa bibliográfica constituiu em leitura e análise de referências teóricas e no confronto dessas com o material coletado. Para Lakatos e Marconi (2005, p. 185) tal pesquisa “abrange toda a bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo, desde publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias, teses, dissertações, internet [...] rádio, gravações em fitas magnéticas e audiovisuais [...]”. Os estudos empreendidos pelos autores citados nas referências bibliográficas serviram no embasamento para a construção do marco teórico conceitual. No entanto, estaremos sempre em movimento, quando necessário recorremos a outros autores e teorias, no intuito de fazer um recorte da realidade estudada e dar explicações sobre a mesma. Na segunda etapa, visando o desenvolvimento do estudo do tema proposto, utilizouse a metodologia da pesquisa etnográfica, sob os parâmetros do método dialético, com apoio da observação participante no trabalho de campo. Lapassade (1991), diz que a expressão etnografia começou a ser utilizada pelos antropólogos para designarem o trabalho de campo, no decorrer dos quais são recolhidas informações e materiais que servirão de objeto de uma elaboração teórica posterior. Segundo Erick Saperas (1998, p. 163) o interesse da etnografia aplicada à pesquisa de comunicação é formar um modelo de investigação de caráter não contextual destinado a descrever como se produzem os atos de comunicação em distintas situações (apud PERUZZO, 2005, p.135). A metodologia da pesquisa etnográfica possibilitou uma investigação que na descrição dos processos e práticas da comunicação dos quilombolas trouxe característica singular no texto, devido à experiência participativa na comunidade como observadora, conforme diz Oliveira (1996, p. 25), “talvez o que torne o texto etnográfico mais singular, quando o comparamos com outros devotados à teoria social, seja a articulação que ele busca fazer entre o trabalho de campo e a construção do texto”. Ainda, a etnografia “é entendida como um método de pesquisa qualitativa e empírica que apresenta características específicas” (TRAVANCAS, 2006, p. 100). Tais características podem ser resumidas no caso do presente estudo da seguinte forma: a riqueza de detalhes que a ida a campo proporcionou com as visitas à comunidade, a observação dos fenômenos.
(16) 16. comunicacionais da realidade no lugar em que ocorrem, os eventos realizados com a participação da comunidade dos Quilombolas dos Carrapatos da Tabatinga, os rituais nas festas com a participação da comunidade onde se deu a comunicação com a sociedade local, o contato próximo com o objeto de pesquisa e as interpretações e reflexões que puderam ser feitas in loco a respeito dos processos comunicantes da comunidade. Outro fator preponderante é que a presença no local trouxe a observação dos comportamentos que os atores sociais, os quilombolas e a sociedade local, desenvolvem de acordo com as situações e com os contextos em que estão envolvidos. As suas interpretações diante das conversações apareceram em meio às múltiplas vozes e aos significados que atribuem às diferentes situações sociais. Foram analisados os fenômenos comunicacionais levando em consideração a realidade social da comunidade quilombola na atualidade e sua relação com a sociedade local, principalmente em relação à verificação do convívio social, e como se dá essa relação in loco. Utilizou-se a observação participante como um pressuposto da investigação etnográfica para estudar o sistema de gestão da comunicação comunitária dos quilombolas Carrapatos da Tabatinga, e os mecanismos de participação popular nos veículos de comunicação local da cidade de Bom Despacho. Sempre observando o que Cicília Peruzzo (2005, p.136) cita: “Há que se dizer ainda que toda investigação etnográfica pressupõe a observação participante, mas que nem toda observação participante é etnográfica”. Portanto, utilizou-se para apoiar a pesquisa de campo do estudo etnográfico proposto com o foco nas questões acima citadas. A proximidade, por meio da inserção como observadora no ambiente quilombola, auxiliou na interpretação das situações levando em consideração o modo como os próprios integrantes da comunidade vivenciam suas experiências comunicantes. A observação participante - ou investigação etnográfica - realizada com a finalidade de observar comportamentos das pessoas em relação aos meios de comunicação pressupõe a inserção do pesquisador no ambiente investigado (uma família, uma gangue, um grupo profissional, uma comunidade etc.) e em geral, objetiva observar como se processa a recepção das mensagens dos mass media, como elas são entendidas, decodificadas e reelaboradas. Pode também ter a finalidade de observar os processos comunicativos interpessoais, grupais ou comunitários, envolvendo os meios massivos ou outros processos de comunicação, como os grupais, e meios alternativos de comunicação (PERUZZO, 2005, p. 136)..
(17) 17. Observou-se as seguintes situações: a) A gestão e os processos de comunicação interpessoal da comunidade nas reuniões e decisões de participações em atividades culturais e políticas; b) As atividades culturais que a comunidade Carrapatos da Tabatinga produz envolvendo todas as gerações da comunidade, foi observada a participação no Canjerê 1º Festival da Cultura Quilombola do Estado de Minas Gerais em novembro de 2015, em Belo Horizonte, com as demais comunidades quilombolas e indígenas do Estado de Minas Gerais. c) No mês de abril de 2016 foi realizada a festa de São Benedito na cidade de Bom Despacho, e a comunidade quilombola Carrapatos da Tabatinga tem participação ativa com a apresentação do congado realizado pela Guarda Moçambique de São Sebastião pelas ruas da cidade, momento de encontro com a sociedade local. Houve a possibilidade de observar como essa comunicação se deu por meio da manifestação cultural e religiosa; d) Os possíveis espaços da comunidade nos meios de comunicação local, rádio e mídia impressa, e como é realizada esta participação.. A observação participante foi realizada durante seis meses, não foi uma permanência direta, houve participação em determinadas atividades no período de outubro de 2015 a abril de 2016. O tempo foi suficiente para que a investigação em campo fosse realizada sem prejuízos para os objetivos do estudo. De acordo com Cicília Peruzzo, (2005, p.143): Não existe um tempo ideal que possa ser prefixado. Dependerá do tipo de objeto, de quão rápida, ou demoradamente ele se revela ao investigador, das condições em que os mecanismos internos do “objeto” se dão a conhecer ao pesquisador e da capacidade deste em captar suas manifestações explícitas e implícitas. Mas é obvio que o tempo não pode ser curto demais. Poderá ser de meses, um ano ou mais.. O papel de pesquisadora foi desempenhado somente como observadora, não houve participação como membro da comunidade, ou seja, foi revelada para os Quilombolas Carrapatos da Tabatinga. A autonomia foi plena, o grupo ou qualquer elemento do ambiente não interferiu na pesquisa no tocante a formulação dos objetivos e demais fases do projeto,.
(18) 18. nem no tipo de informação registrada e nas interpretações dadas ao que fora observado. Utilizou-se como técnica complementar de coleta de dados a entrevista no formato semiestruturado. Autores como Triviños (1987) e Manzini (1990, 1991, 2003) trazem em suas publicações definições que caracterizam a entrevista semiestruturada. Para Triviños (1987, p. 146) a entrevista semiestruturada tem como característica questionamentos básicos que são apoiados em teorias e hipóteses que se relacionam ao tema da pesquisa, e que o foco principal é colocado pelo investigador-entrevistador. Complementa o autor, afirmando que a entrevista semiestruturada “[...] favorece não só a descrição dos fenômenos sociais, mas também sua explicação e a compreensão de sua totalidade [...]” além de manter a presença consciente e atuante do pesquisador no processo de coleta de informações (TRIVIÑOS, 1987, p. 152). Para Manzini (1990, 1991, 2003, p. 154), a entrevista semiestruturada está focalizada em um assunto sobre o qual confeccionamos um roteiro com perguntas principais, complementadas por outras questões inerentes às circunstâncias momentâneas à entrevista. Para o autor, esse tipo de entrevista pode fazer emergir informações de forma mais livre e as respostas não estão condicionadas a uma padronização de alternativas. Um ponto semelhante para ambos os autores, se refere à necessidade de perguntas básicas e principais para atingir o objetivo da pesquisa. Dessa forma, Manzini (2003) salienta que é possível um planejamento da coleta de informações por meio da elaboração de um roteiro com perguntas que atinjam os objetivos pretendidos. O roteiro serviria, então, além de coletar as informações básicas, como um meio para o pesquisador se organizar para o processo de interação com o informante. Partindo do pressuposto de que uma boa entrevista começa com a formulação de perguntas básicas, que deverão atingir o objetivo de pesquisa, é possível fazer uma análise do roteiro para identificar a sua adequação em termos de linguagem, estrutura e sequência das perguntas no roteiro (MANZINI, 2003). A entrevista semiestruturada foi realizada com um roteiro preparado previamente, com a utilização de perguntas descritivas e aplicadas no trabalho, objetivando atingir com clareza as descrições da comunidade para descobrir os significados dos comportamentos dos seus membros no seu meio cultural, bem como a relação com a sua ancestralidade, território real e simbólico e a sociedade local (TRIVIÑOS, 1987, p. 151). Utilizou-se os dados coletados das entrevistas com os líderes comunitários quilombolas, e com alguns atores da sociedade local de Bom Despacho com o objetivo de entender a relação comunicante:.
(19) 19. a) Interpessoal dos membros da comunidade com sua identidade quilombola e suas demandas sociais; b) Da comunidade com a sociedade local de Bom Despacho, como se dá essa comunicação na percepção dos quilombolas; c) Dos meios de comunicação da cidade com a comunidade quilombola: os jornais locais e a rádio comunitária de Bom Despacho. As líderes da comunidade entrevistadas foram: Sandra Andrade e Dona Tiana. A escolha de Sandra Andrade foi pelo seu envolvimento ativo na liderança não só da comunidade Carrapatos da Tabatinga, a qual faz parte, mas também pelo fato de ser presidente da Federação dos Quilombolas do Estado de Minas Gerais – N´GOLO. Está diretamente envolvida nas políticas públicas relacionadas às demandas sociais dos quilombolas em todas as esferas públicas. Tem participação ativa nos eventos e mobilizações das demais comunidades do Estado e Nacionais, é reconhecida no Planalto Central em Brasília por sua participação ativa nas audiências públicas no Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, Secretária Nacional de Assistência Social, e na Secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. As entrevistas concedidas por Sandra Andrade foram relevantes para a presente pesquisa no tocante ao conhecimento sobre as demandas sociais dos quilombolas, as políticas públicas já realizadas e as não realizadas e o que ainda está em curso. Foi importante para entender como são elaborados os processos comunicacionais entre os membros das comunidades quilombola da Tabatinga, e se há participação nas discussões políticas, bem como eram feitas as divulgações das políticas públicas para a comunidade. Realizei uma entrevista com a líder comunitária Dona Tiana de 83 anos de idade, que tem uma vitalidade ímpar e exerce uma liderança ativa na comunidade. A entrevista foi fundamental para entender os processos comunicacionais entre os membros da comunidade da Tabatinga e com a sociedade local. Foram momentos de muito aprendizado sobre as matrizes africanas, a identidade quilombola e o que ela representa para os negros da comunidade. Relatou a importância de reverenciar e homenagear os ancestrais escravos, pois são símbolos de resistência e luta, e servem para motivar as lutas atuais contra o preconceito e desigualdade social. Explicou a participação nos eventos religiosos e seus significados. As entrevistas com a liderança da comunidade foram realizadas com facilidade, cito os nomes reais das entrevistadas, pois foram autorizados. No decorrer do trabalho de campo.
(20) 20. houve a tentativa de agendar mais uma entrevista com Sandra Andrade, mas devido ao momento político do Brasil no início de 2016, a líder comunitária teve que priorizar a agenda em Brasília e não pode atender à solicitação. As informações foram coletadas por e-mail, assim não houve impacto no desenvolvimento do estudo. Realizei também uma entrevista com a secretária de Cultura do Município de Bom Despacho a Sra. Tânia Maria Teixeira Nakamura, para entender a relação do poder público municipal com a comunidade dos quilombolas, principalmente nas atividades culturais da cidade. A secretária da Cultura do Município de Bom Despacho organiza os eventos na cidade que tem a participação da sociedade local e da comunidade quilombola de Bom Despacho. Não houve dificuldade em realizar a entrevista, a secretária atendeu prontamente a solicitação e autorizou a publicação de seu nome no estudo. A secretária da Cultura relatou a importância da comunidade quilombola da Tabatinga como patrimônio histórico de Bom Despacho e falou sobre as verbas para os eventos culturais. Não foi possível realizar a entrevista com os responsáveis pela rádio Ativa 87,9 FM, dita comunitária, bem como não foi possível se quer confirmar a informação se a rádio era ou não comunitária. Foram realizadas várias tentativas para agendar a entrevista com os responsáveis, entretanto, não retornavam as solicitações. As informações que constam no estudo sobre a participação da comunidade nos meios de comunicação em Bom Despacho foram relatadas em entrevista por Dona Tiana. A entrevista com a rádio Ativa FM 87,9 era significante para o estudo, porque seria uma forma de investigar se há um trabalho nos meios de comunicação grupal ou midiático com alcance comunitário, ampliando as demandas sociais da comunidade quilombola em Bom Despacho. Infelizmente não foi possível ouvir os responsáveis da rádio. Mas o estudo não foi prejudicado, os depoimentos de Dona Tiana em entrevistas foram suficientes para o desenvolvimento da investigação. Não foi possível realizar entrevista com o padre Cristiano Caetano Leal da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário. Foram inúmeras tentativas, mas o Padre Cristiano sempre estava sem horário em sua agenda, ora estava em Belo Horizonte, ora em Bom Despacho em reunião. A versão dos fatos que envolve o Padre Cristiano e a comunidade dos quilombolas Carrapatos da Tabatinga foi descrita no presente estudo mediante informações geradas nas entrevistas com Dona Tiana e a Secretária de Cultura de Bom Despacho Sra. Tânia Maria Teixeira Nakamura. Talvez a pesquisa ficasse mais completa se tivesse o depoimento do padre Cristiano, entretanto a sua falta não prejudicou a conclusão do estudo. Ressalto que o padre poderia detalhar bastante a Festa de Nossa Senhora do Rosário. Foram utilizados os.
(21) 21. depoimentos das entrevistas realizadas com Dona Tiana e Sra. Tania, juntamente com o material documental disponível online para complementar as informações sobre a Festa. A paróquia de Nossa Senhora do Bom Despacho me atendeu prontamente por meio da sua secretária, forneceu material sobre a Festa de São Benedito e até ofereceu um horário com o Padre José Raimundo da Costa, responsável pela realização da festa, mas não houve necessidade de realizar a entrevista, pois o material fornecido e as informações da secretária foram suficientes para o estudo. A única observação da paróquia de Nossa Senhora do Bom Despacho foi dizer que não daria depoimento sobre a questão da festa de Nossa Senhora do Rosário, pois esta era de responsabilidade e administração do Padre Cristiano Caetano Leal. A pesquisa documental complementou os dados coletados nas entrevistas semiestruturadas. Segundo Triviños (1990, p. 51):. A pesquisa documental assemelha-se muito à pesquisa bibliográfica. A diferença essencial entre ambas está na natureza das fontes. Enquanto a pesquisa bibliográfica se utiliza fundamentalmente das contribuições dos diversos autores sobre determinado assunto, a pesquisa documental vale-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetos de pesquisa.. A pesquisa documental foi realizada com materiais coletados em documentações válidas, conforme a definição de Chizzotti (2001, p. 11): “Documentação é toda informação sistemática, comunicada de forma oral, escrita, visual ou gestual, fixada em um suporte material, como fonte durável de comunicação”. Foram coletados materiais disponíveis em fontes como: sites oficiais governamentais, documentários e transcrições orais realizadas em Institutos de pesquisa. Os principais sites oficiais governamentais utilizados na pesquisa documental foram do Governo Federal e Municipal de Bom Despacho: Fundação Cultural Palmares, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, Secretária Nacional de Assistência Social, Secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e Câmara Municipal de Bom Despacho. E uma fonte importante para a pesquisa documental foi a utilização do documentário “A Filha de São Sebastião” realizado pela produtora Caturra Digital Filmes (2013), disponível em versão online no You Tube. O roteiro traz a trajetória da comunidade com depoimentos significativos de Dona Tiana e membros da comunidade, bem como apresenta a festa de São Benedito com detalhe, o documentário foi importante para o estudo. Foram utilizadas outras fontes para a pesquisa documental para atender os demais objetivos de pesquisa, necessárias à medida do.
(22) 22. surgimento de fatos novos. Encontram-se citadas nas notas de rodapé e referências bibliográficas dessa dissertação. O Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Metodista de São Paulo - (CEPMetodista) avaliou o projeto de pesquisa e seus riscos, por envolver seres humanos, e aprovou a metodologia proposta no trabalho, autorizando a realização da presente pesquisa. A escolha do tema e da pesquisa se justifica, pois não há nenhuma dissertação ou tese sobre a comunicação comunitária dos quilombolas Carrapatos da Tabatinga, conforme pesquisa prévia realizada em maio de 2014, portanto o tema é inédito. O estudo da comunicação comunitária talvez deixe um ganho social para a comunidade, uma vez entendida a importância da sua prática e gestão, poderão explicitar suas demandas sociais por meio dos meios de comunicação e possivelmente avançar nas suas reivindicações. Existem mais de 3.000 comunidades quilombolas no Brasil, dado oficial segundo o INCRA, conforme já foi citado anteriormente, com demandas sociais semelhantes aos dos Carrapatos da Tabatinga, que poderão utilizar a presente pesquisa para desenvolver a comunicação comunitária em suas comunidades, e possivelmente, avançar nas suas demandas sociais, ampliando o exercício da cidadania, principalmente o da isegoria que é o direito de falar e ser ouvido. O campo da Comunicação Social tem como um dos objetivos “[...] realizar pesquisas que possam contribuir com a sociedade, especialmente para solucionar graves problemas provenientes das contradições de classe para promover a mudança social” (PERUZZO, 2005, p. 131). E assim me coloquei para a execução desta pesquisa. No primeiro capítulo “Conceitos, teorias e reflexões: sobre comunicação e comunidades” há uma reflexão sobre a compreensão da Comunicação, e propõe um olhar além do modelo sociológico e linguístico que a define como processo transmissor de informação, em favor do entendimento ético-político da comunicação, como conexão ou organização originária do comum, o laço coesivo da comunidade. A communicatio como referência ao diálogo estrutural base para o “agir em comum” nas comunidades e como amplificador da participação cidadã. Propõe a reflexão do resgate filosófico, ético e político da potência reflexiva do campo comunicacional, do qual se produz grandes ideias capazes de reorientar o pensamento social..
(23) 23. São abordadas as teorias clássicas sobre comunidades e seu entendimento na contemporaneidade, pois foram revistas em decorrência do avanço tecnológico e das alterações no modo de vida. Veremos que apesar das alterações, muitos dos princípios desenvolvidos pelos clássicos preservam grande validade até os dias atuais. O capítulo faz reflexão sobre fortalecimento de identidade dos membros das comunidades e sua construção, que podem nascer da intenção em manter o status quo, ou de resistir aos processos dominantes e às efemeridades do mundo globalizado, ou ainda de buscar a transformação da estrutura social. É abordado o espírito de comunidade presente na atualidade nas mobilizações populares, que muito embora tenham sofrido modificações devido a influências das evoluções tecnológicas e do modo de vida moderno, ainda preservam o sentimento de pertença que é um dos identificadores da existência das comunidades, os objetos comuns que são as demandas sociais de um grupo, e o diálogo em prol das discussões para o encaminhamento das decisões coletivas visando o bem comum da comunidade. É apresentada uma breve explanação sobre a comunidade quilombola no Brasil, sua formação e sua continuidade como um símbolo de resistência. Relata como os negros remanescentes quilombolas se organizam atualmente em comunidades, e resistem por meio dos laços comunitários, e lutam pelas suas demandas sociais tão urgentes quanto nos tempos da escravidão e pós-escravidão. Para entender um pouco a formação utilizou-se uma interpretação do início do século sobre a representação dos quilombos no Brasil. Os quilombos no Brasil já foram objetos de dissertações e teses de vários estudos e ainda percebe-se, segundo bibliografia visitada, que devido a um quadro histórico amplo, apresenta várias possibilidades interpretativas do fenômeno. Como o objeto da pesquisa é a comunicação comunitária, o texto trará uma breve explanação com o objetivo de entender como se formaram e permanecem até os dias de hoje. No segundo capítulo “O Empoderamento da comunicação: do Direito garantido à estratégia de ampliação da cidadania por meio da participação popular” é apresentada a comunicação como um direito garantido juridicamente, mas também se faz uma reflexão sobre além do direito legítimo: o do empoderamento da comunicação como instrumento para ampliação da cidadania. É relatada a importância da comunicação comunitária na mobilização popular, que poderá proporcionar maior visibilidade sobre as demandas sociais, e traz também o “fazer comunicação” como possibilidade de educar por meio da produção dos conteúdos comunicacionais. É proposta uma reflexão sobre o “fazer comunicativo” como uma das formas de exercício de cidadania, incentivando a construção de pensamentos críticos. É.
(24) 24. apresentada a comunicação comunitária como possibilidade para a participação popular, possibilitando os membros da comunidade atuarem como: produtores de conteúdo, ouvintes, leitores ou expectadores da própria história comunicada. O terceiro Capítulo “Os Quilombolas Carrapatos da Tabatinga: 300 anos de resistência” apresenta a origem da comunidade quilombola Carrapatos da Tabatinga, suas lutas pelas demandas sociais que vão desde as reivindicações, de Direito já constituídos, mas de Fato não, das terras dos remanescentes quilombolas, perpassando pela desigualdade social abarcada pelo preconceito racial. São relatados os processos comunicacionais estabelecidos entre os membros da comunidade, e suas atividades em eventos culturais e participações em esferas políticas. Há uma descrição sobre as forças comunicantes da comunidade com a sociedade local por meio da devoção a Nossa Senhora do Rosário e a participação na Festa de São Benedito com seu Congado. É realizada uma análise dos meios de comunicação comunitária existentes na cidade de Bom Despacho e como se dá a relação comunicante da comunidade quilombola nas medias existentes..
(25) 25. CAPÍTULO I – CONCEITOS, TEORIAS E REFLEXÕES: SOBRE COMUNICAÇÃO E COMUNIDADE . Nota Introdutória ao capítulo O presente capítulo faz reflexão sobre a compreensão da Comunicação e propõe um. olhar além do modelo sociológico e linguístico que a define como processo transmissor de informação, em favor do entendimento ético-político da comunicação, como conexão ou organização originária do comum, o laço coesivo da comunidade. Abordaremos as teorias clássicas sobre comunidades e seu entendimento na contemporaneidade. Há uma breve explanação sobre os Quilombos no Brasil como um símbolo de resistência, e como os negros remanescentes quilombolas se organizam nos dias de hoje em comunidades. 1 A Comunicação: o “agir em comum” A reflexão sobre a palavra comunicação é necessário porque atualmente, ou melhor, a partir do século XX, atribuiu-se vários significados a ela, desde o ato da fala como troca de informação, até seu uso na venda de objetos e serviços por meio da comunicação publicitária, e muito associada também às mensagens informacionais enviadas através dos dispositivos tecnológicos. O distanciamento do significado original da palavra comunicação pode gerar consequências sociais e acadêmicas relevantes quando há o esvaziamento do sentido maior da palavra. Pode trazer ao significado nominal um empobrecimento no seu valor, e que não seja mais capaz de constituir um saber, um conhecimento ou de provocar transformações sociais como ocorreu nos séculos anteriores. Originariamente, comunicar – “agir em comum” ou “deixar agir o comum” – significa vincular, relacionar, concatenar, organizar ou deixar-se organizar pela dimensão constituinte, intensiva que é viver, se relacionar com o mundo. Os seres humanos enquanto espécie são comunicantes, não porque falam, porque se relacionam ou se organizam em mediações simbólicas, de modo consciente ou inconsciente, em função de um comum partilhado no espaço em que vive seja com o outro ou com as forças naturais. Ressalta-se que esta convivência a partir do século XX foi impregnada com a crescente cultura do consumo e os próprios dicionários embarcados nessa onda, apoiados pelos norte-americanos através da publicidade, começaram a fazer referência a palavra comunicação como mera transmissão de uma “coisa comunicada”..
(26) 26. Como cita Muniz Sodré (2014, p.14): Entende-se assim como o termo comunicação – oriundo do latim communicatio/communicare com o sentido principal de “partilha”, “participar de algo” ou “pôr-se em comum” – pode terminar criando, no século XX, uma realidade própria a partir de sua antiga expansão do sentido de “coisa comunicada” (reforçada no inglês communication) com o concurso das técnicas de transmissão de informação e da publicidade. O foco na interação, que é uma instância inerente à partilha comunicacional, terminou sobrevalendo o significado de transmissão de mensagens.. Este tipo de entendimento é reforçado quando nos deparamos com o avanço da tecnologia da comunicação e da informação, nos EUA e na Europa, é uma tendência os acadêmicos destes países tratarem de referenciar o significado da comunicação como transmissão de signos. O significado “transmissão” em comunicação nos leva para o entendimento de “comunicar uma notícia”, mas o seu entendimento cristalizado na contemporaneidade é provavelmente da potência, até mesmo econômica, da palavra informação, ou seja, o fluxo de dados que trafega de um pólo ao outro. Continuando o fluxo da análise, sim porque foram inúmeras as consequências do distanciamento da origem da palavra comunicação no século XX. Hoje o termo mídia muitas vezes resume a diversidade dos dispositivos tecnológicos de informação. Embora comunicar não seja realmente o mesmo que informar, a pretensão ideológica do sistema midiático é atingir, por meio da informação, o horizonte humano da troca dialógica supostamente contida na comunicação. De fato, embora a ideia original de communicatio nada diga realmente sobre transmissão de informações ou de mensagens, como vimos na citação de Sodré (2014), este significado, determinado até mesmo pelos dicionários de línguas ocidentais, acabou impondose sobre o sentido original transformador da “ação comum”. Vemos também o reflexo na sociologia moderna, os estudos das relações sociais são feitos no vago quadro teórico do par “comunicação/informação”, que é apenas outro nome para a comunicação moderna, dita também “midiatizada”. Assim a comunicação/Informação terminou sustentando noções de cunho civilizatório como “sociedade da informação” ou “era da informação”. No âmbito desses efeitos socialmente valorizados, uma abordagem realista da questão poderia, entretanto, conduzir ao seguinte raciocínio: não importa realmente saber o que é comunicação/informação e sim, conhecer seus usos, sociotécnicas que disso se fazem na vida contemporânea. Neste ponto vem inevitavelmente a seguinte reflexão: se comunicação é a ação comum, precisa haver ação de todos os atores envolvidos, se não.
(27) 27. participo então só replico a comunicação/informação quando faço o uso sóciotécnico? Eis a reflexão. Este é um entendimento aceitável pelo senso comum dos públicos imersos no que se tem chamado de “cultura das mídias” ou no consumo dos dispositivos técnicos continuamente despejados no mercado pela indústria eletrônica, dos quais se aposta de forma otimista. Entretanto, se faz necessário uma redefinição, ou renovação dos mecanismos democráticos do acesso a comunicação/informação, todos concordam sobre a falta de neutralidade da rede, as questões éticas que devem ser observadas na produção e o uso destas informações. Cito a questão da cidadania que vai “além” dos parâmetros econômicos, jurídicos, políticos e sociais. No sentido puro da palavra é escolher/decidir por uma comunicação/informação que visa o comum, não a imposta por um mercado global da financeirização da informação/comunicação. A participação na comunicação é fundamental para o exercício da cidadania, e quando alguns conglomerados detêm grandes bancos de dados despejando e coletando informações, no mínimo é prudente desconfiar das intenções, muitas vezes financistas de circular esta comunicação/informação. Nesse caso, a pergunta “o que é comunicação” não pode ser desprezada, pois é necessário “o certo ponto” de partida para uma orientação existencial frente ao poder da dita comunicação/informação. Não é secundário, portanto, a pergunta sobre o que significa realmente comunicação, ainda mais quando se acompanha Wittgenstein na suposição que toda interrogação de natureza filosófica diz respeito ao significado das palavras: “[...] as palavras da linguagem denominam objetos – frases são ligações de tais denominações” (WITTGENSTEIN, 1999, p. 27). Pode-se citar como algo semelhante que tem registro na história do pensamento Marxiano, quando este no processo de definição dialética do capital distingue o capital em geral de categorias como valor, trabalho, dinheiro, preço, circulação etc. Distingue a determinação, sendo necessário: “[...] fixar a forma determinada na qual o capital é posto num certo ponto” (MARX, 2011, p.37). Este “certo ponto” que devemos sobrevir agora no campo comunicacional, no qual os signos, os discursos, os instrumentos e os dispositivos técnicos são os pressupostos do processo de formação de uma forma nova de socializar, de um novo ecossistema existencial em que a comunicação equivale a um modo geral de organização. Como um mundo de sistemas interligados de produção, circulação e consumo, a nova ordem sociotécnica fixa-se no ponto histórico do aqui e agora, não como índice de um novo modo de produção.
(28) 28. econômico, mas como a continuidade, com dominância financeira e tecnológica, da mercantilização iniciada pelo capitalismo no início da Modernidade ocidental. No necessário rearranjo de pessoas e coisas, a comunicação/informação revela-se como principal forma organizativa. Acentuarei o “revelar-se” porque comunicação significa de fato em sua radicalidade, o fazer organizativo das mediações imprescindíveis ao comum humano, a resolução aproximativa das diferenças pertinentes em formas simbólicas. As coisas, as diferenças aproximam-se como entidades comunicantes porque se encadeiam no vínculo originário estabelecido pelo símbolo. Não entenda símbolo como figura de linguagem, mas como trabalho de relacionar, concatenar ou pôr em formas comuns separadas, ao modo de um equivalente geral, energeticamente investido de valor, ou seja, como originárias mediações simbólicas que se desdobram em economia, parentesco, política e linguagem. As forças vivas desse comum podem ser aprendidas como palavras, gestos, sinais ou acolhidas como informação e suscetíveis de avaliações quantitativas (a informação técnica é uma espécie de moeda corrente), mas a comunicação não se define por elas: a actiocommunis é a dimensão simbólica, condição de possibilidade das trocas vitais, entre as quais naturalmente, o sistema de diferenças e substituições dos signos linguísticos estão presentes e são percebidos e sentidos. Essa movimentação e essa reorganização, acionadas pela velocidade das ondas eletromagnéticas, apontam para o cerne da questão comunicacional. Os fenômenos de trocas discursivas ou de transformações na mídia, habitualmente tratados como marco regulatório do campo comunicacional, apresentam-se como sintomas importantes, mas não como a objetivação científica do problema da comunicação, porque são apenas resultantes sociotécnicas da utilização e replicação de comunicação/informação através dos dispositivos eletrônicos. Sabe-se que os avanços tecnológicos são processos de um caminho sem volta, e penso que seja um consenso seu desenvolvimento, inclusive para facilitar a vida cotidiana. Ela tem um importante papel na questão da melhoria dos equipamentos na área da saúde, uma pena que seja para poucos. Imputar a estas tecnologias características da communicatio é querer substituir as trocas simbólicas que vão além da linguagem, formadas por diferentes experiências de vida somada a convivência com os outros no “pôr-se em comum”, seria abrir mão da capacidade comunicante que somos compostos, para simplesmente reproduzir comunicação/informações..
(29) 29. Muitas vezes recheadas de intenções, no mínimo duvidosas, onde o caráter financista se faz presente na sociedade capitalista que vivemos. Talvez o exercício da cidadania seja prejudicado uma vez que os guardiões destas informações são os grandes “big date” gestados na maioria das vezes por países ricos, que de certa forma continuam ditando o que consumimos de comunicação/informação. A questão tecnológica seria no caso um estudo secundário, o primário seria o estudo do que fora partilhado em comum na comunicação, e o que potencializa reais mudanças sociais, assim como acontecera no decorrer dos séculos passados. Como última reflexão sobre a essência da palavra comunicação, citarei Herbert de Souza, o sociólogo Betinho “o termômetro que mede a democracia numa sociedade é o mesmo que mede a participação dos cidadãos na comunicação” (SOUZA apud GUARESCHI, 2002). 1.1 A Communicatio: o diálogo como laço coesivo da comunidade Com vistas a uma ciência da comunicação humana, um começo estratégico é associar à questão moderna a velha noção de communicatio (do latim ciceroniano) para designar a coesão social sob o ângulo de uma transcendência, que é a do “diálogo” entre os deuses e os homens. Diálogo, não como mero intercâmbio de palavras, mas como ação de fazer ponte entre as diferenças, que concretiza a abertura da existência em todas as suas dimensões e constitui o homem no seu espaço de habitação – portanto, diálogo como categoria ética. A obra de Wilden (2001) relata que na antiguidade o diálogo ritualístico entre mortais e imortais era imprescindível, era a cola do mundo para o elevado: o espiritual, que supostamente uniria corpo e espírito, fundando a sociedade dos homens em termos não imediatamente visíveis, porém essencialmente éticos. Tanto Atenas quanto Roma reservava uma data para as oferendas sacrificiais às divindades, que os romanos denominavam dies communicarius. No contexto medieval, a communicatio era o sistema organizativo das relações entre todos os entes, com Deus – um Deus “comunicativo” – como princípio unificador:. Deus é a fonte de toda comunicação: como no Velho Testamento, a natureza é entendida como um “grande livro”, no qual estão impressos os sinais de Deus, com informações escritas que esperam ser lidas, ou seja, traduzidas em conhecimento. A ordem dos cosmos é percebida como é porque a intercomunicação existente entre todos os seres significa que estes cooperam.
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