O filho pródigo encarna-se em si os motivos necessários para a condenação e a perseguição da família e da sociedade. A lei (religião) justifica sua condenação. Sua atitude lhe fez um bode expiatório. A parábola do Pai misericordioso de Lucas (Lc 15, 11-31) nos revela algumas características do Deus de Jesus Cristo que são fundamentais no contexto do nosso estudo. Analisemos a parábola na perspectiva do Pai. A intenção é mostrar como Deus age diante dos pecadores; pessoas merecedoras do castigo público. Elencamos algumas características do Pai.
1) Humildade do Pai: é a primeira característica do Pai. Diante da escolha do filho de pedir a parte da herança que lhe pertence para ir embora, gerenciar sua própria vida numa terra distante, o Pai não faz resistência. A não resistência do Pai não significava aceitação no sentido de estar de acordo com a atitude do filho. A Lei de Moisés prescreve que a punição para um filho desobediente era a lapidação (Dt 21, 18-21). O Pai da parábola não age desta forma, não usa da violência da Lei para vetar a iniciativa do filho, mas deixa-o partir, aceita com humildade a decisão dele. A humildade é a virtude escondida nas profundezas do Deus
de Jesus Cristo; essa humildade deve ser entendida no sentido de saber dar espaço para que o outro exista e exerça a sua liberdade 443;
2) Esperança do Pai: “Quando ainda estava longe o Pai o viu e, comovido, correu ao seu
encontro” (v 20). Deste versículo, podemos deduzir que o Pai fica esperando a volta do filho; o advérbio makrán, do texto grego, que indica distância, há tempo o Pai olhava o horizonte, na esperança que o filho pudesse estar retornando. Dessa postura que a parábola deixa entrever, chamamos a “esperança do Pai”. A esperança é o outro nome que poderia ser dado para a humildade; um projetar-se na direção do outro, desejando que este, numa resposta livre e gratuita de amor, seja ele mesmo. O Pai sabe esperar pelo filho ausente e acredita no seu retorno 444;
3) Amor materno do Pai: A postura do Pai que corre ao encontro do filho chegando (esplanchnísthe) lembra em hebraico rachamim, literalmente quer dizer vísceras maternas: o Pai amou com amor visceral de uma mãe, não em relação ao mérito de sua criatura, mas simplesmente porque seu filho existe. Amor que irradia ternura e gratuidade, amor com o qual ele respeitou, em profundidade, a liberdade do filho e com o qual continua a amá-lo, para além da sua recusa do filho. Deus ama como somente uma mãe sabe fazê-lo. A postura do Pai de correr ao encontro do filho era escandalosa para a mentalidade semítica do tempo, pois o Pai sempre deveria ter uma postura solene e hierárquica 445;
4) Coragem do amor do Pai: aquela de ir ao encontro do filho superando qualquer medo, a coragem do amor maior direcionado para o outro. O Pai supera as distâncias, vence o legalismo da lei e deixa-se mover pelo amor; a sua autoridade está no amor;
5) Alegria: Tudo que faz é expressão de alegria. Roupas novas, calçado, o anel, o novilho gordo, tudo se transforma numa grande festa; o retorno do filho se transforma numa grande festa;
6) Mistério do sofrimento do Pai: Deus é capaz de sofrer por amor à sua criatura. “Este meu
filho estava morto e tornou à vida, estava perdido e foi encontrado” (Lc 15, 32). O primeiro motivo da dor é que o filho “estava morto”, tinha-se destruído a si mesmo. O segundo motivo, “estava perdido” O Pai sofre o sofrimento do amor 446.
443 Cf. FORTE, Bruno. Exercícios Espirituais no Vaticano: seguindo a ti, luz da vida. Petrópolis: Vozes, 2005. p.
42.
444 Ibidem. p. 43. 445 Ibidem. p. 45. 446 Cf. Ibidem. p. 50.
Quem está no centro da parábola é o Pai e não o filho que retorna. Havia duas formas de transmissão da herança: por testamento ou por doação entre vivos. No caso de doação entre vivos, o filho recebia a posse, mas não o direito de dispor, não o gozo de uso, só após a morte do Pai que disporia. O filho pródigo não exige apenas o direito de posse, mas também o direito de dispor. Quer ir embora e gerenciar a própria vida. O filho menor deve ser solteiro; isto possibilita uma conclusão sobre sua idade: a idade normal para o casamento dos homens era de 18 a 20 anos. Resultado: tem que se envolver com animais impuros, não pode santificar o sábado, chega ao limite da humilhação. Então entrou em si, ou seja, converteu-se.
A parábola mostra a misericórdia de Deus. O amor de Deus para com o pecador que precisa achar sua casa de volta é sem limites. A parábola da ovelha perdida (Lc 15, 4-7) segue a mesma linha. O Bom Pastor deixa noventa e nove ovelhas e sai à procura da ovelha perdida. Quando a encontra a coloca nos ombros e a reconduz para o rebanho; E achando-a, alegre a coloca sobre os ombros e, de volta para a casa, convoca os amigos e os vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida! (Lc 15,5-6). A teologia da misericórdia presente nas parábolas do filho pródigo e do bom pastor é muito presente na Igreja primitiva. Nos três primeiros séculos da Igreja, num contexto de perseguição imperial, na entrada das catacumbas estava a imagem do bom pastor. Trata-se de uma teologia espetacular, Deus que sai pelas ruas e estradas atrás do pecador para lhe acolher e lhe reconduzir à comunidade. Os cristãos fazem uma bonita experiência do amor misericordioso do Bom Pastor. Após a conversão do imperador Constantino em 325 e a imposição do catolicismo como religião oficial do Império por Teodósio em 380 há uma deslocamento para a imagem do pantocrator, o Cristo todo poderoso; com isso, passa-se a ressaltar a dimensão do poderio e da soberania divina.
A parábola do filho pródigo mostra que em Deus não há condenação do pecador, mas acolhimento para uma vida nova. Não há violência em Jesus para com os culpados. Entretanto, no “filho mais velho” notamos a dimensão da condenação do pecador, a não aceitação da sua volta. Voltando do trabalho ouve músicas, se informa, fica bravo, decide não entrar em casa. Não perdoa o Pai pelo fato deste ter perdoado o irmão. A mesma misericórdia que o Pai dispensou ao filho mais novo é agora dirigida ao filho mais velho. Vai ao encontro do filho que não queria entrar para a festa, procura convencê-lo, quase que pedindo perdão por seu gesto de amor. Vemos no filho mais velho o comportamento sacrifical que quer condenar o irmão pecador; quer torná-lo um bode expiatório que deve pagar os erros que
cometeu com castigo e condenação 447. O Pai lhe convida a sair da lógica do poder, da riqueza e do moralismo para entrar na lógica da gratuidade e do amor. A parábola do Pai misericordioso revela o rosto do Deus de Jesus Cristo, aquele que não quer sacrifício, mas misericórdia 448.