1 CARNAVAL: OBJETO E TEORIA
2.5 O carnaval híbrido
O governo federal, como já sucedeu o ano passado, não deu auxilio monetário aos clubes carnavalescos. Mas a população carioca não ficará privada do prazer de assistir ao desfile dos préstitos pelas ruas da capital.
É que as diretorias das grandes e pequenas sociedades, numa atitude que muito as dignifica, resolveram fazer carnaval externo, contando, apenas, com os auxílios da Prefeitura, do comércio e da indústria.
Os clubes Democráticos, Tenentes, Fenianos, Pierrôs e Congresso dos Fenianos apresentarão os seus cortejos na terça-feira Gorda. Os ranchos e blocos também sairão, contribuindo, portanto, todos desta forma, para esplendor da nossa grande folia. (A Noite, 14 de janeiro de 1932)
Na citação acima o jornal informa da falta de apoio financeiro aos clubes carnavalescos por parte do Governo Federal, destacando as grandes e pequenas sociedades cariocas como exemplos, na medida em que fazem “carnaval externo”, mesmo não recebendo auxílio do governo de Vargas.
A relação entre estes diversos atores revela seu caráter dinâmico a partir do momento em que as classes sociais interagem entre si, misturando-se, para a formação de um carnaval carioca diferente, como apresenta o Diário Carioca do dia 6 de fevereiro de 1932, que destaca os preparativos para o carnaval daquele ano e identifica alguns grupos que se apresentarão pelas ruas da cidade, entre eles, os ranchos e blocos carnavalescos.
A verba da Prefeitura para as pequenas sociedades é citada, por exemplo, no ano de 1934 pelo jornal O País de 4 de janeiro daquele ano, que informa o valor de 37.500 contos de réis a serem divididos entre os ranchos e blocos onde, cada um dos participantes, receberá um conto e quinhentos. Em outra matéria uma comissão da Prefeitura fora destinada para identificar os grupos aptos a realizarem carnaval externo na cidade para aquele ano.
As notícias acima, tanto de 1932 como de 1934, mostram a prática, tornada comum, do auxílio, por parte da Prefeitura, aos grupos populares que desfilam nos espaços público da
cidade, legitimados e incentivados pela esfera pública juntamente com as formas carnavalescas mais abastadas da cidade. Identifica ainda o interesse dos grupos carnavalescos em receberem subvenção de todas as formas possíveis, seja do Governo Federal, da Prefeitura ou da iniciativa privada, para a organização do carnaval carioca. O hibridismo verificado no carnaval do Rio de Janeiro destes anos iniciais da década de 1930, como propõe Canclini (2008), faz entender as relações sociais complexas revelando seus diversos atores, formando novas identidades, fluidas e mutáveis.
Outra maneira de dar forma ao carnaval popular aconteceria através da criação e promoção dos concursos de marchas e sambas já no ano de 1932, em parceria com setores da elite financeira e intelectual, como teatros, rádios e fábricas de discos. Segundo o jornal A Noite, de 12 de janeiro de 1932, representantes das rádios General Motors e Irmãos Vitale e da fábrica de discos Artofone, em colaboração com Cassio Muniz e Cia, criam o concurso de sambas e marchas, tendo como obrigatoriedade não fazer músicas com teor político nem religioso. Outro concurso, de canções populares, foi organizado pelo Teatro Lírico, com o
“intuito de estimular e premiar as melhores canções do carnaval de 1932”, sendo escolhidos as melhores marchas e os melhores sambas. Para este concurso cada frequentador do teatro teria direito de votar na escolha das melhores canções conforme demonstra o Diário Carioca de 22 de janeiro de 1932.
A participação da população na escolha das melhores canções insere um espaço de articulação entre os grupos de compositores, executantes e promotores do evento com os indivíduos que observam e passam a fazer parte da festa no momento em que podem escolher, a seu gosto e interesse, aquilo que consideram de fato o melhor samba e a melhor marcha.
Nesta conjuntura as relações híbridas entre a elite e os populares se destacam, originando novas formas de samba. O samba desce do morro e vai fazer-se no teatro, sendo, pois, influenciado e influenciando.
No mesmo ano (1932), um produtor de Hollywood, Hal Roach, visita o carnaval do Rio de Janeiro, participando de festas das elites e dos grupos populares, como destaca O Globo:
O Sr. Hal Roach, produtor associado da Metro Goldwyn Mayer, demorou-se no Rio o tempo necessário para ver de perto o carnaval e recolher, “in loco”, os motivos mais interessantes que pudessem ser aproveitados nos seus estúdios de Hollywood.
Hal Roach esteve no baile do Copacabana e no do Alhambra, onde a bailarina Valery apenas com duas ou três lições o ensinou a dançar o samba regularmente.
O cinematografista americano desceu também ao carnaval bem popular, e ouviu os sambas da Praça Onze.
Quis ver o baile do Municipal, mas não conseguiu obter camarote, embora oferecesse por um, nada menos de 100 dólares.
Das suas observações ele colheu motivos, que classifica de inéditos para o resto do mundo, e inspirado neles, fará umas duas comédias com o “Magro” e o “Gordo” ou com Charley Chase.
Esses filmes não serão, é lógico, uma reprodução exata das cenas do carnaval carioca, mas uma adaptação apenas. (O Globo, 12 de fevereiro de 1932)
A participação do produtor estrangeiro reflete os bons resultados do investimento da prefeitura da cidade juntamente com o Turing Clube do Brasil na construção de um novo carnaval carioca, voltado para o popular, capaz de fazer frente, com suas especificidades, aos carnavais de outros países. A elaboração de um novo carnaval, nascido a partir da relação entre os diversos setores da sociedade carioca na busca pela manifestação mais popular, moderna e autêntica é refletida na programação das festividades da cidade, onde há um misto de festas elegantes e festas populares, entrecruzando-se nos espaços da folia carioca, como destaca o Jornal do Brasil ao informar do cronograma dos festejos do Rio de Janeiro organizado pelo Conselho de Turismo da cidade:
As festas carnavalescas, programadas pelo Conselho Consultivo de Turismo da Municipalidade, durante o mês corrente, estão assim determinadas:
Dia 8 (quinta-feira) – Grande batalha de confete nas ruas Marechal Floriano, Avenida Passos e Praça Tiradentes.
Dia 11(sábado) – Baile infantil no Clube de São Cristóvão, seguido do grande “soirée” á fantasia.
Dia 14 (terça-feira) – Grandes festejos carnavalescos no Meier, de um lado e de outro, com baile no rinque lá existente.
Dias 17 e 18 – Grandes batalhas de confete no Bulevar 28 de Setembro, e bailes populares no Andaraí Atlético Clube.
Dia 18 – Chegada do Rei Momo, com o concurso das cinco grandes sociedades carnavalescas, e desfile de um cortejo alegórico conduzindo S. M., e a noite baile dos artistas no teatro João Caetano.
Dia 19 (domingo) – Baile infantil no teatro João Caetano, banho de mar a fantasia em Ramos e “Noite dos Blocos”.
Dia 21 (terça-feira) – Noite dos blocos suburbanos no Meier e festejos externos carnavalescos.
Dia 22 (quarta-feira) – A “Noite das Escolas de Samba”, dirigida pelo C.C.C. na Praça Onze de Junho3.
Dia 23 (quinta-feira) – Baile das atrizes teatrais no teatro João Caetano.
Dia 24 (sexta-feira) – Grandes festas carnavalescas em Madureira e bailes populares na mesma localidade.
Dia 25 – Grande baile no Copacabana Palace.
Dia 27 (segunda-feira de carnaval) – Grande baile de gala no teatro Municipal e “Dia dos Ranchos”, este último, organizado e dirigido pelo “Jornal do Brasil”.
Dia 28 (terça-feira) – Desfile das cinco grandes sociedades.
E aí está um mês de completa vibração em toda a cidade. (Jornal do Brasil, 2 de fevereiro de 1933)
Produzindo festividades carnavalescas por 20 dias os diversos atores da cidade proporcionam à população, e ao exterior, um novo tipo de carnaval carioca, onde é possível participar de festas populares e festas reservadas à elite. A interação entre elite, grupos populares e o desejo cada vez mais forte de valorizar as manifestações populares tidas como
3 Este concurso foi realizado no dia 23 de fevereiro de1933 – quinta-feira, conforme será exposto na parte final do terceiro capítulo.
“puras”, “ingênuas” e “representantes do que há de mais nacional”, aliado ao advento do gênero musical samba, contribuíram para o nascimento das escolas de samba na festa carnavalesca da cidade do Rio de Janeiro a partir do ano de 1932.