1 CARNAVAL: OBJETO E TEORIA
2.2 A festa que ia e a festa que chegava
A ideia de um carnaval popular modificaria o significado da festa da cidade, gerando novas redes de relacionamentos, estáveis em alguns momentos e instáveis em outros, mas sempre em constantes negociações, onde, um grupo não se impõe totalmente ao outro, mas, negocia, impõe ou cede, em busca dos seus interesses próprios e dos da festa. A elite intelectual passa a incentivar o carnaval popular sem, entretanto rejeitar as manifestações culturais mais luxuosas, como os corsos, os bailes, e os desfiles das grandes sociedades. Na Figura 4, o jornal Diário de Notícias de 27 de fevereiro de 1933, apresenta alguns acontecimentos do Grande Carnaval1 destacando os corsos da cidade, que não deixam de existir pelo fato de novos caminhos serem abertos para a folia da capital como os ranchos e blocos. O fato é que a repercussão do carnaval das grandes sociedades vai, aos poucos, perdendo espaço representativo dentro dos jornais do período através do advento das manifestações populares.
1 Diferenciando “Pequeno Carnaval” do “Grande Carnaval”, destaca Renata de Sá Gonçalves (2007, p. 61) a partir da fala de Vagalume: O “Pequeno Carnaval”, diferenciando-se do “Grande Carnaval” das Grandes Sociedades se estabeleceu no começo do século XX. Com a noção de “pequeno carnaval”, o autor buscava diferenciar o carnaval do começo do século XX,
“formado pelas camadas mais baixas da população” – que formavam os cordões, os ranchos, os blocos e, posteriormente, as escolas de samba – do “grande carnaval”, que data da metade do século XIX, representado exclusivamente pelos grandes clubes ou grandes sociedades. Essa diferenciação entre o “grande” e o “pequeno” carnaval seria adotada amplamente já na década de 1930 pela Imprensa e inclusive pela Prefeitura do Rio para o auxílio ao carnaval.
Figura 4. Animação do corso, dos bailes e nas ruas excedeu a toda expectativa. (Diário Carioca, 27 de fevereiro de 1933)
O prestígio das grandes sociedades perante a sociedade vai perdendo força na medida em que a partir do início da década de 1930 passa a enfrentar problemas políticos com o Governo e a consequente falta de apoio financeiro. Como exemplo, o imposto criado pelo município a ser aplicado sobre a entrada cobrada nos eventos fechados das grandes sociedades. Tal situação foi relatada pelo jornal A Noite, de 12 de janeiro de 1931, destacando que o tal imposto poderia ocasionar o desaparecimento das sociedades carnavalescas:
O orçamento municipal estabeleceu um imposto de 75.000 para cada função de sociedade carnavalesca que cobre entrada na porta. Esse imposto constitui sério perigo à existência dessas agremiações, e daí a reunião, ontem efetuada nos salões da S. Amantes das Flores, à Rua do Catete...
Outro jornal, o Diário da Noite, publica matéria em 13 de janeiro de 1931 questionando se o Governo deve ou não dar auxílio os clubes carnavalescos. O Diário Carioca, por sua vez, critica Oswaldo Aranha, Ministro da Justiça e um dos líderes da Revolução de 1930, por não anunciar o fato de conceder ou não a verba para o desfile das sociedades carnavalescas da cidade e, com ironia, pede que o governo se decida e desfira logo o golpe de morte no carnaval carioca:
O Sr. Dr. Oswaldo Aranha, líder, da revolução, chefe do ministério e gestor da pasta da justiça, esta no firme propósito de não auxiliar as Sociedades Carnavalescas, apesar de haver no orçamento a respectiva consignação.
S.ex. tem lá as suas razões e não quer se afastar de seu programa de rigorosíssima parcimônia.
No que, porém, não podemos concordar, é com a “maromba” que se vem fazendo em torno do caso, é com esse eterno “amanhã” das nossas autoridades, quando o caso não admite mais delongas.
Que o Governo resolve dar auxílio e as Sociedades tomam as suas providências iniciando os trabalhos no barracão, “ateliers” de costura, pinturas e adereços ou diz positivamente que não dá nem um real, ficando logo tudo acabado e o povo desenganado e muito grato ao Governo que desfecha o golpe de morte no carnaval – a rica festa popular e de utilidade, porque tem sido o maior veículo da propaganda do Brasil em toda parte do mundo. (Diário Carioca, 18 de janeiro de 1931)
Em matéria do dia 22 de janeiro O Globo questiona se a terça-feira gorda, destinada ao desfile das grandes sociedades, será magra no ano de 1931 devido à falta de apoio do Governo às Grandes Sociedades, ocasionando a não apresentação destas pelas ruas da cidade:
Continua dolorosamente dependurada nos lábios de quantos, nesta gloriosa terra amam o carnaval a pergunta cruel: Será magra a terça-feira gorda?
Martelando no cérebro a perturbar o sono, os maiorais do momo aguardam, aguardam.
Quem poderá responder, por aí, quem poderá negar ou afirmar que o governo dará ou negará auxilio para o carnaval de rua?
A dúvida terrível, má, que não deixa dormir nem sossegar, que vive dependurada nos lábios, não seria melhor a certeza, embora esta se manifestasse na forma cruel, mas positiva, de um
“não”?
Assim, as Sociedades saberiam com quem contar...
Em nota do Diário Carioca do dia 24 de janeiro de 1931 as grandes sociedades – Fenianos, Democráticos e Tenentes do Diabo – avisam que não farão carnaval externo (ou seja, não desfilarão pelas ruas, realizando apenas os bailes em suas sedes) se não receberem auxílio por parte do Governo Federal.
Em artigo no Diário Carioca de 3 de fevereiro do mesmo ano o cronista carnavalesco Vagalume relata que a falta de apoio do Governo às Grandes Sociedades deve estimular a participação dos “artistas nacionais” convidando-os a realizarem uma nova festa carnavalesca.
O ministro da justiça, ao pedido de auxílio feito pelos Democráticos, Fenianos, Tenentes, Pierrôs da Caverna, Congresso dos Fenianos e Andaraí Clube, deu, apenas, o seguinte despacho: Não podem ser atendidos.
O governo não deu dinheiro e os barracões ficarão fechados.
Quer isto dizer que quem faz o carnaval externo, quem paga o pato... É o Zé povinho, com o dinheiro que, sai do tesouro...
Ah! Se eu fosse governo!
- Que farias? Perguntará o leitor.
- Nunca mais daria um níquel sequer às sociedades para o carnaval externo.
- Morreria então o carnaval.
- Estais enganado, leitor amigo. Teria mais vida.
- Como assim?
- Eu chamaria os artistas nacionais Publio Marroig, Ângelo Lazary, Fiúza Guimarães, Raul de Castro, Calixto Cordeiro, Luiz Peixoto, Joaquim Azevedo e outros e contrataria com cada um, um préstito, com tantos carros de críticas, tantas alegorias, guardas de honra, batedores, comissões de frente, bandas de música e de clarins, etc...
- Reviveria o nosso carnaval, acabando-se com a cortesia dos grandes clubes. (Diário Carioca, 3 de fevereiro de 1931)
O crescente prestígio dos grupos populares perante o governo e a intelectualidade ocasiona a dúvida sobre a realização do carnaval e o auxílio às grandes sociedades. A falta de apoio às grandes sociedades por parte do governo de Getúlio Vargas aponta para o interesse da esfera pública em incentivar as manifestações populares no período do carnaval.
Os acontecimentos políticos de 1930 que determinaram o fim da Primeira República (1889-1930) com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder presidencial, depondo o então presidente Washington Luís no dia 24 de outubro de 1930, numa aliança entre as elites do país concentradas na capital, puseram fim ao regime do “café-com-leite” das oligarquias brasileiras e introduziram uma centralização política à nação, incluindo-se a criação de uma identidade coletiva e a valorização da produção cultural nacional.
Aliado a este movimento político estavam os grupos populares da cidade agora valorizados no carnaval e em constantes relações com membros das elites intelectuais do país.
Em visita ao jornal A Noite o bloco “Para o ano sai melhor” faz uma homenagem ao dia em que Washington Luís é deposto por Vargas. O jornal aclama o bloco informando como o mesmo se apresentara na sua redação:
Este bloco carnavalesco, que tem sua sede à Rua Maia Lacerda e do qual é presidente o Sr.
Carlos Martins da Silva, saiu com muita originalidade e graça. Sócios, armados em aeroplanos, iam à gente, abrindo passagem nos espaços, voando. Em seguida, o bloco avançava, entre os cordões de isolamento, cantando numa cadência nostálgica, a cujos sons as baianas ricamente vestidas dançavam as danças características. Outros sócios, agitando aviões prateados, no ar, faziam evoluções. No centro do bloco, em artístico cartaz, lia-se: “Salve, 24 de Outubro”. (A Noite, 18 de fevereiro de 1931)
A forma como se noticia a apresentação do bloco que posteriormente se tornaria uma escola de samba, é muito semelhante aos desfiles das escolas de samba em seus primeiros concursos realizados por jornais, destacando a presença de baianas, suas danças
“características”, os cordões de isolamento e a presença de elementos visuais (como o “cartaz artístico”).
A valorização carnavalesca popular é também traduzida no diálogo entre os grupos populares e as elites. Nesta perspectiva, o bloco “Não posso me amofinar”, por exemplo, faz uma homenagem ao cronista carnavalesco Vagalume por ocasião de seu aniversário, convidando-o para festividades em sua sede provisória, incluindo aí uma macarronada. Sobre o assunto, informa o jornal A Noite:
Prestando justa e carinhosa homenagem ao nosso prezado colega Vagalume, inteligente e espirituoso cronista do “Diário Carioca”, os componentes do bloco Não Posso me Amofinar vão realizar no próximo domingo, em sua sede provisória, festa cujo programa terá numerosas sensacionais.
Entre eles destaca-se bem preparada e “pleonástica” macarronada à italiana, que obedecerá a todos os requisitos da arte culinária.
É que os do Não Posso me Amofinar sabem que o decano dos cronistas carnavalescos conta tempo amanhã, sexta-feira, e não querem deixar passar em branca nuvem o auspicioso acontecimento.
Por isso, radiante, o querido e “sabinático” Vagalume pergunta:
Com que roupa eu vou
Ao samba que você me convidou? (A Noite, 29 de janeiro de 1931)
Note-se que a resposta do cronista Vagalume é reflexo do momento de exaltação do que há de mais popular no momento: “Com que roupa eu vou, ao samba que você me convidou?”, samba de Noel Rosa, burguês, frequentador dos morros cariocas e representante do hibridismo carnavalesco carioca capaz de produzir um novo carnaval, mais popular, com a participação das elites e dos grupos populares.
Além disso, a mentalidade da sociedade carioca com relação aos morros e áreas periféricas mudava rapidamente com a inserção do gênero musical samba ganhando cada vez mais espaço nos discos, como por exemplo, as gravações de Francisco Alves. Os cronistas carnavalescos, a municipalidade e o Turing Clube passariam a direcionar seus intentos para a promoção da festa carnavalesca carioca da década de 1930, com a valorização dos coretos, blocos e ranchos da cidade, numa busca constante de organizar o carnaval popular da cidade do Rio de Janeiro e, assim, exportá-lo para o Brasil e o mundo.