O primeiro texto que nos chama atenção é o da mulher pega em adultério. Ela apresenta todas as características de um bode expiatório pronto para ser sacrificado pela multidão. Jesus desfaz a multidão perseguidora com sabedoria verdadeiramente divina.
Os escribas e fariseus trazem, então, certa mulher surpreendida em adultério e, colocando-a no meio, dizem-lhe: Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. Tu, porém, que dizes? Eles assim diziam para pô-lo à prova, a fim de terem matéria para acusá- lo. Mas Jesus inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. Como persistissem em interrogá-lo, ergueu-se e lhes disse: Quem dentre vós que não tem pecados, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra! Eles, porém, ouvindo isto, saíram um após o outro, a começar pelos mais velhos. Ele ficou sozinho e a mulher permanecia lá, no meio. Então, erguendo-se, Jesus lhe disse: Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? Disse ela: Ninguém, Senhor. Disse, então, Jesus: Nem eu te condeno. Vai e de agora em diante não peques mais (Jo 8, 3-11).
A lei mosaica prescreve que o adultério seja punido com a morte por apedrejamento 438. A acusação de adultério só se tornava legal quando confirmada por pelo menos duas
437 Cf. BARBÉ, Domingos. Releitura não-violenta da Bíblia. Revista de Cultura Vozes, Petrópolis, vol. 78, n. 8,
pp. 10- 11, 1985.
438 “O homem que cometer adultério com a mulher do seu próximo deverá morrer, tanto ele como a sua
cúmplice” (Lv 20,10). Se um homem for pego em flagrante deitado com uma mulher casada, ambos serão mortos, o homem que se deitou com a mulher e a mulher. Deste modo extirparás o mal de Israel. Se houver uma jovem virgem prometida a um homem, e um homem a encontra na cidade e se deita com ela, trareis ambos à porta da cidade e os apedrejareis até que morram: a jovem por não ter gritado por socorro na cidade, e o homem por ter abusado da mulher do seu próximo” (Dt 22, 22-24).
testemunhas (Dt 19, 15), embora no caso de um marido que suspeitasse da sua esposa, fosse suficiente o seu testemunho. Isto fornecera aos escribas e aos fariseus um motivo para colocar Jesus à prova. Não havia neles pureza de coração, queriam colocá-lo numa cilada, sabiam que Jesus era amigo dos pecadores e dos publicanos, pronto a perdoar. Será que perdoaria também a adúltera, recusando-se aplicar a Lei de Moisés? Buscavam um motivo jurídico para denunciá-lo. Primeiro procurou ignorá-los, escreveu no chão, como se não os ouvisse. Considerava-os por demais maliciosos para responder-lhes. Diante da insistência respondeu envolvendo-os no assunto. Não nega a Lei, mas quer que cada um aplique a si mesmo em primeiro lugar. Todos somos pecadores, necessitados de conversão e de perdão. Refere-se ao Deuteronômio: “A mão das testemunhas será a primeira contra ele, para matá-lo; e depois a
mão de todo o povo, assim eliminarás o mal do meio de ti”(Dt 17, 7). Jesus coloca que as testemunhas devem ser inocentes, deixando entendido que a culpa as desqualificava do direito de lançarem a primeira pedra 439.
Notamos uma cena de grande violência, os fariseus e os escribas trouxeram a mulher praticamente à força perante Jesus. Na realidade, pouco se importavam com o que sucederia com aquela pobre mulher; o que os impulsionava era o ódio que tinha contra Jesus. Após contestá-los voltou a escrever no chão 440. Interessante notar que os mais velhos saíram
primeiro, aqueles que mais entendiam da religião e da Lei. Jesus desaprovou qualquer solução violenta contra a mulher pecadora, aqueles que acusam os pecadores eram eles mesmos, pecadores ainda maiores. Jesus não condenou a mulher apanhada em flagrante adultério. Na opinião dos linchadores, apedrejar aquela mulher pega em adultério significava realizar um grande serviço a Deus. Não conseguiam perceber, que na verdade, o apedrejamento não era a vontade de Deus, mas sim, a projeção da própria agressividade em cima de uma vítima oprimida 441.
A mulher pega em adultério era alvo da violência coletiva, ela era um bode expiatório da sociedade. Jesus acolhendo-a e proibindo que a violência fosse despejada sobre ela,
439 Cf. FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos. Vol. II. São Paulo: Loyola, 1992. p. 362. 440 “É fato historicamente confirmado que, naquele tempo, muitos rabinos proeminentes viviam em adultério”
(Tholuck). Alguns deles, pois, talvez tenham temido que, quando Jesus se levantasse novamente, viesse a apresentar algum testemunho contra eles, que não desejavam que viesse a ser conhecido publicamente; assim sendo, quando Jesus se abaixou pela segunda vez, a fim de escrever no chão, aproveitaram-se da oportunidade dada por sua aparente preocupação para poderem escapar, se eram ou não culpados pelo pecado do adultério, não sabemos; mas não impediu que a consciência de cada um deles os acusasse de alguma maldade igualmente grave, o que, por algum tempo, deixou-os desassossegados na presença de Jesus”. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Lucas, João. Vol. II. São Paulo: Hagnos, 2002. p. 400.
441 Cf. SCHWAGER, Raymund. Must There Be Scapegoats: violence and redemption in the Bible. San
mostrou sua solidariedade para com os perseguidos. Jesus superou toda e qualquer forma de violência contra o próximo, aqui no caso da mulher adúltera, como em outras situações descritas nos Evangelhos. O Filho de Deus assume a causa da vítima condenada unanimemente pela comunidade. Jesus não cede à pressão da violência, como cederam Pedro e Pilatos na paixão, ou como cedeu Herodes no martírio de João Batista. Jesus não hesita em ficar do lado da mulher pecadora, rejeitando veementemente o seu sacrifício em nome da Lei divina do Antigo Testamento. Entretanto, após salvá-la da condenação coletiva, exige dela uma vida nova: “Ninguém te condenou? Disse ela: Ninguém, Senhor. Disse, então, Jesus:
Nem eu te condeno. Vai e de agora em diante não peques mais” (Jo 8, 11).
A análise desta perícope mostra-nos a consistência da tese de René Girard, sobre a solidariedade de Jesus com os bodes expiatórios de seu tempo. Jesus denúncia a violência e jamais a legítima como se fosse a vontade de Deus. A violência é uma realidade humana, resultante da incapacidade humana de lidar com as próprias sombras, essas são projetadas sobre as vítimas pelos perseguidores, que justificam a sua fúria destruidora, alegando estarem cumprindo a vontade de Deus 442.