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1 CARNAVAL: OBJETO E TEORIA

2.3 Os ranchos e a busca pelo novo

A valorização do festejo popular na cidade do Rio de Janeiro torna-se marcante nos primeiros anos da década de 1930 com a promoção de divertimentos articulados pela elite intelectual e também pela prefeitura. Neste caminho a prefeitura do Rio de Janeiro faria parceria com o Turing Clube do Brasil e com o Centro de Cronistas Carnavalescos (CCC) para promover, divulgar e exportar a festa carnavalesca popular.

A ideia de construir um novo carnaval para a cidade do Rio de Janeiro possibilitou o crescimento de manifestações carnavalescas outrora sem tanta expressão. O jornal A Noite informa, em 15 de janeiro de 1932, o apoio financeiro dado pelo prefeito Pedro Ernesto às Pequenas Sociedades. Na matéria, ranchos e blocos são contemplados com a verba destinada

à realização dos festejos populares. Verifica-se, entretanto, que os blocos recebem verba inferior à dos ranchos que, por sua vez, recebem verba inferior aos clubes.

O programa de festejos da cidade organizado pelo Turing Club concedeu ao CCC, em 1932, a oportunidade de organizar as festividades de carnaval na Avenida Rio Branco durante um dia, com batalha de confete e serpentinas, “corso dos blocos e automóveis”, coretos montados ao longo da avenida e a participação de bandas militares executando músicas.

(Jornal do Brasil, 15 de janeiro de 1932). Em janeiro de 1932, o mesmo jornal destacava ainda a liberação da verba destinada aos ranchos pela municipalidade, no valor de 35 contos de réis, além dos 115 contos de réis liberados para as cinco sociedades a serem divididos entre Democráticos, Fenianos, Tenentes, Pierrôs da Caverna e Congresso dos Fenianos, ou seja, 23 contos de réis para cada uma em contraste com os três contos de réis que, segundo a nota, caberia a cada rancho (Jornal do Brasil, 12 de janeiro de 1932). Note-se que o Governo Federal não libera verba para as Grandes Sociedades como faz a Prefeitura na nota acima. Um dia depois desta publicação o Jornal do Brasil noticia os acontecimentos carnavalescos que ocorrerão na cidade, dando destaque para aqueles contemplados com o apoio da prefeitura.

São eles, o baile à fantasia no Teatro Municipal e o concurso dos ranchos na praia do Russel, ambos com premiações dadas pela municipalidade. Os ranchos seriam julgados por uma comissão, a fim de receberem os prêmios oferecidos pela prefeitura. (Jornal do Brasil, 13 de janeiro de 1932). Como agradecimento ao apoio financeiro da Prefeitura, auxiliada pela organização carnavalesca promovida pelo Turing Clube, foram feitas homenagens direcionadas ao interventor federal por parte tanto da elite intelectual como das grandes sociedades, como se pode observar no Diário Carioca de 12 de fevereiro do ano de 1933 anunciando dois bailes de máscaras organizados pelo Clube dos Democráticos e Grupo dos Independentes nos dias 18 e 19 daquele mês em homenagem a Pedro Ernesto e seu secretário Amaral Peixoto.

Em matéria publicada no dia 31 de janeiro de 1933 o Diário Carioca informa sobre a realização de uma reunião entre responsáveis do Turing Clube, membros da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e do Departamento de Turismo do Rio de Janeiro com o objetivo de criar uma subcomissão para a realização dos festejos da cidade, incluindo-se os festejos populares. Tão logo as negociações entre os grupos populares e as elites são postas em prática a intervenção da prefeitura também se faz presente, seja com ajuda financeira, seja com o reconhecimento das manifestações populares ou mesmo com regulamentações.

Entretanto, para alguns setores da elite este novo momento experimentado pelo carnaval do Rio de Janeiro, com a oficialização das manifestações populares, não representa o verdadeiro

carnaval da cidade. Este discurso é apresentado pelo Diário Carioca de 7 de fevereiro de 1933:

Há alguns anos um violento sopro de brasilidade passou pela nossa terra, a trazer nos seus braços endemoninhados o vírus das “coisas nossas”: Só se admitia, em arte e em ciência, uma finalidade nacional, um sentimento de pátria, um reflexo do torrão natal. Pularam os poetas verde-amarelos, os pintores de botocudos, os escultores do motivo selvagem.

Passando o vendaval, ficaram os vestígios.

Essa eclosão natural da consciência indígena vem fazendo sentir seus efeitos em todos os domínios de nossa vida de brasileiro. Agora é o carnaval que reconhecido como típico desta raça a que pertencemos, está sofrendo a sua oficialização.

O Sr. Otavio Guinle a frente do Turing Clube, o Sr. Pedro Ernesto, no leme da Prefeitura, o Sr. Herbert Moses na ABI, de parceria com Berílio Neves, o Sr. Faria Castro, comandando o Centro de Iniciativas de Petrópolis, todos expoentes de suas classes, estão agindo com os autênticos “lordes” carnavalescos da Grande Festança.

Era preciso.

O carnaval não pode ser apenas uma festa de rua, com o sabor e os dissabores das festas de rua. Com o insolente que saiu do bar do Palace e aperta distraído as meninas que fazem cordão em frente ao jockey, com o caixeiro de graçolas pesadas, com o crioulo de bodum empesteando a galeria cruzeiro: tem que ser também a festa da aristocracia. O baile do Municipal foi à primeira nota feliz para a elevação do nosso carnaval.

No ano passado, a “suave loucura” teve noites magníficas que a precederam; quem não se lembra da “noite dos sem trabalho”? Do Happy Days?...

Há, aliás, no Rio, esplendidos elementos para um carnaval Grand Monde, homens de fortuna, belos palácios aristocráticos, artistas de gosto e sociedade amável, sequiosa de prazer...

Temos, além disso, certos clubes que se prestariam: Country, Tênis de Petrópolis, Gávea; não existe, entre nós, uma “Volstead Act” para atrapalhar; o nosso turismo embrionário facilita viagens para os forasteiros.

Que mais desejar?

Aliás, para mim, esse carnaval de escol, essa oficialização enfim, seria um excelente motivo de atração turista, para substituir o velho tema de nossa natureza. (Diário Carioca, 7 de fevereiro de 1933)

Mas a busca pela nova festa carnavalesca “popular” não se limitou ao auxílio da municipalidade e do Turing Club. O Centro de Cronistas Carnavalescos (CCC) e os próprios jornais passam a apoiar as manifestações vindas do “povo”. Na formação do carnaval popular carioca a ideia de expor o nacional, o puro, o intocado pelas elites, é representada, inicialmente, pelos ranchos carnavalescos que apresentam o carnaval desejado pela intelectualidade burguesa. A exaltação dos ranchos é grande. Seus desfiles, organizados pelo Jornal do Brasil, ocorrem na Avenida Rio Branco, na segunda-feira gorda, um dia antes dos desfiles das Grandes Sociedades. O advento dos ranchos liga-se à ideia de tradição, dando origem a uma manifestação carnavalesca própria e diferente do Grande Carnaval. O jornal A Noite, de 10 de fevereiro de 1932, destacava os ranchos e seus desfiles na Avenida Rio Branco como espetáculo “invulgar e brilhante”. Informava também que o certame, que outrora já alcançara destaque, excederia, naquele ano, a todas as expectativas. Ainda segundo o jornal, a população acorreu à Avenida Rio Branco, lotando-a de ponta a ponta para ovacionar os que ali se apresentavam2. A participação e aclamação da população carioca,       

2 Os ranchos que desfilaram na Avenida Rio Branco sob a organização do Jornal do Brasil, num evento denominado “Dia dos Ranchos”, foram: Flor do abacate, União faz a força, Lírio clube de Botafogo, Flor da lira de Bangu, Aborrecidos do Realengo, Destemidos da caverna, S. Deixa falar e G.C. Rouxinol (A Noite, 5 de fevereiro de 1932).

interessada nas manifestações culturais “puras”, “populares” e “tradicionais”, aparenta ser a resposta dada à elevação do carnaval popular aliado a busca pelo novo. Segundo a elite intelectual do período, representada, neste caso, por cronistas carnavalescos e jornalistas, as pequenas sociedades dão o maior brilhantismo à festa carioca, devendo, pois, serem assistidas com intensidade pelas esferas públicas.