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2 ENTRELACES TEÓRICOS

3.3 FICAR, ESTAR, SER E SAIR: VERBOS DA RUA

A população em situação de rua é definida a partir de sua pobreza, da interrupção de vínculos familiares e pela inexistência de moradia regular convencional. Também é caracterizada pela utilização de serviços de acolhimento ou moradia temporária ou provisória, isto é, pela dependência de agentes e instituições.

Mesmo em face da diversidade de motivações de ida à rua e de razões que caracterizam as situações de rua, utiliza-se no âmbito do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome a seguinte definição:

Grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória (BRASIL, 2013, p. 19).

Neste sentido, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (BRASIL, 2009, BRASIL, 2013), três condições são importantes para se fazer conhecer esse grupo populacional, a saber: condição de pobreza extrema, interrupção ou fragilidade dos vínculos familiares e falta de moradia convencional regular. A população em situação de rua tem crescido exponencialmente em todas as cidades, podendo ser notada principalmente em grandes centros urbanos. Trata-se de pessoas que não possuem um teto ou um local fixo para dormir e que estão nas ruas circunstancialmente, temporariamente ou permanentemente (BURSTZYN, 2003). Sobre essa questão, Vieira, Bezerra e Rosa argumentam:

A rua pode te pelo menos dois sentidos: o de se constituir num abrigo para os que, sem recurso, dormem circunstancialmente sob marquises de lojas, viadutos ou bancos de jardim ou pode constituir-se em um modo de vida, para os que já têm na rua o seu habitat e que estabelecem com ela uma complexa rede de relações (VIEIRA, BEZERRA, ROSA, 2004, p. 93).

O crescente empobrecimento e o desemprego a que está submetida grande parcela da população, ou seja, a perda de papéis sociais relacionados à capacidade produtiva que o indivíduo exercia na sociedade capitalista, têm levado o fenômeno a um movimento de ficar, estar e ser da rua, fato que obriga as vítimas a desenvolverem novas estratégias de

sobrevivência em situações de violência e a se adaptarem a referências de vida social bem diferentes daquelas vividas anteriormente (GHIRARDI et al, 2005).

Diante das estratégias desenvolvidas pelos indivíduos que vivem nas ruas, muitos realizam projetos de vida e de sobrevivência que os permitem sua inserção e inclusão no meio social. É importante destacar que os sentidos desses verbos negam a possibilidade de um processo contínuo, posicionado na forma de estágios assegurados pelo tempo na/de rua. Essas condições não são estáveis e refletem o caráter transitório da situação, tematizada pelos processos de subjetividade construídos por aqueles que vivenciam essa condição de vulnerabilidade social.

A discussão que apresentamos sobre os verbos da rua, inicialmente, tem como embasamento o pensamento de Vieira, Bezerra e Rosa (2004), que discutem a natureza das dimensões ficar na rua, estar na rua e ser da rua.

a) Ficar na rua reflete um estado de precariedade de quem, além de estar sem recursos para pagar pensão, não consegue vaga em albergue. Pode ser fruto de desemprego, especialmente na construção civil, quando, junto com o trabalho, se perde a moradia no alojamento da obra. Há também os que, recentes na cidade, não conseguem emprego e não têm para onde ir. Geralmente as pessoas que se encontram nessa situação sentem-se desvalorizadas e demonstram medo de dormir na rua. Buscam rapidamente uma saída através de plantões de serviço social e procuram emprego ou bicos que lhes permitam pagar uma pensão. Rejeitam violentamente a identificação com o morador de rua, procurando distanciar-se dele.

b) Estar na rua expressa a situação daqueles que, desalentados, adotam a rua como local de pernoite e já não a consideram tão ameaçadora. Começam a estabelecer relações com pessoas da rua e conhecer novas alternativas de sobrevivência. Procuram emprego ou fazem bicos. Podem conseguir trabalho em outras cidades ou estados, aliciados por empreiteiros. Quando conseguem obter algum dinheiro, procuram pensões ou vagas em albergues. Começam a frequentar lugares de distribuição de comida gratuita e instituições assistenciais. Tentam se diferenciar dos moradores de rua apresentando-se como trabalhadores desempregados.

c) Ser da rua. Nas situações anteriores é possível alternar a rua com outros lugares de residência e com trabalhos diversos. Pode acontecer até mesmo que o indivíduo saia definitivamente da rua, retorne ao lugar de origem, consiga emprego, constitua família. Este processo torna-se mais difícil à proporção que aumenta o tempo de rua. De forma geral, o indivíduo vai sofrendo um processo de depauperamento físico e mental em função de má alimentação, precárias condições de higiene e pelo uso

constante do álcool. Essa população está também exposta a toda sorte de violências vindas da polícia, dos próprios companheiros e do trânsito. Nessa situação, torna-se extremamente difícil ser aceito em empresas da construção civil ou de trabalho temporário, ainda que, muitas vezes, o indivíduo recorra ao discurso do trabalhador desempregado que perdeu os documentos. Nesse contexto, a rua ganha cada vez mais importância. É o espaço de relações pessoais, de trabalho, de obtenção de recursos de toda sorte. O cotidiano passa a ser pautado por referências como as bocas de rango, instituições assistenciais, determinados lugares da cidade onde se reúnem as pessoas na mesma situação. A rua torna-se espaço de moradia de forma praticamente definitiva, ainda que ocasionalmente possa haver alternância com outros lugares de alojamento, como pensões baratas, albergues, depósitos de papelão e casas de parentes (VIEIRA, BEZERRA, ROSA, 2004, p. 94-95, grifos nossos).

Na intenção de corroborar com a discussão teórica pautada em Vieira, Bezerra e Rosa (2004), fundamentando-nos a partir do que sinalizam os dados empíricos de nossa pesquisa, gostaríamos de acrescentar uma discussão voltada para a dimensão sair da rua, frisando que a rua é literalmente uma avenida que também pode conferir à pessoa em situação de rua a (re)inserção social, fato que exige uma cooperação coletiva e, mais ainda, a capacidade de o indivíduo ser sujeito de si mesmo na configuração de tomadas de atitudes para a mudança de posição social.

Essa posição reclama uma prática de relações sociais individuais e coletivas, ancoradas em atitudes de resistência (FOUCAULT, 1993, 1995, 2004 e 2005), na adoção de uma política emancipatória (GIDDENS, 2002) e gerenciamento de mecanismos de empoderamento (VASCONCELOS, 2003).

Neste sentido, retomando a discussão sobre os verbos da rua, acrescentamos:

d) Sair da rua pressupõe a possibilidade de reinserção social, fato que pode acontecer mediante a capacidade de o indivíduo gerir suas próprias tensões existenciais, estabelecendo vínculos com outras pessoas em torno de um destino comum, laços de solidariedade para a conquista de valores simbólicos e valores cidadãos.

Em síntese, ficar na rua representa uma situação circunstancial. Estar na rua denota uma situação de ocorrência recente, esporádica, provisória. Ser da rua nos remete a um estado de permanência, o que significa que o indivíduo não está exposto apenas à condição de espoliação, passando por carências de vários tipos, representa também a constituição de novos

laços e referências de vida social, diferentes dos anteriores baseados em valores associados ao trabalho, à moradia, às relações familiares.

Na condição de ser, a pessoa em situação de rua pode desenvolver projetos de vida em parceria com outros indivíduos que vivenciam a mesma situação, caminhando, não só em busca da sua sobrevivência diária, mas no sentido de superar as amarras sociais, os fatores que foram determinantes para sua inserção no contexto rua. Para tanto, busca-se, sobretudo, inserir-se nas tomadas de decisões frente às possíveis políticas públicas direcionadas ao fenômeno população em situação de rua.

3.4 O FENÔMENO POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA: SÍNTESE DE SUAS